Como o Facebook proibiu conteúdo sobre “controle judaico do mundo”

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O Facebook anunciou que retiraria do ar postagens que fazem referência ao “controle judaico do mundo”. O site agora proíbe oficialmente conteúdo que faça referência a “Judeus governando o mundo ou controlando instituições importantes, como redes de mídia, a economia ou o governo”. As proibições de conteúdo específico no Facebook foram anunciados no dia 11 de agosto.

Antecedentes

Uma carta aberta de 5 de agosto, dos procuradores-gerais de 20 países para Mark Zuckerberg, dizendo à empresa para “fazer mais” para evitar aquilo que é considerado oficialmente como “conteúdo de ódio” e “abuso” em sua plataforma.

Outra carta aberta, publicada em 7 de agosto, de mais de 120 organizações judaicas instando o Facebook a adotar a mais atual “definição internacional de antissemitismo” [1] e a retirar postagens que atendam ao que lhes considerado uma definição.

Recentemente, a Liga Anti-Difamação (ADL) e a  Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor [NAACP] organizaram um boicote publicitário que levou grandes empresas multinacionais assinarem em seu apoio e até mesmo levou a uma breve queda no preço das ações do Facebook, tamanha é a força do lobismo da Liga Anti-Difamação, um importante órgão de influência sionista israelense cujo prédio fica no centro de Manhattan, Estados Unidos.

Mas, segundo informações oficiais, o que definitivamente levou a multinacional Facebook Inc., dona do Facebook, WhatsApp e Instagram a ideia de banir conteúdo que promova estereótipos de controle global judaico surgiu há um ano, em uma reunião com vários grupos judeus convocados pelo Facebook, e foi promovida principalmente pelo Congresso Judaico Mundial.

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“Aplaudimos o Facebook por sua liderança e esperamos que este movimento seja um guia para outras empresas de mídia social seguirem”, disse Ronald Lauder, presidente do Congresso, em um comunicado ao Jewish Insider sobre a atualização do Facebook.

“Demorou um ano para chegar ao que o Facebook chama de ‘política operacional’ no controle global judaico por causa das deliberações políticas, redação e análise de dados e imagens envolvidas”, disse Jordana Cutler, chefe de política do Facebook em Israel e uma ligação com a Jewish Diaspora Groups: “determinar quais imagens e declarações serão impactadas e identificar memes ofensivos a serem observados. O processo também foi retardado pela pandemia, à medida que as pessoas da equipe que elaborava essa política se concentravam na desinformação da Covid-19”.

A atualização da política do Facebook atraiu elogios de alguns grupos e relutante reconhecimento de outros. As organizações que pressionaram o Facebook a reprimir com mais força o revisionismo histórico dos eventos conhecidos como “Holocausto Judaico” na Segunda Guerra Mundial ou excluir qualquer conteúdo que não atenda às definições de antissemitismo da International Holocaust Remembrance Alliance dizem que a mudança é muito pequena e muito tardia!

SAIBA MAIS

“Esta é uma etapa bem-vinda, embora devida do Facebook,” Jonathan Greenblatt, o CEO da ADL, disse em um comunicado por e-mail. “É angustiante que tenha demorado tanto para a plataforma reprimir essas formas específicas de ódio, quando é bastante óbvio que não deveria ter sido permitido que proliferassem”.

Segundo um estudo divulgado pela própria ADL, o Facebook sugere ativamente que seus usuários se juntem a “grupos antissemitas” e de “supremacia branca”. Algo bastante conveniente com as pretensões favoráveis às diretrizes exigidas pela organização.

Repressão oficial da “teoria QAnon”?

O Facebook também está procurando com essas medidas restringir a disseminação da chamada “teoria QAnon” [2]. Segundo a própria Facebook Inc., uma de suas investigação internas, cujos resultados foram obtidos pela NBC, mostrou que existem milhares de grupos e páginas, com milhões de seguidores, que apoiam essa teoria e, alegam que tais pessoas possuem opiniões antissemitas.

Os interessados parecem se preocupar mesmo com um tímido impacto disso no mundo real: a candidata ao Congresso da Geórgia Marjorie Taylor Greene que defendeu a teoria QAnon durante sua campanha chamando o judeu bilionário George Soros de “nazista” ganhou nas eleições primárias no seu 14º distrito e a empresária é agora a grande favorita a vencer um lugar na Câmara dos Representantes do Congresso dos EUA nas eleições de novembro.

Marjorie Taylor Greene em sua campanha veste a blusa com alusão a QAnon. Créditos: © Sandy Huffaker/AFP

Nova política de definição de “antissemitismo”

Os reclamantes afirmam que Facebook teria “resistido” por anos a pressão para criar um plano de política específico para o “antissemitismo”, ou mais assertivamente, qualquer coisa não favorável ao sionismo internacional, aderindo à sua política mais geral de remoção de conteúdo que visa o que a empresa chama de “características protegidas” de uma pessoa como raça, etnia, nacionalidade, religião filiação, orientação sexual, casta, sexo, gênero, identidade de gênero e doença grave ou deficiência.

Algumas organizações que fizeram lobby direto no Facebook para ser mais “rígido no discurso de ódio” receberam bem as mudanças. Em um comunicado, Daniel Elbaum, Diretor de Advocacia do AJC, disse que a nova política do Facebook é “um passo na direção certa e reflexo de nossas conversas em andamento com funcionários do Facebook nos Estados Unidos, Europa e Israel”. Enquanto outras organizações criticaram o Facebook por não ir mais longe!

Culpar judeus pelas políticas israelenses

Mort Klein, chefe da Organização Sionista da América, disse que foi um “erro trágico” do Facebook não adotar a definição de antissemitismo promulgada pela International Holocaust Remembrance Alliance, que inclui afirmações sobre o controle judaico do mundo, mas também comparações das políticas israelenses de separação étnica com a população palestina com a nazistas e responsabilização dos judeus pelas políticas ou ações israelenses.

Em maio, Peter Stern, diretor de Envolvimento das Partes Interessadas da Política de Conteúdo do Facebook, disse em uma conversa com um representante do AJC que eles “mapearam” alguns elementos da definição de antissemitismo da International Holocaust Remembrance Alliance em suas próprias políticas, mas não as partes que se referem ao Estado de Israel, já que o site não quer penalizar pessoas por criticar Israel.

“Ao não dar esse passo, eles estão aumentando meu medo de que as pessoas no poder estejam permitindo que o anti-semitismo vá sem uma reação forte”, disse Klein. Ele acrescentou que as cartas que enviou ao Facebook sobre a definição foram respondidas com respostas “pro forma”.

Revisionismo Histórico

Greenblatt, da ADL, criticou o Facebook por não tomar uma posição mais firme sobre aquilo que ele define “negação do Holocausto” o trabalho de reavaliação e pesquisa histórica sobre os chamados eventos oficiais do “holocausto judaico” na Segunda Guerra Mundial chamando de “perturbador” que a empresa classifique essas postagens como “desinformação” e não uma forma de “discurso de ódio” contra um grupo protegido.

A posição do Facebook sobre o revisionismo histórico tem sido uma questão importante desde 2018, quando Mark Zuckerberg recebeu críticas generalizadas por sugerir que há uma diferença entre a “negação do Holocausto” que é imprecisa e aquela que é ofensiva.

“Eu sou judeu e há um conjunto de pessoas que negam que o Holocausto aconteceu”, disse ele em uma entrevista com Kara Swisher para o The New Yok Times. “Acho isso profundamente ofensivo. Mas no final do dia, não acredito que nossa plataforma deva derrubar isso porque acho que há coisas que diferentes pessoas erram. Eu não acho que eles estão errando intencionalmente”.

O Facebook ainda permite declarações revisionistas, mas anula postagens que de alguma forma celebram ou zombam do Holocausto ou dos sobreviventes, disse Cutler. Quando questionado se existe algum conteúdo no Facebook que “negue o Holocausto”, mas não seja antissemita, Cutler disse que o site modera esses conteúdos caso a caso.

“Sabemos que muitas pessoas discordam veementemente de nossa posição – e respeitamos isso”, disse Cutler. “Temos uma equipe que se dedica a desenvolver e revisar nossas políticas e agradecemos a colaboração com a indústria, especialistas e outros grupos para garantir que estamos fazendo tudo certo.”


Fonte da notícia: Forward. Publicado originalmente em 13 de agosto de 2020


Notas:

[1] Segundo a Internacional Holocaust Remembrance Alliance, os “exemplos contemporâneos de antissemitismo na vida pública, na mídia, nas escolas, no local de trabalho e na esfera religiosa podem, levando em consideração o contexto geral, incluir, mas não estão limitados” aos exemplos abaixo, que incluem coisas como:

  • Alegar que grupos de judeus possuam algum tipo de controle mundial, “especialmente, mas não exclusivamente, o mito sobre uma conspiração mundial judaica ou de judeus controlando a mídia, economia, governo ou outra sociedade instituições.”
  • Afirmar ou desmentir a historiografia oficial do holocausto judeu e o uso das câmaras de gás na “Alemanha Nacional Socialista e seus apoiadores e cúmplices durante a Segunda Guerra Mundial (o Holocausto).”
  • Acusar judeus como um povo, ou Israel como um estado, de inventar ou exagerar o Holocausto.
  • Acusando os cidadãos judeus de serem mais leais a Israel, ou às supostas prioridades dos judeus em todo o mundo, do que aos interesses de suas próprias nações.
  • Alegar que judeus mataram Jesus ou praticaram/praticam “libelo de sangue”.
  • Negar ao povo judeu seu direito à autodeterminação, por exemplo, alegando que a existência de um Estado de Israel é um esforço racista.
[2] Basicamente, modo geral, a teoria QAnon fala que o atual presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, está travando uma guerra secreta contra um “Estado profundo” ou “Deep State”. Contra uma cabala orquestrada por democratas e estrelas de Hollywood envolvidos numa rede de pedofilia e tráfico sexual.

No Departamento de Energia dos Estados Unidos, o “Q” é equivalente ao mais alto nível de acesso – o Top Secret. Segundo o The Guardian, esta teoria evoluiu a partir do escândalo do Pizzagate. Sobre esse escândalo envolvendo pedofilia e tráfico de seres humanos, você pode ler tudo aqui.

Apesar de o FBi já ter categorizado ligeiramente a QAnon como uma ameaça terrorista em potencial, há vários membros do Partido Republicano que defendem esta teoria e são candidatos às eleições de novembro próximo.

Em finais de junho, o  site britânico de notícias The Guardian afirmou em uma pesquisada realizada e divulgada por eles próprios que havia mais de cem páginas, grupos ou perfis de Facebook ligados à QAnon, além de contas de Instagram. O maior destes grupos contava com 150 mil seguidores e, ao todo, estávamos a falar de cerca de três milhões de pessoas envolvidas de alguma forma com a teoria nas redes sociais.

Em 9 de agosto, quando o mesmo jornal voltou a fazer as contas, o número de páginas, perfis e grupos no Facebook tinha aumentado 34% e envolvia já quatro milhões de pessoas. E não só nos Estados Unidos. Nos últimos meses, a QAnon ganhou defensores um pouco por todo o mundo – do Reino Unido ao Canadá, do Brasil à Hungria, passando por Alemanha, Itália, Holanda ou Austrália.


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