“Pseudociência” – Tradução de J. O. Bilda

PSEUDOCIÊNCIA[1]

Tradução por J. O. Bilda

O termo “pseudociência”, que literalmente significa “falsa ciência”, às vezes é contrastado inequivocamente com “verdadeira ciência”, como se pudéssemos fazer uma distinção fácil entre os dois termos ou como se apenas uma fraude ou um ignoramus apresentasse algo como científico quando não o é. De vez em quando essa distinção clara fica garantida. Albert Abrams (1863-1924), médico, é um exemplo disso. Por sua medicina charlatã, a Associação Médica Americana mais tarde o apelidou de “reitor dos charlatães do século XX”. Abrams desenvolveu todos os tipos de máquinas de diagnóstico, incluindo o Dinamizador, o Biodinamômetro e o Reflexofone. Outra máquina de diagnóstico, o Osciloclasta Onipotente, poderia determinar a partir de uma gota de sangue, afirmou Abrams, não apenas a doença de alguém, mas também sua filiação religiosa.

Embora algumas pseudociências do final do século XIX e início do século XX possam ser atribuídas à engenhosidade de vigaristas como Abrams, a maioria das pseudociências do período surgiu sob circunstâncias muito mais complexas. Entre essas circunstâncias estavam descobertas científicas sem precedentes, um crescente interesse popular pela ciência, uma lacuna cada vez maior entre alfabetização geral e alfabetização científica e muita incerteza sobre as implicações de novas descobertas científicas. Com as incertezas veio uma fome de mistério, bem como de alguma garantia de que uma compreensão do mundo material não minaria uma sensibilidade espiritual e ética. Talvez existam vestígios dessas fomes em todas as culturas, mas o final do século XIX e o início do século XX tiveram por eles um anseio particularmente agudo. Essas fomes e incertezas forneceram um rico material para os escritores contemporâneos. Mark Twain e outros escritores americanos responderam tanto às condições que convidavam a pseudociência quanto a modismos pseudocientíficos específicos, incluindo mesmerismo, fisionomia, frenologia, eletroterapia, remédios maravilhosos, terapia com água e ocultismo — bem como a novas “descobertas” arqueológicas.

Como já sugerido, algumas definições de “pseudociência” implicam que “falsa ciência” pode ser distinguida inequivocamente de “verdadeira ciência”. Por exemplo, no The Skeptic’s Dictionary (2003), Robert Todd define “pseudociência” como um “conjunto de ideias baseadas em teorias apresentadas como científicas quando não são científicas”. Todd sugere que a distinção entre ciência e não-ciência é clara; em outro lugar, ele sugere que um bom cético identificaria evidências duvidosas e não seria vítima das alegações de pseudocientistas como Abrams. No entanto, para os propósitos deste artigo, as definições de pseudociência mais úteis serão aquelas que permitem alguma ambiguidade, como a definição no American Heritage Dictionary. Lá, “pseudociência” é definida como “uma teoria, metodologia ou atividade científica trivial ou não-científica que parece ser ou é apresentada como científica”. Essa definição permite considerar a pseudociência a partir de várias perspectivas, incluindo sua apresentação (em um extremo, por charlatães), sua recepção (em um extremo, por cientificamente analfabetos) e tensões na própria ciência entre aparência e realidade, entre o intuitivo e o contraintuitivo.

A TRAPAÇARIA DOS ARTISTAS

“A cada minuto nasce um otário.” Essa percepção, ironizada pela primeira vez em 1869, não passou despercebida a charlatães como George Hull, Stub Newell, Charles Dawson e Smith Woodward. Hull causou sensação quando, em 1868, ele e seu cunhado, Stub Newell, fabricaram um fóssil mais tarde apelidado de “Gigante de Cardiff”. Hull era um ateu que havia discutido com um cristão evangélico sobre uma linha de Gênesis: “Havia gigantes na terra naqueles dias” (Gn 6:4). Hull planejou com seu cunhado adicionar mais um “fóssil” aos muitos já descobertos em uma região perto de Cardiff, Nova York. Depois de encomendar três mil libras de gesso e contratar um pedreiro para fazer um “gigante petrificado”, Hull e Newell enterraram o falso gigante em um pântano, onde foi “descoberto” em 1869 por escavadores de poços. No ano seguinte, milhares de curiosos se reuniram em Cardiff, sem se deixar intimidar pelo ceticismo dos cientistas que declararam que o gigante era uma estátua ou uma farsa. As fortunas de Hull e Newell cresciam à medida que cada turista gastava cinquenta centavos para dar uma olhada no gigante fossilizado. No entanto, Hull e Newell foram os “sugadores” finais de P. T. Barnum. Barnum tentou comprar participações no Gigante de Cardiff e, quando foi recusado, fez uma falsificação da falsificação e alegou que Hull havia lhe vendido o original e agora estava exibindo a falsificação. Não só o falso gigante falso de Barnum supostamente atraiu multidões maiores, a citação “otário” é atribuída erroneamente a Barnum quando na verdade foi proferida pelo banqueiro de Hull, David Hannum.

A linha entre pseudociência e ciência, entre dogma e teoria, muitas vezes é mais clara em retrospectiva do que no presente. No entanto, as condições sob as quais a pseudociência prosperou no passado incluem as condições observadas por Mark Twain: situações em que os indivíduos param de fazer perguntas e os buscadores encontram respostas com muita facilidade.

Tenho visto várias pessoas inteiramente sinceras que… acreditavam que, sem dúvida ou questionamento, haviam encontrado a Verdade. Esse foi o fim da busca. O homem passou o resto de sua vida caçando telhas para proteger sua Verdade das intempéries. (Twain, O que é o homem? e Outros Ensaios, p. 15.)

Se Barnum, Hull e Newell foram capazes de atacar não-cientistas crédulos, Dawson e Woodward em 1912 e novamente em 1915 mostraram que os paleontólogos podiam ser igualmente crédulos. Nos poços de cascalho de Piltdown, na Inglaterra, Dawson “encontrou” várias partes de um homem pré-histórico saudado como um “elo perdido” entre macacos e humanos. Presumivelmente, Dawson e seu companheiro Woodward foram os que enterraram o falso “elo perdido”, que mais tarde foi determinado ser um crânio humano conectado com uma mandíbula de macaco. Embora o paleontólogo americano Henry Fairfield Osborn estivesse cético sobre a primeira “descoberta” de Dawson, ele se tornou um crente entusiasmado quando Dawson “encontrou” o segundo fragmento de crânio. Ao contrário do Gigante de Cardiff, que foi exposto como uma farsa em um ano, os vestígios de Piltdown foram aceitos como autênticos por quase cinquenta anos.

No meio século entre as falsas descobertas do Gigante de Cardiff e do Homem de Piltdown, modas pseudocientíficas prosperaram em ambos os lados do Atlântico. Entre os vigaristas do período havia alguns que supostamente esperavam ensinar uma lição. Em 1908, Douglas Blackburn admitiu que ele e G. A. Smith nunca se comunicaram telepaticamente, como vinham afirmando no último quarto de século. Ao tentar justificar sua chicana, Blackburn afirmou que sua farsa “se originou no desejo honesto de dois jovens de mostrar quão facilmente homens de mente e treinamento científicos poderiam ser enganados ao buscar evidências em apoio a uma teoria que desejavam estabelecer” (Kurtz, p. 235).

Quer a maioria dos pseudocientistas fosse ou não inteligente o suficiente para reconhecer as vulnerabilidades dos “homens de mente científica”, eles certamente eram inteligentes o suficiente para reconhecer as vulnerabilidades daqueles que não tinham treinamento científico. Foi o auge do capitalismo desqualificado e das maneiras de ganhar dinheiro rápido às custas da credulidade dos outros. Praticantes de frenologia, fisionomia, mesmerismo, teosofia e espiritualismo prosperaram. Frequentemente, os falsários que realizavam esses ofícios se entregavam aos preconceitos predominantes — racismo, por exemplo, no caso de frenologistas e fisionomistas — bem como aos desejos predominantes — por maravilhas, milagres e conexões espirituais.

Na esteira da teoria evolucionista de Darwin, muitas pessoas temiam que a ciência minasse a religião, o que talvez tenha alimentado o interesse pelo ocultismo e pelo espiritualismo. Médiuns espíritas, como o empregado aqui, referem-se a charlatães que afirmavam que podiam convocar espíritos e fantasmas e se comunicar com eles, às vezes com a ajuda de dispositivos como um ponteiro em forma de coração chamado prancheta, que soletrava respostas em um tabuleiro Ouija, às vezes durante sessões espíritas, sessões realizadas em salas semiescurecidas, onde a médium parecia entrar em transe para convocar seus espíritos. Entre os médiuns espíritas mais conhecidos estavam Helena Petrovna Blavatsky (1831–1891), uma professora de piano que virou amazona de circo que se tornou mundialmente famosa por suas alegações psíquicas; Eva C. (1886–?), nascida Marthe Béraud, que “materializou rostos de espíritos” apresentando quadros amassados ​​em salas escuras; e Edgar Cayce (1877–1945), um fotógrafo que acreditava ter poderes de clarividência. Blavatsky, Cayce e outro médium, Rudolf Steiner (1861-1925), todos alegaram que podiam consultar os registros akásicos[2], registros que deveriam conter dados sobre tudo o que era futuro, presente e passado, a fim de contatar espíritos. Em 1875, Max Auzinger desenvolveu um “princípio da arte negra”, um truque de conjuração de cobrir andaimes e suportes ao apresentar objetos como trombetas e pandeiros “flutuantes” durante as sessões.

Alguns modismos pseudocientíficos simplesmente apelavam para um apetite comum por eventos surpreendentes e impressionantes. Entre os mágicos mais habilidosos estava Harry Houdini (1874-1926), mundialmente famoso como artista de fuga e mágico. Os “mentalistas” Washington Irving Bishop (1856-1889), Joseph Dunninger (1892-1975) e Erik Jan Hanussen (1889-1933) alegaram que tinham poderes paranormais que lhes permitiam realizar feitos sobre-humanos, como “dirigir de olhos vendados” (navegar uma carruagem com os olhos vendados), leitura da mente e psicocinese (fazer objetos se moverem, supostamente pelo poder da mente). Em 1882, F. W. Myers cunhou o termo “telepatia” para descrever a capacidade de humanos ou animais de perceber os pensamentos dos outros sem depender dos sentidos. Não apenas pessoas, mas animais foram apresentados por seus talentos maravilhosos. Clever Hans, um cavalo, atraiu multidões ao longo da década de 1890 por causa de sua “habilidade” de fazer cálculos matemáticos. Talvez a teoria mais surpreendente do período tenha sido a teoria da “terra oca”, sugerida pela primeira vez pelo astrônomo Edmond Halley e “melhorado” em 1870 por Cyrus Reed Teed, que acreditava que o mundo é oco e que pessoas vivem dentro dele.

Talvez a amostra mais rica da mania pseudocientífica do final do século XIX seja encontrada na ficção de Mark Twain, onde se encontram referências à sangria (A Majestic Literary Fossil), medicamentos de patente fraudulenta (The Gilded Age), eletroterapia (A Connecticut Yankee), tratamentos de água (The Adventures of Tom Sawyer), e mesmerismo (sua autobiografia), entre muitos outros. Muito do humor em The Innocents Abroad depende da familiaridade de seus leitores com tópicos científicos e pseudocientíficos atuais.

A “CIÊNCIA” DO ANALFABETO CIENTÍFICO

A palavra “cientista” não existia até que William Whewell a cunhou em 1822 para descrever as pessoas que frequentavam a Associação Britânica para o Avanço da Ciência (BAAS). Em meados do século, a ciência havia se tornado um marcador de status nacional; na virada do século, o Prêmio Nobel foi estabelecido como um dos prêmios internacionais mais prestigiosos que já existiram. Os cientistas eram muito respeitados e muitos americanos queriam saber mais sobre eles e suas descobertas. A maioria dos americanos, no entanto, não tinha o treinamento científico para distinguir entre ciência e pseudociência.

O interesse popular pela ciência não se deveu à quantidade de informação que as novas ciências produziram. A ciência do século XIX ainda não era a “grande ciência”, um termo cunhado por Alvin Weinberg em 1961 para descrever a rede multibilionária de pesquisas financiadas por empresas e governos que produz enormes quantidades de informação. O que era sem precedentes, no entanto – e o que fascinava e incomodava os leitores comuns de jornais do século XIX – era o grau em que as suposições científicas desafiavam muitas das “formas de conhecimento” religiosas e sociais predominantes. Se os cientistas estavam mexendo em uma panela epistemológica, homens e mulheres comuns ficaram imaginando qual poderia ser a base para responder às perguntas mais básicas da vida, qual poderia ser a base para buscar a verdade. O desconforto que algumas pessoas sentiam as deixava vulneráveis às “soluções rápidas” oferecidas por vigaristas como Abrams. O anseio por um mundo perdido e menos material deixou outros famintos pela pseudociência de vários ocultistas e espiritualistas. A mera novidade de mudanças científicas sem precedentes aguçou o apetite daqueles que buscavam o sensacional e que posteriormente buscavam qualquer artifício maravilhoso ou milagroso. Quer os americanos comuns gostassem ou não do que a ciência poderia estar lhes mostrando, eles não podiam deixar de reagir às questões que a ciência colocava diante deles.

Mais e mais americanos foram capazes de ler no século XIX. As revoluções agrária e industrial no início do século levaram à queda das taxas de mortalidade e a um enorme aumento na população. Paralelamente ao aumento da população, houve um aumento na alfabetização, em parte devido aos movimentos de autoajuda do início do século XIX e à democracia jacksoniana do “nós podemos fazer isto sozinhos”[3]. O século XIX também testemunhou um enorme aumento de publicações, incluindo muitas revistas não referenciadas que permitiriam que seus autores levantassem questões controversas – e talvez pseudocientíficas – sem verificação. O grande público alfabetizado e sua liberdade de expressão no século XIX podem ter tido uma dupla face: por um lado, mais pessoas tinham potencial para ler sobre questões científicas; por outro lado, havia mais locais para fraudes descaradas e pseudociência deliberada.

Embora os leitores comuns de romances e jornais estivessem frequentemente interessados ​​em questões científicas, poucos estavam preparados para criticar o que poderiam estar lendo. Por quais padrões alguém julgaria os méritos de uma afirmação científica? Esses padrões estavam apenas sendo estabelecidos dentro de subdisciplinas científicas emergentes, e muitas vezes foram perdidos no leitor médio.

Parte do distanciamento entre o leitor comum e o cientista deveu-se a mudanças na profissionalização. No início do século, os estudiosos eram respeitados por serem homens da Renascença, por serem generalistas que sabiam um pouco sobre muitas coisas diferentes; no final do século, os estudiosos se especializaram e o ideal renascentista foi amplamente esquecido. De acordo com Mary Jo Nye, as mudanças científicas que ocorreram durante o século XIX superaram as mudanças anteriores e posteriores. Foi durante esse período que o treinamento científico e as práticas de pesquisa que de muitas maneiras permaneceram inalteradas desde os tempos medievais mudaram para o modelo moderno de universidades financiadas pelo governo equipadas com laboratórios de pesquisa, onde se espera que os membros do corpo docente produzam e publiquem pesquisas originais.

Foi também neste século que os periódicos revisados ​​por pares[4] que publicam pesquisas originais se estabeleceram dentro de normas disciplinares, juntamente com o aumento de sociedades especializadas que serviram como portas de entrada. O número de cientistas e artigos científicos havia duplicado aproximadamente a cada quinze anos desde o início do século XVII; em meados do século XIX, a publicação nas ciências tornou-se especializada, muitas vezes coincidindo com a legitimação de novas subdisciplinas. Representativa da mudança da alfabetização geral para a especializada é a mudança na Nature, publicada pela primeira vez em 1869. David Roos argumenta que os editores da Nature inicialmente visavam “criar um foro de nível superior, mas ainda geral e acessível para a discussão de assuntos científicos” (p. 162), mas essa especialização logo eclipsou a acessibilidade.

O leitor americano médio, então, provavelmente se interessaria por questões científicas, mas dificilmente acharia acessíveis os artigos publicados em revistas científicas revisadas por pares. O que quer que esse americano médio lesse provavelmente seria mediado por um não-cientista, muitas vezes em romances, periódicos e poesia. Assim, a “Era da Ciência” do século XIX foi amplamente povoada por não-cientistas que aprenderam sobre ciência em textos escritos por não-cientistas.

Em 1870, periódicos como Galaxy, Atlantic Monthly, Appleton’s Journal, North American Review e Harper’s New Monthly começaram a acomodar o interesse de seus leitores pela ciência, embora suas “colunas científicas” não tivessem sido revisadas por cientistas praticantes. Foi em 1920 que os jornalistas estabeleceram padrões profissionais para reportagens científicas, e apenas sob pressão da American Medical Association, que se opunha a histórias chocantes em publicações populares como a American Weekly de William Randolph Hearst. Como Martin Gardner observa, este semanário publicaria histórias sobre “homens que podiam ouvir transmissões de rádio através de incrustações de ouro em seus dentes” e “rãs encontradas vivas nas pedras angulares de edifícios antigos” (p. 4).

No final do século, a ficção científica como um gênero autoconsciente estava bem estabelecida com a publicação de “The Man of the Year Million”, de H. G. Wells, The Time Machine e War of the Worlds. Embora esses textos incluam “falsa ciência” no sentido de esquemas imaginários, Wells esperava que seus leitores soubessem que eles eram imaginários. Mesmo quando o leitor sabe que um romance é ficção, alguns elementos da ficção podem viver no folclore pseudocientífico, como foi o caso de Vril, a energia cósmica descrita em The Coming Race, que capturou a imaginação da ocultista Madame Blavatsky e do “inventor” John Keely.

CIÊNCIA INACABADA OU CIÊNCIA EM FABRICAÇÃO

Em meados do século XIX, a ciência não era mais principalmente uma vocação para cavalheiros amadores, mas uma vocação para profissionais. No entanto, os cientistas também podem cometer erros e alegações pseudocientíficas. Às vezes, o mesmo indivíduo estava espetacularmente errado sobre uma coisa e brilhantemente certo sobre outra. Enquanto os não-cientistas não tinham treinamento para distinguir ciência de pseudociência, os cientistas tinham treinamento, mas muitas vezes não conseguiam distinguir absolutamente entre pseudociência e ciência, exceto em retrospectiva.

Entre os físicos famosos que generalizaram do físico para o metafísico estavam Rudolf Clausius, que em 1865 cunhou o termo “entropia”, e William Thomson (Lord Kelvin), que em 1854 cunhou o termo “termodinâmica”. Em 1875, Lord Kelvin foi coautor de um livro, The Unseen Universe, que argumentava que a energia se move entre mundos visíveis e invisíveis. As alegações metafísicas desses físicos seriam consideradas pseudocientíficas pela maioria dos físicos do século XXI. Psicólogos e físicos buscavam uma teoria unificada do espírito e das forças materiais. William James, que muito contribuiu para a psicologia do século XIX, acreditava na mediunidade da espiritualista Leonora Piper (1857-1950), uma dona de casa de Boston que conduzia sessões pseudocientíficas. Mais uma vez, alguns dos indivíduos mais brilhantes do período também aceitaram como factuais coisas que não o eram.

Além disso, alguns campos que se pensa serem “ciências” no início do século XXI estavam realmente mais próximos das “artes” do século XIX, incluindo a medicina. Entre a compreensão limitada de bacteriologia, infecção e doença, por um lado, e o aumento da publicidade e medicamentos patenteados não rotulados, por outro, médicos sinceros podem cometer quase tantos erros quanto seus colegas charlatães, algo que Mark Twain não deixará esquecer. Embora os vendedores de óleo de cobra possam ter representado o pior do charlatanismo, o médico sincero pode não ter ajudado muito até que o Pure Food and Drug Act de 1906[5] forçou a rotulagem de medicamentos e até que a penicilina e outros antibióticos fossem descobertos duas décadas depois.

Dentro das instituições científicas, pouco aconteceu na última metade do século XIX na ausência de intenso debate, seja sobre as capacidades mentais, a tabela periódica, as interpretações probabilísticas da termodinâmica, o elétron, os raios X ou a relatividade geral. No calor desses debates, teorias fracas e pseudocientíficas competiam com aquelas eventualmente aceitas como científicas. Geralmente, é apenas em retrospectiva, após os debates terem sido resolvidos, que se pode determinar o que é “verdadeira ciência” e o que é “falsa ciência”. Além disso, às vezes a “falsa ciência” serve como um espaço reservado para uma teoria “verdadeira” subsequente.

James Clerk Maxwell, o físico escocês que morreu em 1879, afirmou que “é uma coisa boa ter duas maneiras de ver um assunto e admitir que existem duas maneiras de vê-lo. Sustento que o principal mérito de uma teoria temporária é que ela deve guiar o experimento sem impedir o progresso da teoria verdadeira quando ela aparecer” (citado em Nye, p. 72).

Embora Maxwell entendesse que suas afirmações científicas eram, na melhor das hipóteses, provisórias e não seriam confirmadas até algum tempo no futuro, alguns cientistas foram menos críticos e fizeram afirmações que se aproximam da “falsa ciência”, da pseudociência. Mesmo assim, a fronteira entre o “verdadeiro” e o “falso” nem sempre é clara. Franz Josef Gall (1758-1828), médico e pai da frenologia, abriu caminho para legiões de charlatães que enganaram os curiosos do século XIX com análises de caráter fátuas e a leitura de pancadas na cabeça. No entanto, embora a frenologia tenha sido uma próspera indústria pseudocientífica durante grande parte do século XIX, não se pode dizer que Gall era um simples pseudocientista. Sua suposição de que os inchaços na cabeça se correlacionam com certos traços de caráter é falsa, mas sua ideia de que diferentes locais do cérebro podem ser responsáveis por diferentes funções não é totalmente equivocada.

Pode-se talvez simpatizar com a situação das vítimas comuns da pseudociência quando olhamos para as experiências de cientistas que, embora treinados para serem céticos, suspenderam suas faculdades críticas diante de algum desejo avassalador. Por exemplo, em 1903, logo após a descoberta dos raios X, o físico francês René Blondlot acreditava ter descoberto uma nova forma de radiação, que ele chamou de raios N em homenagem à sua universidade em Nancy, na França. O físico americano Robert Wood removeu secretamente o objeto “radioativo” de Blondlot durante uma das demonstrações de Blondlot, mas Blondlot passou a contar os raios N. Não há razão para duvidar de sua sinceridade, embora haja todas as razões para pensar que sua vontade de acreditar o levou a imaginar manchas de luz quando não havia nenhuma.

Mais ou menos na mesma época, Gustav Geley debruçou-se sobre o espiritualismo pseudocientífico de Eva C., embora fosse um físico consagrado. Da mesma forma, Charles Richet, o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1913, endossou as alegações de médiuns espíritas como Eva C. e William Eglinton. No início do século XX, Sir Oliver Joseph Lodge , um cientista que fez trabalhos pioneiros em rádio e pesquisas sobre raios, acreditava ter tido contato com seu filho Raymond, morto na Primeira Guerra Mundial . Peter Demianovich Ouspensk, matemático e místico russo, tentou conciliar o racionalismo ocidental e o misticismo oriental, e Sir William Matthew Flinders Petrie, um talentoso arqueólogo, acreditava que a Grande Pirâmide do Egito foi construída na forma de uma mensagem profética. Em todos esses casos, pode-se especular que os desejos irresistíveis dos cientistas os levaram a acreditar na existência de algo para o qual não há evidências. Se indivíduos altamente treinados como esses podem ter lapsos de ceticismo científico, pode-se certamente entender o entusiasmo da maioria cientificamente analfabeta no século XIX.


REFERÊNCIAS

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Wells, H. G. “The Man of the Year Million.” 1893. In Apeman, Spaceman, edited by Leon E. Stover and Harry Harrison. London: Penguin, 1968.

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Wells, H. G. War of the Worlds. 1898. London: Heinemann, 1951.

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Gould, Stephen Jay. The Mismeasure of Man. Rev. ed. New York: Norton, 1996.

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Roos, David. “The Aims and Intentions of Nature.” In Victorian Science and Victorian Values, edited by James Paradis and Thomas Postelwait. New Brunswick, N.J.: Rutgers University Press, 1985.


Notas

[1] Tradução do artigo de Martha D. Patton para a Encyclopedia.com. Cf. Pseudoscience. American History Through Literature 1870-1920. Disponível em: <https://www.encyclopedia.com/history/culture-magazines/pseudoscience>. Acesso em: 28 dez. 2021. Nota do tradutor.

[2] Citados pela teosofia e antroposofia, como noutras correntes esotéricas do budismo e orientalistas em geral, são um pretenso compêndio de todos os eventos, pensamentos, palavras, emoções e intenções humanas já ocorridos no passado, presente ou futuro. Os teósofos acreditam que eles são codificados em um “plano de existência não-físico” conhecido como plano etérico. Não há qualquer evidência científica para a existência de tais registros. N. do T.

[3]  Movimento político que defende mais democracia para o homem comum, idealizado pelo ex-presidente americano Andrew Jackson (1767-1845) e seus apoiadores. A política de igualdade de Jackson mirava acabar com o que ele definia como o “monopólio” do governo pelas elites. Jeffersonianos se opunham às elites também, mas favoreciam os homens mais educados e instruídos, enquanto os jacksonianos davam pouco atenção a estes, preferindo o homem comum. Os Whigs eram os herdeiros da Democracia Jeffersoniana em termos de promover escolas e faculdades. Cf. GROEN, Mark. The Whig Party and the Rise of Common Schools, 1837–1854. American Educational History Journal. 35, 2, 2008, p. 251–260. N. do T.

[4] Nos meios acadêmicos, a revisão por pares, revisão paritária ou arbitragem (peer reviewrefereeing), é um processo utilizado na publicação de artigos e na concessão de recursos para pesquisas. Consiste em submeter o trabalho científico ao escrutínio de um ou mais especialistas do mesmo escalão que o autor, que na maioria das vezes se mantêm anônimos. N. do T.

[5] Em 30 de junho de 1906 o governo dos EUA aprovou o Pure Food and Drug Act, a primeira de uma série de leis destinadas a regular a qualidade dos alimentos e produtos farmacêuticos. A lei proibia os fabricantes de vender produtos com rótulos incorretos, de adulterar alimentos com ingredientes inaceitáveis ​​e de enganar os consumidores com alegações falsas. A aprovação da lei marcou uma vitória tanto para certos fabricantes que desejavam evitar a regulamentação, quanto para alguns políticos que questionavam a constitucionalidade da lei. Cf. The Reader’s Companion to American History. Boston: Houghton Mifflin Co., 1991. N. do T.

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