fbpx

Temos insistido bastante na questão da perda dos ritos de passagem nas sociedades ocidentais modernas, e em sua relação com fenômenos típicos da contemporaneidade: da crise de masculinidade à falência das instituições tradicionais. Somos avessos a qualquer “monocausalismo”, e, assim sendo, não julgamos lícito colocar esta perda como o único fator causal destes fenômenos. Contudo, tornou-se claro para nós que ela figura entre os fatores mais determinantes, não de uma classe reduzida de problemas, mas da própria crise geral destas sociedades. O presente artigo tece considerações sobre o problema — apontando a natureza destes ritos — e apresenta algumas notas sobre como proceder na condição atual marcada por esta falta.

Os ritos de passagem não são mero “cerimonial” — significando por este termo uma mera “encenação” coletiva de valor tão somente “simbólico” e quase “lúdico”. Tal visão advém da miopia moderna. O olhar do homem moderno não consegue apreender as forças mais sutis (tão ou até mais efetivas do que as forças materiais e psíquicas, únicas que consegue apreender, e ainda assim a muito custo) manipuladas e postas em operação nestes ritos, e que são as verdadeiramente efetivas e realmente transformativas. Como tal, ele não enxerga nestes ritos nada além de um “teatro” que dramatiza a passagem humana através dos processos naturais e, quando muito, sociais. Em seu livro “Rei, Guerreiro, Mago e Amante (do qual já extraímos um passagem que nos serviu de texto de um de nossos vídeos, intitulado Colapso dos Ritos de Passagem: Crise de Masculinidade), os psicólogos Robert Moore e David Gillette apontam a Reforma Protestante como promovedora de um ceticismo quanto aos ritos tradicionais, o que teria resultado no descrédito generalizado de sua eficácia: o rito passa a ser entendido como um mero cerimonial de importância “apenas simbólica”, algo portanto não fundamental e necessário, mas dispensável e supérfluo, o que resulta, por sua vez, em seu abandono. Não podemos endossar integralmente a hipótese de Moore e Gillette, apesar de concordarmos em que o contexto histórico da Reforma (do Renascimento e do Humanismo) foi um momento chave. Para nós, as causas são mais profundas e anteriores.

 

Mas, seja qual for a origem deste ceticismo, ele impregnou inclusive a posterior Antropologia, que apesar de seus refinados métodos não consegue ultrapassar os limites da estreita visão profana de mundo. O rito, em tal visão, é uma mera convenção social. Ser humano significa vestir esta segunda pele que é a Cultura (e com isto concordamos), sobrepô-la ao corpo nu e mudo (proto-humano) da animalidade. Os ritos cumprem esta função: eles revestem a existência (ainda animal e proto-humana) de significado, humanizando-a. O problema é que, nesta perspectiva, tudo parece parar por aí. É como se os ritos não tivessem poder eficaz em si mesmos, mas extraíssem sua eficácia da crença coletiva neles; como se, para funcionar, dependessem apenas de “os homens acreditarem neles”; como se, na separação do menino do seio materno e em sua submissão às provas rituais, estivéssemos assistindo apenas à encenação da passagem de um estágio biológico (a infância) a outro (a fase adulta); como se o simbólico-ritualístico percorresse obedientemente os trilhos fixados pela evolução física ontogenética, ratificando-a passivamente; como se todos os esforços da comunidade humana buscassem simplesmente “enfeitar” a existência, “adornar” o transcurso natural de evolução física dos indivíduos; enfim, como se o processo da maturidade transcorresse independentemente deles.

Não. Os ritos não são isto. A transformação que provocam – seu efeito – não é meramente “convencional”. Tratam-se de verdadeiras tecnologias coletivas de transmutação ontológica dos indivíduos. Eles agem com uma precisão, por assim dizer, “cirúrgica” sobre as estruturas psicossomáticas dos indivíduos. Eles não “fingem” ou “encenam” produzir um homem ou uma mulher: produzem de fato um homem ou uma mulher. Produzem realmente um novo ser. Operam, como veremos, um segundo parto para um segundo nascimento.

Nota complementar do autor

[Sobre os Ritos de Passagem] Mulheres precisam deles? A menina precisa do rito para se tornar mulher?

Muitos antropólogos perceberam que os RdP femininos são mais brandos do que os masculinos. Isto não se deve ao suposto fato de que a natureza feminina é mais “frágil”. Isto se deve ao fato de que a mulher, ao vir ao mundo, já se encontra instalada em seu âmbito próprio (o Círculo das Mulheres). Ora, chamamos o RdP de um “segundo parto”; o menino é arrancado da Mulher (do Círculo da Mulher). A menina não precisa ser arrancada deste círculo: ela é apenas “promovida” dentro dele. Os RdP femininos tinham uma função quase meramente ratificadora, de comunicar à comunidade (aos homens) que aquela menina já podia ser desposada (ou estava no processo de sê-lo). Os RdP femininos, ao contrário dos masculinos, não produziam exatamente um *novo ser*, apenas ratificavam (consagravam) uma nova condição psicofísica produzida pelos processos naturais do corpo feminino (lembrando que todo processo “natural”, aos olhos do homem tradicional, é também e principalmente “sobrenatural”, fruto da ação dos deuses). Ou seja, no Mundo Moderno, na ausência dos ritos, as mulheres não são tão prejudicadas quanto os homens; é a senda masculina que se encontra rompida. Os meninos é que não podem mais se tornar homens (plenos, isto é, seres autossuficientes).

Pode-se questionar (até moralmente) o “Feminino” moderno, mas ele não é produto da ausência de RdP femininos. As mulheres continuam apresentando os dois traços que nas sociedades tradicionais são típicos e essenciais da Mulher: maternidade (dir-se-ia hoje minguante) e sensualidade (sexo). Quanto ao primeiro, vale lembrar que ela (a maternidade) pode se expressar por meios outros que não o “gestar” e “dar á luz” concretamente. É o que observamos quando dizemos, por exemplo, que as ideologias (de predominância feminina) nutrem um sentimento “maternal” quanto a “minorias”, por exemplo. O desejo das feministas continua sendo transformar o Estado em um grande Colo-de-Mãe, em cujo coração “todos cabem”, e diante da qual “todos os filhos são iguais”.

O fato é que, na ausência dos ritos, são os homens os mais prejudicados. Esta é a verdadeira “repressão” – a mais grave porque a mais silenciosa. A mentalidade superficial, emocional e estúpida do Feminismo jamais chegará a esta profundidade da questão da desigualdade de poder entre os sexos. Os meninos estão sendo castrados antes de tornarem-se homens. Estão privados daquilo que os investia do Princípio Transcendente da Autossuficiência. Mata-se a semente no menino antes que dele brote um Patriarca.


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches


RECEBA NOSSOS LIVROS EM CASA

[carousel_slide id=’21184′]

By Carlos Alberto Sanches

Sociólogo de formação; Pesquisador de Antropologia, Metapolítica, Metafísica Tradicional e Tradição Perene

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Quer receber nossas notificações?    SIM! Não, obrigado (a)