O último sobrevivente do bunker do Fuhrer – o guarda-costas do Hitler dá a última entrevista

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O EX-oficial da SS Rochus Misch, o último sobrevivente do círculo íntimo de Hitler, com uma doença terminal, dá sua entrevista final… Esta é sua última entrevista publicada em 5 de maio de 2011.

Em um subúrbio de Berlim, a apenas alguns quilômetros do bunker do Führer Adolf Hitler, há uma pequena casa branca independente com um portão de metal cinza e gesso caindo aos pedaços.

Por muitas décadas, foi a casa de Rochus Misch, o homem que trabalhou como guarda-costas de Hitler entre 1940 e 1945. Ele é a última testemunha viva do suicídio do ditador e o único sobrevivente da equipe do bunker.

Agora com 93 anos, preso em casa e com doença terminal, Misch diz:

“Esta será definitivamente minha última entrevista com a imprensa. Eu agora gostaria de morrer em paz”.

Não há fotos, bustos ou objetos pessoais de Adolf Hitler na casa de Misch. “Minha esposa Gerda jogou tudo fora”, diz ele.

Misch nasceu em 29 de julho de 1917, logo depois que seu pai, soldado, morreu na Primeira Guerra Mundial. Em 1920, sua mãe morreu de pneumonia, então o jovem Rochus foi criado por seus avós. Quando ele terminou a escola, ele treinou para ser pintor.

Em 1937, durante o exame físico para o exército, foi sugerido que ele cumprisse o serviço militar obrigatório na Verfügungstruppe (Tropas Disposicionais), precursora da Waffen-SS. Seria quatro anos de serviço livre de direitos, fadiga e com aceitação automática no serviço civil.

Em 24 de setembro de 1939, Misch foi baleado no peito durante a Batalha de Modlin, 30 milhas ao norte de Varsóvia, na Polônia. Ele tentou negociar a rendição da fortaleza polonesa e recebeu uma Cruz de Ferro de Segunda Classe por sua bravura.

Rochus Misch no vagão-restaurante do trem de Hitler “América” foto: Flickr/sem data

A consciência de Misch foi tida em alta conta e, após sua recuperação, o comandante de sua companhia Wilhelm Mohnke o recomendou para o Führerbegleitkommando (escolta SS do Führer).

“Fui colocado em um carro e levado para a Chancelaria do Reich em Berlim. O endereço: Wilhelmstrasse 77, a residência do Führer”, lembra Misch.

“Fui conduzido pelo ajudante-chefe de Hitler, Wilhelm Brückner. Eu estava com medo de conhecer o Führer pessoalmente. Adolf Hitler estava parado atrás da porta quando o ajudante-chefe a abriu. Eu fiquei gelado”.

Hitler deu-lhe uma carta para ser entregue a sua irmã Paula em Viena e então Rochus Misch partiu em sua primeira viagem de correio.

“Esse foi meu primeiro encontro pessoal com o Führer. Ele não era um monstro ou super-humano. Ele ficou na minha frente como um homem completamente normal com palavras bonitas”.

Rochus Misch foi o telefonista, mensageiro e guarda-costas de Adolf Hitler por cinco anos. Como telefonista, ele era responsável pela comunicação de Adolf com seus generais. “O número de telefone de Hitler na Chancelaria do Reich era 12.0050”, diz ele e está claramente orgulhoso de sua boa memória. Na SS, ele estava no Regimento de Guarda-costas pessoal de Adolf Hitler. Quando Misch se casou com sua esposa Gerda em 1942, Hitler enviou ao casal uma caixa de vinho.

Seu passado não era o de um seguidor de Hitler. “Nunca tive nada a ver com o Partido, não estava na Juventude Hitlerista e, no entanto, estava no círculo mais íntimo, dia e noite. Nós, telefonistas e guarda-costas, estávamos sempre perto dele. Mais 22 passos atrás de mim e você estava no quarto dele”.

À medida que a guerra avançava, Misch passou a conhecer seu empregador pessoalmente. “Hitler ficava resfriado com muita facilidade e costumava levar uma bolsa de água quente para a cama”, lembra ele. Um incidente particular permanece claro como cristal na lembrança. “Era no meio da noite. Na convicção de que Hitler já tinha ido para a cama, abri a porta de sua sala para pegar alguma coisa de lá. Ele estava sentado ali, o queixo enterrado nas mãos, imóvel, como se estivesse em transe.

“Ele estava olhando para uma pintura a óleo de Frederico, o Grande, que tremeluzia à luz de velas. Ele sempre o levava consigo quando viajava. Eu me senti como um intruso que interrompeu alguém no meio de uma oração”.

No entanto, Misch insiste que nunca ouviu nada sobre o assassinato em massa de milhões de judeus europeus em nenhuma das ligações que ouviu.

“Concluí o meu trabalho com lealdade e bem e repassei as notícias e mensagens corretamente porque não queria ser expulso. Fiquei feliz por não ter que estar na linha de frente. Eu me adaptei ao trabalho lá e logo Hitler era apenas uma pessoa normal para mim, ele era o chefe”.

Rochus Misch, ex-guarda-costas e telefonista do chamado Fuehrerbunker da Chancelaria do Reich de Adolf Hitler, com algumas fotos após uma entrevista no apartamento de Misch, 22 de julho de 2004. Foto: Der Spiegel.

“Só uma vez li uma notícia dizendo que um comitê internacional controlava os campos de concentração e que os relatórios foram entregues ao conde Bernadotte [um diplomata sueco e negociador em nome dos prisioneiros dos campos de concentração]; isso foi tudo sobre esse assunto”.

Misch testemunhou a tentativa de assassinato de Hitler em 20 de julho de 1944 e também nos últimos dias no bunker abaixo da Chancelaria do Reich antes do suicídio do Führer. Ele estava lá em 30 de abril de 1945 quando Adolf Hitler se despediu de todos e estava na sala ao lado quando atirou em si mesmo. “Hitler há muito havia perdido a confiança na vitória”.

Ele viu o cadáver descoberto e também Eva Braun sentada morta no canto do sofá ao lado do corpo do marido. A cabeça dela estava voltada para ele.

“Seus joelhos estavam puxados para o peito, ela estava usando um vestido azul escuro e tinha babados brancos na gola.”

Após a morte de Hitler, Misch ficou dividido. Ele queria tentar fugir dos russos, mas por outro lado, não queria desertar. Ele queria terminar seu serviço ao “Führer, ao povo e à pátria” da maneira adequada. Então, em 1° de maio de 1945, ele perguntou a Joseph Goebbels se havia algo que ele pudesse fazer. Goebbels deixou-o com as palavras: “Nós entendemos como viver, também saberemos como morrer”.

Em 2 de maio de 1945, às 6h da manhã, Misch desativou o sistema telefônico do bunker do Führer e saiu por uma janela do porão, mas foi feito prisioneiro por um soldado russo.

Por causa de sua proximidade com Hitler, ele foi levado de avião para a União Soviética e encarcerado na prisão militar Butyrka em Moscou. Ele foi frequentemente torturado, o que o levou a escrever para o chefe da inteligência Lavrentiy Beria e solicitar a morte por fuzilamento, diz Misch.

“Eles queriam me bater até a morte, mas como eu era um soldado, pedi que atirassem em mim. A carta está no arquivo”

Rochus Misch durante o período em que serviu à SS – Wikimedia Commons

Depois de nove anos em um campo de trabalho soviético perto dos Urais e no Cazaquistão, seu tempo como prisioneiro de guerra acabou e ele foi libertado em 1954. Até sua aposentadoria em 1985, ele administrou uma loja de tintas, pincéis, papel de parede e materiais de decoração. “Desde a morte de minha esposa em 1997, vivo sozinho”, acrescenta Misch.

Com a morte do assessor de Hitler, Otto Günsch, em outubro de 2003, ele se tornou a última testemunha ocular do círculo interno do Terceiro Reich. As mortes do oficial Bernd von Freytag-Loringhoven em 2007 e do mensageiro da Juventude Hitlerista Armin Lehmann em 2008 significaram que ele se tornou o último sobrevivente do bunker do Führer.

Em 2012, seu livro “Hitler’s Last Witness: The Memoirs of Hitler’s Bodyguard” [1] será filmado em Hollywood a um custo de produção de £ 12 milhões. Os contratos já foram supostamente assinados, mas Misch acha que é improvável que ele veja o filme finalizado.

“Acho que não vou viver tanto. Eu posso ver a morte bem diante dos meus olhos”.

Extra da edição do site

Por ocasião do lançamento do filme alemão “Der Untergang” [“A Queda: As Últimas Horas de Hitler”, no Brasil] na França, o jornalista francês Nicolas Bourcier o entrevistou várias vezes durante em 2005. Disso resultou o livro biográfico “Eu Fui Guarda-Costas de Hitler” (título no Brasil), lançado pela Editora Objetiva, em março de 2006, disponível na Livraria Sentinela.

Clique e confira imagens do livro físico

Rochus Misch morreu em 5 de setembro de 2013, em Berlim, Alemanha, aos 96 anos de idade. Sua esposa Gerda Misch, do qual ele foi casado desde 1942, faleceu em 1997. Juntos tiveram uma filha, Brigitta Jacob-Engelken.


Fonte: Express

Texto original de Stefan Schnoor e Boris Klinge.

Publicado originalmente em 5 de maio de 2011

Tradução de Leonardo Campos


Nota:

[1] O livro em alemão “Der letzte Zeuge” e em inglês “Hitler’s Last Witness: The Memoirs of Hitler’s Bodyguard” [A última testemunha de Hitler: Livro das memórias do guarda-costas de Hitler], autobiografia escrita por Rochus Misch, teve sua primeira tiragem em 2008. Desde então, continua tendo várias tiragens em língua inglesa e germânica.

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