O Surrealismo das Crenças de Adolescência Permanente e Suas Utopias Financeirizadas

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Em uma série de conversas acerca dos mais variados assuntos com os meus amigos neste fim de semana, consegui perceber, de maneira quase súbita, algo terrível que vem se alastrando violentamente na sociedade brasileira como se fosse um tumor maligno: a insustentabilidade monetária da juventude hodierna. Isso está se tornando um padrão entre os indivíduos na faixa dos vinte até os quarenta anos. Logicamente se aplica também aos que já ultrapassaram os quarenta. No entanto, o propósito é demonstrar com nitidez que o funcionalismo da economia depende cada vez mais dos jovens.

Se pensam que fui impregnado por uma emulsão divina ou algo relativo, descartem tal fantasia. Não acredito em coisas do tipo e muito menos venho para transcrever uma banda hieraticamente desenhada. Acontece é que também fui operário e experimentei a desvalorização humana em função da voracidade manufatureira. Trabalhei nos setores de produção em uma gráfica, recebendo pouco mais do que o salário-base da categoria à época. Não obstante, era cobrado de forma desigual e vexatória. Cheguei a labutar por 34 dias sem direito a uma só folga. Felizmente tive coragem suficiente para me livrar dessa condição de vassalo industrial em virtude da indignação que aquela conjuntura infeliz me trouxe. Me demiti sem qualquer cerimônia e voltei imediatamente para o curso de nível superior, onde me graduei jornalista. Se aqui estou tratando de uma questão desta grandeza, é porque não apenas sei do que abordo com minhas pesquisas, mas também por ter sofrido o ataque de modo físico e mental.

Nessa atual fase de financeirização mundial — que já dura praticamente meio século —, o sistema econômico não está possibilitando boas chances de um futuro decente para as próximas gerações, inclusive a juventude atual. Os jovens adultos se afogam cada vez mais com despesas fúteis e dívidas onerosas, que dão sustento a este capitalismo parasitário. Moças e rapazes são esmagados com muita frequência pelas cobranças e disputas para cruzar a linha de chegada da graduação universitária e do mercado de trabalho em primeiro lugar, e todos aqueles que não conseguem são tidos como energúmenos e fracassados perante a opinião pública em geral, e terminam jogados ao relento como se fossem lixo pouco depois. Acabam no ostracismo, desiludidos e sem qualquer tipo de apoio. Não é difícil encontrar quem recrimine tamanha desumanidade. Porém, isso é o bastante para que um verdadeiro sentimento de revolta popular apareça e insurja contra essa maldição?

Tenho certeza que não sou o primeiro e nem serei o último a vislumbrar essa desgraça que tem contribuído e muito na degradação social do Brasil. De certa forma, isso é bom, dado que serão mais pessoas conscientes a respeito desta hecatombe que provoca uma infinidade de outros problemas, e não há como resolver uma consternação desse nível eliminando a realidade inserida.

A realidade nacional exibe uma multidão de jovens incapazes de arcar com as despesas que mantém uma casa, seja por falta de dinheiro ou de sensatez. Mas em um país teleguiado pela especulação do sistema financeiro, como é o caso do Brasil, o principal distúrbio será fabricado pelos rendimentos insuficientes. Em um local exageradamente consumista, as regras são ditadas pelo poder de compra e pela divulgação enfática dos itens materiais adquiridos, e isso também acarreta em imaturidade e ausência de empatia.

Ainda sobre questões materiais, é preciso lembrar que os salários miseráveis do tempo presente impossibilita os jovens de poupar, e muito menos faz com que esse tipo de vontade se manifeste. Isto posto, não conseguem adquirir um imóvel para dar início a uma vida adulta e nem constituir suas próprias famílias. Acabam se manietando nas casas de seus pais, tios ou avós, e tal fato provoca um sentimento de humilhação a esta juventude, produzindo mais indivíduos com crises de fúria e de depressão. Então, por consequência da raiva e da angústia, essas pessoas começam a acessar tudo àquilo que possam custear buscando alguma distração. Exemplos são as redes sociais, aplicativos de músicas e de séries, festinhas em excesso, autocuidado, resiliência e outros procedimentos similares. O problema é que nada disso mitiga a perturbação emocional, e sim amplifica o trauma causado pela sensação de impotência e desgosto. Um círculo vicioso despontou: necro-economia; vassalagem financeira; distúrbios psíquicos; antropofobia e talentos desperdiçados. A fórmula abominável do fracasso socioeconômico da contemporaneidade. Um produto que tece uma conjuntura tão hedionda que é bem difícil encontrar palavras a fim de classificá-los.

O modelo capitalista de hoje enclausurou os jovens em um delírio de adolescência perpétua, na qual são maltratados como se fossem serviçais. Não os deixa crescer e nem os liberta, contudo são regularmente cobrados para que “assumam responsabilidades”; para que “ajam como adultos” e para que “resolvam seus problemas sem depender de ninguém”. São mantidos nesta condição de eternos adolescentes para serem explorados ao máximo, e quando não possuem mais nada para oferecer ao sistema, acabam sendo descartados. Este protótipo de saga distópica parece uma brincadeira de mau gosto, mas infelizmente é verdade e acontece o tempo todo. Aliás, duvido muito que não esteja ocorrendo com você.

Não estou cometendo exageros ao emitir tais conclusões, e uma verificação na realidade social do Brasil é capaz de provar isso de maneira rotunda. Transtornos psicossomáticos e tentativas de suicídio aumentaram consideravelmente entre os mais jovens. Eles não conseguem morar sozinhos e se relacionam menos, seja de forma enamorada ou amigável. Até as relações sexuais diminuíram por conta do desânimo. A juventude está falida e corre o risco de não se aposentar, tanto pelas contrarreformas sórdidas que os governos vão implementar quanto pela falta de empregos satisfatórios. Uma situação estável como a do pai ou de algum tio-avô que escolheu ir morar em outra unidade federativa? Esses sonhos estão ficando cada vez mais distantes.

Sendo assim, não é surpresa que o número de jovens que desistem do capitalismo formal também aumente. Além de se posicionarem contra, ainda debocham do modelo. Mas a falta de luta contra as falhas do sistema os impede de compreender que as distorções vão muito além da segurança monetária. Se a juventude está abandonando a ideia de ser capitalista, é porque este mesmo esquema já desistiu de si e deles. E abaixo dessa superfície que lembra um conto de ficção científica, existe um fato bem mais inarticulado e macabro…

A juventude contemporânea encontra-se no ponto de convergência de múltiplas guerras econômicas, e um evento dessa magnitude não foi vivenciado por nenhuma outra geração em um só átimo da humanidade.

A automação industrial suprimiu uma grande quantidade de cargos para concentrar a manufatura em pequenos grupos que controlam imensos conglomerados de tecnologia. A financeirização do capitalismo manteve quase tudo inacessível por intermédio da transformação de recursos em dívidas, o que trouxe invisibilidade ao problema e deu suporte ao pensamento de estratificação socioeconômica. E décadas de ataques aos direitos sociais fizeram com que o básico utilizado para sobreviver se tornasse algo hiperbolicamente inatingível. Em um país que o salário mínimo representa quatro vezes menos do que deveria, e a renda per capita de mais de 80% da população não atinge um salário e meio, tratar de planejamento financeiro a fim de obter a casa própria, o carro do ano, casamento e filhos com os novos adultos se enquadra facilmente como sarcasmo, devido às condições expostas. Uma autêntica piada de humor negro.

E os jovens? O que fazem para lidar com um estorvo tão crítico?

Se advêm de famílias bem-sucedidas, recorrem a elas de maneira incessante. Tão alucinada que se assemelham aos dependentes químicos. O socorro pecuniário é para tudo: aluguel, refeições, viagens, universidade, prestação de veículo e combustível, plano de saúde, drogas (sejam as lícitas ou não), etc.O auxílio em si não é reprovável. Ter vergonha disso chega a ser um paradoxo, até porque, caso realmente fosse uma atitude horrorosa, ninguém com o mínimo de consciência pediria ajuda. Se há algo de errado nisso, é simplesmente a forma em que o dinheiro é ou deixa de ser empregado. Todavia, as pessoas ficam constrangidas é com o pensamento de terceiros sobre tal questão, isto é, o que os demais irão achar?

É por isso que a sociedade não percebe e, consequentemente, fica sem modos de debater uma atribulação superior: a juventude encontra-se totalmente aparelhada, parecendo doentes em fase terminal que necessitam de equipamentos hospitalares para se manterem vivos. Até os que não se encaixam como morosos e irresponsáveis são incluídos neste cenário.

Já os adultos jovens que não possuem familiares ricos — a imensa maioria — estão em um quadro bem pior. Como podem obter uma boa solução? Não é uma pergunta fácil de ser respondida, e muitos acabam recorrendo aos entorpecentes. Sim, é verdade que moças e rapazes sempre usaram drogas, sejam legalizadas ou não, porém, existe uma diferença cristalina entre fumar um cigarro diário e fumar mais de um maço, ou consumir álcool para se divertir a cada uma ou duas semanas e consumir todos os dias. Fora isso, ainda temos os adictos em comprimidos, opioides e alcaloides, que sentem a vida emperrada e coberta pela escuridão, vagando sem esperança pelas avenidas de cidades que outrora comportavam indústrias renomadas, mas que agora estão falidas. A juventude está literalmente tentando se automedicar das dores provocadas pelas abstrações do capitalismo financeirizado, e não dá importância aos efeitos colaterais. Para eles, qualquer coisa é válida para dar fim ao sofrimento.

E aqueles que são bravos o bastante para não remediar a dor mnêmica com narcóticos, são normalmente forçados a adotar profissões frágeis unicamente para que tenham onde dormir sem passar fome e frio. Um exemplo? Notem a imensurável aparição de mulheres que cobram determinados valores em troca de exibições sexuais em câmeras da Internet. Elas são chamadas de camgirls e executam tais apresentações a fim de custear os estudos, a moradia e a educação física. Algumas também oferecem serviços de acompanhante para eventos formais, inclusive como prostitutas.

Não tenho a mínima intenção de exercer falso moralismo e arruinar o texto logo agora com uma porção de beatices, no entanto quero sim pedir atenção para algo que este quesito um pouco isolado me fez perceber: as moças não optaram por isto como se fosse um sonho profissional, mas sim porque acabaram submetidas ao neocolonialismo mental do sistema econômico apodrecido que as jogaram em dificuldades financeiras. É um fenômeno bem comum das sociedades decadentes, e em todos os sentidos, de acordo com os próprios acontecimentos históricos que descrevem mulheres oferecendo o corpo e suportando inúmeras humilhações para se sustentar. O Brasil é um país que costuma reprovar as indústrias do sexo dos Estados Unidos e da Europa Oriental, e também condena fabulosamente a prostituição do Sudeste Asiático, inclusive acentuando o infortúnio que isso traz às crianças locais, vítimas do tráfico infantil com propósitos libidinosos. Entretanto, a parte queixante não possui capacidade suficiente para ligar os pontos que formam essa infelicidade global, e terminam igualmente sem entender o que se passa. O neoliberalismo está fazendo com que nossas irmãs, primas e amigas se transformem em objetos de depravação. Contudo, este fato não recebe muita importância pois todos se encontram ocupados demais glorificando a libertação feminina, que não é nada além de um acréscimo da extorsão que a financeirização sincrética acarreta. Assim, a população fica impedida de refletir quais motivos levam o sexo a permanecer como mercadoria bruta e integralmente capitalizada, manipulado como um item de ágio no mais alto grau da insanidade justamente quando ocorre a trituração da esfera social.

E o que acontece com os homens que não descendem de famílias ilustres e não podem ser mercantilizados sexualmente em razão da demanda quase nula? Adentram no campo da prestação de serviços digitalmente informais, como motoristas de aplicativos e expedientes de tarefas comuns de relativa complexidade. Mesmo que estas atividades terciárias ajudem na “diminuição” das taxas de desemprego, continuam sendo uma mera ilusão de avanço. Ou melhor, até que viabilizam uma pequena melhoria, todavia isso ocorre exatamente para que nada seja resolvido com efeito. O benefício proporcionado é exclusivamente fugaz, dado que os jovens não podem fazer nada disso para sempre. Não se trata unicamente de não serem carreiras prósperas e seguras, mas sim incumbências que não dispõem de investimento algum no ser humano além do capital. Não há preocupação emocional e nem social. Portanto, é uma outra configuração de venda corporal por inteiro, posto que não disponibiliza maneiras de aperfeiçoar a mente e a alma, o que debilita o caráter de forma irrevogável. Não quero dizer que as pessoas devam se privar de dirigir automóveis pela madrugada ou então que renunciem às performances eróticas em salas de bate-papo online com a finalidade de custear seus apartamentos e faculdades, ou se é apenas o que desejam para si diante do lucro fácil. Afinal de contas, tais indivíduos são cidadãos e desempenham suas tarefas de obrigação interpessoal, e os métodos que lhes fornecem recursos não é contrário às leis vigentes no país. A partir do momento que pagam seus impostos, têm o direito de fazer o que acharem melhor, desde que os demais não sejam prejudicados, lógico.

Notaram a alusão pertinente ao termo “prejuízo”? Ela faz com que novas indagações venham à tona:

• Os jovens precisariam fazer tudo isso se o atual sistema de exploração financeira não fosse tão abjeto e esquálido?

• Eles optaram por isso de forma consciente ou estão apenas desesperados atrás de dinheiro e falsa afirmação?

• Qual é o preço que todos nós iremos pagar quando estas são as únicas opções possíveis?

Na prática, o que seria uma camgirl além de uma reles cortesã para a maioria de seus espectadores? E os motoristas de aplicativos digitais? São vistos como o que além de fretadores automotivos? O neoliberalismo é algo tão miserável que se disfarça para conservar ofícios extremamente arcaicos e os reapresenta como se fossem inovações magníficas. Não faz diferença o antenome ou o número da geração, pois a tática é a mesma de sempre. Sem contar que o espírito de época do Ocidente vem sendo arquitetado pelo sistema financeiro desde a Revolução Francesa, e não o contrário. É dessa forma que se fabrica uma horda de prisioneiros mentais. E o que seria um prisioneiro senão o indivíduo obrigado a executar trabalhos cansativos e desagradáveis em troca de migalhas? Os operários de hoje continuam proibidos de desenvolver seus pensamentos, sonhos, aspirações, intelectos, criatividades e imaginações, tal como se verificava na realidade dos escravos de ontem.

O sistema forjado pelo capitalismo especulativo tornou-se o principal aniquilador da juventude. Confina moças e rapazes em uma espécie de adolescência infinitiva, não permitindo que amadureçam e se transformem em adultos soberanos, com boas profissões, empregos compatíveis e relacionamentos sérios. Os jovens estão virulentamente atrelados a uma situação desta categoria porque não existe maior rentabilidade fixa para a Quarta Revolução Industrial — que já está em vigor — do que um punhado de leigos que idolatram o consumo suplicando pelo cativeiro das fantasias. Caso sejam acometidos pela tristeza, podem se furtar acessando uma página de um website qualquer em seus telefones ultra modernos, ou então se curvando perante às substâncias tóxicas. Os controladores desse mecanismo estão realmente agradecidos, até porque são eles quem dirigem todas essas maquinações detalhadamente.

Todos que sabem raciocinar corretamente e dispõem de conhecimentos sociológicos básicos — e não agem de má-fé — já notaram que o atual modelo capitalista representa a mais indecente forma de espoliação mundo afora. Mas qual é o verdadeiro significado disso sobre o horizonte que retrata o desmoronamento social do Brasil contemporâneo? É uma pergunta quase retórica, uma vez que o sistema de financeirização econômica atua feito carrasco e meretriz isocronicamente em todas as faixas etárias. É o coeficiente que oportuniza a licitação dos seres humanos na menor das ofertas para exigir o máximo de retorno. A tal da mão invisível não cuida de ninguém; ela golpeia através dos cânticos neoliberais, prometendo um sucesso monetário que não intercorre. Por causa do dogma estabelecido, as ponderações acabam sendo neutralizadas. Desse modo, os indivíduos permanecem insistindo em algo que jamais deu certo, e as maiores vítimas dessa motricidade são os jovens. Trabalham por um baixo custo pecuniário em detrimento de um altíssimo valor psicológico. A juventude está se acomodando a qualquer tipo de profissão que a permita acessar um lenitivo falso e improcedente à epistemologia apenas para sobreviver repleta de transtornos.

O neoliberalismo crasso não está produzindo os cientistas de amanhã, nem escritores, artistas e cidadãos lúcidos em geral, especialmente no Brasil. É claro que alguns podem e irão surgir, mas grande parte tem se voltado ao servilismo inconsciente. Estagiários acima dos 30 anos, viciados em narcóticos e bebidas alcoólicas, extenuados pelo conteúdo nefasto das redes praticamente antissociais. Pessoas que nunca apreciaram o gáudio de ter um bom emprego que as cause um sentimento de utilidade verídica mediante ao trabalho exercido, fadadas a viverem nas residências de seus pais devido aos estipêndios somíticos que recebem. Essa juventude não foi concebida para se desenvolver, e sim para acatar as ordens das gerações mais antigas, que também são teleguiadas pelos desmandos da especulação financeira. Envelhecem e não adquirem uma só experiência de vida. Até quando são envolvidos pelo ímpeto da raiva, não conseguem externar — o máximo que ocorre são reclamações indiretas que não ultrapassam o ambiente virtual.

Esse é o progressismo tão badalado que os pós-modernos fazem questão de exaltar? O que há de revolucionário nisso? É apenas um novo método de elaboração de súditos. O famoso alistamento para imprimir uma casta de trabalhadores subservientes e eternamente disponíveis para atender a nobreza no modo automático. O que exercem continua sendo mão de obra pobre e nada mais. A ignescência para tanto está nos desejos banais que, mesmo sendo grotescos e inúteis, são capazes de acorrentar todos os que não alcançam uma boa evolução intelectual. E uma conformação social parecida com uma aldeia estratificada, que tem suas propostas de serviços definidas nas piores condições remuneratórias, com uma cobrança megalomaníaca que atemoriza os jovens a vender suas energias precipitadamente, sem direito a refletir para que uma escolha adequada seja feita, pode ser classificada como um espaço democrático e evoluído? Isso é o que chamam de ascensão da sociedade? Uma tirania maquiada? A ditadura do sistema financeiro neoliberal é sinônimo de prosperidade e independência? Onde está a paz, a fartura, a serenidade e o desenvolvimento do Brasil? O que temos é um local estilhaçado, que mal pode ser identificado como um país, e que corre um grave risco de piorar em razão desta fase de adolescência perene.

Algo visivelmente importante se esvai quando a juventude é traficada pelo neoliberalismo com a permissão da sociedade, e seu nome consta na bandeira nacional: ordem e progresso. No momento em que se aprova a manutenção da cultura de trabalhadores escravos, não haverá evolução nacional. Aliás, isso é o principal motivo que os faz desistir das causas nacionais, dos estudos, da liberdade e da democracia. Qual ser humano estará disposto para exercer a verdadeira cidadania numa situação dessas, que os mantêm diariamente fatigados? Saem de casa nas primeiras horas e retornam nas últimas. Quem é capaz de protestar conscientemente rodeado de traumas, depressão, estresse, pensamentos suicidas e exaustão? O sistema impede que tantas feridas sejam curadas, fazendo com que jovens, assim, passem a adorar os utensílios que também são responsáveis por essa violência normatizada.

Olha, esses websites de relacionamentos são ótimos para nós! Por favor, não acabem com os aplicativos de séries, de transportes e de lanches! Não podemos viver sem tudo isso!”

É muito difícil culpar os jovens por isso, dado que estão seguindo a padronização imposta. E quando todos são controlados inescrupulosamente pelo sistema, quem mais poderia “resgatá-los” além do mesmo? A financeirização produz a moléstia para depois vender o antídoto. É dessa maneira que a emboscada neoliberal torna-se visível: “venda sua integridade para o mercado enquanto seu corpo ainda pode trabalhar bastante, ou irá morrer de fome e será esquecido por todos! E isso vale para as mulheres, que ninguém mais irá querer daqui a uns dez anos! Não será de todo mau porque vocês ganharão uns trocados e poderão consumir desenfreadamente.”

Mesmo após os enigmas relatados, ainda existe uma resistência contrária a toda essa intempérie. São poucos os jovens, é verdade, mas são perseverantes e austeros. Pragmáticos, decididos e radicais. Estão se levantando contra o sistema devido ao fato do mesmo ter falhado com eles, e não se importa em fazer um pedido de desculpas. Essa insurreição é o que reverbera a esperança reformadora. Mesmo que alguns não compreendam o tamanho da devastação neoliberal de um modo preciso, já possuem um valor inestimável por não aceitarem as imposições do rentismo. Não se pode trocar uma só moça ou rapaz com essas qualidades por lacaios do dinheiro, independente das circunstâncias.

Piterson Hageland

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador stricto-sensu de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.
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2 thoughts on “O Surrealismo das Crenças de Adolescência Permanente e Suas Utopias Financeirizadas”

  1. TEXTO INCRÍVEL
    Parabéns!

    Já tinha tido lampejos do que disseste, mas nunca conseguiria por no papel da forma que conseguiu.
    A Agenda é essa mesmo: Extender a juventude ao máximo e depois descarta-los. E eles nem notam. Hoje um rapaz ou moça com seus 35 anos age como um jovem adolescente e nem percebe.
    Eu, hoje com 41, tive inteligência para fugir dessa gama toda de armadilhas muito bem descritas.
    Nada como olhar para o futuro ainda no passado.

    Abraço!

  2. EXCEPCIONAL!

    Boa tarde aos camaradas!

    Ler este artigo foi como ler uma autobiografia do que vivo atualmente. Possuo dívidas, estou noivo porém minha mulher ainda mora com os pais dela e vice-versa, porém mês passado fui desligado de onde trabalhava. Estou estudando para qualificar-me em minha área, porém, as “cobranças” familiares crescem, mesmo que eu tenha e mantenha o orgulho de não pedir uma prata à meus pais, pois inconscientemente me parece que os adultos de hoje, esqueceram de suas ancestralidades, não sabendo criar novos “adultos”. (Falo isso pois já sou pai -padastro- e tenho inúmeras responsabilidades, e mesmo assim os devaneios domésticos tentam me “proteger” do mundo, ao invés de ajudar a obter a tão sonha ~estabilidade financeira~).
    Logo menos sei que retornarei ao mercado, pois estou realizando alguns netwokings, entretanto, entristece-me ver esta juventude perdida, totalmente desprovida falando epistemologicamente. Este i-mundo colocou em prática de fato planos como o Kalergi, e aqui em nossas terras, os protocolos dos sábios de zion realmente estão em agenda avançada, só um tolo recusa-se a enxergar. Ou o cego errante que jamais teve o correto direcionamento.
    Triste.. Cada insight do artigo revela aquilo que deveria ser óbvio: A regra, e não a exceção, que inclusive, particularmente vivencio. Escolas e certificações técnicas públicas e privadas que criam, metaforicamente falando, macacos de apertar botão, como se estivéssemos na segunda revolução industrial, e a mídia mainstream glorificando o novo mercado… HAHAHA, o jovem de hoje tenta adentrar ao mercado “do futuro”, pagando caro (Exemplo as Academis de SAP), e depois minguam até conseguirem alguma suposta colocação no mercado.
    Mercado do futuro é simplesmente aquilo que haverá demanda, e não somente demanda de recurso humano, mas que não seja submetido ao corporativismo interno. (O exemplo supracitado retrata exatamente o que deixo subjetivado. E entenda recurso humano não apenas trabalho braçal, mas tudo que é, em teoria, ainda difícil de ser automatizado, ou viavelmente substituível).
    Minha vontade era de pegar todos os tópicos do artigo e destrincha-los em testemunho, mas seria chover no molhado, portanto em síntese, aconselho os camaradas:
    Cuidem de suas famílias, e seus mais íntimos amigos, não deixem de realizar o árduo trabalho de formiga, de, sem pre que possível, abrir os olhos de seus amados(as), a insurgência deve ser feita do micro ao macro, pois o macro já foi à muito dominado, e não adiantará termos nacionalistas em um futuro “progressista”, sem que estes estejam minimamente saudáveis fisicamente, mentalmente e espiritualmente. Procurem alcançar alguma prosperidade financeira, mas com lucidez, para não deixarem se levar pela sinarquia, o tão chamado “patrimônio” deve ser sustentável, e o fortalecimento de sua prole deve ser a máxima prioridade, a fim de que no futuro possamos ter combatentes, em todos os sentidos possíveis, do que os leitores deste sítio possam já ter imaginado.
    Quero crer que meu comentário possa ter um tom demasiado desanimador, mas trata-se apenas da mais trivial constatação, a esperança deve ser fundamentada e não dogmática, devemos alimentar nossas raízes e cuidar daqueles que devem ser de fato, cuidados, abraçar o mundo é possível apenas para aqueles que possuem os tentáculos desenvolvidos, cujos sabemos quem são.
    Lutem, leiam, trabalhem, meditem e não percam a determinação nem por um só momento, as conseqüências já foram acima mostradas, e não sejamos como os infelizes desta tal geração Z..

    Aos camaradas, meus mais sincero abraço,

    Pedro Conejo

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