Sangue na África Portuguesa: Entendendo o conflito de morte em Moçambique

Nos ajude a espalhar a palavra:

Sobre a atual escalada do conflito no Moçambique, Liesl Louw-Vaudran, pesquisadora do Instituto de Estudos de Segurança afirmou que “é quase sinistro o timing disso. Tivemos uma das maiores descobertas de gás natural e, de repente, você tem uma insurgência. É muito difícil não ver uma ligação entre isso”.

Nos últimos três anos, o norte de Moçambique vive o auge de uma onda de violência que tomou a região quando insurgentes jihadistas passaram a promover assassinatos, decapitações e sequestros de mulheres e crianças em vilarejos na província de Cabo Delgado, coincidentemente rica em rubis e gás natural. Os vídeos se espalharam pela internet e na mídia internacional.

Desde 2007, cerca de 2 mil pessoas foram mortas e mais de 430 mil ficaram desabrigadas no conflito na província de maioria muçulmana. Mas, só nos últimos três dias, mais de 50 pessoas foram decapitadas.

Membros do al-Shabab, que também falam português em alguns vídeos de propaganda, têm se aproveitado da pobreza e do desemprego locais para recrutar jovens em suas fileiras a fim de estabelecer um domínio jihadista, enquanto muitos moradores dali reclamam que ficam alheios ao desenvolvimento econômico em torno das indústrias de gás e rubi.

Jihadistas bem armados e equipados

Como confirma o bispo católico de Pemba, Luiz Fernando Lisboa para a BBC, os jihadistas estão incrivelmente bem equipados. Eles “têm fuzis e veículos, se movem com facilidade e podem atacar em campo aberto. E usam uniformes de soldados, o que fazem com que as pessoas fiquem muito confusas e com muito medo”.

A maioria carrega fuzis automáticos e usa roupas que parecem uniformes do Exército moçambicano.

A área mais importante onde atuam no controle é o porto estratégico de Mocímboa da Praia, brevemente tomada por militantes em março. Dois dias depois, eles tomaram outra cidade importante, Quissanga.

Esses jihadistas são o grupo al-Shabab, ligado ao Estado Islâmico.

Al-Shabab, facção local braço do Estado Islâmico no Moçambique e parte de uma agenda jihadista na África que estende para todo o mundo

O o al-Shabab (A Juventude, em árabe), apesar do mesmo nome, não tem ligações – conhecidas – com o grupo al-Shabab na Somália, braço da Al-Qaeda. Nos últimos dois anos, o grupo jihadista moçambicano operou nas sombras, atacando vilarejos remotos em toda a província, fazendo emboscadas contra patrulhas do Exército em estradas isoladas e espalhando terror em comunidades rurais, forçando quase 200 mil pessoas a fugirem de suas casas.

Em 2019, o grupo jurou publicamente lealdade ao Estado Islâmico. Desde então, os ataques militares em maior escala mostram p aumento de suas operações em larga escala. Mas quase nada se sabe sobre seus objetivos, líderes e reivindicações.

 

Por sua vez, o Estado Islâmico reivindicou a responsabilidade por uma série de ataques recentes em Moçambique, promovendo seu nome com os jihadistas locais como parte de uma operação de “franquia” de facções com a qual expandiu sua presença em várias partes de África.

A ofensiva em Cabo Delgado torna-se com isso parte do jihadismo global, ganhando força entre os militantes do al-Shabab moçambicano. Claramente, a ligação entre os dois grupos oferece vantagens para ambos os lados.

O avanço da insurgência jihadista em Moçambique se assemelha ao do Boko Haram no norte da Nigéria. Grupos marginais que exploram mazelas sociais locais, aterrorizam comunidades e oferecem um caminho alternativo para jovens desempregados e frustrados com um Estado controlado por autoridades corruptas e negligentes.

Governo, que antes negava os fatos, agora contrata mercenários estrangeiros para tentar conter os insurgentes

No início, o governo moçambicano tentou minimizar a insurgência, classificando os militantes como criminosos e bloqueando o acesso de jornalistas e ativistas à região. Mas conforme o al-Shabab foi ganhando território e aumentando seu poder de fogo, agora a narrativa é outra.

O governo do Moçambique, além de admitir que existe uma insurgência jihadista, passou a contratar empresas de segurança estrangeiras — supostamente da Rússia, dos Estados Unidos e da África do Sul — para ajudar o Exército a destruir a rebelião.

 

Mas a ofensiva não tem obtido sucesso em retomar o controle da região e na prática apenas o massacre com as populações locais aumentou. Agora, além dos vilarejos locais, também se fala de um risco duma escalada do conflito se espalhando para a Tanzânia (país vizinho) e talvez mesmo a África do Sul.

Talvez esse desespero do fraco e corrupto governo local se dê pelo que  empresas estrangeiras do setor de gás —investidoras de bilhões nos campos de gás off-shore descobertos na costa de Cabo Delgado — estão reduzindo suas operações, tanto por causa do crescente conflito quanto por causa da queda dos preços da commodity.

Contexto histórico e geográfico

Moçambique é país do sudeste africano, costeado pelo Oceano Índico no leste e fronteiriço com a Tanzânia ao norte; Malawi e Zâmbia a noroeste; Zimbábue a oeste e África do Sul no sudoeste. Com uma população de cerca de 30 milhões de pessoas, a única língua oficial é o português, que também é segunda língua de metade da população. A maior religião é o cristianismo (católicos, 27%, cristãos sionistas, 16%, e evangélicos, 15%), seguido do islamismo (19%).

Na política externa o país é membro da União Africana, da Commonwealth Britânica, da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), da União Latina, da Organização da Conferência Islâmica, da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral e a Organização Internacional da Francofonia.

Na economia, a maior riqueza material de Moçambique está em seu solo abundante em pedras preciosas e gás natural. O setor de serviços representa mais da metade do PIB (soma de todas as riquezas produzidas) do país, com 57% do total, seguido da agricultura (24%) e da indústria (19%). 37% da população vive em área urbana, grande parte na capital, Maputo, antiga Lourenço Marques, durante o domínio português. Entre os parceiros comerciais, a África do Sul é o principal, seguidos de Portugal, Brasil, Espanha e Bélgica.

Apesar da taxa média do PIB anual moçambicano ser uma das que mais cresce, o contraste chocante está que a per capita, IDH, índice de Gini e expectativa de vida (menos de 60 anos) estão entre as piores do planeta! A Organização das Nações Unidas (ONU) considera Moçambique um dos países menos desenvolvidos do mundo. 24 milhões, quase toda a população, vive abaixo da linha da pobreza.

Historicamente um território banto, recebeu colonização de suaílis, árabes e, a partir do século XV-XVI tornou-se parte do Império Ultramar Português no contexto das Grandes Navegações quando o navegador Vasco da Gama subia para a Índia.

Apesar da criação dos “Prazos da Coroa” (equivalente no Brasil das sesmaria) controlados por portugueses para administrar a região – sendo a primeira implementação político-administrativa do país para obter o monopólio do comércio de escravos e do ouro -, por conta da miscigenação com os habitantes locais, acabaram por se tornar centros luso-africanos defendidos por grandes exércitos de escravos (cundas). Muitos desses escravos moçambicanos eram fornecidos por chefes tribais que invadiam tribos guerreiras vizinhas e vendiam seus cativos para os prazeiros, pois embora a influência portuguesa tenha se expandido, seu poder era limitado e exercido por colonos individuais que governavam quase que de forma autônoma.

 

Mesmo poucos, os portugueses, apoiados com luso-africanos, tomaram boa parte do comércio árabe. Mas com a perca do Forte Jesus de Mombaça (no atual Quênia) na mão do árabes em 1698, quando seu poderio começou a declinar. O investimento português passou a se dedicar ao comércio mais rentável com seus outros territórios e colonizações mais vastas, como o Brasil, Índia, etc. Com isso, tribos árabes do atual Omã recuperaram partes do comércio ao norte de Moçambique. Poucos prazos sobreviveram até século XIX. Há essa altura, britânicos da Companhia Britânica da África do Sul e franceses em Madagáscar, tornaram-se cada vez mais envolvidas no comércio e política da região da África Oriental Portuguesa.

No início do século XX, os portugueses mudaram a administração de grande parte de Moçambique para grandes empresas privadas — como a Companhia de Moçambique, a Companhia da Zambézia e a Companhia do Niassa — controladas e financiadas principalmente por britânicos, sendo pouco renovadas em seus contratos depois da Segunda Guerra Mundial durante o governo de Salazar.

No pós Segunda Guerra Mundial, o contexto da efervescência ideológica comunista, da Guerra Fria e o enfraquecimento das metrópoles europeias, culminou nos movimentos separatistas africanos. Moçambique tornou-se independente em 1975 após intensas guerras de independência nos anos 1960, transformando-se na República Popular de Moçambique. Após apenas dois anos de independência, o país mergulhou em uma guerra civil sangrenta pelo poder que durou de 1977 a 1992. Em 1994, o país realizou as primeiras eleições multipartidárias e manteve-se como uma república presidencial relativamente estável em se manter no poder.

 

Apesar disso, desde o fim da guerra, os governos que assumiram o lugar dos portugueses nunca se saíram das profundas crises sociais, políticas, econômicas e militares das quais todas as mazelas sociais se alimentam. Desde que a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) – inicialmente uma guerrilha armada de orientação comunista contra o governo português -, assumiu o controle do território moçambicano em 1975, o qual ocupada até hoje como partido governista, a maioria dos 250 mil portugueses que viviam em Moçambique deixaram o país, alguns expulsos pelo governo, outros fugindo com medo.

As tensões permanecem entre o partido no poder, Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), e o antigo movimento rebelde da oposição, Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), facção anticomunista que recebeu financiamento dos governos da Rodésia (atual Zimbábue) e da África do Sul (sob regime do apartheid). E a corrupção tornou-se uma grande preocupação no país e a descoberta de campos de gás na costa de Moçambique em 2011 está transformando para pior a situação em vez de melhorar.

Filipe Nyusi, do Frelimo, tomou posse como presidente em janeiro de 2015 e assumiu mais um mandato de cinco anos em 2020 sucedendo o ex-presidente Armando Guebuza como líder do partido.

Nyusi prometeu transformar o país com a exploração dos campos de gás que têm atraído diversas companhias estrangeiras. E realmente está mudando…

Contexto social atual: Criando o Estado de caos!

É notório que em Moçambique, o Estado não possui presença consistente na garantia de direitos. Acesso justo à terra, oferta de empregos e participação nas receitas futuras com a extração de gás e rubi poderiam ser soluções de curto prazo, mas tais questões nunca foram implementadas mas, curiosamente, as organizações que lutaram contra Portugal pela independência, como a Frelimo e a Renamo, recrutavam jovens com a mesma retórica: “as autoridades coloniais portuguesas estão tomando nossa riqueza e a independência nos trará mais igualdade”.

Como afirma o bispo de Pemba: “o governo precisa saber que é extremamente necessário que os recursos naturais de Moçambique sejam usados ​​para o bem do seu povo, e não para gerar corrupção”

Oferecendo “bons salários”, chefes do contrabando local atraíram jovens militantes para suas organizações.

Nas últimas décadas, Cabo Delgado, no litoral norte, teve fluxos migratórios de facções fundamentalistas cristãs e muçulmanas além de agências religiosas internacionais de caridade tentando converter a população local.

Mais capital numa região dominada pela corrupção significa mais corrupção, e o seu litoral norte tornou-se um importante centro de contrabando de marfim, madeira, heroína e rubi, com o envolvimento da polícia e de outros funcionários públicos.

A fronteira próxima com a Tanzânia não tem controle de agentes de segurança, e sempre houve ali um grande movimento de pessoas. Isso se ampliou com tráfico de pessoas, principalmente do Quênia, Somália e dos Grandes Lagos.

Já havia jovens tanzanianos na comunidade de vendedores ambulantes de Mocímboa da Praia que passaram a fazer parte desses grupos criminosos.

Depois da morte, em 2012, do clérigo muçulmano Aboud Rogo Mohammed (suspeito de apoiar Al-Shabab a da Somália, facção da Al-Qaeda) no Quênia, seus partidários migraram para o sul, até chegarem a Cabo Delgado em 2015.

Com a renda do contrabando, redes religiosas, traficantes de pessoas e clérigos radicais com suas células extremistas pagaram para enviar jovens a Tanzânia, Quênia e Somália para treinamento militar e islâmico.

Cabo Delgado é majoritariamente muçulmana e os novos pregadores islâmicos, tanto estrangeiros de países da África Oriental quanto moçambicanos formados no exterior, estabeleceram mesquitas e argumentaram que os líderes religiosos locais eram aliados da Frelimo e da sua apropriação de riquezas.

Em 2015, houve confrontos violentos na região quando a polícia e líderes islâmicos tentaram barrar o avanço dos fundamentalistas – que querem implantar a sharia (lei islâmica)-, passando a treinar milícias também. Estas estariam depois envolvidas no ataque inicial que abriu o atual confronto em Mocímboa da Praia, em 2017.


VISITE NOSSA LIVRARIA

Sentinela Mídia Independente
siga em
Nos ajude a espalhar a palavra:
Gostou do artigo? Você pode contribuir para o site com uma doação:

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.