Chronos, Kairós e noção de tempo na mitologia grego-romana

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“Entre os romanos era chamado de Tempus, o breve momento em que as coisas são possíveis. Kairós tinha o poder do movimento rápido que podia passar despercebido aos olhos desatentos, tornando impossível recuperar a visão de sua passagem. Dada à sua natureza difícil, raramente proporcionava uma segunda chance. Na filosofia grega e romana é a experiência do momento certo e oportuno”

Kairós, o deus da oportunidade, era filho de Zeus – o deus dos deuses e de Tykhé, a divindade da fortuna e prosperidade. Descrito como um belo jovem calvo com um cacho de cabelos na testa, ele era um atleta e tinha uma agilidade incomparável. Resplandecente e com a flor da juventude, Kairós tinha duas asas nos ombros e nos joelhos. Se assemelhava a Dionísio; tinha as bochechas vermelhas e a pele delicada.

Sempre sem roupas, ele corria rapidamente e só era possível alcançá-lo agarrando-o pelo topete, ou seja, encarando-o de frente. Depois que ele passava, era impossível persegui-lo, pegá-lo ou trazê-lo de volta. Na entrada do estádio em Olímpia havia dois altares: um era consagrado a Hermes, que simbolizava os jogos e o outro era consagrado a Kairós, que simbolizava a oportunidade.

Entre os romanos era chamado de Tempus, o breve momento em que as coisas são possíveis. Kairós tinha o poder do movimento rápido que podia passar despercebido aos olhos desatentos, tornando impossível recuperar a visão de sua passagem. Dada à sua natureza difícil, raramente proporcionava uma segunda chance. Na filosofia grega e romana é a experiência do momento certo e oportuno. Kairós era o tempo em potencial enquanto Chronos era a duração de um movimento e uma criação.

Chronos, era descrito como o velho, o Senhor do tempo, das estações, da pressão das horas ordenadas pelo relógio e pelos dias, meses e anos determinados pelo calendário. Cruel e tirano, Chronos controlava o tempo desde o nascimento até a morte, aquele tempo comum, real, visível e rotineiro. O Tempo Chronos era o ditador da quantidade de coisas realizadas durante o dia, o tempo burocrático, o tempo humano, o tempo que nunca é suficiente, o tempo que escraviza, preocupa e estressa. Chronos deu origem ao cronômetro e aos medidores do tempo, o tempo dos homens.

“A Mutilação de Urano por Saturno”, pintura a óleo de Giorgio Vasari, século XVI. Presente no teto da sala dos Elementos. Cronos (Saturno) castra seu pai Urano, o deus grego do céu (antes de Zeus). Créditos: Wikimedia Commons

Kairós era descrito como um jovem que não se importava com o relógio, o calendário e o tempo cronológico. Kairós era o tempo que não podia ser cronometrado, o tempo que não pertencia a Chronos porque não previsível, apenas acontecia, por isso chamado de momento ou oportunidade. É o tempo divino que o vento traz, a vida conspira, decide acontecer sem tempo, sem hora marcada, se manifesta instante a instante e permanece eterno. Kairós marca os momentos que se tornam eternos, ainda que tenham sido breves. Os gregos acreditavam que com Kairós poderiam enfrentar o cruel tirano Chronos.

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Os gregos antigos tinham duas palavras para o tempo: Chronos e Kairós. Enquanto Khronos faz referência ao tempo cronológico, sequencial, o tempo que se mede, Kairós é o momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece, a experiência do momento oportuno.

Vivemos no contexto de Chronos, do tempo linear, o tempo que corre sempre para frente. Observamos a nossa idade avançar, o desenrolar de acontecimentos, mudanças, declínios e ascensões. Este é o tempo de Chronos, sempre implacável: algumas vezes cruel, outras vezes benigno, que dita o nosso tempo de vida. Estamos tão condicionados à necessidade de cumprir as expectativas do tempo imposto pelo relógio, que não nos permitimos ser naturais: tornamo-nos mecanizados pela força do tempo que exige de nós cada vez mais tempo.

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Chronos nos torna menos humanos e nos torna mais máquinas, porque está sempre ao nosso encalço exigindo pontualidade, estabelecendo ritmos e metas. Máquinas enferrujam enquanto as pessoas envelhecem. Desde pequenos somos condicionados a Chronos para sermos aceitos, Chronos é severo e amedrontador que receamos ser devorados por ele. Pagamos um alto preço para cumprir as normas do tempo, deixamos de ser quem somos, repetimos trabalhos dias após dia até que aposentando, somos arremessados à depressão do nada fazer.

Em nossa vida estamos sempre lutando contra o tempo tentando distribui-lo entre as nossas diversas atividades diárias. A sensação de estar perdendo tempo com alguma coisa, seja no trabalho ou em um relacionamento, mostra a nossa preocupação com o tempo que escorre e nos deixa insatisfeitos. É o tempo que utilizamos para atender as expectativas externas e mesmo que queiramos otimizar o tempo, não garante a nossa felicidade. Porque para nos sentirmos felizes, é preciso mais do que usar o tempo com eficiência.

Kairós está relacionado à qualidade do tempo vivido, um tempo divino, presente nos momentos especiais e inesquecíveis, que não se perdem no tempo do calendário. Ele flui, vai e retorna, marcando os momentos emocionantes. Refere-se a um instante, ocasião ou momento, que deixa uma impressão forte e única por toda a vida. Por isso, Kairós refere-se a uma experiência atemporal na qual percebemos o momento oportuno em relação à determinada ação.

Quantos momentos Kairós deixamos de viver, por estarmos preocupados com o tempo Chronos: o primeiro sorriso de um filho, uma mão estendida no momento oportuno, o abraço confortante no momento de tristeza, um carinho que arranca a tristeza do coração em um momento de infelicidade. São muitos momentos Kairós, que apesar de breves, fazem a diferença. Quantos momentos Kairós são lembrados depois que alguém se foi e, independente do tempo Chronos que tenhamos vivido com essa pessoa, são os momentos Kairós que deixam as lembranças inesquecíveis.

São as recordações dos momentos Kairós que nos fazem sentir saudade. Quando estamos vivendo os momentos Kairós queremos que Chronos permaneça imóvel, porque queremos que o tempo pare para eternizar o momento. O momento passado é único mas pode ser revivido quando se fecha os olhos para senti-lo novamente. E por permitir sentir novamente, ele também se relaciona ao ressentimento, que é a face negativa de Kairós.

Trazendo o mito de Kairós para o nosso passado, certamente iremos constatar que muitas vezes o tempo das oportunidades se fez presente e o deixamos escapar. Bons negócios, possibilidades de estudos e relacionamentos, chances de perdão e reconciliação, são algumas das aberturas que ocorreram, que poderiam ter atenuado a implacabilidade de Chronos. Este sempre segue o seu curso, não obstante nossas perdas ou ganhos.

Quando vivemos no tempo Kairós aumentam as oportunidades em nossa vida. Basta repensar como surgiram nossas melhores oportunidades: de certa forma, estávamos desprogramados das exigências do tempo cronológico. Para os gregos Chronos representava o tempo que faltava para a morte, um tempo que se consome a si mesmo. Por isso, seu oposto é Kairós: momentos afortunados que transcendem as limitações impostas pelo medo da morte.

Sempre que agimos sob o tempo kairós, as coisas costumam dar certo porque sabemos a hora certa de estar no lugar certo. Por exemplo, quando estamos quase desistindo de algo e resolvemos dar um tempo para a pressão, do nada surgem as pessoas certas que nos ajudam com soluções reais e práticas. Agir no tempo regido por Kairós é similar a um ato mágico. Kairós é o tempo oportuno, livre do peso de cargas passadas e sem ansiedade de anteceder o futuro. Ele se manifesta no presente, instante após instante.

Esse tempo mágico ou oportuno é um convite para nos despojarmos da razão exagerada, cronológica e voltarmos a brincar com o tempo e vivê-lo com leveza e intensidade. O espírito infantil é livre para aprender, criar e pode resgatar a busca da compreensão da totalidade humana. O arquétipo da eterna criança deve encontrar acolhida em nossos corações para que possamos prosseguir na travessia de nossas vidas, aprendendo sempre ou pelo menos tentando, como um eterno aprendiz.


Fonte: Mitologia Grega. Publicado originalmente em 13 de agosto de 2011, transcrição de Christa Savitri. Copyright © de direitos reservados aplicada.


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