A origem do Dia dos Finados e suas manifestações pelo mundo

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No dia 2 de novembro, o mundo cristão celebra o Dia de Finados ou Dia dos Mortos, também chamado Dia dos Fiéis Defuntos. Nesse artigo iremos conhecer as origens dessa tradição e como ela é lembrada pelo mundo.

Segundo o teólogo e filósofo Fernando Altemeyer Júnior, professor de Ciências da Religião da PUC-SP “a Igreja toma a data e ‘batiza’ com significado próprio”, diz Altemeyer. “Mas celebrar os mortos é algo antropológico. Desde o Cro-Magnon (ou seja, das primeiras populações de Homo sapiens) temos ritos funerários e de expectativa do além túmulo”.

O autor e médium espírita francês Léon Denis (1846 – 1927) dizia que o estabelecimento de uma data específica para a comemoração dos mortos, isso é, mais próxima do ritualismo cristão europeu moderno, remonta aos ritos dos druidas do mundo celta, ainda na Antiguidade. Druidas eram sacerdotes de várias camadas sociais e funções espirituais, políticas públicas e administrativas como aconselho, ensino, leis e filosofia dentro da sociedade celta, que acreditavam na continuação da existência depois da morte. Reuniam-se nos lares, e não nos cemitérios, no primeiro dia de novembro, para homenagear e evocar os mortos.

Na Europa dos século I-II, era costume peregrinar e visitar os túmulos dos mártires, rezando pela alma dos falecidos tanto para pagãos quanto cristãos.

Idade Média

Na Idade Média do século V, a Igreja passou a dedicar institucionalmente um dia do ano para rezar por todos os mortos, segundo o credo, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava. Muito antes de a Igreja Católica institucionalizar o Dia de Finados, um livro lançou as bases para como os cristãos acabam tratando os mortos. O de De Cura pro Mortuis Gerenda, de 421, do teólogo Santo Agostinho, ou Agostinho de Hipona (354-430).

A obra de Santo Agostinho trata do culto devido aos mortos. Ele aborda uma série de fatos importantes e interessantes a respeito dos mortos, que até hoje são conservados e respeitados pela Igreja. Entre outras coisas, fala da utilidade da oração pelos mortos, a possibilidade da aparição dos mortos aos vivos e a oração dos santos falecidos a nosso favor. Santo Agostinho aborda questões referentes aos ritos fúnebres, ressaltando que “não deixa de ser marca dos bons sentimentos do coração humano escolher para seus entes queridos que serão sepultados um lugar próximo aos túmulos dos santos.

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No ano de 732, o papa Gregório III autorizou os padres a realizar missas em memória dos falecidos. Dois séculos depois, o abade Odilo de Cluny (878-942), em 998, pedia aos monges que orassem pelos mortos, dando início e oficializando a liturgia de Finados. Mas foi no século XI os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) instituíram a cristandade a dedicar um dia aos mortos.

No século XIII esse dia anual passa a ser comemorado em 2 de novembro, porque o dia anterior, 1, era a Festa de Todos os Santos. Mas isso tem um significado para a liturgia cristã católica. Nela,  o 1º de novembro, comemorado como Dia de Todos os Santos, é uma ocasião em que se reza por aqueles que morreram em estado de graça, com os pecados perdoados. O dia seguinte foi considerado o mais apropriado para fazer orações por todos os demais falecidos, que precisam de ajuda para serem aceitos no céu.  É por isso que no dia 2 de novembro se celebra o dia de Finados.

Como mostra o padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, a doutrina católica fundamenta essa visão em algumas passagens bíblicas como Tobias 12,12; Jó 1,18-20; Mt 12,32 e II Macabeus 12,43-46, apoiadas em uma prática de quase dois mil anos.

A partir do século XV, o feriado se espalhou pelo mundo com a Expansão Marítima dos europeus para outros continentes como a África, partes da Ásia e as Américas. Com o sincretismo cultural, cada parte do mundo celebra esta data a seu modo.

Ainda hoje, na data do dia 2, é comum que o papa no Estado do Vaticano faça uma cerimônia dedicada aos mortos na cripta do Vaticano. É um dia de celebrar as vidas de todos os fiéis falecidos. No Brasil e em Portugal o dia é reservado para visitar os túmulos. Para os católicos, é dia de penitência e recolhimento.

Cristianismo protestante

A influência de Martinho Lutero não foi suficiente para abolir sua celebração na Saxônia de sua época, apesar da sanção oficializada pela Igreja Luterana, sua memória sobrevive fortemente no costume popular dos protestantes históricos da Europa. Apenas em 1816, a Prússia introduziu uma nova data para a lembrança dos mortos, com feriado, entre os cidadãos luteranos: era o Totensonntag (Domingo dos Mortos), celebrado no último domingo antes do Advento. Este costume foi mais tarde adotado também pelos protestantes alemães, ainda que não se tenha espalhado muito além das regiões de maioria luterana na Alemanha.

Na Igreja Anglicana, a celebração do Dia de Finados foi fundida ao da Festa de Todos os Santos. A observância da comemoração foi restaurada, todavia, em 1980, por meio da publicação do livro litúrgico “The Alternative Service Book”, o qual define a data como “Comemoração dos Fiéis Defuntos”.

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Para a Igreja Metodista, são santos todos os fiéis batizados, de modo que, no Dia de Todos os Santos, a vertente, através das suas congregações locais, honra e recorda os falecidos.

Para os espíritas, visitar o túmulo é a exteriorização da lembrança que se tem do espírito querido, é uma forma de manifestar a saudade, o respeito e o carinho, pois segundo consta no “O Livro dos Espíritos”, do francês Allan Kardec, questão 320, a lembrança dedicada aos desencarnados os sensibiliza, conforme sua situação. Entretanto, nada há de solene comparando-se aos demais dias.

O dia dos mortos pelo mundo

Diferentes culturas no mundo celebram o Dia dos Mortos. Muitas vezes, vê-se um sincretismo entre as culturas locais, nativas e o cristianismo ou outras religiões de grande disseminação e influencia no mundo. O importante aqui é salientar a verdadeira diversidade humana, as regionais e culturais de cada povo da Terra que nos tornam ricos e diversos. Diferentemente da padronização multicultural que quer tornar tudo uma coisa só. No interior da Itália, é comum que, quando um parente morre, familiares afixem no portão da casa um aviso fúnebre – muitas vezes decorado com fitas e ilustrado com uma fotografia do falecido, além de um texto semelhante aos anúncios de obituário de jornal.

Ásia

Comunidades budistas da Mongólia e do Tibete acreditam ser necessário devolver o corpo à natureza, para que a alma siga em frente. Assim, têm o costume de cortar o defunto em pedaços e, então, depositá-lo no alto de uma montanha – para que abutres façam o trabalho.

Nas Filipinas, o Araw ng mga Patay (Dia dos Mortos), Todos los Santos ou Undas (referências ao 1º de novembro), são de reunião familiar. As tumbas são limpas e reformadas, velas são acesas e flores são oferecidas. Famílias inteiras acampam em cemitérios, e às vezes passam uma noite ou duas junto às tumbas de seus parentes. Jogos de cartas, comidas, bebidas, cantos e danças são atividades comuns no cemitério. É um feriado de muita importância para os filipinos (depois do Natal e da Semana Santa), e dias de folga são normalmente adicionados ao feriado, mas apenas o dia 1º é considerado um feriado regular

Diferentes grupos étnicos lidam de forma diferente com a morte – e com as práticas funerárias. Os integrantes da cultura Itneg têm o hábito de vestir os defuntos com as melhores roupas, sentarem-no em uma cadeira e colocar um cigarro aceso em sua boca. Benguet, por sua vez, vendam os mortos e os velam ao lado da entrada principal da casa. Já os Caviteño sepultam os mortos fazendo de um tronco oco de árvore o caixão. Os Apayo enterram os mortos sob o chão da cozinha.

O Bon Odori (O-bon お盆 ou Bon 盆), é um feriado budista japonês em honra aos ancestrais mortos. Este festival tem se tornado um reunião familiar na qual as pessoas dos grandes centros voltam à suas cidades de origem para visitar e limpar as sepulturas de seus ancestrais. Tradicionalmente inclui danças típicas. Este festival já existe no Japão por mais de 500 anos.

 

Na Coréia, o Chuseok (ou Hankawi 한가위,中秋节) é um dos principais feriados tradicionais. As pessoas vão para onde os espíritos de seus ancestrais estão consagrados e fazem cultos pela manhã; eles visitam as tumbas de seus ancestrais imediatos para podar as plantas e limpar a área ao redor da tumba, e fazerem ofertas de comida e bebida para seus ancentrais.

Na China, o Festival de Ching Ming ( 清明節; 清明节),festival tradicional chinês que acontece normalmente por volta de 5 de abril no calendário Gregoriano. Juntamente com o Festival do Duplo Nove (重陽節; 重九) no nono dia do nono mês do calendário chinês, é uma época que os chineses cuidam dos túmulos de seus ancestrais. Além do que, pela tradição chinesa, o sétimo mês no calendário chinês é chamado de mês fantasma (中元节; 中元節), no qual os fantasmas e espíritos saem do além para visitar a terra.

No Nepal, durante o feriado nepalês do Gai Jatra (festival da vaca), toda família que tenha perdido um membro durante o ano anterior faz uma construção com bambus, panos, papéis decorativos e retratos dos falecidos, chamado gai. Tradicionalmente, uma vaca guia o espírito do morto no outro mundo. Dependendo dos costumes locais, uma vaca viva, ou uma réplica, são usadas. O festival também é a época de se fantasiar, incluindo temas tanto de manifestos políticos como de sátiras.

África

Em algumas culturas da África, visitas às tumbas dos ancestrais deixando comidas, presentes e pedindo por proteção fazem parte de importantes rituais tradicionais. Um exemplo são os rituais que ocorrem antes do início da temporada de caça.

Em Madagascar, existe o costume de um ritual chamado farmadihana, uma celebração que ocorre geralmente a cada sete anos, em que familiares exumam os restos mortais de seus entes queridos, pulverizando os ossos com vinho ou perfume. Uma banda acompanha a cerimônia – que ocorre de forma feliz.

Em Gana, é costume que o morto seja enterrado em caixões que representem o que ele fazia em vida – do trabalho aos hobbies. Executivos, por exemplo, podem ser sepultados em sarcófagos em forma de carros de luxo; um fotógrafo pode ser enterrado em uma câmera fotográfica gigante; um pecuarista, em um caixão que represente uma vaca.

Américas

Nova Orleans, existe um ritual fúnebre embalada pelo gênero musical. Trata-se de uma procissão fúnebre que mescla tradições africanas, francesas e afro-americanas. Conduzidos por uma banda, os enlutados alternam entre alegria e tristeza. É uma celebração catártica, que procura evocar bons momentos vividos pelo morto.

As celebrações guatemaltecas do Dia dos Mortos são marcadas pela construção de pipas gigantes, além das tradicionais visitas aos túmulos dos ancestrais. O consumo de fiambre – uma comida típica da Guatemala – também é um grande acontecimento, pois é o único dia em que é preparado durante o ano.

No Haiti, tradições vodu, religião oficial do país, misturam-se com as observâncias católicas do Dia dos Mortos, como, por exemplo, barulhentos tambores e músicas são tocados por toda a noite em celebrações pelos cemitérios para acordar Baron Samedi, o senhor dos mortos, e seu descendente, o Gede.

O Dia das Caveiras (Dia de los ñatitas) é um festival celebrado em La Paz, capital da Bolívia em 9 de novembro. Nos tempos pré-colombianos, indígenas andinos tinham o costume de partilhar um dia com os ossos de seus antecessores no terceiro ano após o sepultamento, contudo, somente as caveiras são usadas atualmente. Tradicionalmente, a caveira de um ou mais membros da família são mantidas em casa para tomar conta da família e protegê-la durante o ano. No dia 9 de novembro, a família coroa a caveira com flores frescas, às vezes também as vestindo com peças de roupa, e fazendo oferendas de cigarros, folhas de coca, álcool, e vários outros itens em agradecimento pela proteção durante o ano. As caveiras também são, por vezes, levadas ao cemitério central em La Paz para uma missa especial e bênçãos.

 

No México, uma cerimônia bastante conhecida é o Dia dos Mortos (Dia de los Muertos), é promovido um momento de encontro entre os vivos – que vão celebrar, visitar e honrar seus mortos nos cemitérios Há varias comidas que são próprias dessa época e comportamentos que são esperados numa festa de beleza de cores que sintetiza as crenças da natividade local e do catolicismo hispânico.

A data tem origem na celebração indígena, que honra os falecidos no dia 2 de novembro. Começa no dia 31 de outubro e coincide com as tradições católicas do Dia dos Fiéis Defuntos e o Dia de Todos os Santos. Além do México, também é celebrada em outros países da América Central e em algumas regiões dos Estados Unidos, onde a população mexicana é grande. A UNESCO declarou-a como Património Imaterial da Humanidade.

As origens da celebração no México são anteriores à chegada dos espanhóis. Há relatos que os astecas, maias, purépechas, náuatles e totonacas praticavam este culto. Os rituais que celebram a vida dos ancestrais se realizavam nestas civilizações pelo menos há três mil anos. Na era pré-hispânica era comum a prática de conservar os crânios como troféus, e mostrá-los durante os rituais que celebravam a morte e o renascimento.

O festival que se tornou o Dia dos Mortos era comemorado no nono mês do calendário solar asteca, por volta do início de agosto, e era celebrado por um mês completo. As festividades eram presididas pela deusa Mictecacíhuatl, conhecida como a Dama da Morte (Dama de la Muerte) – atualmente relacionada à La Catrina, personagem de José Guadalupe Posada – e esposa de Mictlantecuhtli, senhor do reino dos mortos. As festividades eram dedicadas às crianças e aos parentes falecidos.

Apesar das festas mexicanas serem bem mais animadas, , os mortos vêm visitar seus parentes. Ela é festejada com comida, bolos, festa, música e doces preferidos dos mortos, os preferidos das crianças são as caveirinhas de açúcar. Segundo a crença popular, nos dias 1 e 2, Días de Muertos, os mortos têm permissão divina para visitar parentes e amigos. Por isso, as pessoas enfeitam suas casas com flores, velas e incensos, e preparam as comidas preferidas dos que já partiram. As pessoas fazem máscaras de caveira, vestem roupas com esqueletos pintados ou se fantasiam de morte.


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