Bolsonaro, o Anticonservacionista

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A presença do Presidente da República Jair Bolsonaro no último encontro do G-20 em Osaka, no Japão, foi mais uma clara demonstração de inabilidade diplomática e insciência geopolítica. Na prática, é impossível destacar um só elemento que tenha beneficiado o Brasil. Muito pelo contrário.

O Palácio do Planalto, goste disso ou não, precisa compreender que o Brasil tem o seu nome ligado às questões ambientais desde épocas remotas, todavia nem sempre de bom grado. Com Bolsonaro sendo o Chefe de Estado e de Governo, a sua ideologia elitista a favor do agronegócio acaba produzindo um mal ainda maior, dado o seu posicionamento contra o conservacionismo desde quando era deputado federal. Sua equipe vem tentando atenuar esse problema, haja vista que Bolsonaro foi notificado sobre a necessidade de fornecer atenções específicas para cada bioma. Isso não deve ser ignorado, caso contrário o setor alimentício terá enormes prejuízos em razão dos boicotes que as exportações brasileiras irão sofrer.

A Europa já aderiu a essa prática em função da sua atual cultura ambientalista, que vem experimentando um progresso constante por todo o continente. Isso pode ser confirmado através das citações feitas por líderes europeus sobre o vergonhoso descuido que o Brasil ainda possui para com o meio ambiente. Bolsonaro, como é de costume, respondeu às críticas baseadas em pesquisas científicas com bravatas de senso comum utilizadas em botequins. Enquanto Angela Merkel, chanceler da Alemanha, tinha a intenção de dialogar claramente sobre o assunto, Bolsonaro tentava demonstrar da forma mais arrogante possível o nacionalista que não é faz décadas. Agiu de modo parecido diante dos conselhos do Presidente da França, Emmanuel Macron, porém, acabou cedendo aos pedidos do gaulês para evitar que os tratados comerciais entre o Mercosul e a União Europeia não acabassem fracassando.

Se Bolsonaro desse valor aos estudos, saberia que são nessas conferências que os governos estabelecem relações bilaterais de extrema importância para a diplomacia, e que também ganham contato direto com as situações que, algumas vezes, terminam sem receber a atenção merecida e são classificadas de maneira incorreta por consequência dos panoramas distintos entre as nações e seus modi operandi e vivendi. Mas não se pode esperar nada diferente de um indivíduo que se orgulha em atacar o ato de raciocinar, a legalidade e a comunicação social.

Se existe algum saldo positivo nessa viagem de Bolsonaro a Terra do Sol Nascente, é que o evento talvez possa fazer bem para a sua má gestão e até para ele mesmo. Em um atitude débil que infantiliza o nacionalismo, já tão ridicularizado por muitos, o Presidente da República diz que a Alemanha tem muito o que aprender com o Brasil a respeito de meio ambiente. Caso tivesse frequentado algumas aulas de ciências gerais, Bolsonaro teria informações básicas sobre o avanço teutônico no campo da sustentabilidade ecológica e na utilização e desenvolvimento de fontes limpas de energia renovável, com destaque para a solar e a eólica. Também saberia que o Brasil e a Alemanha são países com formações históricas e geográficas absolutamente distintas, e que isso é o fator preponderante para definir a ocupação rural e urbana, a matriz energética e as condições de renda que variam de um lugar para o outro. Um país que cancela os investimentos em educação acadêmica não tem nada a oferecer a outro que destina uma quantia cem vezes superior à do corte.

Ainda dominado pelo espírito pueril que habita as ideias vazias de muitos pseudonacionalistas por aí, Bolsonaro disse a frase que reflete a demagogia política brasileira: “O presidente do Brasil que está aqui não é como alguns anteriores, que vieram aqui para serem advertidos por outros países. A situação aqui é de respeito para com o Brasil. Não aceitaremos tratamento como no passado”.

Ora, não há nenhum erro nessa frase. É lógico que um presidente deve presidir. Tem de ser um Chefe de Estado e de Governo de fato, e não apenas de direito. O problema é quando tudo isso é falado para causar aquilo que é de especialidade desse governo: estardalhaço. Não é nada além de um discurso feito para mistificar o povo brasileiro, assim como ele fez durante toda a sua campanha eleitoral. Se veste de patriota mas lança o país cada vez mais na órbita do neoliberalismo, jogando os brasileiros numa miséria bem superior a simples falta de dinheiro. É nesse momento em que os extremos se tocam, já que esse chavão também foi proferido pelos outros Presidentes da Sexta República. Políticos estes que Bolsonaro e seu fã-clube continuam afirmando não possuírem uma só semelhança com o mesmo.

Qualquer um com pleno funcionamento de suas faculdades mentais consegue perceber que os países hegemônicos sempre tentaram e conseguiram subjugar o Brasil e outras nações que se encontram abaixo da Linha do Equador. Mas Bolsonaro não tem intenção de acabar com isso; ele apenas almeja que o país se liberte do “esquerdismo”. Por isso não compreende que o sistema e seus lacaios não têm ideologia, e sim interesses. O Presidente brasileiro, acreditando que está saindo de uma senzala, acaba se dirigindo voluntariamente para outra.

Se a comitiva do Planalto tiver aterrissado em Brasília nesta manhã com pelo menos algumas dúvidas sobre a decisão insensata de um laissez-faire ambiental, a viagem de mais de 24 horas já terá valido a pena.

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