Do Porque Também Não Fui — e Continuo Não Sendo — Ciro

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PREÂMBULO

O número de pessoas que confiaram o voto em Ciro Gomes nas eleições presidenciais de 2018 foi indubitavelmente expressivo, sobretudo na camada mais jovem da sociedade brasileira. Aliás, quase todos que apoiaram Ciro já escolheram defendê-lo novamente em uma eventual candidatura em 2022, em uma clara demonstração de messianismo. As principais facções de esquerda, incluindo o PT, sonhavam com uma chapa formada por Lula e Ciro, e depois com Fernando Haddad em consequência da prisão daquele que foi o trigésimo quinto Presidente da República Federativa do Brasil. De qualquer maneira, o Partido dos Trabalhadores relegaria Ciro à condição de Vice de seus postulantes, não importando quem fosse. Já as seitas mais discretas, sentindo o peso das denúncias de corrupção rondando Lula e sua corporação partidária, ou apenas desiludidos com o seu governo e o de Dilma Rousseff, apostaram em Ciro por julgarem o melhor nome para enfrentar o PSDB e o Novo, que ganhavam força com os discursos a favor do livre mercado. Todavia, o verdadeiro adversário a ser batido era Jair Bolsonaro, que terminou vencendo o pleito.

Filiado ao Partido Democrático Trabalhista desde 2015, Ciro permanece como vice-presidente nacional da sigla. Sendo membro da direção central, fala e responde pela agremiação. Pode-se dizer que ele desempenha funções equivalentes às de um porta-voz. Mas, como toda seita política que aí está, o PDT não é flor que se cheire, mesmo carregando uma em sua identidade visual. Quanto mais exposto pelo marketing do sistema representativo, que serve apenas às elites, mais pútrido se é.

Antes de continuar, pontuo aqui que o objetivo deste texto não é provocar cizânias, e menos ainda remover a crença que os outros possuem a respeito de Ciro Gomes. Esse tipo de futilidade não me interessa nem um pouco! A intenção é protestar minhas conclusões acerca da questão eleitoral e, principalmente, esclarecer minhas reflexões aos que costumam debater comigo por não entenderem o fato de um nacionalista não apoiar Ciro Gomes.

 

NACIONALISMO SEM EIXO

A humanidade atravessa um momento histórico com o capitalismo em crise por quase todo o planeta. Como a economia ocidental não se recuperou até hoje do estouro da bolha de especulação imobiliária nos Estados Unidos em 2007, o imperialismo anglo-americano tenciona uma nova onda de colonização na América Latina. Querem se apoderar de fatias cada vez maiores dos recursos estratégicos das nações periféricas, como os conglomerados transnacionais que desejam as imensas reservas de petróleo situadas no litoral do Brasil, ou as mineradoras do Canadá, que almejam conquistar áreas onde o subsolo está repleto de minerais importantíssimos e que Michel Temer fez de tudo para entregar por completo. Também pretendem reformular os padrões de exploração sobre os brasileiros através das seguintes investidas:

  • Reformas que pulverizam os direitos adquiridos, como a trabalhista e a previdenciária;
  • Esquemas nefastos de terceirização;
  • Sucateamento da educação e das pesquisas científicas;
  • Arranjos propositais na Constituição Federal para cobrir os juros da dívida pública e manter a usura financeira, como a PEC 241/55 e o PLP 459/2017.

Como se toda essa desgraça não bastasse, a China tem desenvolvido uma economia cada vez mais resistente e também cobiça demasiadamente o Brasil, sendo presença fixa em leilões que estão desmontando o pouco que restou da unidade nacional. Os sínicos fortaleceram boa parte do seu mercado em solo brasileiro, operando conflitos de interesses, como o dumping e algumas falhas de mercado que se assemelham à doença holandesa.

Durante todo o certame das eleições, Ciro Gomes e alguns renques do PDT adotaram discursos a favor da soberania, incluindo a proteção das riquezas naturais contidas em território nacional e fazendo juramentos de que acabariam com a sanha imperialista no Brasil, se comprometendo a auditar a dívida mobiliária do país, mas não apresentaram diretrizes sólidas no projeto oficial de governo que definissem tais promessas. Segundo dados do portal da Auditoria Cidadã da Dívida, somente os candidatos João Goulart Filho (PPL) e Vera Lúcia (PSTU) responderam a uma carta aberta feita pela organização, afirmando categoricamente que iriam realizar tal exame em seus planos governamentais. Não obstante, os apoiadores de Ciro simplesmente ignoraram tais evidências — já estavam satisfeitos com a propaganda teatral que ressaltava a figura do herói político nas redes sociais de maneira copiosa.

Qualquer pessoa com o mínimo de entendimento da conjuntura geopolítica local sabe que os imperialistas atuam em conluio com a esmagadora maioria da classe dominante brasileira, com estes últimos sendo nada mais que seus capachos. As elites nacionais, covardes e submissas — e agora mentecaptas —, querem oferecer tudo para os estrangeiros e não se importam com a catástrofe que isso vai acarretar. Ciro Gomes e PDT continuam assumindo os papéis de representantes de uma ínfima parcela do escol que tenta resistir. Pretendem salvar o capitalismo do Brasil afrouxando um pouco as coleiras que o imperialismo tem usado com frequência para sufocar o país, no entanto, sem se livrar das botas que todos eles utilizam para esmagar o povo.

Planos como esse não é algo inédito no Brasil. Ciro Gomes e PDT almejam em reeditar projetos como os de João Goulart, Leonel Brizola e Getúlio Vargas. Também é possível observar aspectos similares aos de Juan Domingo Perón, da Argentina, e até de Gamal Abdel Nasser e Thomas Sankara, do Egito e Burkina Faso, respectivamente. Mas por se tratar de algo completamente fora de época e alheio à realidade hodierna, este sonho é apenas um resquício do nacionalismo genérico que fazia parte dos discursos dos líderes supracitados e de muitos outros que clamavam por uma autêntica libertação nacional. Atualmente, o número de grupos da elite dispostos a correr tal risco é indiscutivelmente menor do que há trinta, quarenta ou cinquenta anos e que, verdade seja dita, jamais foi de alta expressividade. Os que perduram são tidos como ultramarginais pela classe dominante e não costumam ser respeitados pelos políticos de destaque — e nem pelos eleitores.

Algumas das críticas levantadas por Ciro Gomes e por todo o PDT também são levantadas por mim, dado que eles atacam o sistema tributário porque, além de complexo, os ricos pagam impostos baixos e os pobres arcam com tributações altíssimas. Criticam as enormes somas de remessas de lucros ao exterior e o desfalque ocasionado pelo esquema da dívida pública, bem como a privatização de órgãos estatais para o rentismo internacional e a entrega das riquezas nacionais aos oligopólios estrangeiros, entre outras reclamações. Eles defendem, ao menos em palavras, conceitos que qualquer lugar com o mínimo de decência precisa adotar para que haja autodeterminação, soberania e desenvolvimento em seu território. Mas sobre essas mesmas tarefas, nós temos uma diferença latente: quem está apto a cumprir tantos deveres? Nossas classes sociais mal instruídas? No meu direito de cidadão, esperei ansiosamente que tratassem dos óbices da educação brasileira e seu método falido e despedaçado, onde a interdisciplinaridade é ausente. Porém, tudo o que foi apresentado ao público não passou de estatísticas desatualizadas acerca do desempenho estudantil em testes precedentes a atualização do Plano Nacional de Educação, ocorrida em 2014. Um foco astronômico em índices que estabelecem médias e pouca atenção às causas do imbróglio.

Por se encontrarem em uma ordenação classista, as turmas que formam a alta-roda do Brasil poderiam ter o interesse de se libertar das amarras imperialistas de um dos lados — ou até mesmo de todos — para fazer com que os seus negócios prosperem. Contudo, a parte da aristocracia brasileira que não se conforma com tamanho servilismo foi vencida pela fração subserviente que decide os rumos do país desde o governo Café Filho. Assim como a sociedade comum, as diferentes alas da corrente dominante estão inteiramente comprometidas e subjugadas pelas orientações dos países hegemônicos. É verdade que alguns pequenos e médios setores vêm suportando graves prejuízos nessa tentativa de neocolonização, mas não se atrevem a insurgir porque uma altercação desse nível pode abrir espaço para que outros grupos menores tomem conta da situação, especialmente aqueles que não pertencem a essa órbita. Isso faria com que a elite inteira sofresse um ataque, pondo em risco a supremacia que conserva há tempos. No cenário atual, somente a classe trabalhadora é quem já não tem mais nada a perder, entretanto, não demonstra vontade de conduzir uma luta efetiva para implodir o cativeiro do sistema devido ao marasmo incentivado pelo comodismo. É aí que surge Ciro, o Messias.

 

O DISCURSO DO PDT

O PDT condena o entreguismo em seus discursos, todavia, seus parlamentares votaram — e continuam votando — a favor dos arranjos que concedem uma gama de privilégios aos banqueiros e ao sistema financeiro como um todo. Fora isso, a maioria dos seus partidários assentiram com a aprovação dos pacotes de maldades impostos por Michel Temer em detrimento do povo brasileiro e ainda escolheram participar do circo dicotômico do processo de impeachment de Dilma Rousseff, incluindo os líderes do partido no Congresso Nacional à época. Também deram apoio aos desmontes que a Operação Lava-Jato efetuou, favorecendo a depredação do Brasil em todos os âmbitos possíveis e justificando isso como parte da isonomia. Aliás, o senador pela unidade federativa de Roraima, Acir Gurgacz, acusado de estelionato e de lesar a pátria por meio de defraudações contra a Receita Federal com uma de suas empresas, votou no Conselho de Ética para que o mandato do então senador de Minas Gerais, Aécio Neves, atualmente deputado federal pela mesma localidade e que dispensa grandes apresentações, fosse mantido.

Alguns correligionários e simpatizantes do PDT e de outras cúpulas da esquerda em geral relativizaram tais ocorrências com o argumento de que o partido expulsou os deputados favoráveis ao “golpe” de 2016 e aos ataques contra os direitos trabalhistas, com o próprio Ciro Gomes banindo muitos deles, exatamente como faz um super-herói no combate aos vilões.

Por favor, sejamos razoáveis: qualquer ativista ou pessoa minimamente interessada em política sabia desde o princípio que Lasier Martins, senador pela entidade federada do Rio Grande do Sul, sempre foi inimigo do povo. Passou décadas comentando asneiras sobre os direitos sociais adquiridos e defendendo as incúrias das elites gaúchas nos telejornais. Foi, aliás, símbolo da luta que pleiteava uma série de isenções fiscais a Ford Motor Company, que almejava se instalar no Rio Grande do Sul ou na Bahia. Lasier migrou para a sigla do PSD em 2017, mas isso aconteceu por vontade do próprio senador em questão. Não houve expulsão alguma feita pelo PDT no quadro de senadores.

Parlamentares como o senador Acir Gurgacz e o ex-deputado federal Carlos Eduardo Cadoca, da entidade federativa de Pernambuco e que acabou banido, seguiram agindo contra a sociedade brasileira no Congresso, sob o mais absoluto silêncio da direção do PDT, incluindo Ciro Gomes. Como é que um partido de base trabalhista é capaz de permitir que tantos facínoras auxiliem na composição de suas fileiras? A verdade é que Ciro escarmenta apenas os que lhe ignoram, tal como fez a badalada congressista federal por São Paulo e exemplar de meritocracia da esquerda cantoneira — e aprendiz de Jorge Paulo Lemann e Warren Buffett —, Tábata Amaral.

E o que dizer de Kátia Abreu, senadora por Tocantins e candidata a Vice de Ciro Gomes em 2018? Que permanece realizando acordos de bastidores com o agronegócio de latifundiários responsáveis por queimadas, desmatamento ilegal e abuso de fertilizantes repletos de agrotóxicos? Que se põe violentamente contra a PEC 37, ao voto aberto de parlamentares e a aprovação de textos-base da Reforma Agrária? As perguntas foram retóricas, até porque ela também foi acusada de nepotismo, peculato e trabalho escravo. Francamente, não é possível que os epígonos do PDT, altamente prestigiados devido às suas capacidades intelectuais, possam reiterar que alguém com tantos atributos deletérios possua virtuose trabalhista.

Além dessa profusão de horrores no Legislativo, as relações internacionais também dizem muito a respeito de uma facção política. E aqui, mais uma vez, o PDT faz uma declaração contrária à soberania nacional que jura defender em vídeos editados e cartazes, e que, ironicamente, vão na direção oposta do conteúdo que o partido apresenta em seu estatuto.

O PDT é vinculado à Internacional Socialista (IS), um conselho mundial de partidos. O atual presidente deste fórum é George Papandreou, ex-primeiro-ministro da Grécia. Pouquíssimas lideranças políticas cultuam as medidas desumanas de ataque aos trabalhadores nessa era pós-capitalista iniciada com a crise de 2007 quanto ele. Após ser eleito como premier em 2009, descarregou um “ajuste fiscal” — eufemismo para desapropriar o que sobrou do país balcânico à União Europeia — inteiramente ultrajante contra o povo helênico. Nada obstante, Ciro Gomes e a comitiva do PDT não se importam de seguir nesse grupo transnacional liderado por um autêntico vassalo de banqueiro. Exclamam social-democracia com uma altivez incrível, mas sequer o criticam publicamente após toda essa degradação. O Brasil já teve Fernando Henrique Cardoso, há menos de vinte anos, com atitudes idênticas…

 

OS GOVERNOS DO PDT

O PDT elegeu mais de 330 prefeitos nas eleições de 2016, inclusive em duas capitais: Edivaldo Holanda Jr. em São Luís, Maranhão, e Roberto Cláudio em Fortaleza, Ceará. No âmbito estadual, o partido administra o Amapá com Waldez Góes desde 2015. Governava também o Mato Grosso, mas Pedro Taques se desvinculou do renque para ingressar no PSDB.

Waldez Góes, além de possuir dezenas de processos em razão de sua ineficiência e falta de ética política, adotou uma prática comum dos atuais governadores: o parcelamento dos salários dos funcionários públicos, exatamente como é feito por todos os partidos da ordem. Assim como em muitas outras unidades federativas, a população do Amapá reclama do caos na rede pública de saúde e segurança, mas os grandes proventos e benefícios dos políticos e juízes, tal como o pagamento dos juros aos agiotas e favorecimentos aos megaempresários, seguem mais do que em dia. Antônio Teles Jr., ex-secretário de planejamento amapaense — e derrotado no último sufrágio ao tentar uma vaga para deputado federal —, inclusive comemorou a vitória do não-afastamento de Michel Temer pelo Congresso em 2017, pois isso ajudaria a implementar as reformas, sobretudo a da previdência. O Vice-Governador era o “progressista” Papaléo Paes, eterno aliado da família Sarney e bastante amigo da cúpula do PSDB, onde também já militou. Bela situação para quem começou a carreira no PRONA com Enéas Carneiro…

Já Roberto Cláudio, atual prefeito de Fortaleza, promoveu o maior aumento nas passagens de ônibus dos últimos dezessete anos e privatizou os terminais de integração sem uma consulta popular. Seu Vice é Moroni Torgan, do DEM.

A pesquisa sobre os atuais governos do PDT encontraria um número sem fim de críticas e denúncias. O conteúdo que apresentei é o bastante para que os demais busquem verificar outros tópicos por si mesmos. Do contrário, eu não deveria ter escrito um artigo, e sim uma vasta dissertação sobre privatizações, ajustes fiscais, agressões aos trabalhadores e conjunções intencionais entre políticos, megaempresários e investidores. O que tudo isso tem a ver? Simples: são posturas incompatíveis com o discurso de Ciro Gomes e da direção nacional do seu partido! Sem contar que, isocronicamente, não há uma crítica sequer feita por Ciro à essas administrações odiosas e indefensáveis. Ele condena as fanfarronices do atual Presidente da República, Jair Bolsonaro, mas não está sendo muito diferente, visto que é feroz contra os adversários, porém, dócil com os aliados. Um exemplo disso foi a sua fúria intempestiva contra meia dúzia de indivíduos que, em 2016, atormentavam Cid Gomes, seu irmão e atual senador pela subdivisão federal do Ceará. No entanto, ficou calado a respeito da declaração do próprio Cid em 2015, onde disse, na condição de Ministro da Educação, que os professores que almejam salários melhores devem pedir demissão do setor público de ensino e migrar para o privado. Com essa afirmativa irracional, Cid revelou ao povo brasileiro, indiretamente, que não se incomodava com o sucateamento educacional do país tão consagrado pelos grupos subservientes ao Consenso de Washington — e permanece da mesma forma como senador.

 

MÃO DE FERRO CONTRA TRABALHADORES EM GREVE

Ciro Gomes possui um discurso em favor da democracia e do Estado de Direito, entretanto, quando foi governador do Ceará, enfrentou uma poderosa greve dos trabalhadores do Seproce, o Serviço de Processamento de Dados do Estado do Ceará, em 1993. Em entrevista ao Programa Roda Viva, em 1994, Ciro disse que era necessário “agir com mão de ferro” contra os trabalhadores.

“Liguei para o presidente do Seproce, que é um técnico conhecido no meio, perguntei a ele o que estava acontecendo e ele me disse que não, que estava tudo sob controle, que estava agindo de maneira a garantir. E eu disse a ele que agisse com mão de ferro – isso é o que eu penso que deve ser feito. Eu não aceito… Eu não disse que era anarquista, até porque não vi nada demais; o que eu acho é que instalar anarquia no Ceará ninguém vai fazer. Isso é o que eu estou dizendo. O que eu considero anarquia? É quebrar a possibilidade, por uma razão corporativa… Podem lá desejar melhores salários, isso é justo, é honesto, é procedente, mas usar para essa razão um poder que não é deles, de paralisar o estado inteiro porque controlam as máquinas de informática e impedir que todos os seus colegas recebam seus salários, isso não vou admitir absolutamente nunca.”

Se adotou essas condutas patronais na condição de governador, menosprezando o direito constitucional de greve e ordenando que os movimentos dos servidores que reivindicavam melhores condições de trabalho fossem reprimidos, o que garante que Ciro Gomes não repetiria tais atitudes como Presidente da República? Dogmatismos? É bom lembrar que não se trata de escolher um sacerdote para representar o credo.

 

EPÍLOGO

O PDT é a sétima instituição política de Ciro Gomes. Iniciou sua carreira no ARENA, que se tornou PDS, herdando assim o legado e as dívidas da Quinta República Brasileira. Foi do PMDB quando José Sarney exercia o cargo de Presidente da República. Ingressou no PSDB bem no auge do neoliberalismo estimulado por aquele que viria a ser o trigésimo quarto Chefe do Palácio do Planalto, Fernando Henrique Cardoso. Aliás, Ciro sempre foi muito amigo de Tasso Jereissati, que é basicamente seu padrinho nesse ramo e o convenceu a se transferir para a fileira dos aduladores do Diálogo Interamericano. Estava no PPS quando este criticava o “Fora FHC”, erguido por movimentos sociais e multiscientes, de viés popular e autônomo. E foi do PSB no período em que o mesmo chegou a governar seis unidades federativas, reprimindo os protestos de junho de 2013, preservando o ritmo de privatizações, dos benefícios fiscais aos grandes conglomerados estrangeiros e iniciando o ajuste fiscal contra os trabalhadores exigido pelos superintendentes da crise de 2007. Sua estadia no PROS foi bastante curta, mas a sigla dispensa um detalhamento tão vasto em razão do seu quadro de fundadores e associados.

Ciro Gomes esteve em partidos que se posicionaram contra os brasileiros em momentos críticos e decisivos da história do país, tal como nessas desprezíveis votações antipopulares do PDT nos últimos anos. Ciro, aliás, esteve cumprindo um papel de embaixador dessas organizações, mitigando as abjeções que tais grupos praticavam — e ainda praticam — sem o menor escrúpulo. É de uma ingenuidade ridícula acreditar que, a beira de completar quatro décadas de atividade política, Ciro não tenha aprendido a escolher seus aliados e que é um homem imaculado navegando sobre um mar de canalhas.

Outra estultícia é propagar essa abstração infantil de que os cidadãos são obrigados a tomar posições. É lógico que os brasileiros precisam definir um ponto de vista, mas não por alguém, e sim em favor da própria sociedade. Isso é o mais puro retrato da autodeterminação nacional! O correto é que a população esteja sempre lado a lado. Quem possui dignidade e abomina esse maldito sistema neoliberal em vigor não pode conceder oportunidades aos fantoches da corrente dominante, que propagam um discurso de soberania plástica no intuito de conservar a flebotomia do Brasil, exatamente como faz o atual Chefe de Estado e de Governo, Jair Bolsonaro. Toda essa camarilha defende as “reformas” lesivas que já estão agredindo o povo humilde que sustenta o país através de impostos abusivos com extrema tenacidade, e a maioria daqueles que se encontram no vértice da pirâmide — os verdadeiros privilegiados com essa transgressão hedionda — não têm instruções e nem a mínima educação para socorrer os necessitados. Ninguém está preocupado com nada disso, nem mesmo o PDT e Ciro Gomes, que zarpou para a Europa após não se classificar para o segundo turno das eleições do ano passado e que agora vive de palestras e entrevistas vazias.

Apesar de tudo, concordo plenamente com o discurso de Ciro Gomes, pois não há erros na metodologia; a sua pessoa é que não me inspira a menor confiança. Não enxergo qualquer vestígio de nacionalismo em Ciro, e sim um indivíduo profundamente maleável e astuto, que entende muito bem como funciona as engrenagens da política brasileira e utilizou a herança do nacional-desenvolvimentismo na tentativa de se eleger Presidente da República Federativa do Brasil em 2018.

Na data atual, esse já não é o maior texto que assino, e eu poderia estender o artigo em muitos outros parágrafos, visto que é por essas e outras razões que não votei — e não votarei — em Ciro Gomes.

 

Texto originalmente publicado em meu antigo perfil do Facebook, em 26 de setembro de 2017, sob o título “DO PORQUE TAMBÉM NÃO SOU CIRO”. Revisado e adaptado para O Sentinela na mesma data da atual publicação.

Piterson Hageland

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador stricto-sensu de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.
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One thought on “Do Porque Também Não Fui — e Continuo Não Sendo — Ciro”

  1. Me causa espécie o deslumbre por parte de certos nacionalistas com um político ideologicamente instável, como é o caso de Ciro Gomes, que pode mudar seu espectro dependendo da situação. Soube inclusive que no último pleito presidencial, ele angariou adesões à sua candidatura, até mesmo de partidários do nacional-socialismo.

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