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Santiago Cantera: “O conceito de Espanha nasceu com os visigodos”

O doutor em História e prior do Vale dos Caídos proferiu a conferência “Hispânia-Espanha: o nascimento da Espanha” na Sala de Cultura do ABC

Datar a origem da Espanha tem sido, nas últimas décadas, um grande dilema histórico. Até onde devemos voltar para localizar com precisão sua entrega? Esta é a questão que o doutor em História Santiago Cantera abordou na apresentação de“Hispania-Spania; el nacimiento de España”, organizado pela Aula de Cultura ABC, em abril de 2019. Conhecido por ser um dos grandes medievalistas de nosso país, como destacou Fernando García de Cortázar (diretor da Fundação Vocento) durante sua apresentação, o também Prior do Vale dos Caídos deixou clara sua posição desde o início da concorrida palestra: “O conceito nasceu com os visigodos”.

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Invasores e fundadores

A história dos visigodos, como lembra Cantera, foi esquecida pela sociedade, apesar de sua importância para o futuro da Espanha. A origem de sua presença na Europa Ocidental deve ser buscada no século V; tempo em que, após uma breve viagem, eles se estabeleceram no sul da Gália enquanto olhavam com desejo para os méis que poderiam obter da [então província romana da] Hispânia. Depois de fazer um pacto com Roma, uma potência à beira do colapso após séculos de batalhas, eles entraram na Península Ibérica para destruir os Alanos, os Vândalos e os Suevos em nome de seus novos aliados. Seu futuro poderia ter sido próspero, mas foi interrompido quando foram derrotados na Batalha de Vouillé e forçados a abandonar seus domínios em Tolosa. Diz o provérbio que uma porta se abre quando outra se fecha, e assim aconteceu com eles: perderam a soberania sobre aquela região, mas fundaram em Toledo um novo e próspero reino.

O livro “Hispania – Spania: El nacimiento de España: Conciencia hispana en el Reino”, de Santiago Cantera Montenegro, 2ª edição ampliada publicada em 2016 pelo Editorial Actas

A cidade tornou-se, a partir de então, a ponta de lança da cultura visigótica. Centro político da península desde 554, logo deixou uma marca indelével e decisiva no futuro de nossa história graças (entre muitos outros) ao Rei Leovigildo. “O monarca alcançou a unidade territorial adotando elementos típicos do poder romano e bizantino. A configuração de Toledo como capital ou cidade real, por exemplo, foi uma ideia herdada dos romanos”, acrescenta o doutor em História. Foi assim que se começou a construir o primeiro reino espanhol com a ajuda, ademais, da “fusão da tradição hispano-romana com os diversos elementos germânicos”. Contribuição desta cidade recém-chegada à península.

Segundo Cantera, o último elemento que ajudou a estruturar aquela Espanha primitiva foi a religião. Até o século VI, os visigodos da Hispânia professavam o arianismo (uma crença que negava a divindade de Jesus Cristo). Porém, o rei Recaredo (filho de Leovigildo) decidiu adotar o catolicismo durante o III Concílio de Toledo, realizado em 589. Essa virada facilitou muito a aproximação com os diferentes povos que se instalaram na Península Ibérica. “Grande parte da população hispano-romana era católica, o que produziu uma fratura social intransponível. A mudança permitiu que ambas as civilizações compartilhassem uma fé comum e se fundissem, enfim, em um único reino. Esse foi o germe de nosso país, uma das nações mais antigas”, acrescenta.

Precursores

Embora essa cultura tenha entrado em colapso em 711 com a invasão muçulmana, a estrutura visigótica se tornou uma referência para os reinos e condados cristãos que surgiram no norte da Espanha. Todos eles (futuros arquitetos da Reconquista) se acreditavam herdeiros daquela estrutura forjada ao longo de décadas. E o mesmo aconteceu com os Reis Católicos, considerados por boa parte dos hispanistas como os precursores do país. “Isabel e Fernando tiveram-se como restauradores da monarquia visigótica”, acrescenta.

Este é apenas um dos muitos exemplos que fazem você descartar as ideias tradicionais e afirmar que esta nação foi iluminada no século VI. “Nos últimos tempos, considerou-se que não se podia falar da Espanha até a chegada do século XIII ou mesmo até 1812 , com a Guerra da Independência, mas isso só se deve ao desconhecimento da nossa Idade Média”, diz.

Cantera é também favorável ao fato de que, desde a época de Dom Pelayo, havia um desejo ardente de recuperar a unidade perdida após a invasão muçulmana. Não em vão, nas crônicas de Afonso III (feitas no século IX) já se falava em recuperar aquela Espanha primitiva e sua cultura. Por sua vez, o doutor em História afirma que a herança visigótica foi a chave para a criação de uma Catalunha medieval sempre unida ao resto da península. “Um exemplo é que os habitantes do nordeste da província de Tarragona eram chamados pelos francos da Gália de ‘hispani, revela.


Fonte: ABC Cultura
Publicação: Manuel P. Villatoro
Data: 26/4/2019

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