A Simetria Germânica no Brasil

A INSERÇÃO DO NAZISMO NOS TRÓPICOS BRASILEIROS

“A América Meridional irá nos presentear com um terreno de colonização na zona temperada onde nossos emigrantes poderão se fixar como agricultores. Chile e Argentina conservarão seu idioma e autonomia, mas exigiremos que o alemão seja considerado a segunda língua nas escolas. Paraguai e Uruguai são regiões de cultura alemã assim como o Sul do Brasil. Logo, o alemão será o idioma oficial nessas regiões”. Essas são algumas das mirabolantes palavras encontradas num livro intitulado “Gross Deutschland die Arbeit des XX Jahrhunderts” (em tradução livre: “A Grande Alemanha e o Trabalho do Século XX”), do geógrafo e pangermanista Otto Richard Tannenberg. De acordo com o livro “Os Senhores da Direita”, do jornalista Délcio Monteiro de Lima, Adolf Hitler teria endossado essa ideia, destinando, em 1931, a quantia de aproximadamente 262 milhões de reichsmark (ℛℳ) para que as ações nazistas no Brasil fossem iniciadas. “Edificaremos uma Nova Alemanha no Sul do Brasil, onde encontraremos tudo aquilo que for necessário para a realização do nosso objetivo.” foram, segundo Délcio, palavras do próprio Hitler. Ele acrescenta ainda que, à época, havia um manual nazista circulando por Curitiba denominado “Auslandsdeutsche” (“Alemães no Exterior”), que conclamava a rigorosa conservação das tradições e do idioma no âmbito doméstico. Ademais, é dito que, no Rio Grande do Sul, teriam chegado a funcionar, sob a égide do Nazismo, nada menos do que trezentas e cinquenta entidades culturais, esportivas e filantrópicas, reunidas e controladas pela Liga das Sociedades Alemãs, uma federação subordinada a Berlim.

Todavia, é preciso fazer algumas observações a respeito da existência de um dito projeto de anexação por parte da Alemanha Nazista em relação a uma terra tão distante como a América do Sul, especialmente o Sul do Brasil. Segundo o livro “The Face Of The Third Reich – Portraits Of The Nazi Leadership” (em tradução livre: “A Imagem do Terceiro Reich – Retratos da Liderança Nazista”), do historiador e jornalista especializado em Nacional Socialismo Joachim Fest, a geopolítica adotada por eles, em termos de expansionismo, nunca ultrapassou as fronteiras da Europa. Se, nos círculos nazistas, houve quem pensasse em incorporar a Região Sul brasileira ao Terceiro Reich, seguramente não foi além da especulação; os nacionais socialistas tinham coisas mais importantes e urgentes para tratar naquele momento.

No Brasil daquela época, o Varguismo estava em ascensão. Para que o projeto industrializador de Getúlio Vargas surtisse efeito, era importante fazer uso de certas alavancas ideológicas; tais como o combate ao liberalismo, a integração nacional e o anticomunismo — os comunistas disputavam a liderança da classe operária e eram uma grande ameaça para a implementação de um projeto de base nacionalista.

A ideia da decadência das instituições liberais e o anticomunismo rigoroso aproximaram a gestão Vargas, até certo ponto, das ideologias dominantes na Alemanha Nacional Socialista, produzindo afinidades circunstanciais concisas. É conhecida a colaboração e influência da Polícia Secreta do Estado Nazista (Gestapo) nas repressões feitas durante e após a Intentona Comunista de 1935. Além disso, a equipe de Vargas tinha admiradores do autoritarismo germânico (Francisco Campos), do terror policial da Gestapo (Filinto Müller) e do Exército Alemão (Aurélio Góis Monteiro). Eurico Gaspar Dutra, ocupando o posto de Ministro da Guerra (equivalente ao atual Ministro da Defesa) no mesmo período, era um dos mais simpáticos às políticas da Alemanha de Hitler, sem velar tal posicionamento da opinião pública. Entretanto, era fundamental para a execução do programa varguista o uso do nacionalismo enquanto fator de coesão social. Portanto, seria intolerável que alguma ramificação interna do Nazismo constituísse um fator de divisão, transformando o Germanismo Cultural das colônias alemãs em problemas políticos para o regime. O governo de Vargas prestigiou eventos culturais na região colonial, fazendo uso desse fato na medida em que era interessante assegurar um bom relacionamento com o Terceiro Reich. Só que tais eventos, mesmo exaltando certo orgulho nacionalista, tinham um espaço restrito no tocante a significação folclórica. Maximizar o potencial de ação dos nazistas no Brasil equivaleria a minimizar a capacidade de Vargas em controlar a sociedade brasileira. Se é verdade que Vargas possuía germanófilos em seu gabinete presidencial, igualmente mantinha um notório amante dos EUA como Osvaldo Aranha. O que realmente aconteceu foi um traçado de paralelos com as rivalidades multi-imperialistas a fim de favorecer o projeto de industrialização que estava sendo implementado.

 

A ERA VARGAS E O ANALOGISMO ALEMÃO

A melhor fase do relacionamento entre o Brasil e a Alemanha Nazista ocorreu de 1934 a 1938. No plano econômico, o Brasil exportava algodão e alimentos (frutas e cereais) e importava carvão mineral e artigos industriais. Foi depois do início do Estado Novo que a facção germanófila do regime Vargas começou a perder espaço. Já em novembro de 1937, no período mais anticomunista do Varguismo, um ofício do Auswärtiges Amt (Ministério das Relações Exteriores da Alemanha) dava conta de que o governo brasileiro tinha se declarado expressamente contrário à adesão ao Pacto Anticomintern, demonstrando assim que Vargas não pretendia desagradar aos EUA estabelecendo laços demasiadamente ostensivos com a Alemanha. De resto, isso seria contraditório com sua tradicional estratégia feita de sinuosidades.

Um memorando secreto do embaixador alemão Karl Ritter ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, datado de 30 de março de 1938, descreve, com notável argúcia, as origens de uma série de manifestações antigermânicas que então ocorriam em parte da imprensa brasileira e que só seriam possíveis com o aval do governo. Ritter notou que Vargas temia que a atividade nazista influenciasse o sentimento nacionalista das comunidades alemãs na Região Sul do país e percebeu também que o Presidente estava renitente com a ideia de “eliminar as diferenças étnicas existentes na população brasileira no intuito de gerar uma raça legítima, homogênea, com uma linguagem e uma cultura uniformes”. E ressaltou ainda a influência ianque como um motivo que fazia Vargas concordar com a campanha de disformidade contra a Alemanha nos meios de comunicação.

No tocante ao que Ritter chamou de “Obstinação de Getúlio”, a análise historiográfica atesta que a equalização ideológica junto a um discurso nacionalista era apenas um conectivo da política populista que o Varguismo efetuava para realizar o seu plano de desenvolvimento do Estado brasileiro. Percebendo que Vargas não estava disposto a permitir espaço de ação para os nazistas no Brasil e que fazia questão de deixar isso cada vez mais nítido, a embaixada alemã terminou se resignando. Na verdade, o regime varguista foi a primeira — e a mais autêntica — experiência brasileira de um Estado nacional participante, tentacular e voltado a uma efetiva integração. Óbvio que as colônias alemãs do Brasil, habituadas a uma enorme autonomia graças à frouxidão e a displicência do liberalismo da República Velha, sentiram a mudança do quadro e da estrutura política. Veja, a título exemplo, que, naquela fase, o governo não se apoderou da questão educacional, o que possibilitou às colônias manterem suas próprias escolas, no idioma da terra natal. Ora, a partir de Vargas tudo mudou: a língua portuguesa se tornou obrigatória e a liberdade das escolas germânicas (e de todas as outras) foi controlada por uma nova legislação. A embaixada alemã no Brasil não teve outra opção a não ser ordenar as mesmas que aceitassem a situação.

Sumariamente, o Varguismo medrou seus métodos de controle social também sobre o espaço colonial. De acordo com os resumos literários dos livros “O Fascismo no Sul do Brasil”, “O Perigo Alemão” e “O Estado Novo no Rio Grande do Sul”, todos do historiador e especialista em movimentos de terceira posição René Gertz, o Integralismo, adentrando às colônias, foi fundamental para que as relações entre Brasil e Alemanha fossem extenuadas, após o Estado Novo ter sido implementado. Gertz cita que o Integralismo conseguiu recrutar muitos adeptos nas regiões colonizadas pelos germânicos, e que isso possibilitou uma mistura entre Germanismo, Nazismo e Integralismo feita intencionalmente pela ala simpática aos ianques contida no governo Vargas. Osvaldo Aranha, Ministro das Relações Exteriores durante quase toda a existência do Estado Novo e defensor ferrenho das alianças entre Brasil e Estados Unidos, foi um dos maiores instigadores deste conceito como se todos esses elementos fossem um único e inseparável objeto. Isso foi apresentado como ameaça ao regime, o que era plausível, principalmente por conta da tentativa de golpe praticada pelos integralistas contra o novo regime em maio de 1938.

É interessante observar que, devido ao desgaste já existente nas relações entre Brasil e Alemanha, Ritter sugeriu, num relatório de 12 de março de 1938 ao seu governo, que a imprensa alemã desse ao motim um “tratamento excepcional”, como forma de represália e advertência ao Presidente Vargas. Em duas cartas a Berlim, com datas de 14 e 18 de maio do mesmo ano, o embaixador teutônico declarou ter afirmado ao Estado Novo que a Alemanha não teve nenhuma relação com a conspiração integralista. Cuidadosamente, para não aparentar interferências na política interna do Brasil, o então chefe da Auslands-Organisation — um setor operacional de organização de estrangeiros subordinado ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha e abreviado como “NSDAP/AO” — Ernst Wilhelm Bohle, ordenou, no mesmo dia 18 de maio, que “nenhuma atividade aberta ocorresse” e que o Nazismo no Brasil concentrasse seus esforços na “doutrinação interna”.

Foi propagada no Brasil a abstração de que o Integralismo era um disfarce do Nazismo. Substancialmente, não era possível alegar vínculos integralistas concretos com o Fascismo de Benito Mussolini, pois a doutrina engendrada pelo Duce era considerada “absolutamente inexpressiva”, como dito por Ernst von Weizsäcker, Secretário de Estado do Terceiro Reich à época, sendo constituído por “grupos integralmente acromáticos e apolíticos por natureza”. Aliás, a maioria dos integralistas faziam uma oposição beligerante contra o Fascismo pois suas principais pautas foram tecidas sobre preceitos notavelmente opostos. Os fascistas eram fundamentados numa concepção objetivamente gregária e realista; adeptos ao corporativismo — característica que mais os distinguia também dos nazistas —, ao dirigismo hiperbólico; defendiam uma economia de mercado com forte intervenção do Estado, organizações exclusivamente estatais, e tinham como lema a inveterada frase: “Tudo no Estado, nada contra o Estado e nada fora do Estado”. Já os integralistas se baseavam em um modelo político estritamente similar àquele defendido pelos iluministas; apoiavam um dirigismo módico, com um viés econômico baseado na Doutrina Social da Igreja Católica, próxima do distributivismo; possuíam fundamentação cristã, de base espiritualista e defendiam organizações sociais e autônomas, produzindo o conceito de que o Estado deveria servir aos habitantes do território nacional e possibilitasse progresso material e espiritual a todos. Numa observação breve e devoluta, a cooperação entre classes através da democracia orgânica e a luta contra o materialismo histórico e dialético são as únicas características que aparentam igualdade entre o Fascismo e o Integralismo, além da questão indumentária, modo de saudação e respeito ao catolicismo. Entretanto, cada movimento operava e tratava dessas idiossincrasias de maneira ímpar, tornando assim a ampla maioria das conexões acerca disso em um solilóquio bastante incongruente.

Com o Nazismo era diferente, pois sua presença foi notada e exibida de maneira muito intensa. Portanto, em determinado momento, fez sentido associá-los ao Integralismo. Entre ambos, houve semelhanças utilitárias e ideológicas. Todavia, fazer uso disso para pressupor colaborações rigorosamente colusivas é uma insensatez. As teorias intransigentes sobre raças que o Nazismo difundia não tinham como se encaixar na cartilha de Plínio Salgado. Em relação ao antissionismo claro e confesso de Gustavo Barroso — e erroneamente chamado de antissemitismo —, o escritor integralista jamais se colocou a serviço ideológico dos nazistas. O governo do Terceiro Reich, evitando ao máximo que suas relações com o Brasil se tornassem ainda mais difíceis após a tentativa de golpe em 1938, não quis comprometimento maior com o Integralismo. Diante da política insidiosa da Era Vargas, a maior preocupação dos nazistas era manter um bom relacionamento com o Brasil. A Alemanha tentava evitar que Vargas caísse definitivamente na órbita dos Estados Unidos e defendia, dentro dos limites possíveis, a cultura germânica nas áreas coloniais. Quanto ao restante, conforme um relatório da embaixada alemã no Rio de Janeiro ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, datado de 25 de outubro de 1938, só restava esperar que Vargas não tivesse condições de permanecer no poder por muito tempo e que fosse substituído por um prócer mais indulgente. Ou, pelo menos, que Osvaldo Aranha, “o maior dos inimigos”, caísse.

 

AS COLÔNIAS GERMÂNICAS E A DIFUSÃO DO NAZISMO

As colônias alemãs do Sul do Brasil se desenvolveram com bastante autonomia, pois se instalaram numa região desabitada e contaram com uma fase em que a política governamental brasileira intercedia o mínimo possível nas organizações societárias. Em outras palavras, não existiam definições em relação às regiões de imigrantes por parte do governo. Desse modo, os teutônicos organizaram as suas associações, arquitetaram suas instituições de ensino e mantiveram seu credo religioso, repartido entre o catolicismo romano e o protestantismo luterano. Diversos jornais em língua alemã circulavam nesta região do Brasil, tais como:

•    Deutsches Volksblatt – São Leopoldo, 1871
•    Die Deutsche Post – São Leopoldo, 1880
•   
Koseritz Deutsche Zeitung (depois Neue Deutsche Zeitung) – Porto Alegre, 1882
•   
Kolonie (hoje Gazeta do Sul) – Santa Cruz do Sul, 1901
•   
KolonieZeitung – Colônia Dona Francisca (atual Joinville), 1862
•   
Blumenauer Zeitung – Blumenau, 1881
•   
Der Urwaldsbote – Blumenau, 1893
•   
Brusquer Zeitung – Brusque, 1912
•   
Der Beobachter – Curitiba, 1889
•   
Der Kompass – Curitiba, 1902

Títulos dos jornais em português, por ordem de exibição:

•    A Folha do Povo Alemão
•    O Correio Alemão
•    Koseritz, o Jornal Alemão (depois Novo Jornal Alemão)
•    Colônia
•    Jornal da Colônia
•    Jornal Blumenauense
•    O Mensageiro da Floresta
•    Jornal Brusquense
•    O Observador
•    A Bússola

Nota: O periódico Koseritz Deutsche Zeitung, que se tornou Neue Deutsche Zeitung, foi fundado por Carlos von Koseritz — e não pelos nazistas, como afirmado de maneira errônea por Délcio Monteiro de Lima.

Após a Revolução de 1930, a situação das colônias alemãs do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina foi alterada. No primeiro instante, não tiveram problemas com os governos estaduais, que eram de situação. No entanto, Santa Catarina apoiou Júlio Prestes durante as eleições do mesmo ano, candidato de Washington Luís. Subindo a oposição ao poder federal e estadual, as relações com as colônias alemãs inevitavelmente ficaram estremecidas.

Anexa a ascensão de Hitler, surgiu a seguinte questão: as colônias germânicas seriam canais de implementação do Nazismo no Brasil? Em virtude da forte propaganda anglo-americana da década de 1930, muitos responderam positivamente. Porém, ao pesquisar fontes diretamente nazistas, o historiador Jean Roche concluiu — com notório conhecimento sobre a temática das colônias alemãs no Brasil — através de seus dois livros intitulados “A Administração da Província do Rio Grande do Sul Entre 1929 e 1947” e “A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul” que nunca houve nenhum projeto contundente de expansão do Terceiro Reich nos estados brasileiros do Sul, conduzindo a argumentação política dos nazistas, segundo a qual, a Alemanha se dedicava unicamente em manter um bom intercâmbio comercial com o Brasil e em preservar a cultura germânica das colônias. Os nazistas reconheceram claramente que não tinham meios de seguir adiante com essa ambição e que não conseguiriam elaborar uma proposta a fim de atrair um país do cone anglo-americano para as esferas do Eixo. O tal “Movimento Nazista Brasileiro”, portanto, atuou de maneira exclusivamente independente. O vínculo ideológico se encontrava no exterior, mas a própria circunspecção do Terceiro Reich impediu que uma contribuição mais consistente fosse realizada.

A erupção do Nazismo foi um evento visto com simpatias dentro e fora das áreas de colonização alemã. O acontecimento pareceu esplêndido para conduzir um país castigado pelas elites rurais ao rumo do desenvolvimento. Alberto Bins, então prefeito de Porto Alegre, e o pastor Hermann Dohms, líder e teólogo luterano, se colocaram entre os que elogiaram o novo estado de coisas na Alemanha. Dentro de um cenário radiante pelas expectativas e contemplação ocasionada com a assunção de Hitler como Führer, um Partido Nazista se formou no Sul do Brasil. Petulante, agressivo e espalhafatoso, se revelou, em decorrência de tudo isso, incompetente para angariar seguidores.

Indeferindo uma outra afirmação de Délcio Monteiro de Lima a respeito disso em seu livro já citado, René Gertz diz que os nazistas brasileiros não obtiveram a administração da Liga das Sociedades Alemãs, o que indica que elas não tinham essa suposta subordinação a Berlim. A frustração dos partidários nazistas com a pouca receptividade local chegou ao ponto de denunciarem diversas personalidades por atividades antinazistas ao regime germânico: Albano Volkmer, Frederico Mentz, A. J. Renner, Willy Wallig, Alberto Bins, etc. E entre os acusados de ativismo nazista no Sul brasileiro, Délcio inclui Otto Ernst Meyer, fundador da extinta Viação Aérea Rio-Grandense (Varig), alegando que ele comandava uma rede de espionagem que informava a movimentação de navios Aliados nesta região do Atlântico após o ingresso do Brasil na Segunda Grande Guerra. De qualquer maneira, Gertz declara que o número de nazistas no Brasil não foi além de cinco mil e, nos estados sulistas, onde se concentravam mais de vinte e cinco mil alemães, o número ficou entre setecentos e mil. Também é importante lembrar que Hitler só começou a alcançar poderes efetivos quando foi nomeado Chefe de Governo da Alemanha, em 1933. Isso faz com que a afirmação sobre ele ter cedido uma imensa quantidade de dinheiro em 1931 para nazificar o Brasil seja logicamente impossível.

Extremamente cuidadoso ao tirar conclusões, René Gertz acredita que as colônias alemãs simpatizavam com o Nazismo da Alemanha, mas não aceitaram os seus ditos partidários locais, estultos e despreparados. Inclusive porque, se é verdade que os imigrantes teutônicos tinham laços culturais e afetivos com sua terra de origem, era em solo brasileiro que transcorria a sua vida cotidiana. Com efeito, a máxima identificação entre o Nazismo e as colônias alemãs esteve no fato de que o nacionalismo nazista impelia o sentimento de proteger as tradições culturais germânicas — ou seja, um elo politicamente anódino.

Como se percebe pelo estudo da correspondência diplomática nazista, o governo alemão percebeu motivos que não tornavam a nazificação do Brasil em algo possível, sobretudo pelo fato de que Getúlio Vargas não se deixaria manobrar e muito menos aceitaria um foco de resistência a sua autoridade. Entretanto, nada indica que a Alemanha chegou a reparar nas outras dificuldades já mencionadas, no interior das próprias colônias germânicas. Pelo contrário, muitos acreditavam que, se fosse dada a oportunidade, elas se tornariam nazistas em caráter absoluto. A Alemanha defendeu também a legalização do Partido Nazista contra a proibição estabelecida por Vargas, após o golpe que instaurou o Estado Novo. O embaixador Karl Ritter, num relatório datado de 21 de abril de 1938, solicitou junto a Berlim para que a imprensa germânica tratasse a proibição da atividade partidária no Brasil como um “ato conscientemente frígido e ultrajante contra a Alemanha, provocado pela influência dos Estados Unidos”. Percebe-se, uma vez mais, o confronto latente do Terceiro Reich contra os Estados Unidos pelo controle dos espaços diplomáticos na América do Sul. Ritter chegou a argumentar, num protesto entregue a José Joaquim Moniz de Aragão, embaixador brasileiro em Berlim e germanófilo, em 10 de maio de 1938, que o Partido Nazista era um partido estatal e que, ao contrário dos partidos parlamentares de outros países, a ele era confiado tarefas oficiais. Sendo assim, a proibição brasileira atingia a “um órgão da administração do Estado alemão”, segundo o mesmo comunicado do diplomata teutônico. Frisou também sobre o Partido ter sido rigorosamente instruído no sentido de se abster sobre qualquer intervenção nos assuntos dos países anfitriões e lamentou a campanha antigermânica na imprensa brasileira, que entendia como financiada e orquestrada por uma combinação de interesses soturnos entre ianques e sionistas.

 

AS COLÔNIAS GERMÂNICAS E A DIFUSÃO DO INTEGRALISMO

René Gertz observou, de maneira conclusiva, que a propagação do Integralismo nas colônias alemãs não foi comandada de fora. As elites dessas regiões, que tinham assumido a preservação dos valores étnicos e culturais da pátria de origem, viram o Integralismo de uma forma muito suspeita. Quanto aos jornais germânicos-sulistas, eventualmente criaram espaços para os integralistas, mas sem grande entusiasmo.

Para ilustrar a difusão do movimento nas colônias germânicas, é necessário optar por uma explicação sociológica ao invés de explicações étnico-culturais, haja vista que a ambivalência e os desacordos no relacionamento entre integralistas e nazistas foram acentuados, acarretando em uma conclusão do perfil social daqueles que aderiram ao grupo de Plínio Salgado: nem o campesinato — que mantinha o Germanismo Cultural por pura “inércia” — e nem a elite tradicional, mas sim os “preteridos pela etnia”, ou seja, um segmento já distante da matriz cultural alemã por estar atrelado ao processo de urbanização e industrialização em crescimento. Enfim, “pessoas jovens em processo de ascensão social” e sem vínculos com setores socioeconômicos estatelados, de políticas imperativas.

Sendo um movimento nacionalista brasileiro, o Integralismo se chocava frontalmente com as normas de proteção da cultura alemã, e desse imbróglio se aproveitaram os defensores dos valores germanistas. Ou melhor, eles constituíam a elite dominante das regiões coloniais, e a declaração de voto em Plínio Salgado não foi um ato de desprezo dos novos segmentos teuto-brasileiros às suas raízes étnico culturais, mas sim um repúdio a essa mesma elite que, guardiã do legado germânico, o desbastava para manter sua hegemonia local.

Segundo o livro “Nazismo Tropical? O Partido Nazista no Brasil” da historiadora Ana Maria Dietrich, Adolf Hitler determinou categoricamente que as ramificações do partido nazista no exterior deveriam se manter distantes da política local. Por mais que essa ordem não fosse seguida com precisão, acabou produzindo o mesmo resultado uma vez que o público-alvo dos nacionais socialistas eram os alemães ingênitos, e não os descendentes de alemães. Isso esclarece o fato de quase 93% das fileiras do partido nazista no Brasil serem compostas por imigrantes vindos da Alemanha. A associação nazista exercia uma nítida hierarquia a fim de separar os germânicos puros daqueles que descendiam dos germânicos. É devido a essa razão que alguns pesquisadores defendem que os teuto-brasileiros que almejavam um engajamento politico acabaram buscando refúgio no Partido Integralista (Ação Integralista Brasileira — AIB). Entretanto, nada disso recebeu o apoio de Berlim, haja vista que os integralistas pregavam um nacionalismo brasileiro com forte viés religioso, e tal realidade poderia ameaçar o germanismo. Mesmo assim, os historiadores alegam que o espaço oferecido ao pluralismo de ideias permitiu que a AIB ganhasse a simpatia dos brasileiros de origens alemãs e demais admiradores.

René Gertz e Jean Roche afirmam que as elites alemãs tiveram menos problemas no Rio Grande do Sul por terem votado em Getúlio Vargas nas eleições de 1930. Já em Santa Catarina, votaram em Júlio Prestes e ainda estavam ligadas a família Konder, opositores de Vargas. Em 1935, Nereu Ramos foi eleito governador do estado catarinense e nomeado interventor na mesma unidade federativa em 1937, e com a família Ramos novamente no poder — Vidal Ramos também governou Santa Catarina, e Mauro Ramos foi nomeado prefeito de Florianópolis —, as elites coloniais ficaram entre dois logos: os Ramos e os e os integralistas. Ainda em 1935, Marcos Konder fez um discurso amplamente severo a respeito dessa nova conjuntura, mostrando através do mesmo que a oposição ao Integralismo e aos nazistas locais não era tanto por motivos ideológicos, mas sim por ela se inscrever no contexto de um embate sobre novas forças políticas surgindo aleatoriamente e ameaçando os antigos poderes predominantes.

De qualquer forma, os próprios teuto-brasileiros tinham receio acerca desse assunto. Eles temiam que, com a adesão das colônias germânicas ao Integralismo, a miscigenação acontecesse e a raça ariana se extinguisse em até três gerações.

 

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Alguns fatores externos (posicionamentos do governo alemão; pressão política dos ianques através dos bastidores) e internos (vacuidade dos nazistas no Sul; persistência dos setores coloniais pelos seus interesses; imposições políticas) se uniram para evitar que movimentos favoráveis aos regimes tirânicos se firmassem pelo Sul do país. Sem títulos para designação, suas atividades não devem ser sobreavaliadas, até porque se resumem a ações esporádicas e isoladas. Em suma, os ativistas mais radicais tiveram de se contentar com o caudilhismo resoluto do Estado Novo, o que não impediu o Brasil de entrar em guerra contra os países do Eixo em 1942. Diversamente, ao convocar intensas mobilizações populares, a gestão de Vargas conseguiu, como recompensa, financiamentos do EXIMBANK para construir a Companhia Siderúrgica Nacional — hoje pertencente à família Steinbruch —, localizada em Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Com o ingresso do Brasil no conflito, as maledicências em relação às colônias germânicas se espalharam instantaneamente. Muitas comunidades alemãs passaram a ser vistas como verdadeiras agremiações de potencial conspiratório a serviço da Gestapo, o que reverberou episódios de histeria coletiva. Devido às circunstâncias do período, ninguém podia mensurar que o Nazismo não obteve êxito em suas tentativas de se inserir nas comunidades teuto-brasileiras e que, portanto, inúmeras acusações não tinham qualquer fundamento. Por efeito das contingências nacionais do Estado Novo, integralistas e nazistas acabaram na clandestinidade e desapareceram virtualmente do cenário político.

 

A TENTATIVA DE REGRESSO DOS MOVIMENTOS

Passado o conflito mundial, o subsequente contexto da Guerra Fria estimulou um novo despertar dos movimentos políticos no Brasil — inclusive a Direita e a Esquerda utilizaram de disfarces patriotas pela primeira vez. Contando com as vias novamente abertas por discursos pretéritos, os nazistas começaram a adentrar mais uma vez na vida nacional, exclamando um misto de saudosismo, recuperação de antigas ideias e revisionismo sobre todas as explicações históricas. Contudo, o período democrático-populista da República, entre 1945 e 1964, não forneceu condições políticas, legais, morais e eméritas para o ressurgimento de um Partido Nazista nos moldes do pré-guerra.

Quanto ao Integralismo, simplesmente abandonou seus dísticos — emblema do sigma, uniformes verdes, estilo de saudação, frases de efeito — e se rearticulou sob o nome de Partido de Representação Popular (PRP), mantendo apenas a retórica anticomunista e o nacionalismo primário. O PRP foi dissolvido em 1965 pelo Ato Institucional nº 2, com a maioria dos seus filiados migrando para o Partido da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), incluindo Plínio Salgado. Desse modo, os antigos camisas verdes finalmente encontraram algum espaço de atuação direta nas esferas do poder e puderam, de maneira presciente, dar a sua colaboração, através de nomes como Olímpio Mourão Filho, redator do controverso Plano Cohen e promotor dos golpes de 1937 e 1964; Miguel Reale Sr., importantíssimo redator da Emenda Constitucional nº 1 e supervisor do Código Civil de 2002; e Alfredo Buzaid, ministro da Justiça do governo Médici e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) nomeado por João Figueiredo. Durante o período, os ex-integralistas se uniram com antigos inimigos políticos e históricos simpatizantes do Terceiro Reich, mais notadamente Francisco Campos, elaborador dos Atos Institucionais nº 1 e nº 2 e também das Constituições de 1967 e de 1937, e Filinto Müller, agora senador e presidente do ARENA e principal suporte político de Garrastazu Médici até morrer vítima de um acidente na mesma data de seu aniversário, em 11 de julho de 1973.

De qualquer forma, o reaparecimento de pessoas que foram ligadas ao movimento integralista dentro daquele cenário político nacional não causou problemas, exceto à Esquerda, é claro. Afinal, o Integralismo não carregava o peso de diversos crimes de guerra e saía facilmente pela tangente com suas citações aos preceitos religiosos e espirituais do cristianismo. Em 1945, Plínio Salgado se aproveita da situação e adota posições extremamente antinazistas de maneira abrupta. Em todo o caso, o Integralismo tinha seus atenuantes e conseguiu sobreviver ao longo dessas épocas, ornamentado com preleções sobre temas abstratos e cada vez mais genéricos como “Patriotismo”, “Deus”, “Homem Integral”, etc. Mesmo assim, essa temática sempre foi vista de forma amistosa pelas outras pessoas, o que possibilitou a sobrevivência filosófica do Integralismo. Já politicamente, sobreviveram mais os integralistas do que o Integralismo em si.

Enquanto discurso e movimento, o Nazismo e o Fascismo indiscutivelmente surgiram como iniciativas de notável brilhantismo, admiração e defluência, mas os perfis humanisticamente trágicos que foram desenhados durante os regimes exercidos conduziu ambas as doutrinas ao ostracismo burlesco e altamente inibido. Na Alemanha e na Itália começou assim, incluindo ações instáveis e indômitas. Nestes países, ao tomarem o poder, o legado fatídico fez com que as origens exuberantes dessas doutrinas fossem esquecidas. Ao contrário, no Brasil, por nunca terem chegado ao poder, os nazistas, os fascistas e até mesmo os integralistas só lograram realçar os seus lados caricatos.

 

Meus agradecimentos a Tamires Alves Pequeno, em caráter especial, pelas traduções dos termos em alemão para o português.


REFERÊNCIAS

— ADOLF HITLER: Mein Kampf

— ANA MARIA DIETRICH: Nazismo Tropical? O Partido Nazista no Brasil

— BENITO MUSSOLINI: A Doutrina do Fascismo; O Estado Corporativo

— DÉLCIO MONTEIRO DE LIMA: Os Senhores da Direita

— GILBERTO FELISBERTO VASCONCELLOS: A Ideologia Curupira – Análise Do Discurso Integralista

— GUSTAVO BARROSO: O Integralismo de Norte a SulO Integralismo em Marcha

— JEAN ROCHE: A Administração da Província do Rio Grande do Sul Entre 1929 e 1947; A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul

— JOACHIM FEST: The Face Of The Third Reich – Portraits Of The Nazi Leadership

— LIRA NETO: Getúlio (1882-1930); Getúlio (1930-1945)

— MARIA CELINA D’ARAUJO: Getúlio Vargas

— OSWALD MOSLEY: Dez Pontos do Fascismo

— OTTO RICHARD TANNENBERG: Gross-Deutschland die Arbeit des XX Jahrhunderts

— PLÍNIO SALGADO: A Doutrina do Sigma; O Integralismo Perante a Nação

— RENÉ GERTZ: O Estado Novo no Rio Grande do Sul; O Fascismo no Sul do Brasil; O Perigo Alemão

— SÉRGIO OLIVEIRA: Getúlio Vargas Depõe – O Brasil na Segunda Guerra Mundial

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