O que ocorre na Armênia não é um mero pequeno conflito regional

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Com uma população de cerca de 151 mil pessoas e uma área de 11.458 km², a República independente de Artsaque, comumente conhecido pelo seu antigo nome de República do Nagorno-Karabakh entre 1991 e 2017, o conflito que lá ocorre atualmente não é novo e reflete muito mais do que uma mera “visão religiosa” entre islã e cristãos ou mesmo a questão étnica fundamental, possuindo um panorama de interesses entre as principais potências continentais.

Nagorno-Karabakh é um território disputado pela Armênia e pelo Azerbaijão desde o final do século XIX e início do século XX pelo menos. Nagorno-Karabakh foi governada por armênios por séculos, remontando a Antiguidade e Idade Média mesmo sob domínio dos califados muçulmanos, khanatos mongóis ou impérios europeus. No início do século XX, no contexto da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), da Revolução Bolchevique na Rússia (1917), a seguida Guerra Civil Russa e o Tratado de Versalhes (1919), o Azerbaijão tenta ocupar a região.

No domínio da URSS tanto no Azerbaijão quanto na Armênia, Stalin cria o Oblast Autônomo de Nagorno-Karabakh dentro da República Socialista Soviética do Azerbaijão.

A população armênia de Nagorno-Karabakh, ainda hoje 95% da população, acusava a República Socialista Soviética do Azerbaijão de tentar tomar o poder e estabelecer a supremacia da etnia azeri, promovendo o assentamento de famílias azeris em Nagorno-Karabakh. Os armênios responderam pedindo a transferência da região para a República Socialista Soviética da Armênia. Essas tensões e escaramuças se arrastaram no controle soviético até a época (pós-Stalin) de Gorbachev, que recusou os pedidos armênios, desfazendo o Oblast Autônomo de Nagorno-Karabakh e, com o colapso da URSS, a guerra civil eclodiu.

A Guerra de Nagorno-Karabakh (1988 – 1994), custando um saldo de 20 mil mortos entre os dois lados e a quase totalidade dos azeris expulsos da região, teve como resultado a independência da República de Artsaque. Nesse ínterim, a Armênia foi apoiada pela Rússia e o Azerbaijão pela Turquia, Israel e Ucrânia, além de terroristas salafistas.

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Internacionalmente reconhecido como parte do Azerbaijão mas que é governado de fato pela República de Artsaque, um governo armênio, já que a população é 95% de etnia armênia. Nenhum país da ONU reconhece a República de Artsakh, que só é reconhecida pela Transnístria, pela Abkhazia e pela Ossétia do Sul.

A Armênia é um dos principais parceiros diplomáticos e militares da Rússia na região, o seu atual primeiro-ministro, Nikol Pashinyan, chegou ao poder em 2018 numa Revolução Colorida promovida pelos Aliados do Ocidente contra a oposição de Serzh Sargsyan, pró-russo. Pashinyan assumiu uma postura ambígua em relação à Rússia e iniciou uma perseguição judicial contra boa parte dos dirigente armenios de Artsaque.

Enquanto isso, o Azerbaijão também possui parcerias importantes com a Rússia. os azeris querem o território de Nagorno-Karabakh há 100 anos e vingança pela Guerra de Nagorno-Karabakh. Suas parcerias étnicas com a Turquia não são nenhum segredo. A Turquia tem o Azerbaijão como um proxy de seus interesses e, já tendo cometido um genocídio contra os armênios no passado, ajuda o Azerbaijão a tomar Nagorno-Karabakh, com armas, equipamento de guerra, permitindo o uso de bases turcas pelo Azerbaijão, e transferindo formações terroristas que estavam atuando na Síria e na Líbia para o Cáucaso, o Exército Nacional Sírio (SNA a facção rebelde síria, não confundir com o Exército Árabe Sírio, comandado por Bassar al-Assad e legalista). Israel também é franca apoiadora do Azerbaijão e reflete isso em suas relações bélico-comerciais através do apoio com material e logística fundamental para o Azerbaijão, com financiamento, remessas de armas e de equipamentos de guerra, bem como a permissão de uso de bases israelenses.

Se a Turquia tem planos de expansão neo-otomana e Erdogan se interessa no apoio a todos os Estados de etnia turca (como é o caso Azeri) na região da Eurásia e Oriente Médio, os planos do Estado Sionista de Israel não são diferentes quanto a Grande Israel, conhecido como Plano Yonnon, que exige a desestabilização de toda a região chamada de Oriente Médio. Questões essas como a de Israel podem ser vistas desde antes mesmo de sua formação como Estado Nacional com o contexto dos Acordos de Sykes-Picot (1916) e a Declaração de Balfour (1917).

Em termos geopolíticos, os EUA teria a ganhar atraindo a Rússia para um desgaste na região e suas relações com a Turquia, também enfraquecendo esta última, permitindo o retorno da OTAN à região, diminuindo a postura dúbia de Erdogan de “jogar nos dois times” em prol de seus próprios interesses.

O Irã, mesmo muçulmano e xiita tal como o Azerbaijão, mantém uma postura neutra oficialmente e, extraoficialmente tem apoiado a Armênia mantendo as únicas fronteiras abertas para com este país no momento permitindo a travessia de material russo, bem como tem mantido ajuda material. Apesar dos laços religiosos, as relações de Teerã com a Armênia são mais fortes. O governo do Azerbaijão reconheceu Jerusalém como capital de Israel, bem como tem promovido grupos separatistas azeris no Irã.

Em Moscou (Rússia), o único caminho mais viável é a rápida paz na região em vez de se envolver em uma guerra que trará prejuízos imensos, arruinando anos de diplomacia e interesses construídos por sua política externa feitos desde o amanhecer do século passado, como mostrado no tópico histórico acima. Um fortalecimento de relações entre Turquia e EUA também não é vantajoso para os russos. Além do mais, a Rússia possui importantes parcerias tanto com a Turquia quanto com o Azerbaijão no âmbito energético, dos quais não pode abrir mão. Por outro lado, a Rússia apoia a Armênia, por razões de proximidade étnicas, civilizacionais e estratégicas.


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