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Dada a influência de Maurras no pensamento direitista, essa tradução de dois de seus ensaios, compilados num único volume, é uma contribuição significativa para o desenvolvimento do pensamento da Nova Direita, especialmente para os anglófilos. Aqueles que sabem que o francês de Maurras, disseram-me que é “difícil”, e essa tradução de Alexander Jacob é um grande serviço em muitos aspectos.

O termo “direita” (definido frequentemente numa forma inadequada tanto por jornalistas como acadêmicos) foi confundido com o que é mais apropriado no mundo anglófilo chamado Whiggery (apoio aos princípios do British Whig Party nos séculos XVII, XVIII e XIX). Confundir o Whiggery com a direita é como confundir Cabeças Redondos (nome que se deu a oposição parlamentar ao governo do monarca Carlos I na Inglaterra de 1625 até 1649, eram em sua maioria puritanos ingleses revoltados com o abuso do rei, liderados por Oliver Cromwell) com Cavaleiros. O liberalismo, seja de livre mercado ou de variações socialistas, ambos originários da Revolução Francesa, não faz parte de nenhuma tradição direitista. H.J. Wiarda escreve sobre a fragmentação dos “direitos de grupo” pela Revolução Francesa:

“A ênfase no indivíduo e nos direitos individuais se acelerou no Ocidente durante o Iluminismo do século XVIII; no curso da Revolução Francesa que começou em 1789 e, subsequentemente, na maior parte do resto da Europa, os direitos de grupo (da Igreja Católica Romana, guildas e outros grupos) foram extintos. Daí em diante, pelo menos no Ocidente, o indivíduo atomístico governou supremo, enquanto o sistema mais antigo de corporativismo histórico ou natural foi extinto” [1].

Esse retorno aos “direitos de grupo” que haviam sido a base da ordem tradicional tornou-se uma preocupação comum para aqueles de direita e esquerda que buscavam derrubavam a ordem liberal-burguesa que havia aberto o caminho para a plutocracia.

Charles Maurras, um dos primeiros e mais duradouros pensadores da direita francesa, estava entre os mais eruditos franceses, tinha sido eleito para a Academia Francesa em 1938 devido ao seu reconhecimento como autor, poeta e crítico. O polaco-israelense Dr. Zeev Sternhell, um dos mais conhecidos escritores no mundo, afirma que o fascismo surgiu na França antes de surgir na Itália, e foi centrado em torno das doutrinas aparentemente antiéticas do sindicalista revolucionário Georges Sorel e do monarquista Charles Maurras. Esse pensamento tomou forma organizacional no Cercel Proudhon, em homenagem ao filósofo anarquista francês fundado em Dezembro de 1911 e que foi liderado por George Valois, um ex-anarquista maurrasiano, que depois da Primeira Guerra Mundial formou o primeiro partido “fascista” assim denominado na França, e pelo sindicalista revolucionário Edouard Berth. Ambas as facções de esquerda e direita concordaram que a democracia era a pior forma de governo e que permitia a maior exploração. [2] Sorel, por sua vez, já havia publicado na Itália em 1909 seu escrito Las Déroute des mufles, no qual ele elogiava a Action Française, fundada em 1899 por Maurice Pujo e Henri Vaugeois. Maurras tornou-se editor do jornal do movimento de mesmo nome, que alcançou uma circulação influente. Maurras, como a principal influência intelectual no movimento, converteu muitos republicanos em monarquistas.

A resolução da questão de classe era de grande interesse para a direita, enquanto na época havia uma crise intelectual emergindo na esquerda francófona (se entendendo até a Bélgica) com alguns pensadores socialistas rejeitando o materialismo e a luta de classes do marxismo como inadequados para enfrentar o mundo burguês. Valois, Doriot, Déat, e Henri de Man na Bélgica francófona, chegaram ao fascismo pela esquerda junto com uma massa de comunistas e socialistas.

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O que são considerados os aspectos mais radicais e socialistas do fascismo, também estão entre os princípios mais conservadores. Conforme indicado anteriormente por Wiarda, foi à revolução que fraturou a sociedade francesa. A síntese regenerativa nacional-social que foi chamada de “fascismo” em muitos estados buscava restabelecer o estado orgânico pré-revolucionário, que havia sido a norma para o mundo europeu desde a Antiguidade Clássica, e foi bruscamente encerrada, em nome do “povo”, com a supressão das guildas (chamadas de corporações na França, como eram na Roma Antiga) pela Revolução Francesa sob a Lei da Capela de 1791.

Existia uma convergência de interesses entre o proletário, artesão, clero, camponeses e aristocracia, contra a plutocracia, e uniu forças contra o capitalismo, industrialismo e materialismo, muitas vezes sob a inspiração da doutrina social católica. Alguns amigos de Maurras estavam envolvidos nos movimentos de trabalhadores católicos. A reação contra o industrialismo e o materialismo unindo as classes e as linhas do partido vinham ocorrendo desde a época de Marx, e ele foi contundente no Manifesto Comunista, onde ele chama isso de chave na roda da dialética histórica, “reacionarismo”. [3] O legado da revolução burguesa no socialismo moderno continua a ser reconhecido pela esquerda:

“Mas a Revolução Francesa marcou um novo começo. Foi a mais radical das revoluções que substituiu a velha ordem de hierarquia e privilégios fixos por um novo sistema, o sistema de livre comércio, livre empresa, igualdade perante a lei e uma classe dominante baseada nos lucros da economia de mercado. Forneceu o exemplo de como um antigo regime poderia ser completamente derrubado e a sociedade reconstruída em novos princípios, estabeleceu as referências para uma nova política radical e democrática dentro dos limites do capitalismo, e não foi plataforma de lançamento para a política socialista” [4].

O que emergiu não foi uma dialética numa que o capitalismo substitui o feudalismo e o socialismo substitui o capitalismo, culminando no comunismo mundial, mas a plutocracia substituindo a tradição por meio de revoluções, do jacobinismo ao bolchevismo e aqueles hoje patrocinados por Soros e pelo National Endowment for Democracy. Oswald Spengler tinha visto as revoluções populares como um engodo para interesses adquiridos desde a época de Tibério Graco, e também não via os movimentos socialistas e comunistas como outra coisa senão como movimentos que agiam em nome das finanças.

“Os conceitos de liberalismo e socialismo são postos em prática apenas por dinheiro. Foi Equites, o partido do dinheiro, que tomou o movimento popular de Tibério Graco possível; e assim que aquela parte das reformas que eram vantajosas para eles foi legalizada com sucesso, eles se retiraram e o movimento entrou em colapso” [5].

Vinte anos antes de Spengler, Maurras estava defendendo o mesmo ponto sobre o socialismo e a plutocracia nesse ensaio sobre a intelectualidade e em outros lugares. Spengler iria se referir ao “socialismo prussiano” como a verdadeira antítese do capitalismo, com o marxismo como o outro lado impelido pelo mesmo Zeitgeist. Maurras se referiu à alternativa genuína e total da França ao capitalismo como “socialismo eterno” e “socialismo-monarquista”. Valoise, que tratou da questão trabalhista para a Action Française, explicou que o sindicalismo, expresso nacionalmente, no que Maurras chamou de “nacionalismo integral”, era a resposta à decadência liberal e democrática: “… o sindicalismo substitui as massas de indivíduos que o Estado republicano deseja ter sob ele com grupos profissionais pelos quais a monarquia francesa tradicional foi apoiada”. [6] O movimento maurrasiano foi o nexo entre o tradicionalismo e o sindicalismo revolucionário, unindo-se contra as forças da desintegração que foi desencadeado em 1789.

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Como a Revolução Francesa foi um ponto e crise para a Europa, da qual a civilização ocidental não se recuperou nunca, e é provável que a rejeição mais vigorosa do jacobinismo, que permanece a base da democracia liberal, tenha vindo também da França. A França tornou-se agudamente consciente da questão judaica por meio do “Caso Dreyfus”, que se tornou tão intenso que uma guerra civil ameaçou. Herzl, observando os eventos, afirma ter se tornado um sionista ao ver isso como uma evidência de que o antissemitismo era inato ao gentio, mesmo na França onde os judeus haviam sido “emancipados” pelo liberalismo. Dreyfus, um oficial do exército judeu foi acusado de passar segredos militares para a Alemanha e foi levado para uma corte marcial. Ele foi posteriormente absolvido. Muitos, incluindo Maurras, continuaram a considerá-lo culpado. Em particular, eles viram os “Dreyfusardos”, entre os quais a intelectualidade era a mais ávida, como usando a questão para minar o exército, uma das fundações tradicionais da França.

Maurras, ao rejeitar totalmente o espírito, a doutrina e o legado da Revolução Francesa, baseou sua revolta, no que tornava a França francesa: o catolicismo e o monarquismo. Ele defendeu um retorno à monarquia, cujos pretendentes estavam dispostos e eram capazes, quando chamados, de assumir o trono. Ele era sem remorso, intransigentemente contra a democracia, qualquer que seja a aparência, contra os partidos políticos, e viu a monarquia como a única força que é capaz de governar assim das facções.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Charles Maurras apoiou o Estado da França de Vichy, que tentou implantar uma sociedade orgânica. Com seu carisma e popularidade, o velho herói de guerra, o marechal Petain, era provavelmente o mais próximo de um “monarca” de fato, ou líder acima da classe e do partido, quanto poderia ser alcançado. Petain, por sua vez, agradeceu a Maurras por seu apoio, dedicando sua coleção de discursos a Maurras, La Franca Nouvelle, em 1941. Ironicamente, embora Maurras tenha sido acusado de ser um “colaboracionista”, ele não era pró-alemão e via o romantismo alemão como a origem das doutrinas subversivas que destruíram a Europa. Ele também rejeitou o Hitlerismo e em 1934, advertiu a Action Française sobre o Nacional-Socialismo. Entretanto, ele era a favor do Mussolini, e via o fascismo como um “socialismo livre da democracia”. [7] Dado que Maurras via que os franceses como uma síntese de romano e gaulês, sua atitude para com o renascimento do espírito romano sob Mussolini era consistente. Condenado após a guerra como um “colaborador”, desafiante perante o tribunal em sua defesa da França, foi condenado à prisão perpétua, mas foi libertado em 1952 devido a complicações com sua saúde e acabou morrendo pouco depois [8].

O Futuro da Intelligentsia

Esse ensaio foi publicado em 1904 e 1905 e reeditado em 1922. Maurras examina a mudança de papéis da intelectualidade de defensores da tradição, patrocinados pela nobreza, defendendo o gosto culto, para se tornarem subversivos no pagamento do comércio.

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Foi essa mudança de status e propósito, superficialmente proclamada como “liberdade intelectual”, assim fez Ezra Poud, T.S. Eliot e muitos outros [9] rejeitar a democracia como uma plutocracia de fachada, onde as artes foram rebaixadas a fazer parte de um processo de fabricação, atendendo ao gosto popular (também conhecido como mercado de massa, na venda de geladeiras, livros, carros e jornais). Na Grã-Bretanha, Eliot disse que se fosse atraído pelo “fascismo”, seria o tipo enunciado por Maurras, afirmando “a maioria dos conceitos que poderiam ter me atraído no fascismo, vejo já ter encontrado, de uma forma mais digerível, na obra de Charles Maurras…” [10].

A primeira referência notável em “The Future of the Intelligentsia” é a dedicação a René-Marc Ferry, fundador da revista Minerva (1902-1903), que também foi o editor da revista “L’Indépendance” de George Sorel. Direitistas como Maurice Barrès contribuíram para Minerva junto com sindicalistas como George Sorel, [11] indicando a convergência inicial da esquerda sindicalista e da direita monarquista.

A intelectualidade há muito se tornara as prostitutas das finanças. Foram os literatos que prepararam o palco para a Revolução Jacobina, com a ajuda de patrocinadores ricos e salões da França e de outros lugares, tornou-se moda, de maneira como Hollywood é infestado de liberais; onde a banalidade e palavras da moda substituem a filosofia.

Esses “pensadores livres” prostituídos visavam às duas fundações do Estado e da nacionalidade francesa: o catolicismo e a realeza. Não era novo ou exclusivo da França. A Reforma de Henrique VIII resultou na concentração de poder e riqueza nas mãos de oligarcas. A revolta puritana contra o trono em nome da liberdade abriu ainda mais a Inglaterra ao poder do dinheiro, especialmente do tipo estrangeiro. A Revolução Jacobina foi contra a Igreja e o Trono. “Sem dúvida o catolicismo resiste sozinho; é por isso que a Igreja é perturbada, perseguida e amplamente reprimida em todos os cantos”, escreveu Maurras. [12] Esse é um combate entre o “sangue e o dinheiro”. [13] Essa é precisamente a frase usada por Spengler: “O dinheiro é destruído e abolido apenas pelo sangue” [14].

A intelligentsia busca sua liberdade do patrocínio nobre rendendo-se às finanças e àquele elemento do capitalismo que não é restringido por lealdades nacionais. “Eles fingem ser dignos e livres” enquanto estão a serviço do capital. “Eles negam a servidão para colher seus lucros da mesma forma que pressionam por revoluções para sacar seus salários na caixa registradora do Capital.” [15] A intelectualidade deixou de ser a protetora e expoente do gosto nobre, e ficaram descontentes com uma “lista de queixas” [16].

Foram os herdeiros dessa loucura que desencadeou na França um novo reino do terror, sendo cinicamente chamado de liberação; embora Maurras tivesse mais sorte do que Brasillach e milhares de outros franceses. Sobre essa época célebre, a respeitável testemunha americana, Sisley Huddleston, escreveu:

“Escritores, e particularmente jornalistas, que não eram ‘esquerdistas’ foram os mais atingidos. Charles Maurras, um dos principais pensadores da França (com cujos pontos de vista não podem concordar), que passou sua vida fulminando oposição contra os ‘prussianos’ e tinha um ódio mórbido por todas as coisas alemãs.

Ele levou seu jornal Action Française à zona desocupada da França; ele recusou os subsídios da França de Vichy que a maioria dos documentos eram permitidos; ele se recusou a mencionar o nome de Laval, que considerava pró-alemão. Mas ele era um monarquista, antirrepublicano, anticomunista e, apesar de sua grande idade (o ‘prisioneiro mais velho do mundo’, depois do Marechal Phillipe Petain), recebeu uma sentença de prisão perpétua. Henri Béraud, o polemista mais hábil da França, um escritor brilhante que era intensamente antialemão, mas se opunha a Charles de Gaulle, foi condenado à morte e passou algumas semanas a ferro no corredor da morte antes de sua sentença de morte ser comutada. Diz-se, mas não posso garantir que a Inglaterra interveio em seu favor, paradoxalmente, pois Béraud era anti-inglês. Vários membros da Academie Frangaise foram condenados. Robert Brasillach, um jovem poeta, que foi executado por seus escritos, e agora é considerado da mesma forma de Chénier, que caiu na guilhotina na Grande Revolução. Um cientista idoso verdadeiramente notável foi condenado. Alexis Carrel, que deixou seu trabalho bem remunerado nos EUA para compartilhar dos sofrimentos da França, na esperança de aliviá-los, enquanto outros buscavam refúgio no exterior, escondeu-se e morreu de coração partido. “Sobre o destino de muitos homens importantes, de cujo patriotismo não se pode duvidar, um silêncio discreto é mantido” [17].

Como a França chegou nisso? A “elite social e política” havia escolhido a pessoa de Rousseau, “e adorado os sinais de sua vergonha e suas loucuras; imitava-os em todos os pontos”. [18] O círculo dos enciclopedistas havia estabelecido uma “ditadura geral das letras”. “Ela se autodenominava RAZÃO”, escreve Maurras.

Esses letrados, os mais “iluminados” de seu tempo, estabeleceram cultos rivais da “Natureza” e da “Razão” que disputava a lealdade das massas em substituir a Igreja por algo mais “racional”, cada um com o seu hino, liturgia, ritos cívicos e ídolos. As escrituras cristãs foram substituídas pela “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, uma parcela do Manifesto Comunista de Marx, os 14 Pontos de Woodrow Wilson, as declarações do Comintern, a Carta do Atlântico de Roosevelt, a Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas e intermináveis torrentes de outras declarações fúteis da ONU pontificando sobre todos os “direitos humanos” concebíveis, onde o espectro dos filósofos do iluminismo ainda assombra o mundo.

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Maurras diz: “Certamente, todos os nossos infortúnios fluem dessas aparências mentirosas; eles não cessaram de contradizer as necessidades profundas da ordem real” [19].

Napoleão, embora herdeiro do legado jacobino, reuniu a França em uma unidade orgânica, revivendo o realismo e o patriotismo, “opondo-se à ideologia dos homens de letras”. [20] Foi à reação do sangue contra o dinheiro, de um novo “César” contra a plutocracia, em termos spenglerianos, restabelecendo uma dinastia acima da classe e do partido, devolvendo a Igreja ao seu papel, e até permitindo o renascimento de algumas das guildas.

Uma dialética continuou na esteira dos levantes revolucionários em toda Europa, enquanto a literatura jacobina tentava dissolver a nacionalidade no interesse duma humanidade universal, enquanto em todos os lugares as forças da nacionalidade estavam sendo afirmadas; o grito revolucionário era de “pátria” e não de “humanidade”. Na França, os literatos assumiam que continuavam a guerra revolucionária através do Império, embora fossem “o oposto das realidades francesas e estrangeiras”. [21] As convulsões revolucionárias da Europa de meados do século XIX estavam além da compreensão dos “homens das letras” Eles “não entendiam nada do movimento dos trabalhadores”. [22] Narcisistas e adoidados, como seus antepassados Rousseau, Marat, Robespierre, não conseguem entender nada da situação dos outros. Manejar as barricadas do movimento do trabalhador, mesmo que apenas metaforicamente (no presente, em barricadas estritamente virtuais no ciberespaço) dá a esses tipos uma saída para a realização do ego. O caráter da intelligentsia, devorada à plutocracia, é o que Maurras descreveu para a França dos últimos dias do Antigo Regime aos primeiros anos do século XX.

Isso é o que ocorre hoje em todo o mundo ocidental e onde quer que tenha sido infectado em nome sagrado dos direitos humanos. O veneno da intelectualidade contra qualquer resquício de tradição em qualquer lugar do mundo é generosamente subsidiado por George Soros e os patrocinadores do National Endowment for Democracy, a “aristocracia” do dinheiro que substituiu a aristocracia do sangue. O processo é o que o estrategista neoconservador Ralph Peters descreveu abertamente como a missão mundial de destruição cultural americana, empregando a “intelectualidade” de hoje: escritores de roteiros de Hollywood e de sitcom e compositores da MTV [23].

“Não era assim em todas as idades”, afirma Maurras. Ronsard, Malherbe, Corneille e Bosseut [24] defenderam o Estado, Rei, Pátria, Igreja e Família. Isso foi invertido pelo movimento romântico. [25] Pode-se notar aqui que, em reação, Maurras foi um porta-voz do movimento Classicista, que se espalhou para a Grã-Bretanha sob T. E. Hulme, com o objetivo de restabelecer a clareza e a distinção de forma nas artes. Os aderentes incluíram T.S. Eliot, Ezra Pound e Wyndham Lewis. Hulme, de maneira semelhante à de Maurras, condenou Rousseau como um fundador do movimento romântico, Hulme rejeitou a moda da intelectualidade ao atribuir à humanidade uma bondade inata que só havia sido reprimida pelas instituições da civilização. Ao contrário, o homem é redimido apenas pela tradição, disciplina e autoridade. Eliot ensinou o Classicismo num curso de literatura francesa moderna na Universidade de Oxford em 1916, Maurras sendo um assunto em destaque. [26]  Nesse curso Eliot examinou o “realismo e socialismo”, explicando a síntese que estava acontecendo na França [27].

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Com a vitória do dinheiro, o consumo e o marcado tornam-se o nexo social; a velha riqueza desaparece e a nova riqueza se expande até a imensidão. “Precisa aumentar em todos os lados”, e sente-se a compulsão de fazer parte da tendência. Em todos os lugares a simplicidade da vida desaparece, e o consumo se estende muito além dos prazeres da vida, tornando-se um costume, atendido por infinitas possibilidades, terminando em uma “ostentação insolente”. [28] Antes de meados do século XIX havia começado a se formar uma “indústria literária”, onde o sucesso era baseado na renda. [29] A expansão do mercado depende da inconstância do gosto popular, e, portanto, não existe mais uma tradição artística, mas uma série de modismos para os quais a intelectualidade se apega. Mas o escritor e o artista, e o que hoje é chamado de “celebridade”, não importa qual seja sua riqueza, nunca chega perto da riqueza de seus patrocinadores, Maurras comentando que o “financista profissional à frente da sociedade moderna só pode ter pena deles”. [30] Retornos rápidos exigem marketing de massas e as artes são parte desse processo; daí a “mediocridade” nas artes. [31] O escritor ou artista, como funcionário pago, perde sua razão de ser. “Escrever é talvez um ofício, mas nunca uma profissão” [32]. Um precisa ter grande saúde para permanecer livre [33].

Pode se considerar aqui os grandes barões da imprensa, como Beaverbrook, Lord Northcliffe e seu irmão Rothermere, na Grã-Bretanha; e nos EUA e o Coronel McCormack do Chicago Tribune, e o industrialista Henry Ford com o seu jornal The Dearborn Independent. Até mesmo eles sucumbiram a poderes muito maiores. Essas pessoas estavam entre os últimos a ter uma “pátria”. Havia alguns industrialistas na França que apoiavam a direita, que Maurras distinguia do capital internacional que estava substituindo a riqueza nacional. Desde o tempo de Maurras, poucas indústrias sobraram que possuem uma “pátria”. Imprensa, publicação e agora redes de mídia social, filmes, televisão, música, todos chamados de “indústrias”, empregaram a intelectualidade para criar ou promover commodities. Maurras perguntou o que a intelectualidade pensava que sua vocação e deveres eram. [34] Como “servos dos financistas”, a intelligentsia é um “povo cosmopolita”. [35] Cosmopolitanismo se tornou sinônimo de ampla experiência, mentalidade aberta e sofisticada, capaz de se encaixar em qualquer lugar. Do ponto de vista dos financistas, é a capacidade de um funcionário ser desenraizado e movido a qualquer momento, em qualquer lugar como parte do processo de produção. G. Paschal Zachary, um dos intelectuais, escreveu um livro em elogio ao que ele considerava como o próximo passo na evolução humana, o “Global Me”, [36] um indivíduo muito progressista, não ligado a nenhum lugar, tradição ou cultura, diferente do que serve ao dinheiro.

Maurras disse que cabe ao Estado fazer sua própria imprensa, não a imprensa a serviço da pátria, porque é “uma simples empresa industrial”. [37] Naturalmente, quando o Estado faz uma imprensa própria isso é chamado de propaganda, considerado como algo maligno, e suprime a “liberdade” da imprensa industrial cujo compromisso é manter um mercado de massa baseado no denominador mais baixo, de acordo com o caráter da democracia, para bajular ou doutrinar e não informar. Maurras fez com sucesso sua própria imprensa, a Action Française.

Por um Despertar Francês

O segundo ensaio, “Por Um Despertar Francês”, escrito em 1943, define a nacionalidade e ao senso de pertencimento à nação francesa e os processos históricos de sua formação. Maurras pretendia responder à pergunta sobre o que é que os contrarevolucionários querem despertar; qual é o caráter dos franceses e quais são suas origens? “O que, então, é a França?” [38] O francês para Maurras é uma síntese do gaulês e do romano. Maurras não se identificava com os Francos; foram os romanos que serviram para fermentar e temperar os gauleses e torná-los uma nacionalidade. Ele evitou qualquer noção de influência alemã. “Somos galo-romanos”. A raça gaulesa é entusiasta, corajosa e eloquente, arriscada e conquistadora, mística, poética e filosófica [39].

No entanto, o entusiasmo dos gauleses pela vida tendeu a se tornar anárquico e divisivo. Júlio Cesar considerava os melhores combatentes contra os gauleses outros gauleses; “A discórdia de crianças grandes”, como Maurras disse. [40] Havia Estados rivais entre os gauleses. Não havia senso de nacionalidade ou destino que forma um povo e civilização. A ocupação romana, longe de destruir a Gália, fez dele primeiro um gaulês romanizado e depois um francês. Onde antes ele fora apenas o construtor de cabanas redondas de madeira nas bordas das florestas, surgiu uma nova arquitetura de teatros de pedra, templos, igrejas, castelos, palácios e pontes. [41] Os clãs feudais tornaram-se um Estado feudal hierárquico. Maurras descreveu isso como uma transformação gradual por meio de uma “síntese de emoção e inteligência, de consciência iluminada e movimento generoso. Não é o gaulês, é o galo-romano, é o francês que se define pela harmonia dos seus dois grandes elementos”. “Força gaulesa, ordem romana”, era a base do Estado francês. [42] O romano disciplinou o caráter gaulês, dando-lhe ordem e direção.

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O resultado foi um florescimento da cultura. A Igreja Romana se tornou a Igreja Gótica e levantou grande parte do resto da Europa, como fizera com os gauleses, definindo a Europa como uma unidade orgânica e dando forma à civilização ocidental. Os cristãos eram chamados de “Europeus” já tem 732 d. C. ao descrever a Batalha de Poitiers. Hillaire Belloc escreveu sucintamente em 1920 que “A fé é a Europa, e a Europa é a fé” [43] Yockey indicou o mesmo em The Proclamation of London, que a cultura ocidental tinha um Estado, com “uma igreja e religião, o cristianismo gótico, com um Papa autoritário… um estilo universal, gótico… uma língua universal, o latim, e uma lei universal, a romana” [44].

Maurras afirma que a síntese de traços que formou o francês foi auxiliada principalmente pela religião e língua latina. Procurando mais similaridades do que diferenças. Os contrastes foram harmonizados. [45] O caótico gaulês tornou-se o francês que é conhecido por sua ordem e por sua insistência na hierarquia e no método. [46] Isso foi expresso no direito feudal e romano durante grande parte da história da França. Aqui a harmonia de um resultado de um Estado orgânico foi mantida, não apenas com a autoridade final, mas a responsabilidade e o dever finais ascendendo ao rei.

Quando os partidos substituíram a realeza, a França entrou em uma série de convulsões. [47] Maurras as delineia, não concedendo nada de positivo à democracia ou à República. Entre as guerras mundiais, a França entrou “em tal grau de caducidade” que desejou a guerra, então a declarou quando perdeu os meios de travá-la. As páginas finais do ensaio de Maurras são uma defesa do monarquismo, talvez expressa de forma mais convincente nesta passagem:

“Por exemplo, o rei é tão visível que é quase responsável por tudo: na república, uma coletividade que não pode ser responsável por nada, serve de apelido para todos para ninguém, um anonimato inútil e destrutivo” [48] .

Monarquias constitucionais, como a britânica e da Commonwealth, não são melhores que as repúblicas modernas, ambas usam do manto da democracia parlamentar. Os obstinados monarquistas entre os Estados anglófilos de direita como a Grã-Bretanha, Nova Zelândia, Austrália e Canadá, e aqueles em outros Estados da Europa, podem achar muito interessante naquilo que Maurras tem a dizer sobre a defesa do monarquismo como instituição atemporal.

O legado continua

De especial interesse para esse revisor é que a Action Française continua. Além disso, esta é a continuação histórica e legítima do original. O cofundador da Action Française em 1899, Maurice Pujo, restabeleceu o movimento em 1947. A liderança foi assumida por seu filho Pierre até sua morte em 2007. A Action Française está totalmente comprometida com a oposição à República e o jacobinismo, tendo objetivo de restabelecer um Estado orgânico e monarquista e manter o legado de Maurras [49].


Produzido originalmente como introdução pelo Dr. Alexander Jacob London, Artkos Media Ltd, 2016. Tradução para o português por Alerta Nacionalista


Notas

[1] H. J. Wiarda, Corporatism and Comparative Politics: The Other Great “Ism” (Nova Iorque: M. E. Sharp, 1997), p. 17.

[2] Zeev Sternhell, Neither Right Nor Left: Fascist Ideology in France (Princeton University Press, 1996), p. 10.

[3] Karl Marx, The Communist Manifesto (Moscow: Progress Publishers, 1975), p. 41.

[4] Martin Thomas, “In Defence of the French Revolution,” Workers’ Liberty, December 23 2010, http://www.workersliberty.org/story/2010/12/23/defence-french-revolution

[5] Oswald Spengler, The Decline of The West (London: George Allen and Unwin, 1971), vol. II, p. 402.

[6] Quoted by Sternhell, p. 62.

[7] Quoted by Jacob, X.

[8] Jacob, XI.

[9] Bolton, Artists of the Right (San Francisco: Counter-Currents Publishing, 2012).

[10] T. S. Eliot, The Criterion, dezembro de 1928, p. 289.

[11] Maurras, Intelligentsia, p. 1.

[12] Idem, p. 7

[13] Idem

[14] Spengler, The Decline of The West ([1922] Londres: George Allen and Unwin, 1971 ), Vol. II, p. 507.

[15] Maurras, Intelligentsia, p. 8.

[16] Idem, p. 19.

[17] Sisley Huddleston, France: the Tragic Years (New York: Devin-Adair, 1955), p. 306; online: https://archive.org/stream/francethetragicy006833mbp/francethetragicy006833mbp_djvu.txt

[18] Maurras, Intelligentsia, p. 10.

[19] Idem, p. 24

[20] Idem, págs. 24-25

[21] Idem, p. 25

[22] Idem, p. 26

[23] Ralph Peters, “Constant Conflict,” Parameters, U.S. Army War College, Parameters, Summer 1997, págs. 4-14; http://strategicstudiesinstitute.army.mil/pubs/parameters/Articles/97summer/peters.htm

[24] Um Bispo que com notável erudição defendeu os direitos, obrigações e deveres divinos dos reis.

[25] Maurras, Intelligentsia, págs. 32-33.

[26] Bolton, “T. S. Eliot: A Poet in the Wasteland,” in T. Southgate (ed.) Eliot: Thoughts & Perspectives Vol VII (Black Front Press, 2012), pp. 17-22.

[27] Bolton, op. Cit., p. 22.

[28] Maurras, Intelligentsia, 35.

[29] Idem, p. 39

[30] Idem, p. 40

[31] Idem, p. 41

[32] Idem, p. 45

[33] Idem, idem.

[34] Idem, p. 50

[35] Idem, p. 52

[36] G. Paschal Zachary, The Global Me (New South Wales, Australia: Allen and Unwin, 2000).

[37] Maurras, Intelligentsia, p. 52.

[38] Maurras, Awakening, p. 67.

[39] Idem, p. 69.

[40] Idem, p. 70

[41] Idem, p. 74

[42] Idem, p. 75

[43] Belloc, Europe and the Faith ([1920] Londres: Black House Publishing, 2012).

[44] Francis Parker Yockey, The Proclamation of London of the European Liberation Front ([1949] Wermod & Wermod, 2012), p, 9.

[45] Maurras, Awakening, p. 77.

[46] Idem, p. 79.

[47] Idem, p. 86.

[48] Idem, p. 108.

[49] http://www.actionfrancaise.net/craf/

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