O misterioso sítio Calçoene: o stonehenge brasileiro

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Um dos sítios arqueológicos mais misteriosos e interessantes do Brasil se encontra no Amapá. Mais precisamente no que hoje é o Parque Arqueológico do Solstício (ver mapa interativo abaixo). O sítio fica nas margens também do rio Rego Grande, que o corta pelo interior do parque. Ele é chamado de “Observatório Astronômico de Calçoene” e também conhecido com “Stonehenge brasileiro” devido suas incríveis semelhanças com a enigmática formação da obra paleolítica presente na atual Inglaterra.

O monumento lítico no Norte do país 127 monólitos que foram erguidos em um raio de 30 metros. Suas pedras tem mais de 4 metros e foram erguidas e talhadas inicialmente há mais de 2000 anos e estendendo seu período de ocupação até 500 anos atrás.

A utilização do monumentos pelos povos antigos

Os pesquisadores que já estudaram – ou ainda estudam – o sítio mostram que a disposição das rochas estão feitas apontando para, no solstício de inverno do hemisfério norte, os principais astros do céu amazônico e o sol, ao meio dia, ficando exatamente na posição exata do centro da construção.

Constatado isso, o monumento tinha o poder de ser utilizado para guiar as comunidades desses povos antigos nas finalidades de cronologia e meteorologia. Isso foi descoberto com ajuda de estudantes do curso de turismo do Centro de Educação Profissional do Amapá (Cepa), onde o físico Marcomede Rangel, do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, que vem estudando o local. Ele mapeou a região e descobriu uma relação entre o sítio e o fenômeno natural do equinócio. “Uma das pedras é uma chapa de granito de 3 m com uma abertura no centro com cerca de um palmo de diâmetro. Há outra pedra direcionada justamente em relação a essa.

Observatório Astronômico de Calçoene, a “Stonehenge brasileiro”. Foto: Reprodução

Eles observavam o caminho do mapa celeste e, assim, acompanhavam as épocas de chuva, a chegada das estações, as mudanças do clima e o fim dos grandes ciclos (equivalente ao ano solar no Ocidente) entre os dias entre os dias 21 e 22 de dezembro de nosso calendário, quando a disposição das pedras permite observar o percurso do Sol. Os pesquisadores acreditam que a data era especial para os índios. “É um período marcado pela chuva, que muda completamente a paisagem, trazendo alimentos em abundância”, explica o arqueólogo João Saldanha, do Iepa (Instituto de Pesquisas Cientificas e Tecnológicas do Estado do Amapá).

O equinócio acontece quando o Sol, visto da Terra, se desloca sobre a linha do Equador, nascendo a leste e se pondo a oeste. Essa passagem de um hemisfério a outro determina o início das estações primavera e outono, conforme o hemisfério. Durante o fenômeno, o dia e a noite têm a mesma duração. Para Marcomede, os monumentos encontrados em Calçoene podem ter sido formas de homenagem aos deuses pagãos ou mesmo observatórios primitivos.

Observatório Astronômico de Calçoene, a “Stonehenge brasileiro”. Foto: Reprodução

Apesar disso, ainda existe muita discussão com relação a formas de utilização e participação dentro dos circuitos culturais e materiais na vida social dessas comunidades quanto ao monumento. Também se discutem possíveis outras funções sociais do lugar na época em que era ocupado como aquilo que os cientistas suspeitam que o sítio de Calçoene possui traços que indicam um local para culto aos antepassados. Isso porque, além dos monólitos estarem organizados em circulo, foram encontradas urnas funerárias de cerâmica nas proximidades do sítio e vestígios de vasos decorados, quebrados em estilhaços, que poderiam conter oferendas para os mortos.

No local, também eram enterradas membros importantes daquele (s) povo (s), segundo o pesquisador. “Há outros monumentos menores, na área, mais modestos, provavelmente para o sepultamento de pessoas menos importantes”, conta Saldanha. As técnicas para construção desses monumentos é ainda totalmente desconhecida. “Em todo o mundo há estruturas como essas”, observa o Saldanha, para quem o termo “Stonehenge brasileira” tira a originalidade do local. O círculo de pedras britânico, aliás, é bem mais antigo – tem cerca de 4,5 mil anos.

Redescoberta

O observatório megalítico foi encontrado na Era contemporânea pela primeira vez por Émil August Goeldi (1859 – 1917), zoólogo naturalista suíço-alemão em visita à Amazônia no século XIX.

Goeldi era um pesquisador reconhecido pelo Museu Imperial na Alemanha e desenvolvia um enorme trabalho de pesquisa na fauna e flora do Brasil quando atraídos pela história da ciência, durante o século XIX houve grande movimentação de naturalistas estrangeiros em solo brasileiro e muitos deles voltavam para sua terra natal com amostras da fauna e flora nacional, além de artefatos indígenas. Goeldi, assim como muitos outros pesquisadores estrangeiros se fixaram no Brasil para estudá-lo. Ele chegou ao Brasil em 1880 para trabalhar no Museu Imperial Brasileiro no Rio de Janeiro. Com a proclamação da república, o Museu Imperial foi transformado em Museu Nacional e passou por uma reforma administrativa que incluía um novo regulamento para o museu, nova tabela de vencimentos e a exigência de “ponto” para os naturalistas. Goeldi estava entre os cientistas que se desligaram do Museu, junto com Orvile Derby (1890), Fritz Müller, Hermann von Ihering e Wilhelm Schwacke (1891) e Carl Schreiner (1893).

Em 1893, o governador do Pará Lauro Sodré recrutou da cidade do Rio de Janeiro o naturalista para trabalhar no Museu Paraense (posteriormente Museu Paraense Emílio Goeldi) em Belém. Numa época onde disputas de fronteiras no Norte do Brasil com a França, o cientista revolucionou o trabalho de pesquisa na região para sempre.

Depois, o etnólogo alemão Curt Nimuendaju, na década de 20, registrou alguns megálitos de menor porte no local. Por muito tempo, o sítio ficou esquecido. Só em 2005 é que voltou a despertar o interesse do governo, e hoje o órgão responsável pela preservação do lugar é o Iepa (Instituto de Pesquisas Cientificas e Tecnológicas do Estado do Amapá), que desenvolve um projeto a fim de detectar os hábitos daqueles povos.

As escavações no local, executadas por arqueólogos, estão sendo feitas desde 2006. Diversos objetos de cerâmica já foram descobertos no local. As peças – potes, bacias, vasos, pratos e tigelas – têm um estilo parecido ao encontrado em sítios do litoral do Amapá e também da Guiana Francesa.

O arqueólogo diz que já existe um projeto em andamento para transformar a área em parque arqueológico. Hoje, o local pode ser visitado apenas por estudantes, pesquisadores da área e grupos interessados em conhecer civilizações passadas. “A ideia é construir um museu e um laboratório para permitir que as pessoas vejam como é o trabalho dos arqueólogos”, adianta.

Origem misteriosa

A pergunta que sempre fica é, qual a origem dessas pedras e qual povo montou esse observatório?

Muitas teorias foram lançadas – sobre quem o teria eito – pelos pesquisadores desde a primeira vez que a modernidade se deparou com o monumento. Mas fato é que pouco realmente se comprova como dados materiais, fazendo do sítio um objeto de pesquisa cheio de mistérios. Primeiramente, defendeu-se que foram índios aruaques, vindos do Caribe ou comunidades do Norte dos Andes que construíram o observatório, trazendo as rochas por trilhas terrestres que ligavam as regiões. Apesar da comprovação da teoria das rotas de comunicação interamericanas com o trabalho de pesquisadores brasileiros como Eduardo Gois Neves, como por exemplo, a “Trilha do Peabiru”, que ligava todo o coração da Mesoamérica do centro da atual Praça da Sé, em São Paulo, até a Cordilheira dos Andes, onde ficavam os Incas, entre outras trilhas e cortavam o continente, não se sabe exatamente qual a densidade dos fluxos intercomunitários dessas trilhas e rotas.

Atualmente, é mais amplamente aceito que a origem dessas comunidades estejam no interior da própria região da Amazônia. Séries de cerâmicas enterradas semelhantes com de outras culturas próximas, como louças cerimoniais Aristé, Cunani e marajoaras, foram encontradas em volta do sítio. Tais indícios podem talvez indicar que o Observatório foi construído ou pode ter sido habitado pelas comunidades que reproduziam a cultura cerâmica da Tradição Polícroma da Amazônia, cujo epicentro era na Ilha de Marajó, que expandiam sua cultura pela Bacia do Amazonas a partir do segundo milênio d.C..

Referências de pesquisa

André Nogueira. STONEHENGE BRASILEIRO: O MÍSTICO SÍTIO CALÇOENE, NO AMAPÁ: O impressionante observatório astronômico indígena possui 127 monólitos da Amazônia, mas pouca gente o conhece. Aventuras na História, Matéria, arqueologia, 19 jan. 2020. Disponível em https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-conheca-o-stonehenge-brasileiro-o-mistico-sitio-calcoene-no-amapa.phtml

História Ilustrada. Você conhece o “Stonehenge brasileiro”?. História Ilustrada, Pré-história, março de 2014. Disponível em https://www.historiailustrada.com.br/2014/03/voce-conhece-o-stonehenge-brasileiro.html

UOL Ciência e Saúde. Localizado no interior do Amapá, “Stonehenge brasileiro” ainda é desconhecido do público. Tilt, Últimas Notícias, São Paulo, 12 fev. 2011. Disponível em https://www.uol.com.br/tilt/ultimas-noticias/redacao/2011/12/02/localizado-no-interior-do-amapa-stonehenge-brasileiro-ainda-e-desconhecido-do-publico.htm

Bruna Ventura. STONEHENGE BRASILEIRO. Ciência Hoje, nº 268, Rio de Janeiro, 10 mar. 2010. Disponível em  http://cienciahoje.org.br/artigo/stonehenge-brasileiro/

Arqueologia Americana (blog). Observatório celeste do Amapá: a etnoastronomia nas culturas amazônicas. Arqueologia Americana. Disponível em http://www.arqueologiamericana.com.br/artigos/artigo_09.htm

Wondermondo. CALCOENE MEGALITHIC OBSERVATORY – AMAZON STONEHENGE.7 jul. 2010. Wondermondo. Disponível em https://www.wondermondo.com/calcoene-megalithic-observatory/

Bibliografia

André Prous. O Brasil Antes dos Brasileiros: A pré-história do nosso país. Editora Zahar, 2ª edição revista, 2006.

Reinaldo José Lopes. 1499: O Brasil antes de Cabral. Editora HarperCollins, 1ª edição, 2017.

Revista História Viva, nº 18, pgs. 82-85. Editora Duetto. Abril de 2005.

Stan Lehman. Another ‘Stonehenge’ discovered in Amazon: Centuries-old granite grouping may have served as observatory. MSNBC, 27 jun. 2006.

M. P. Cabral, J. D. M. Saldanha. Paisagens megalíticas na costa norte do Amapá. Revista de Arqueologia nº 2, 26 set. 2008.

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One thought on “O misterioso sítio Calçoene: o stonehenge brasileiro”

  1. Prezados camaradas, saudações!

    TODA sem exceção construção lítica, é fruto de povos que seguiram o pacto de sangue, em oposição ao pacto cultural das forças das potências da matéria. Ao compreender aquilo que é denominado “místico”, entende-se que não há separação entre este conhecimento, e o assim chamado “científico”. (Ainda que há uma sub-distinção entre ciência, e secularismo (sic).

    Busquem sempre se lembram, busquem sempre despertar!

    Grande abraço

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