Eleições e Democracia

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Enquanto o povo brasileiro abastecer, manter, proteger e enriquecer os grupos privilegiados que se situam mediante seu esforço, incapaz de se autodeterminar, sendo obrigado a trabalhar para os outros e não para si, estará invariavelmente regido e dominado pelas classes exploradoras. Isso não pode ser resolvido nem sequer pela constituição mais democrática e hodierna, dado que o fator econômico é mais forte do que os direitos políticos em nossa sociedade, e estes só conseguem obter significado e realidade enquanto repousam sobre as condições financeiras. Tudo o que acontece são apenas pinturas plásticas em cima de estruturas que permanecerão integralmente abaladas devido ao modelo operacional do sistema.

Em qualquer país subdesenvolvido, a igualdade de direitos gerais num Estado democrático constitui a mais flagrante contradição terminológica na prática dos mesmos. Esses conceitos denotam força, autoridade, predomínio; de fato supõem o aparato contra a desigualdade. Mas como poucos governam e muitos não são abrangidos pelo governo, o Estado vai se tornando gradualmente ineficaz a fim de ser confundido propositalmente com o governo. Daí as mais variadas formas de propagandas antinacionais começam a ser produzidas.

Quando todos desfrutam da mesma forma dos direitos constitucionais adquiridos, todo tipo de esteio político perde sua razão de existir. Essas propagandas acabam por ser utilizadas em prol de dependências de políticas partidárias, implicando em privilégios para os governantes e em consequências terríveis para o povo. Por consequência, as expressões “Estado democrático” e “igualdade de direitos” são utilizadas de modo que simplesmente causem a destruição do Estado e a abolição de todo tipo de direito.

O termo “democracia” se refere ao governo do povo, pelo povo e para o povo, e a palavra “povo” refere-se a toda uma massa de cidadãos que formam uma nação. Neste sentido todos nós somos democratas, mas a democracia tratada puramente como “governo do povo” é uma conclusão incorreta, porém devemos reconhecer simultaneamente que tal expressão não é suficiente para que um conceito exato seja atingido pois, se considerado de maneira isolada — tal como acontece com o conceito de “liberdade” —, somente poderá servir para interpretações equivocadas.

Todos vimos perpetradores de diversas formas sendo rotulados como democratas nos últimos anos; de magistrados a senadores, passando por mafiosos, fintadores e latifundiários. Também vemos déspotas modernos drenando todas as formas de desenvolvimento de seus respectivos países classificados como democratas. Inclusive não observamos líderes de blocos imperialistas — o ideal “puro e simples” de todos os poderes intencionalmente centralizados — em caráter militar e burocrático esmagando todos aqueles que não se curvam em nome da dita democracia?

Vivemos uma ditadura desde a morte de Getúlio Vargas em 1954. Não houve “abertura política” alguma, mas sim uma civilização do golpe atlantista iniciado por Café Filho e que emergiu para o público geral em 1964. Saíram as fardas e entraram os ternos. Saíram os atos institucionais e entraram as eleições pela legenda, onde um candidato que consegue muitos votos elege os que receberam poucos. Saíram os retirantes e entraram os tribunais de direitos sinuosos. As malas abarrotadas de dinheiro sujo foram algumas das características mantidas que conectam os períodos. Não existe democracia no Brasil, pois o Estado foi deliberadamente tolhido ao ponto de dificultar ainda mais os acessos e as prerrogativas pelas igualdades civis à todos os brasileiros. Ainda que a população acorde e inicie uma completa revolução nas urnas, o sistema impede essa mudança. Reparem nos nomes dos assessores instalados por todo o Congresso, ou então nos cargos de diretoria das agências públicas: 70% do panteão é composto pelos mesmos crápulas que estiveram no poder durante o regime militar ou possuem coligações com quem esteve. Nada mudou. A única democracia conquistada foi a da tortura universal: mais branda, todavia diária e para todos.

Piterson Hageland

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador stricto-sensu de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.
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