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Uma breve introdução a Heidegger

Martin Heidegger, filósofo alemão, um dos principais e fundamentais pensadores do século XX, nasceu em Meßkirch [1] em 1889. Provindo de uma família de pequenos artesãos e fazendeiros e apesar de demonstrar interesse precoce pela teologia, Heidegger ao ser enviado à Universidade de Freiburg encontrou-se na Filosofia e nela seguiu sua carreira e produção intelectual. As mudanças industriais no cenário rural alemão, a fundação do Império Alemão e a crise que a Filosofia passava, quando homens como Hegel elevaram a metafísica a ponto de anunciarem a morte de Deus – e esta veio a ser explodida por Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) –, e os avanços científicos que diluíam a Filosofia em matemática e lógica serviram de pano de fundo para a oposição de Heidegger ao progressismo da ciência e das filosofias do mundo moderno. Conforme Strathern:

[…] até a própria filosofia estava chegando a uma reconciliação com a ciência e a modernidade. Tendia a desviar-se da espiritualidade elevada que ele buscada, na direção de um positivismo realista, o qual procurava eliminar da filosofia todos os sistemas e vestígios da metafísica. Somente verdade como as da experiência, do experimento científico ou da matemática eram aceitáveis. Todas essas podiam ser demonstradas ou provadas. [2]

A fenomenologia era uma resistência a esta tendência, tendo Husserl como seu maior expoente. A leitura das Investigações lógicas de Husserl por Heidegger serviu-lhe de iluminação e revelação. A este ponto, Strathern detalha que, ao retirar o livro da biblioteca da universidade,

Manteve o livro em seu quarto pelos dois anos seguintes. […] Heidegger ficou tão impressionado que o ‘leu muitas e muitas vezes’. Chegou a ficar obcecado pela realidade física do próprio livro: ‘O fascínio que emanava da obra se estendia à aparência externa da estrutura das frases e da página de rosto’. [3]

Diante da Primeira Guerra, com a vinda de Husserl para Freiburg em 1916, Heidegger torna-se seu assistente devido ao conhecimento profundo que possuía da fenomenologia husserliana. A relação entre Husserl e Heidegger tornou-se muito próxima: “O professor logo começou a estimar seu brilhante jovem assistente de modo claramente paternal” [4]. Inicialmente, Heidegger aceitou as análises e ideias de Husserl, mas passou a modificá-las com as próprias elaborações, o que veio a ser o começou de sua originalidade filosófica que muito possuía em dívida para com o método fenomenológico de seu mestre.

A derrota alemã na guerra encerrou as promessas de uma ‘nova era de espírito’ e Heidegger sentiu os efeitos deste desalento geral, inclusive perdendo sua fé em Deus. Distanciava mais sua filosofia das ideias de Husserl, negando o ego transcendental e voltando-se para as experiências singulares dos sujeitos, sem substancializar o pensamento, como uma res cogitans cartesiana: “Sua perspectiva continuava profundamente espiritual: isso sempre fora parte de seu caráter e continuaria a sê-lo indelevelmente” [5]. É deste momento histórico de sua vida que Heidegger parte para a “questão do ser” [6].

Um retrato de Heidegger com uma vara debaixo do braço, grosso casaco e chapéu, provavelmente antes ou após uma de suas famosas caminhadas no inverno, parado na neve em frente a sua casa em Friburgo. Uma captura informal, de momento, com a expressão facial oscilando entre a simpatia e o ceticismo. Fornece um estudo do caráter notável do grande filósofo. Esta fotografia provém do arquivo do filólogo Ernst Zinn (1910-1990), que conhecia Heidegger desde 1929 e manteve contato até a morte do filósofo em 1976. Ele recebeu fotos de outro amigo de Heidegger e do homem que as levou, o estudioso literário e tradutor Wolfgang Schadewaldt (1900-1974), que como decano da Universidade de Freiburg, apoiou a Reitoria de Heidegger em 1933.

No ano de 1923, Heidegger foi nomeado professor adjunto de filosofia na Universidade de Marburg, local que foi testemunha do sucesso de suas aulas. No ano seguinte, percebe que uma de suas alunas destaca-se. Tratava-se da judia Hannah Arendt (1906-1975), jovem que se tornaria sua amante mais tarde, mas por breve período. Em 1927, Heidegger publicou a obra que estabeleceu firmemente seu novo solo filosófico: Sein und Zeit, “Ser e tempo”, que abria com uma dedicatória a seu mestre e pai intelectual, Husserl. É nesta obra que Heidegger apresenta seu retorno à história da filosofia e à ontologia pré-socrática para questionar o ser. Afinal, segundo o próprio Heidegger, a referida questão “[…] não é, na verdade, uma questão qualquer. Foi ela que deu fôlego às pesquisas de Platão e Aristóteles para depois emudecer como questão temática de uma real investigação”. [7]

Em 1928, Heidegger tomou o cargo de seu mestre como professor de filosofia em Freiburg, devido a aposentadoria de Husserl. Nos anos seguintes, após o transcorrer da Grande Depressão, exatamente em abril de 1933, Adolf Hitler e o partido nacional-socialista chegam ao poder depondo todo funcionalismo público de judeus – o que afetou consideravelmente também aos departamentos universitários. No mês seguinte, com a deposição do reitor de Freiburg, Heidegger é eleito como novo reitor.

A polêmica da relação de consonância entre Heidegger e os nazistas [8] dividiu a intelligentsia do século XX. Inflamações odiosas e discursos ad hominem que se conservam até hoje, segunda década do século XXI, preservam uma barreira intelectual que inclusive, prejudica o entendimento aprofundado e amadurecido de suas contribuições à Filosofia – e muito mais gravemente, à Psicologia. Quanto ao caso, a obra póstuma Já só um Deus nos pode ainda salvar [9] de 1966, publicada em 1989, que consiste numa entrevista à revista alemã Der Spiegel em setembro de 1966, esclarece, em primeira mão, pontos cruciais deste “período negro” heideggeriano. Abre-se aqui um parêntese indispensável com o intuito de dissolver tantas falácias, equívocos e envenenamentos que obnubilaram a grandeza, relevância e indiscutível contribuição do pensamento heideggeriano para o mundo contemporâneo. O próprio Heidegger esclarece que antes de ser reitor, jamais participara de quaisquer atividades políticas. Seus projetos de reforma universitária não foram ouvidos, aliás, mal-ouvidos, interpretados como uma politização do saber. Heidegger explicita o problema: “Mas os princípios que movem a calúnia são mais profundos […] a polêmica sobre mim se reacende sempre que houver um pretexto” [10].

Em 1934, Heidegger abandona a reitoria, desiludido. Voltou-se para a poética e estudos sobre a linguagem. Após a derrota política alemã, tornando a residir na cabana em que ele mesmo construiu em Totdberg, retomou suas aulas, e suas obras tornaram-se mundialmente conhecidas por meio da divulgação de Jean-Paul Sartre e Hannah Arendt [11]. Em 1936, Heidegger publicou Hölderlin e a Essência da Poesia e em 1943, Sobre a Essência da Verdade. Aposentou-se em 1952 como professor emérito de Freiburg e relacionou-se com um restrito círculo de amigos e discípulos de seu pensamento. Dentre as muitas de suas obras, destacam-se: Carta sobre o Humanismo de 1949, Introdução à Metafísica de 1953, Cursos e Conferências de 1954, Que É Isto – A Filosofia? de 1956, O Caminho da Linguagem de 1959, Nietzsche de 1961, A Questão do Pensar de 1969 e Heráclito de 1970. Falece em Freiburg-im-Breisgau em maio de 1976.

FENOMENOLOGIA, HERMENÊUTICA E ONTOLOGIA

Heidegger foi, talvez, o filósofo mais célebre de seu século e inaugurador de uma tradição filosófica oposta à análise linguística de Wittgenstein: uma tradição posteriormente denominada existencial, ontológico-hermenêutica ou fenomenológico-existencial que perguntava pela questão fundamental: O que é ser? Qual o sentido do ser? São indagações que, em certa perspectiva abarcam a essência do existir e seu caminho. Heidegger adverte que são questões indissolúveis para o pensamento técnico ou lógico, estritamente racional – trata-se de questões da origem do pensar que se situam em profundidade muito anterior à análise ou à lógica formal. Para a formulação destas perguntas e proporcionar uma atividade de pensamento neste nível, uma forma nova de filosofia seria requerida, inclusive com uma terminologia própria. Esta foi o trabalho que Heidegger viu como o sentido de sua existência [12].

Da mesma forma que Prof. Dichtchekenian anuncia em sua aula magistral A Fenomenologia em Martin Heidegger: A Ontologia [13] sobre o resguardo de uma circularidade de pertencimento entre a ontologia, a existência e a linguagem, anunciam-se neste texto três pontos numa articulação conjunta que, ao serem tratados em suas particularidades, necessariamente referir-se-ão uns aos outros: ontologia, fenomenologia e hermenêutica.

Em Abbagnano, o verbete Hermenêutica refere-se, precisamente, a “qualquer técnica de interpretação” [14]. Interpretação, por sua vez, refere-se em geral, à “[…] possibilidade de referência de um signo ao que ela designa”, ou ainda, a “[…] operação através da qual um sujeito (intérprete) estabelece a referência de um signo ao seu objeto (designado)” [15]. Distanciando-se da tradição aristotélica e das semióticas modernas, Heidegger define a interpretação como a elaboração do projetar da compreensão em formas de abertura. Assim, interpretar, é compreender, mas compreender não é interpretar. A interpretação implica na elaboração de possibilidades projetadas na compreensão. A interpretação só é possível porque o homem existencialmente compreende e pode ou não ter um sentido [16].

Já a Ontologia, conforme Abbagnano pode ser compreendida como uma possibilidade dentre outras de compreensão da Metafísica, entendida primeiramente por Aristóteles como ciência primeira, por fornecer a todas as outras um fundamento comum. A metafísica, portanto, implicaria numa enciclopédia das ciências “[…] um inventário completo e exaustivo de todas as ciências, em suas relações de coordenação e subordinação, nas tarefas e nos limites atribuídos a cada uma, de modo definitivo” [17]. O conceito de metafísica como ontologia, ou Metafísica Ontológica, se apresenta como uma doutrina que estuda as características fundamentais do ser, aquilo que o faz ser e não ser, elaborando-se com Aristóteles e sua Metafísica. Heidegger, seguindo a tradição de Husserl, quanto à ontologia, a entenderá como “[…] a determinação do sentido do ser a partir do ser do ente que faz as perguntas e dá as respostas: o homem” [18].

Heidegger evidencia a ontologia, em seu sentido mais amplo e para além das correntes e tendências filosóficas, como questionamento originário, ou seja, anterior às pesquisas das ciências positivas. A questão do ser é a questão que pergunta pela possibilidade das próprias ontologias que antecedem e fundam todas as ciências. Respectivamente, uma ontologia torna-se possível somente como fenomenologia e, como a ontologia é uma hermenêutica, estes três modos de tratar e desdobrar a dinâmica existencial do homem compartilham, portanto, daquela mesma circularidade hermenêutica.


Notas

[1] Ou Messkirch, é uma cidade alemã que já foi um Grão-ducado do estado histórico de Baden, que existiu de 1806 a 1918.

[2] STRATHERN, P. Heidegger em 90 minutos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. p. 9.

[3] Ibid. p. 9.

[4] Ibid. p. 10.

[5] Ibid. p. 13.

[6] BRITISH BROADCASTING CORPORATION. Martin Heidegger: thinking the unthinkable.  Londres: BBC, 1999.

[7] HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Trad. de Márcia S. C. Schuback. 15. ed. São Paulo: Vozes, 2005. p. 27.

[8] Penso jamais ser excessivo realçar que os términos “nazismo” e “nazista” se resumem a um epíteto pejorativo inventado pelo líder estudantil Konrad Heiden (1901-1966), jornalista, filho de um líder sindical marxista e de mãe judia que escreveu sob o pseudônimo de Klaus Bredow, autor das primeiras biografias sobre Adolf Hitler e de críticas sobre o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães.

[9] HEIDEGGER, Martin. Já só um Deus nos pode ainda salvar. Trad. de Irene Borges Duarte. Covilhã: Lusofia, 2009.

[10] Ibid. p. 14.

[11] BRITISH BROADCASTING CORPORATION. Martin Heidegger: thinking the unthinkable.  Londres: BBC, 1999.

[12] OS PENSADORES. Heidegger. Trad. Ernildo Stein. São Paulo: Nova Cultural, 2000.

[13] Aula ministrada por Nichan Dichtchekenian no curso A Fenomenologia em Martin Heidegger, em São Paulo, em abril de 2013.

[14] ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Trad. de Alfredo Bosi. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 497.

[15] Ibid. p. 590.

[16] HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Trad. de Márcia S. C. Schuback. 15. ed. São Paulo: Vozes, 2005.

[17] ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Trad. de Alfredo Bosi. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 661.

[18] Ibid. p. 666.

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