Werner Scholem e a liderança judaico-comunista alemã contra os nacionalistas

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Werner Scholem foi uma das primeiras pessoas que os nacional-socialistas alemães prenderam depois que assumiram o poder.

Scholem, nascido em em Berlim, à 29 de dezembro de 1895, foi uma figura política germano-judaica que, durante o desastroso período do entre-guerras na Alemanha, chamado de República de Weimar (1919 – 1945), serviu no Reichstag (Parlamento Alemão) e chefiou o Partido Comunista do país.

Irmão mais velho de Gershom Scholem, que como sionista imigrou para a pré-estatal Palestina, onde se tornou um dos intelectuais mais conhecidos do país, Werner Scholem foi uma das primeiras pessoas presas depois que os nacional-socialistas alemães assumiram o poder em 1933, com o líder do NSDAP, Adolf Hitler como chanceler.

Terceiro dos quatro filhos de Arthur Scholem e Betty Hirsch, seu pai era dono de uma gráfica responsável pela emissão de grande parte das gravadoras do país.

Gershom (ou Gerhard) Scholem (1897 – 1982), tornou-se filósofo e historiador judeu-alemão em Israel. Especialista na mística judaica e conhecido como fundador do moderno estudo da cabala, foi o primeiro professor de misticismo judaico na Universidade Hebraica de Jerusalém. Foto: Cortesia do Leo Baeck Institut

Visto como judeu assimilacionista e nacionalista alemão, o pai muitas vezes entrava em conflito com seus filhos politizados, particularmente o revolucionário Werner e o sionista Gerhard (depois Gershom).

Depois de um “namoro juvenil” com o sionismo, como membro da “Jung Juda” (Juventude de Judá), nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, Werner passou para a Juventude Operária Social-Democrata. (Sua correspondência com Gershom mostra que os irmãos debateram a ideologia ao longo da vida e Gershom nunca parou de tentar convencê-lo a estudar hebraico e voltar ao sionismo.)

No parlamento

Um pacifista, Werner Scholem tentou fugir do serviço militar imperial do Kaiser durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918). Ele foi convocado, no entanto, em 1915, e no ano seguinte foi ferido no pé enquanto servia na frente sérvia.

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Em 1917, ele foi preso enquanto assistia a uma manifestação contra a guerra enquanto estava de uniforme, no aniversário do Kaiser Wilhelm, e foi preso por um breve período.

Scholem mudou-se para o Partido Social-Democrata Independente e depois para o Comunista, e começou a trabalhar como jornalista, primeiro para o Halle’sches Volksblatt e depois como editor do jornal comunista Rote Flagge (Bandeira Vermelha).

Werner Scholem (1895-1940). Foto: Reprodução

Werner Scholem em manifestação anti-guerra do Partido Comunista Alemão. Interessante notar o interesse judaico-comunista de frentes como a dos Social-Democratas alemães ou dos Comunistas, não com o intuito de salvar vidas, pois a Alemanha estava com todas as chances de ganhar, mas sim de golpear o poder central do Segundo Reich (Império) de Kaiser Wilhelm Guilherme II. Veja que, após greves, paralisações e convulsões sociais que acabaram com o esforço de guerra alemão, o comunismo cresce vertiginosamente, as Altas Finanças criam o horror do Pacto de Versalhes sob a Alemanha e os próprios socialistas e comunistas assume a então República e nada fazem se não ocupar entre eles (especificamente judeus) os cargos chave do poder, mergulhando a Alemanha numa hiperinflação desastrosa. É nesse contexto que surge contra isso o NSDAP.

Em 1917, ele se casou com Emmy Wiechelt, que era tão diferente dele quanto poderia ser: não-judia, por ser segundo o judaísmo, ilegítima e de uma família da classe trabalhadora. Os dois compartilhavam os mesmos valores políticos, no entanto, e seu relacionamento sofreu muitos testes do judaísmo.

Tendo se juntado aos comunistas em 1920, Scholem foi eleito no ano seguinte para o Landtag (parlamento) prussiano, tornando-se seu membro mais jovem de todos os tempos. Como era de se esperar, dada a desgraça alimentada pela classe judaico-sionista e continuada pela classe judaico-socialista alemã naquela época fatídica de entre-guerras, sempre que ele falava, ele era recebido com protestos anti-judaicos por parte dos nacionalistas prussianos.

Mesmo assim, em 1924, chegou à liderança nacional do partido e foi eleito para o parlamento nacional da República de Weimar, o Reichstag. Assim, de acordo com os historiadores Miriam Zadoff e Noam Zadoff, “há cerca de um ano ele foi uma das figuras mais poderosas do maior partido comunista da Europa fora da União Soviética”.

Mas com a ascensão de Stalin ao poder em Moscou, a supressão dos partidários trotskistas (e seus colaboradores judeus no partido comunista russo) e a mudança ideológica do internacionalismo para o apoio ao “socialismo em um único país”, Scholem perdeu sua âncora no partido.

Moscou é irritada

Em dezembro de 1926, ele foi convocado a Moscou para justificar suas posições ideológicas e retornou a Berlim tendo sido expurgado da liderança do partido. Scholem se mudou para a chamada “ultra-esquerda” do Partido Comunista da Alemanha, mas logo entrou na faculdade de direito, com a intenção de iniciar uma nova carreira.

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Ele havia quase terminado seus estudos na época em que os nacional-socialistas chegaram ao poder, em fevereiro de 1933. No mesmo dia em que o Reichstag foi incendiado, ele foi preso e mantido sob graves acusações de participação no atentado. Esse crime que teve como motivação sabotar a tentativa de apresentação para votação da lei para Superação das Necessidades do Povo e do Reich ou, em alemão, “Gesetz zur Behebung der Not von Volk und Reich”, também conhecidas como “das Ermächtigungsgesetz” de 1933, acabou sendo atribuído ao também comunista, van der Lubbe, e não ao NSDAP, como se tenta fazer pensar até hoje, em fevereiro de 1933, pois o próprio Hitler, convocou mesmo assim, outra sessão do parlamento para ser realizada no Krolloper, um edifício nas do Portão de Brandemburgo.Mesmo depois que as acusações foram retiradas, no entanto, Scholem permaneceu sob custódia, primeiro no campo de Lichtenburg, seguido por Torgau, Dachau e, finalmente, Buchenwald.

Durante a sua prisão, Scholem agiu como um advogado da prisão para muitos dos seus companheiros judeus comunistas de prisão. Há evidências de que sua execução, em 17 de julho de 1940, embora oficialmente registre-se ter sido praticada por um SS, que atirou nele, ostensivamente, enquanto ele estava tentando fugir, foi realmente feito sob a insistência dos prisioneiros stalinistas em Buchenwald, que ainda via Scholem como um inimigo ideológico.

Emmy Wiechelt, que havia escapado com as duas filhas do casal para Londres em 1934, de onde passou os sete anos seguintes trabalhando em vão pela libertação de seu marido, voltou para a Alemanha Ocidental em 1949. Lá, ela trabalhou em uma casa de repouso judaica para idosos em Hanover, onde, em 1968, se converteu ao judaísmo e mudou oficialmente seu nome para Miriam Scholem.

Ela morreu em 14 de junho de 1970.


Referências de pesquisa

David B. Green. This Day in Jewish History1895: A Jew Who Would Thanklessly Head Germany’s Communist Party Is Born: For his patriotic pains, Werner Scholem was one of the first people the Nazis arrested after they took power. Haaretz, Jewish World, 29 dez. 2016. Disponivel em https://www.haaretz.com/jewish/1895-a-jew-who-would-thanklessly-head-germany-s-communist-party-is-born-1.5479290

O Sentinela. Primeiro e único debate parlamentar: Adolf Hitler vs. Otto Wels. História, 21 out. 2018. Disponível em https://www.osentinela.org/andre-marques/adolf-hitler-vs-otto-wels-o-unico-debate-parlamentar-do-fuhrer/

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