O Consenso de Washington no Brasil

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Na reta final de 1989, economistas, representantes de organizações financeiras internacionais e agentes do governo dos Estados Unidos foram convocados para uma conferência em Washington a convite do Institute For International Economics. Essa reunião teve como objetivo definir quais medidas seriam aplicadas nos países periféricos situados na região meridional do globo por consequência de suas dívidas públicas. O resultado dessa convenção foi chamado de Consenso de Washington.

A importância dessa reunião foi notada principalmente pela sintetização de diversos itens, antes esparsos, da programação neoliberal para o sul do planeta, elaborados pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial. No entanto, a corporação convocadora já havia realizado uma conferência em nível mundial com as mesmas instituições, resultando no documento Towards Economic Growth in Latin America. Como de costume, sua elaboração contou com a ajuda de economistas sul-americanos, tais como Mário Henrique Simonsen.

A estrutura dessa imposição disfarçada de acordo tem como base os conceitos da supremacia do livre mercado acima da democracia e, sobretudo, da soberania nacional, pois pregam a subordinação das esferas sociais e políticas ao campo financeiro, ocultando este último com a palavra “economia”. Na análise efetuada, são lembradas resoluções obtidas por governos de países com longa duração de mandatos, tais como Cingapura e Coreia do Sul. Em função disso, também se fala sobre “excesso de democracia”. Por se tratar de um axioma opaco, ele pode causar problemas no tocante à “liberalização” das politicas fazendárias de países austrais — como o Brasil —, dado que tal medida possibilitaria a difusão de células não comprometidas com a ideologia neoliberal no hemisfério sul.

O modelo de modernização econômica definido pelos países hegemônicos subvenciona, portanto, as reformas de prospecto neoliberal com o discurso de “cooperação entre nações”, porém, deixa de lado questões como o desenvolvimento do Estado democrático de direito e a superação de gravíssimas mazelas sociais. É óbvio que isso tudo não passa de uma consequência, pois esse é o famigerado princípio da “economia de mercado que se regula sozinha”, mas que jamais foi aplicada neste mundo repleto de oligopólios promovidos pelo devaneio dos contos da “mão invisível”.

Segundo os participantes do “consenso”, a incrível “liberdade” das ações de oferta e procura é capaz de resolver instantaneamente todas as adversidades sociais relacionadas à pobreza, tais como a diminuição de impostos; aumento salarial; habitação; saneamento; saúde; educação; telecomunicações; avanço tecnológico; distribuição de energia; etc., ou, na melhor das hipóteses, seriam questões solucionadas imediatamente após a primeira fase. Por conta da “liberalização”, tudo aconteceria em decorrência da economia orgânica. Assim sendo, aquilo que deveria ser apenas um recurso módico é transformado em um conceito acima do bem e do mal, ignorando valores culturais, religiosos, ecológicos e até os de prosperidade econômica das mais variadas sociedades espalhadas por todo o mundo. Nisso, pelo menos, há uma convergência inegável entre o neoliberalismo e o economicismo marxista, pois ambas as doutrinas são economicamente fundamentalistas.

É através dessas ideias e diretrizes que surgem jargões como “o Estado mínimo possui o máximo de iniciativa”, ou “tudo aquilo que for estatal sempre será de péssima qualidade”. Contudo, toda essa “liberalização” é definida unicamente por eles e, muitas vezes, possui tantas ou mais regras que o Estado. Com esse tipo de “liberdade”, a coerção se torna desnecessária, já que a governabilidade, como tanto se divulgou, seria conquistada pela “fragmentação do Estado”.

O consenso ignora que a dívida dos países meridionais foi contraída através de empréstimos impostos a “contragosto” dessas nações, haja vista que seus habitantes não foram consultados sobre isso. Ministros da área econômica colaboraram com os objetivos do sistema financeiro internacional à época, e o momento de elevada liquidez permitia que as ofertas de empréstimos fossem feitas a juros negativos. Entretanto, os juros eram flutuantes. E essa expressão é tão mística, que nossos “ingênuos” políticos do tesouro não souberam entender. Como são ingênuos, não é mesmo?!

Esses industriosos avaliadores ignoraram também que os prazos de amortização das dívidas contraídas eram inferiores aos de desenvolvimento dos projetos de investimentos subsequentes. Independente do escopo almejado pelos países credores, os banqueiros são, por via de regra, estritamente rigorosos para conceder empréstimos, pois exigem comprovação das garantias plenas de que os retornos desses projetos asseguram os seus devidos ressarcimentos. Por que essas avaliações não foram feitas durante o processo de montagem das dívidas exorbitantes do Brasil? Mas, considerando que tenham sido, havia outras intenções além das pautas desenvolvimentistas? E a estratégia de transformar os juros negativos em juros estratosféricos posteriormente, dado o momento que os principais valores das dívidas estivessem substancialmente consolidados? Também foi por acaso? Eram esses banqueiros canalhas e/ou incompetentes? O ônus do fracasso comercial não deveria, por conseguinte, ser compartilhado pelas duas partes, sobretudo pelo lado indutor, que nunca sabe o que fazer com a elevada liquidez decorrente das divisas originárias da exportação de produtos primários? E os múltiplos casos de propinas amplamente distribuídas entre as autoridades financeiras envolvidas não se caracterizam como eventos de indecência descomunal? Enfim, que tipo de avaliação foi utilizada de fato para que tal consenso fosse estabelecido?

Há quem afirme que os “ingênuos” ministros brasileiros se baseavam na crença (qual?!) de que o sistema financeiro internacional oferecia plena segurança e perspectivas extensas. Ignoraram (“talvez” por acaso) que, durante o embargo do petróleo na década de 1970, a nação detentora do poder de emitir moeda de referência internacional rompeu, de forma unilateral e abrupta, a paridade dólar-ouro, se desfazendo dos compromissos assumidos em Bretton Woods para garantir e manter o equilíbrio da ordem financeira internacional? Ao destruir o único elo de credibilidade que sustentava esses acordos definidos ainda antes do fim da Segunda Grande Guerra, o terrível impacto de sua ação foi desconsiderado e a estabilidade e consistência que os ianques prometeram preservar foi inteiramente desmontada sem a menor cerimônia. Diante de tantas infrações, qual era a confiabilidade que sobrava?

Em razão desse amontoado de injunções abusivas e de “incompetências” (para não dizer outra coisa…), os países devedores foram lançados no abismo da insolvência enquanto suas elites, composta por políticos e empresários corporativistas, se tornavam arquimilionários inexplicavelmente junto com seus principais cúmplices estrangeiros. Muitos daqueles que não eram, viraram banqueiros. E com a elevação violenta das taxas de juros — algo sem precedentes na história —, o Brasil e os outros países meridionais acabaram impossibilitados de honrar com esse serviço criminoso de suas dívidas, pois a média que os bancos do consenso passaram a requerer sobre suas receitas de exportação era de mais de 80%. É possível imaginar algum método de pilhagem e exploração mais cruel que este sobre um povo na atualidade? E o mais revoltante é o fato de que existem nativos desses países que se beneficiam profundamente com essa situação! Pior: existem pessoas pobres nesses países — a maioria da sociedade — que defendem os que praticam esses atos repugnantes, e são esses mesmos atos que tornam as sociedades cada vez mais pobres!

Por conta dessa bajulação popular que essa turma de banqueiros continuam ditando as regras nos países periféricos como o Brasil. Mas essa farra com o Estado soberano de diversas nações ocorreu transversalmente. Embora o teto de empréstimos permitido para cada banco nos Estados Unidos seja de até 15% de seu capital a um país contratador, o economista brasileiro Luiz Fernando de Paula informou em seu livro Sistema Financeiro, Bancos e Financiamento da Economia – Uma Abordagem Keynesiana que dezenas de bancos ianques chegaram a “emprestar” mais de 60% de seu capital para o Brasil, sem contar com as cooperativas de crédito.

John Foster Dulles, antigo secretário do tesouro dos Estados Unidos, disse o seguinte durante os eventos que culminaram no Golpe de Estado na Guatemala em 1954:

“Não é necessário o uso de armas quando se pode conquistar um território através do controle de sua economia via sistema financeiro”.

Ou seja, como fazem conosco por intermédio de uma multidão de tecnocratas levianos, de políticos subservientes, de intelectuais extasiados e de futriqueiros mercantilistas pintados de repórteres.

Desde meados da década de 1970 que o economista e filósofo Lyndon LaRouche, através de sua revista Executive Intelligence Review (EIR), descreve as principais instituições que compõem o Governo Mundial: o Banco Mundial; o Fundo Monetário Internacional (FMI); o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) e o Grupo dos Sete (G7). Também existem outras organizações fabricadas para servirem aos interesses dos bancos e das corporações transnacionais, de entidades “sem fins lucrativos” e de fundações promotoras de investimentos. Não é nenhuma surpresa que tais facções busquem demolir a soberania completa dos Estados Nacionais a fim de substituir toda a autodeterminação dos povos por simulacros de países fantoches — denominados como “Estados Regionais” — sem nenhum compromisso com a sociedade desses territórios desnacionalizados, embora estejam integrados a eles por conta de uma simbiose feita pelos conglomerados de mídia através de publicidades aberrantes.

Atuando como intermediário regional do poder financeiro mundial, o “Estado Regional Brasileiro” tem compromissos apenas com o bem-estar daqueles que afrontam o Estado-Nação dentro dos critérios ardilosos da mão invisível do livre mercado. É comparável, portanto, a uma espécie de empreendimento vão, sem uma história verídica e uma cultura própria, inserido no território nacional brasileiro com o propósito de exercer um papel absolutista sobre o campo econômico, submetendo todo o resto às suas ordens. E os resultados dessa desnacionalização são catastróficos, haja vista que o Governo Mundial deixa um rastro de miséria e desolação por onde passa. Segundo Carlos Fuentes, escritor e antigo diplomata mexicano nascido no Panamá, o México estava em vias de se converter em dezenas de Chiapas muito em breve. A Bolívia e o Paraguai ainda sofrem com instabilidades gerais devido às suas políticas desorganizadas e crises financeiras que levaram esses países a muitos conflitos civis desde a década de 1980. Já na Argentina, a rebelião que ocorreu na província de Santiago del Estero no encerramento do Século XX parece estar sendo relembrada com bastante entusiasmo em outras partes do país…

As medidas sintetizadas por esse consenso e praticadas no Brasil e em diversos outros países austrais já eram parte de um assunto público, pois tiveram origem nas instituições que participaram da convenção e estavam sendo promovidas de modo gigantesco para que aparentassem ter credibilidade e decência. Tais propagandas foram fabulosamente patrocinadas pelas elites políticas, agrárias, empresariais e intelectuais de cada país. Em agosto de 1990, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) publicou um documento intitulado Livre Para Crescer – Proposta Para um Brasil Moderno, coordenado pela economista Maria Helena Zockun. A FIESP adota esse escrito como agenda de modernização em vínculo direto com as diretrizes consolidadas menos de um ano antes em Washington. Aliás, a federação foi além, conforme o jurista e antigo embaixador brasileiro Paulo Nogueira Batista Sr. informou e comprovou através do documento A Visão Neoliberal dos Problemas Latino-Americanos e incluiu em sua proposta algumas regras não citadas no Consenso de Washington mas que haviam sido apresentadas pelo Banco Mundial em 1989 no artigo Trade Policy In Brazil: The Case For Reform. Essa publicação recomendava que a intervenção estrangeira fosse feita no Brasil por meio da valorização da agricultura de exportação. Vale relatar que a célula máxima da indústria paulista recomendou, sem ressalvas, uma involução industrial pelo Brasil. Isso deixa bem claro que, para todas as elites, a vocação do Brasil no Século XXI é a de ser um mero exportador de produtos primários, assim como era até a Revolução de 1930. E essa área se caracteriza por conta de seus preços cadentes — pouco mais de 50% em média inferior aos anos 80 — devido ao extraordinário volume de subsídios concedidos a seus produtos agrícolas pelos países hegemônicos.

A FIESP manteve essas mesmas concepções ao longo dos anos, e elas permanecem vigentes. Isso explica sua decisão de ter acatado prescrições impostas pelos ianques na Rodada Uruguai, realizada pelo GATT entre 1986 e 1994 em Punta del Este. Essas determinações eram referentes às questões agrícolas e aos novos temas normativos de serviços e de propriedade intelectual (industrial até pouco tempo atrás na legislação brasileira). Diante de tantos acontecimentos lamentáveis, a impressão que a FIESP produz é que ela nada tem a ver com o Brasil e nem com as empresas industriais que prometeu representar — mesmo sendo a principal federação de indústrias do país —, além de se intrometer em áreas que não são de sua competência sem ter recebido autorização correspondente para tal, como na Confederação Nacional da Agricultura. Somando todos esses relatos com as outras ideias sociopolíticas mal formuladas e financiadas pela própria FIESP nos últimos quatro anos, fica muito fácil de concluir que a federação possui uma primazia ímpar que justifica perfeitamente o seu título de “defensora oficial das questões antinacionais”, assim como tentou fazer na fracassada Revisão Constitucional de 1993 e também contra a Leis de Informática, elaborando documentos que fundamentaram a destruição dessas cláusulas, cujas consequências desprotegeram centenas de indústrias nacionais do setor de microprocessadores e chipsets no mercado interno e que só conseguiram surgir por conta dessa legislação. Ao que tudo indica, esse é um dos poucos casos no mundo inteiro em que uma associação de indústrias incentiva a obliteração de seus associados. Saindo do campo da informática e adentrando no âmbito tecnológico geral, estamos voltando, por conta dessas decisões, à época em que o mercado nacional era dominado por pouquíssimas corporações multinacionais. O número de companhias poderia ser maior, embora praticamente todas fossem ter suas origens no exterior. Pior que isso é saber que o mercado interno está sendo suprido por simples montadoras de componentes importados. Devido a tantos levantamentos, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo devia mudar seu epíteto (FIESP) para FEDESB: Federação da Desindustrialização do Estado Brasileiro.

Nota: Essas informações podem ser consultadas e confirmadas facilmente nos portais da FIESP e CIESP, com todos os detalhamentos, assim como nas páginas da Câmara Federal e do Senado.

Conforme descrito pelo economista, jurista e antigo diplomata brasileiro Adriano Benayon em seu livro Globalização versus Desenvolvimento, o Consenso de Washington não aponta o que é realmente praticado pelo Primeiro Mundo, mesmo que este bloco seja projetado como o modelo a ser seguido. Apesar de sua importância como denominador, não há nada além de uma apresentação de propostas relacionadas a “abertura pela abertura” — um abstracionismo incontestável —, como um fim dentro de si mesmo. Não há esclarecimentos sobre a abertura dos mercados no Primeiro Mundo ter sido feita com o cumprimento obrigatório de três princípios indispensáveis:

  • Aquisição de paridades atestadas por seus parceiros comerciais;
  • Cláusulas de proteção contra a concorrência insidiosa e capaz de desorganizar seu sistemas econômicos, e;
  • Redução gradativa das barreiras tarifárias.

Tais processos se estenderam por quatro décadas de sucessivas rodadas multilaterais em países como Suíça, França, Inglaterra, Japão, Uruguai e Marrocos. Essas negociações foram todas no âmbito do GATT e também contaram com diversas Conferências Ministeriais auxiliares. As rodadas de negociação do comércio internacional foram retomadas em 2001 no Qatar e ainda não foram encerradas.

Mediante tantas informações expressas, o que fica nítido para os países do hemisfério sul é que eles devem praticar o inverso daquilo que os países hegemônicos fazem intensamente: a inserção global não negociada, dada pela abertura unilateral e imediata de seus mercados. Tudo isso sem considerar que o comércio entre as nações está cada vez mais regulado pelas atividades comerciais restritivas adotadas pelos seus governos e sugeridas por suas corporações multinacionais.

O Consenso de Washington foi extremamente pretensioso e desonesto ao supor que os países meridionais teriam condições de competir de forma justa unicamente exportando seus produtos primários de inclinações naturais e/ou com artigos manufaturados sobre base de mão de obra não qualificada e de baixos salários. A propaganda espúria feita pelo Governo Mundial é para induzir ao pensamento que os benefícios comparativos baseados numa situação socialmente injusta e economicamente retrógrada são absolutamente possíveis e conserváveis. Simultaneamente, é pregado um combate ao protecionismo interno, mas nada é citado acerca do protecionismo externo que sempre esteve em vigor nos mercados das nações desenvolvidas e em desenvolvimento, a fim de realizar aquilo que classificam como dumping social nos países subdesenvolvidos. O consenso é abrangente e não deixa nenhum setor estratégico de interesse interno dos países hegemônicos desamparado. Inicialmente, engloba dez itens:

  • Prioridade nos gastos públicos;
  • Disciplina fiscal;
  • Liberalização comercial;
  • Liberalização financeira;
  • Reforma tributária;
  • Regime cambial;
  • Investimentos estrangeiros diretos;
  • Privatizações;
  • Desregulamentações e;
  • Propriedade intelectual.

Com exceção da reforma tributária, essas diretrizes são as mesmas dos programas socioeconômicos ditos modernos desde o Governo Sarney, com todos os presidentes posteriores considerando essas medidas como necessárias àquilo que chamam de “governabilidade”. No entanto, essa lista já se encontra desatualizada, pois não contém os outros elementos que se desenvolveram em paralelo ou subsequentemente. Não estava incluso, por exemplo, a vinculação das moedas nacionais — como o real — ao dólar. Nem o apoio a esquemas regionais de integração econômica, dita acessível, por meio dos quais a liberalização unilateral se converte em compromisso internacional, como ocorreu com o México ao ingressar no NAFTA e com a transformação do MERCOSUL em união aduaneira, em agosto de 1994.

Através do livro Perspectivas Macroeconômicas – Para Entender a Economia Hoje, o economista brasileiro Paulo Gala mostra que as propostas do Consenso de Washington nas dez áreas iniciais convergem para dois simples objetivos: por um lado, a abertura máxima da entrada de capitais de risco junto a importação de bens e serviços; pela outra parte, a drástica redução do Estado e, consequentemente, a corrosão do conceito de Nação. Tudo isso em função do devaneio importado da “soberania total do mercado autoajustável” nas relações econômicas de âmbito interno e externo. Também é ratificado que a economia de livre mercado sugerida pelo consenso como “fórmula de modernização”, constitui, com efeito, um tutorial de regressão a um paradigma pré-industrial. O modelo é exatamente o mesmo proposto por Adam Smith — também rejeitado pela Inglaterra mas recomendado ao continente europeu durante a Revolução Industrial —, referendado com pequenos retoques das “teorias de vantagens comparativas” de David Ricardo e nada mais. Fazer propostas do Século XVIII e XIX, sem as mínimas atualizações para a época atual, é um cinismo absurdo contra às nações subdesenvolvidas.

Seguindo o exemplo de seus colonizadores, os ianques também pregam um modelo econômico que não praticam, nunca praticaram e, aparentemente, jamais irão praticar. Os Estados Unidos ignora os acordos do Consenso de Washington completamente, além de desprezar versões funcionais e sofisticadas de mercados desenvolvidos na Escandinávia e no Extremo Oriente. O motivo é simples: eles sabem que o consenso batizado com o mesmo nome de sua capital nacional está repleto de ditados econômicos coloniais relacionados ao laissez-faire, que há muito foi superado e que nada têm a ver com as atuais circunstâncias do Brasil. Lamentavelmente, todos os governantes da Sexta República Brasileira se deixaram levar pelas ordens das células transnacionais até o momento, modelando o atual cenário político, social e econômico, que atingiu seu ápice no período Collor. Todas as nações que venceram suas dificuldades e traçaram seus destinos sempre rejeitaram esse formato administrativo com prontidão, pois é nítido que tal modelo se assemelha a uma doutrina irredutível feita para controlar os outros, impossibilitando a autodeterminação dos povos.

A industrialização dos países sempre ocorreu com a participação dinâmica do Estado como planejador, produtor e regulador em setores estratégicos, e o mesmo é previsto na Constituição Federal do Brasil. Em locais tidos como exemplos de liberalização, as estatísticas ilustram uma clara e profunda participação do Estado. Nos EUA, por exemplo, era de 42% em 2010. Na Europa é de quase 53%, mais que o dobro registrado em toda a América Latina. Mesmo durante a Era Reagan/Thatcher, a participação do Estado cresceu cerca de 9,5% nos Estados Unidos e 8% na Grã-Bretanha. Enquanto a participação do capital estrangeiro no Brasil equivale a quase 26% do total de seu Produto Interno Bruto (PIB) real, na Coréia do Sul não chega em 4,5%; em Cingapura não atinge 3%. E são esses os países ovacionados pelos (que se acham) liberais como ícones da abertura de mercado para o exterior e da economia livre. A verdade é que essas nações possuem interferência maciça do Estado em todos os seus setores, sendo as duas detentoras dos maiores fundos soberanos ativos do planeta. Esses dois Tigres Asiáticos, assim como Taiwan e Hong Kong, souberam resistir muito bem aos sortilégios de seus credores externos, descartando a contratação de dívidas e seguindo projetos de desenvolvimento próprio que, nem de muito longe, se parecem com os protótipos neoliberais. Ha-Joon Chang, economista sul-coreano, atestou em seus livros Chutando a Escada e 23 Coisas Que Não Nos Contaram Sobre o Capitalismo, que as políticas de exportação dos Tigres Asiáticos não tiveram a abertura unilateral de seus mercados como base, e que seu êxito econômico está totalmente desconectado dessa falácia de Estado mínimo; muito pelo contrário, suas políticas de desenvolvimento exigiram e contaram com uma fortíssima presença estatal.

O Consenso de Washington não passa de um documento contraditório e arbitrário. Contraditório por estabelecer prescrições que não são seguidas pelos países desenvolvidos e arbitrário por compelir essas diretrizes às nações que ainda se encontram em estágio pré-industrial, sobretudo àquelas que enfrentam crises sociais gravíssimas. Esse consenso estimula uma política catastrófica por toda a América Latina, assim como é feito pelos outros componentes do Governo Mundial pelo Leste Europeu, África Setentrional, Oriente Médio, etc. Aliás, as consequências dessas medidas já começam a aparecer nos países onde elas foram empregadas: é o caso da tecnocracia arcaica do “Bloco Reformista” na Bulgária; da Argentina com o “Plano Macri” e do “Inverno Árabe” no Iraque e na Líbia, sem falar no Peru, onde o atual presidente Martín Vizcarra se desdobra para manter o pouco de ordem política que ainda lhe resta por conta das denúncias auferidas ao ex-presidente peruano Pedro Pablo Kuczynski, acusado de participação ativa em esquemas de propina realizados entre a empreiteira Odebrecht e sua empresa Westfield. Vale a pena frisar que, além de ter sido um importante executivo do Banco Mundial, Kuczynski foi um dos membros-fundadores do Diálogo Interamericano, estabelecido em 1982 e que retrata qualquer alternativa ao modelo neoliberal como antidemocrática. Atualmente, essas e outras nações sofrem com as tensões do balanço de pagamentos de dívidas públicas, com suas frágeis estabilidades inteiramente ameaçadas por um colapso cambial. A nível de comparação, a conversão atual da moeda brasileira em dólar promove mais de 30% de inflação sob a moeda ianque. O refinanciamento dos gigantescos “déficits” do Brasil já atingiram quase 16% do PIB nominal.

Apesar de todos os resultados terríveis causados no Brasil por conta desta ideologia, o pensamento neoliberal propagado a partir da era Collor e aperfeiçoado no período FHC permanece recebendo um colossal apoio interno e externo no atual governo Bolsonaro. O discurso do desmanche econômico unilateral ainda existe, assim como a promessa de inserção no Primeiro Mundo — ilusão perfeitamente desconstruída por Celso Furtado em seu livro Raízes do Subdesenvolvimento — através da subordinação do MERCOSUL à todas as demais cláusulas previstas no consenso. Ou seja, o neoliberalismo continua profundamente ativo no cenário político brasileiro. Foi radicalmente ampliado na gestão Temer e almeja um prosseguimento nos próximos anos através de políticos que se classificam como liberais e apoiadores da financeirização econômica em maior ou menor grau. A adesão de diversas candidaturas elitistas ao pleito de 2018 não foi pura coincidência. Curiosamente, tudo isso ocorreu quando a ortodoxia neoliberal atlantista deixou de ser simplesmente contestada e começou a ser efetivamente esquecida. Exemplos nítidos desses sinais de mudança são os britânicos, que estudam a criação de um novo órgão administrativo: a empresa de benefício público. Essa proposta de autarquia é uma das soluções cogitadas para que a reestatização de diversas companhias sejam feitas, tais como as de transporte, de abastecimento de água, gás, eletricidade, etc. Em coluna publicada em 9 de janeiro de 2018, o jornal inglês The Guardian revelou ter feito uma série de levantamentos populares, e que 76% dos entrevistados concordam em reestatizar a água; 77% são favoráveis a desprivatização da distribuição de energia (gás e eletricidade) e 83% estão de acordo em retornar o transporte ferroviário para a administração pública. Já os ianques, planejando uma defesa ainda maior de suas indústrias, estabeleceram taxas de importação de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio, fora a promoção do slogan “Buy American, Hire American” em detrimento das resoluções estabelecidas no Acordo sobre Contratações Públicas assinado durante o Acordo de Marrakesh, na reta final da Rodada Uruguai. Tal conferência resultou na criação da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Embora os Estados Unidos não pratique a doutrina neoliberal contida no Consenso de Washington e imposta aos países meridionais, a desvantagem competitiva com o setor automotivo da Alemanha e a indústria eletrônica do Japão tem provocado reações — algumas de forma inconsciente — contra o neoliberalismo em importantes esferas da política ianque. Hoje, Alemanha e Japão praticam economias de mercado distintas, admitindo não só uma participação direta do Estado na regulação econômica, mas também na gestão, por intermédio de uma política voltada ao bem estar social de seus habitantes, com maior representação democrática e efetividade coletiva. Tais atitudes são diametralmente opostas do individualismo estúpido, egoísta e antissocial pregado pelos neoliberais e pelo país tido por eles como o maior exemplo de desenvolvimento a ser copiado e seguido.


REFERÊNCIAS

— ADRIANO BENAYON: Globalização versus Desenvolvimento

— CELSO FURTADO: Raízes do Subdesenvolvimento

— DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.: A OMC e Os Tratados da Rodada Uruguai

— HA-JOON CHANG: 23 Coisas Que Não Nos Contaram Sobre o Capitalismo; Chutando a Escada

— INTER-AMERICAN DIALOGUE: Dialogue Reports & Books

— J. W. BAUTISTA VIDAL: De Estado Servil a Nação Soberana

— JOHN WILLIAMSON: The Washington Consensus as Policy Prescription for Development

— LUIZ FERNANDO DE PAULA: Sistema Financeiro, Bancos e Financiamento da Economia – Uma Abordagem Keynesiana

— MARIA HELENA ZOCKUN: Livre Para Crescer – Proposta Para um Brasil Moderno

— MARIA LUCIA FATTORELLI: Auditoria Cidadã da Dívida – Experiências e Métodos

— PAULO GALA: Perspectivas Macroeconômicas – Para Entender a Economia Hoje

— PAULO NOGUEIRA BATISTA: A Visão Neoliberal dos Problemas Latino-Americanos

Piterson Hageland

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador stricto-sensu de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.
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One thought on “O Consenso de Washington no Brasil”

  1. Sr. Piterson (ele detesta ser chamado assim kkk) me deu aulas no curso preparatório e foi o melhor professor que eu tive. Explicava muita coisa que eu acho que nunca iria saber se não fosse por ele falar para a turma e com muitos exemplos interessantes. Estava sempre pronto pra nos ajudar e com ele aprendi mais coisas que o curso iria ensinar. Eu acho que nunca teria passado no ENEM sem a ajuda dele por que ele me ensinou tanto que é difícil até de fazer uma descrição.
    Eu desejo todo o melhor para esse homem que será meu eterno professor e agora um amigo. Valorizar o trabalho de alguém igual a ele é obrigação.

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