Os Retratos da Ignorância Pelo Brasil

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A tão afamada educação de qualidade não é — e jamais foi — um direito da sociedade brasileira, mas sim um privilégio exclusivo das elites que controlam o país. Segundo pesquisas realizadas pelo Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) e difundidas pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), menos de 10% da população é proficiente, ou seja, possui capacidade de se expressar e entender plenamente o que lê e escuta. De acordo com dados apresentados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem cerca de 12 milhões de analfabetos por todo o Brasil, e o número se multiplica por quase doze vezes ao considerar os que são semi-analfabetos. Isso significa que mais da metade dos brasileiros são incapazes de compreender um texto simples ou um pequeno discurso com menos de um minuto de duração, e que pouco mais de 7% dentre eles não sabem ler. Entretanto, a ignorância e o desinteresse intelectual predominam até mesmo na órbita daqueles que são classificados como instruídos. Diversos portais da internet relatam com frequência que o povo brasileiro não possui o hábito de ler (são menos de cinco livros por ano, e metade são inteiramente lidos). Além disso, apenas 5% da população lê jornais e/ou revistas, e levando em conta o acesso à informação digital, esse número tende a diminuir cada vez mais.

Com base nos levantamentos feitos pela socióloga Zoara Failla, o principal motivo que atrapalha a leitura dos brasileiros é a falta de tempo (33%). Todavia, outros levantamentos realizados pelas mesmas instituições mostram que o povo brasileiro dedica menos de catorze horas mensais à leitura contra quase cento e dezessete horas à televisão, cento e oito horas à internet (fora do ambiente de trabalho) e setenta e seis horas ao rádio (sem noticiários). Antes dos livros, a população prefere se encontrar com a família e/ou amigos (46%), assistir vídeos na internet ou acessar redes sociais (21%). Um contraste patente.

Contudo, o mais tenebroso é que, se as pesquisas atestam o descaso total do governo e da sociedade para com a educação e o conhecimento por um lado, também é revelado um avanço frenético de concepções fundamentalistas pelo outro, principalmente as de cunho religioso. Poucos percebem que essa miríade de eventualidades se deve a falência completa do nosso sistema educacional. As maiores razões que levam o povo brasileiro a se afastar cada vez mais da leitura estão profundamente relacionadas à baixa escolaridade: não gostam (58%); não têm paciência (24%); possuem dificuldades (11%); não sabem ler (7%). Esse panorama aterrador consegue se agravar com o relato acerca das leituras específicas dos professores. Quando perguntados sobre os últimos exemplares lidos, 49% simplesmente respondeu que não leu nenhum livro ultimamente, e 23% citaram livros religiosos ou materiais derivados e/ou alusivos aos mesmos.

Livros religiosos que fazem uso constante do dogmatismo aparecem muito à frente nas preferências de leitura dos brasileiros, em todas as classes sociais, níveis de escolaridade e faixas etárias. Na lista dos escritores, alguns poucos nomes são citados (geralmente por algumas de suas obras serem leitura obrigatória nas escolas), tais como José de Alencar e Machado de Assis, ou alguns autores de best-sellers, como Paulo Coelho, Augusto Cury, George R. R. Martin e J. K. Rowling. Porém, o domínio absoluto é dos nomes relacionados à difusão religiosa e espiritualista, como os de Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Roger Bacon, Fábio de Melo, Marcelo Rossi, Edir Macedo, Silas Malafaia, R. R. Soares, G. K. Chesterton, C. Taze Russell, Ellen G. White, Helena Blavatsky, Chico Xavier, Allan Kardec, Luiz Gasparetto e outros.

Apesar de tudo, não se pode concluir toda a questão entre o credo e a discência como um produto único e invariável. É sabido que a religião moldou os costumes responsáveis pelos modos de operação e vivência das mais variadas sociedades, e isso também abrange as esferas responsáveis pela educação e justiça. No Brasil, tal realização ocorreu por conta da Igreja Católica, assim como em Portugal. E as tradições católicas e protestantes são opostas no tocante à gestão educacional — por mais que as atuais diferenças sejam cada vez mais imperceptíveis.

Inicialmente, e antes da transição da Idade Média para a Idade Moderna europeia, os católicos decidiram educar a elite, e não é por acaso que as instituições de ensino ligadas às arquidioceses são frequentadas até hoje pelas pessoas de alto poder aquisitivo. Então veio o Século XVI e, quase no final de sua segunda década, aconteceu a Reforma Protestante, que tinha o objetivo de educar a todos. Durante a famigerada Idade das Trevas, a Europa possuía mais de 95% de analfabetos, e o intuito dos protestantes era modificar tudo isso para que os serviços pudessem experimentar uma melhora decisiva diante das transformações nos modelos políticos e econômicos do período, haja vista que os serviços sempre foram uma questão de demanda, e quem demandava os serviços no Velho Continente era um povo de escolaridade nula e miserável em diversos aspectos. Isso era resultado das políticas elaboradas pela matriz católica, que determinava os padrões culturais e atuava na regulamentação da sociedade por estar acima da própria coroa. Ademais, a vontade dos protestantes em fixar um novo princípio religioso era imensa, dado que havia a intenção de formar uma nova hegemonia cultural, e não há nada que funcione melhor dentro disso que os artifícios propostos pelas religiões. Sintetizando: era necessário alfabetizar o pobre porquê assim ele poderia ler a Bíblia e iria convencer o outro pobre a fazer o mesmo.

Em vista disso, os católicos deram início aos movimentos que compuseram a Contrarreforma para fazer experimentos a fim de reverter a situação, e foi através desses projetos que a Companhia de Jesus foi concebida. Daí a citação sobre os centros de ensino mantidos com o apoio da Igreja Católica no parágrafo anterior, pois enquanto o clero ficava responsável pela formação dos docentes, a nobreza financiava tal preparo em troca de isenção nos impostos. Essa proposta vingou e fez com que a ideia dos jesuítas funcionasse perfeitamente, impedindo que as convicções protestantes dominassem a Europa. Mas a conclusão deste evento não termina aqui uma vez que a disputa entre católicos e protestantes estabeleceu dois métodos de transmitir a educação: um para as elites e outro para o povo em geral. A primeira classe ficou com o modelo de construção sociocultural e analítica, enquanto que a plebe recebeu instruções para constituir mão de obra e ratificar a metodologia da nobreza sem discussões. Tal como Portugal, o Brasil ainda é vinculado a esse formato de educação aristocrata, e não é a toa que ambos se encontram em péssimas posições no índice de desenvolvimento educacional.

Através dessas inferências, é possível entender mais uma parte da causa que faz o político não investir verdadeiramente em educação no Brasil: ele não irá receber o voto que almeja com isso. É preferível direcionar a candidatura para temas relacionados ao consumo, lazer, segurança pública, transportes, etc. simplesmente porque o conhecimento não é um valor importante para o país devido aos métodos empregados para fundamentar os costumes locais. Em sentido geral, o estudo é visto pelos brasileiros como uma simples ferramenta que se utiliza para obter algo mais interessante, e isso se traduz em dinheiro na grande maioria das vezes. É por isso que é tão fácil transformar a educação em mercadoria, ignorando as cláusulas constitucionais que a garantem como um direito universal e inalienável da população.

Faz mais de meio século que nenhum de nossos governantes lotados no Palácio do Planalto dão a verdadeira e merecida atenção que se deve prestar ao sistema educacional, e onde o Governo se omite, o Estado falha. Basta que uma só ação defeituosa na estrutura jurídica, política ou cidadã seja tratada como algo fútil para que o despautério, a ignorância, a selvageria, a desumanidade e as desigualdades irrompam pelo país. Praticamente toda a parcela pobre da sociedade brasileira — que constitui a maioria esmagadora do povo — nunca teve acesso ao ensino de qualidade, haja vista que são muitos os colégios de referência educacional com mensalidades custando até quase cinco salários mínimos. A conclusão é evidente: o individualismo é acentuado e refletido no despreparo do povo em agir de bom grado pelos interesses comuns da sociedade, e a maior lástima é a defesa dessa idiossincrasia com inúmeras justificativas sórdidas e obtusas por todos os tipos de pessoas. Tamanho descaso é o verdadeiro gatilho dos distúrbios que surgem por conta dos diversos tipos de preconceitos, fabricando múltiplas formas de intolerância, passionalidade, violência e egoísmo, conservando as mazelas sociais em todos os níveis e impedindo o desenvolvimento nacional pleno.

O Brasil está se tornando, gradativamente, em um lugar repleto de opiniões extremistas e desestruturadas, baseadas no mais simples senso comum. Isso não se deve apenas pelo alto grau de parlamentares com discursos demagógicos baseados no credo, mas também pela mesma postura ter sido adotada por ministros do Executivo e do Judiciário, assim como uma profusão de intelectuais, pensadores e formadores de opinião das mais variadas posições ideológicas também fizeram, difundindo animosidade e fanatismo. É extremamente preocupante saber que quase metade dos professores não estão dando a devida atenção à leitura, e que mais de um quarto da população brasileira jamais adquiriu um só livro. E o mais alarmante é constatar que, os poucos que leem, dão preferência a escritos como “A Caixa Preta de Darwin”, “Eugenia e Hereditariedade”, “Diálogos Sobre o Anarquismo”, “O Manifesto Libertário”, “Maquiavel ou A Confusão Demoníaca” ou “Muito Mais Que 5inco Minutos”. Sim, há algo de muito ruim acontecendo e, devido às consequências, eventos piores estão por vir.


REFERÊNCIAS

— ABY WARBURG: Histórias de Fantasma Para Gente Grande

— BERTRAND RUSSELL: A Filosofia Entre a Religião e a Ciência

— EDWARD MACNALL BURNS: História da Civilização Ocidental I

— ERIC HOBSBAWN & TERENCE RANGER: A Invenção das Tradições

— JESSÉ SOUZA: A Elite do AtrasoA Invisibilidade da Desigualdade BrasileiraA Tolice da Inteligência Brasileira

— JOÃO UBALDO RIBEIRO: Política – Quem Manda, Por Que Manda, Como Manda

— MAX WEBER: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

— NORBERT ELIAS: O Processo Civilizador I; O Processo Civilizador II

— PAUL VEYNE: Quando Nosso Mundo se Tornou Cristão

— PAULO FREIRE: Ação Cultural Para a LiberdadeA Importância do Ato de LerConscientização e Alfabetização – Uma Nova Visão do Processo

— PHILIPPE ARIES & GEORGES DUBY: História da Vida Privada I; História da Vida Privada II

— ZOARA FAILLA: Retratos da Leitura no Brasil

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