História esquecida: os campos de concentração para alemães, japoneses e italianos na América Latina

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Depois de Pearl Harbor, os aliados latino-americanos de braços fortes do departamento de Estado dos EUA, como a Costa Rica, desalojaram e muitas vezes deportaram imigrantes alemães.

Com a Estátua da Liberdade aparecendo no alto, um garoto de 11 anos chamado Jurgen estava encolhido em seu casaco, ao lado de sua família e de algumas poucas malas, enquanto um vento frio soprava do rio Hudson.

Ellis Island é mais conhecida como a antiga porta de entrada para milhões de imigrantes que entram nos EUA, mas no inverno de 1944, o menino – Jurgen – e sua família estavam prestes a ser deportados para a Alemanha.

“Fomos processados ​​em Ellis Island como imigrantes ilegais. Na verdade, fomos sequestrados pelo governo dos EUA” – disse Jurgen, hoje com 82 anos.

Jurgen e sua família estavam entre os milhares de latino-americanos de origem alemã que foram capturados por seus respectivos governos por ordens dos EUA após o bombardeio de Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941.

Eles foram detidos de acordo com um programa pouco conhecido do departamento de estado dos EUA. A “Divisão Especial de Problemas de Guerra”, que orquestraria a detenção de mais de 4 mil latino-americanos da Alemanha, Japão e Itália em campos de concentração no Texas e em outros lugares, além de centros de detenção localizados na América Latina.

Ao todo, 15 países latino-americanos deportariam residentes e cidadãos de ascendência alemã para centros de detenção nos Estados Unidos, muitas vezes sem recurso legal, de acordo com uma declaração do Arquivo Nacional.

O internamento de mais de 120.000 nipo-americanos em campos foi reconhecido pelo Congresso dos EUA, mas a história dos latino-americanos com origens nos países do eixo foi amplamente esquecida pela a história.

Barracas que receberam os nipo-americanos no campo de Amache, em Granada, Colorado

À medida que o 78º aniversário da entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial se aproxima, cada vez menos pessoas que experimentaram em primeira mão os campos de internação do Serviço de Imigração e Naturalização nos EUA permanecem vivas ou que tem acesso a essas informações.

A segunda guerra mundial (1939 – 1945) chegou rapidamente para a família de Jurgen e outros alemães que viviam na Costa Rica. Menos de um mês após o bombardeio de Pearl Harbor, o pai de Jurgen foi preso pela polícia costarriquenha em 2 de janeiro de 1942.

No final da década de 1930, o FBI havia começado a identificar possíveis simpatizantes do nacional socialismo, temendo que as forças do Eixo se instalassem na América Latina. No caso da Costa Rica, a Embaixada dos EUA em San José apresentou uma lista de nomes a serem deportados para o governo, uma medida reconhecida em uma nota do Departamento de Estado datada de 15 de novembro de 1943.

Países maiores como México, Chile e Argentina resistiram à exigência de deportar seus cidadãos, mas isso não era uma opção para o pequeno país centro-americano. Em 1942, o departamento de estado dos EUA anunciou que boicotaria todos os produtos costarriquenhos de empresas alemãs. O café respondia por mais da metade das exportações do país entre 1938 e 1945 – e o negócio do café era dominado por empresas alemãs, segundo Gertrud Peters, historiadora econômica da Universidad Nacional de Costa Rica.

Incapaz de despachar mercadorias para a Alemanha por causa do bloqueio Aliado, a Costa Rica – entre muitas outras nações latino-americanas – foi forçada a obedecer, como foi o caso do Brasil de Getúlio Vargas, ameaçado pela administração Rosevelt.

Duas semanas após a detenção do pai de Jurgen, chegou uma carta da polícia informando sua família que ele havia sido deportado para os EUA, onde ele estava detido no maior campo de internação do país, em Crystal City, Texas. A poeirenta cidade do Texas não poderia ter sido mais diferente do clima ameno e das montanhas verdes de San José.

Campo de Manzanar, Califórnia.

O campo de concentração de 500 acres, que em seu auge abrigaria quase 3.400 detidos, ainda estava em grande parte em construção quando Jurgen chegou, no final de 1943.

“O acampamento foi construído em um antigo campo de espinafre. Havia uma estátua do Popeye na cidade. A estátua ainda está em Crystal City hoje”, disse Jurgen.

Depois da chuva, as estradas não pavimentadas tornavam-se espessas de lama, e Jurgen e as outras crianças caminhavam até as latrinas em palafitas curtas para proteger os sapatos.

Jurgen disse que o acampamento fornecia todo o básico para sua família, incluindo acomodação simples em casas geminadas de três unidades, latrinas comunitárias e comida. Seu pai, um homem de negócios, encontrou trabalho colocando asfalto nas estradas do acampamento e, brevemente, tirando despenando aves para consumo.

Jurgen e seu irmão mais novo cortavam folhas de beterraba com uma faca para ganhar US$ 1 por hora, o que a família poderia usar para encomendar produtos do Catálogo da Montgomery Ward. A família já estava economizando para comprar casacos para a próxima etapa de sua jornada de volta à Alemanha.
Além de impedir que os eixos nacionais supostamente impedissem o esforço de guerra dos EUA em casa, Crystal City desempenhou um importante papel para os EUA no exterior: fornecer ao país uma bolsa de prisioneiros que poderiam ser trocados por americanos detidos pelo Terceiro Reich.

Diante da perspectiva de passar os anos restantes da guerra em detenção, a família de Jurgen se ofereceu para a deportação. A família viajou de trem para Ellis Island antes de embarcar em um navio da Cruz Vermelha e voltar para a Europa. As tropas Aliadas e russas estavam começando a se aproximar da Alemanha quando Jurgen e sua família saíram do barco em Lisboa. Naquela ocasião, lembra ele, uma linha de prisioneiros americanos esperava via Alemanha, para embarcar de volta aos Estados Unidos.

A família de Jurgen finalmente retornou à Costa Rica em 1948. Eles conseguiram recuperar suas propriedades, mas o mesmo não pode ser dito das muitas famílias alemãs, cujos negócios e terras foram confiscados pelo governo e vendidos para pagar a dívida nacional e subsidiar a população. reformas agrárias.

Depois de anos na Alemanha devastada pela guerra, o que eles encontraram na Costa Rica foi ainda mais conflito: após uma disputada eleição em 1948, o país caiu em uma breve guerra civil. Essa guerra trouxe a ascensão do presidente José Figueres Ferrer (1906 – 1990), o líder que aboliu o exército da Costa Rica em 1948. No ano seguinte, a Costa Rica declarou sua neutralidade política.

O caso da Colômbia

A 80 km de Bogotá (capital da Colômbia), o campo de concentração do Hotel Sabaneta, construído na década de 1920 e destino de viagem comum para políticos na época, mudou de função a partir do momento em que as autoridades nacionais decidiram convertê-lo em campo de concentração, momento em que a Colômbia se alinhou com os Aliados e, em especial, com os Estados Unidos.

Ruínas do Hotel Sabaneta, usado pelo governo colombiano como campo de concentração para alemães, japoneses, italianos e descendentes

A justificativa foi típica (sempre a mesma), e se fez presente em 1943, quando um  submarino alemão teria afundado uma escuna colombiana na costa do Caribe.

Assim, o país, que até esse momento havia mantido uma postura sintetizada na frase: “neutro, porém não indiferente”.

Com a resolução de entrar na briga, a Colômbia imediatamente congelou os bens dos cidadãos provenientes de países do Eixo, usando os recursos para repor as perdas pelo afundamento da escuna, e começou o processo de confinamento no hotel Sabaneta, que a partir de então se tornou o campo de concentração de Fusagasugá.

Até hoje, descendentes de alguns dos detidos no centro afirmam que seus familiares apareceram nas “listas negras” de maneira injusta. Eles apontam que as folhas de pagamento dos supostos apoiadores do Eixo que apareceram nos jornais foram feitas de maneira discriminatória e que qualquer alemão ou japonês poderia aparecer lá porque não gostava de alguém ou por causa de um boato infundado.

As listas negras não foram uma invenção da Colômbia. Em 1941, os Estados Unidos elaborou uma lista de 1,8 mil pessoas e empresas de origem alemã, italiana e japonesa na América Latina a quem acusava de atuar em benefício direto ou indireto do Eixo. As listas foram publicadas nos mais importantes jornais do continente, e quem aparecia nelas era afetado imediatamente.

Testemunhas afirmam que alguns dos alemães se dedicaram à construção e à carpintaria, enquanto japoneses melhoraram os jardins e criaram peixes em um riacho.

Também se sabe que algumas famílias com mais dinheiro compraram terrenos em Fusagasugá para ficar perto de seus parentes confinados.

Apenas algumas dezenas de policiais controlavam o que se passava no lugar.

Tanto os alemães como os japoneses foram obrigados a pagar sua estadia na prisão, o que causou a ruína financeira de muitas famílias.

Os EUA afirmaram que não fariam nenhum tipo de negócio com essas empresas ou pessoas e passaram a pressionar os países da região para seguirem seu exemplo.

Também exigiam que os incluídos na lista não chegassem a menos de 100 km de qualquer fronteira norte-americana.

Em maior ou menor medida, quase todos os países do continente, com exceção da Argentina, aceitaram aplicar certos vetos aos citados nas listas.

Para o historiador Felipe Arias, isso mostra a necessidade histórica dos governos da Colômbia de ter uma boa relação com os Estados Unidos.

“Durante o século XX, os governos colombianos mostraram uma posição coerente em relação aos Estados Unidos, a de um aliado necessário, apesar da separação do Panamá (apoiada pelo país) e do massacre das bananeiras na costa do Caribe (a morte de trabalhadores grevistas da United Fruit Company, em 1928, pelo exército colombiano, também com apoio americano)”, afirma Arias.

Ele lembra que muito antes da Segunda Guerra o país já havia adotado o lema “olhar a estrela polar”, em referência aos EUA.

No Brasil

Em 1942, o “jogo virou”. O Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo – cujos cidadãos passaram a ser considerados inimigos. “O governo brasileiro precisava fazer isso [criar os campos de concentração] para se alinhar com as estratégias dos Aliados e dos EUA”, explica a pesquisadora Priscila Perazzo, autora do livro “Prisioneiros da Guerra”. Alguns estrangeiros foram mandados para presídios comuns – como os de Ilha Grande e Ilha das Flores (RJ). Mas a maioria foi para campos de concentração, organizados pelo Ministério da Justiça.

Durante a 2ª Guerra, também tivemos campos de concentração — onde japoneses, italianos e principalmente alemães ficaram confinados.

Os prisioneiros eram chamados por números, trabalhavam o dia inteiro e comiam pouco.

Campos de concentração para imigrantes e descendentes japoneses, italianos e principalmente alemães espalhados pelo Brasil. O Brasil se viu obrigado a atender as medidas Aliadas anglo-sionistas dos progroms em toda a América Latina.

1. Tomé-Açú (PA): A 200 km de Belém. Recebeu alemães e japoneses.

2. Chã de Estêvão (PE): Abrigou empregados alemães da Cia. Paulista de Tecidos (hoje conhecida como Casas Pernambucanas).

3. Pouso Alegre (MG): O campo de Pouso Alegre reunia presos militares: os 62 marinheiros do navio Anneleise Essberger.

4. Ilha das Flores (RJ): Nessa cadeia, prisioneiros de guerra foram misturados com detentos comuns – uma violação das leis internacionais.

5. Guaratinguetá e Pindamonhangaba (SP): Fazendas que pertenciam ao governo e foram adaptadas para receber alemães.

6. Oscar Schneider (SC): Hospital transformado em colônia penal.

Na época, o governo brasileiro fazia de tudo para mostrar que os prisioneiros de guerra eram bem tratados – o que nem sempre era verdade. O tempo de internamento variava. Houve pessoas que ficaram três anos presas, mas outras conseguiam ser libertadas mais cedo. Também é difícil definir exatamente o número de presos que foram mandados para os campos de concentração brasileiros entre 1942 e 1945, pois os registros são vagos. Mas existe uma documentação que revela nomes e, em alguns campos, o número exato de prisioneiros que passaram por lá. Os registros comprovam que a maioria era de alemães, seguidos de japoneses em bem menor número, italianos e um ou outro austríaco.

  • Foto de capa: Vista aérea do campo de internamento de Crystal City (família) durante a segunda guerra mundial. Foto: Ed Fuhr / Comissão Histórica do Texas

Referências de pesquisa:

Alexandre Duarte e Bruno Garattoni. Os campos de concentração no Brasil: Durante a 2ª Guerra, também tivemos campos de concentração — onde japoneses, italianos e principalmente alemães ficaram confinados. Conheça suas histórias. Superinteressante, História, 21 fev. 2011. Disponível em https://super.abril.com.br/historia/os-campos-de-concentracao-no-brasil/

Boris Miranda. O campo de concentração criado na Colômbia para prender alemães e japoneses na 2ª Guerra: Um hotel que foi convertido em um campo de concentração em uma pequena cidade faz parte da pouco conhecida história do país no conflito. BBC News, Metro Jornal. Bogotá, 14 out. 2018. Disponível em https://www.metrojornal.com.br/foco/2018/10/14/o-campo-de-concentracao-criado-na-colombia-para-prender-alemaes-e-japoneses-na-2a-guerra.html

Zach Dyer. Lost story of German Latin Americans interned during second world war: After Pearl Harbor, the US state department strong-armed Latin American allies like Costa Rica into dispossessing, and often deporting, German immigrants. The Guardian, News, San José, Costa Rica, 5 dez. 2014. Disponível em https://www.theguardian.com/world/2014/dec/05/germany-latin-american-internment-deportation-costa-rica

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