A Geopolítica de Globalização e Blocos Econômicos Entre Brasil e Extremo Oriente

Nos ajude a espalhar a palavra:

A REGIONALIZAÇÃO NA ÁREA ASIÁTICA DO PACÍFICO

Para os efeitos desta análise, a área asiática do Pacífico compreende o Japão; os quatro países conhecidos também como “Tigres Asiáticos”; os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), criadores da Área Asiática de Livre-Comércio (AFTA); o fórum de Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC); e a China. Esses movimentos sub-regionais cresceram, aliás, em mecanismos de integração de facto, para constituírem, progressivamente, blocos com objetivos imediatos, implementados em estágios progressivos de convergência econômica e sujeitos a fatores políticos.

Os quatro Tigres Asiáticos – Cingapura, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan – tiveram em comum fortes processos de admissão de capitais estrangeiros, investimentos maciços em educação e expansão industrial voltada para o comércio exterior. Não poderia haver, contudo, maiores disparidades entre esses quatro NIC’s (Newly Industrialized Countries, ou “Países Recentemente Industrializados”). Cingapura tem cerca de 720 quilômetros quadrados e 5.5 milhões de habitantes. Hong Kong foi reanexada à República da China há pouco mais de duas décadas. A Coreia do Sul ainda enfrenta algumas instabilidades políticas internas e em relação à Coreia do Norte. Taiwan atravessa fase de consolidação de governos formados pelas novas gerações de pessoas nascidas na ilha, sem falar na ameaça permanente da China Continental.

Esses quatro países (ou três, com a exclusão de Hong Kong) podem ser enquadrados no plano de globalização, com pouca disposição para participarem, de jure, em blocos sub-regionais. Foi, na verdade, graças aos fluxos de investimentos do Japão e dos Estados Unidos que os quatro Tigres cresceram industrialmente, utilizando da mão de obra barata que, gradativamente, daria lugar à adoção de tecnologias de ponta para a conquista de mercados mundiais.

Em 1967, como aliança política e estratégica, a Associação de Nações do Sudeste Asiático foi fundada através de pactos entre Cingapura, Indonésia, Filipinas, Malásia e Tailândia, países espalhados numa vasta área do Pacífico, com peculiaridades geográficas, econômicas e culturais das mais diversas. Problemas surgiriam com as pretensões de adesão do Camboja, já com estatuto de observador; de Myanmar, Bangladesh, Laos e Vietnã. Em 1992, a ASEAN celebrou, com seus membros fundadores mais o Brunei, o acordo para o estabelecimento da Área Asiática de Livre-Comércio (AFTA). Com exceção do Bangladesh, que permanece em lista de espera junto ao Paquistão e Sri Lanka, os três últimos candidatos acima referidos, antes da admissão à ASEAN, aderiram à AFTA.

A nova Área de Livre-Comércio havia recebido um prazo para reduzir suas alíquotas intrabloco até 2003, visando situá-las entre 0% e 5%. Esses países tendem a dar maior ênfase à produção para intercâmbio comercial intrazonal e não às exportações para fora da AFTA. Os investidores estrangeiros haviam guardado em mente os dados do aumento populacional da região em projeções estimadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) de aproximadamente 70 milhões de vietnamitas e 60 milhões de pessoas entre o Camboja, Laos e Myanmar. No seu total, a ASEAN reúne quase 630 milhões de habitantes, sendo justamente os dois últimos aprovados, Vietnã e Myanmar, os mais viáveis para a expansão econômica, com força de trabalho bem treinada, capazes de abrigarem instalação de indústrias labor intensive.

 

 

Em 1989, foi criada a Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC), constituída em um fórum entre os países da AFTA-ASEAN, as “Três Chinas” (Continental, Hong Kong e Taiwan), Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia e os Estados Unidos. Nos primeiros três anos, o entusiasmo pela APEC foi limitado e a atuação do Secretariado (Cingapura), reduzida à rotina burocrática. Em novembro de 1993, quase de surpresa, a APEC ganhou projeção na imprensa internacional com a decisão do então Presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, de comparecer ao quinto encontro da entidade, realizado em Seattle e que se transformou em uma reunião de cúpula com a presença de 14 líderes asiáticos do Pacífico. Os jornais chegaram a apregoar números vultosos de PIB conjunto de 1992 em uma quantia de quase US$ 12 trilhões, e um quinhão de 35% do comércio mundial, no montante de US$ 2.3 trilhões, soma verdadeira que, porém, merecia ter passado por uma reavaliação cuidadosamente racional.

Quanto ao PIB conjunto da APEC, deve-se recordar que os países-membros do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), Japão, China, Austrália e Nova Zelândia somavam cerca de 91% daquele produto bruto de 1992, ao passo que à AFTA correspondia a US$ 350 bilhões (3,3%) e aos Tigres Asiáticos, US$ 620 bilhões (5,7%). Atualmente no que concerne ao comércio internacional, os Países da AFTA e os Tigres Asiáticos não passam de US$ 5.4 trilhões, ou seja, cerca de apenas 14% do comércio global da APEC.

As razões dessa nova ofensiva ianque eram óbvias e claras pela necessidade dos Estados Unidos em firmar sua posição na Ásia frente ao Japão e à China. Inferior às transações comerciais dos Estados Unidos com a América Latina há três décadas, o intercâmbio com a APEC chegava então a quase 40% do total global do comércio exterior ianque. Começavam a causar preocupação a Washington seus déficits comerciais com o Japão (US$ 49.5 bilhões), a China (US$ 18 bilhões), Taiwan (US$ 9.5 bilhões) e Coreia do Sul (US$ 2 bilhões).

A consolidação de uma união econômica nos moldes da União Europeia (UE) tem ainda muito tempo pela frente, segundo a diplomacia ianque, mas os ganhos de uma coordenação mais adequada serão visíveis. A APEC causa receios nos planos econômicos e políticos a várias nações asiáticas. A Malásia, por exemplo, não compareceu à reunião de Seattle, motivando ditames de que se opunha à participação de países não asiáticos naquele grupo da Ásia-Pacífico.

O México, como país da orla do Pacífico e membro do NAFTA, foi admitido na APEC. O Chile, assim como certas situações indicavam, ingressou pouco tempo depois, seguido do Peru, Rússia e Vietnã. Como um todo, as nações da Associação Latino-Americana de Integração (ALADI) foram os maiores exportadores e importadores dos países asiáticos membros da APEC em 2015, totalizando uma quantia superior a US$3.5 trilhões. O Chile, por exemplo, viu aumentar em torno de sete vezes seu comércio com o Japão (1994-2015), que atingiu um saldo de aproximadamente US$ 76.5 bilhões. Essas duas nações assinaram um acordo de livre comércio em 2007 que permitiu exportações de diversos produtos chilenos ao país asiático sem tarifas. Foi o segundo acordo do tipo assinado por um país latino-americano com o Japão.

 

JAPÃO: GLOBALIZAÇÃO “MÃO ÚNICA”

Antes mesmo de 1950, a capacidade geral de recuperação do povo japonês garantiu ao país o respeito e a admiração da comunidade internacional, intensificada a cada década que se passa. Mesmo ratificando o apego à sua tradicional cultura milenar, o Japão aceitou os princípios de expansão do consumo, maior mobilidade social e liberalização de certos costumes introduzidos pela influência estrangeira e seus modismos midiáticos. As transformações do caráter e do comportamento japoneses não chegaram, todavia, a invalidar as feições seculares do nacionalismo nipônico inveterado, que guarda, às vezes, características que se aproximam da xenofobia ou então são classificadas como tal pelo Ocidente.

Em meados da década de 1970, o Japão já via seu produto interno ultrapassar o da Alemanha, tornando-se a segunda potência financeira mundial e enfrentando, com êxito, a Segunda Fase da Primeira Crise do Petróleo (1973-1974). Flutuou pela Terceira Fase (ou Segunda Crise do Petróleo) e recuperou-se dela ainda no final da década. Enquanto o resto do mundo padecia das recessões e crises monetárias dos anos 1980, os japoneses viam aumentar seu PIB anual na média de 4,5% naquele período. E mais do que isso, o Japão acumulou elevados saldos em sua balança comercial e passou a ter papel mais atuante nas finanças internacionais. No início da década de 90, o PIB japonês chegou a US$ 3.5 trilhões em comparação com o norte-americano, de US$ 5.9 trilhões, e o dos países da UE de US$ 6.7 trilhões.

O principal impacto do “milagre japonês” foi a distorção causada nos fluxos internacionais de comércio e de movimentos de capital. O processo de globalização nipônica continua a ser unidirecional, causando desequilíbrios nas balanças de pagamentos dos demais países industrializados, principalmente nos Estados Unidos e na UE.

O superávit comercial do Japão em relação ao resto do mundo chegou, em 2015, a US$ 6 bilhões aproximadamente, um valor absolutamente baixo causado pelo impacto negativo das chamadas “Décadas Perdidas“. Ainda assim, só com os Estados Unidos, o saldo positivo da balança comercial nipônica foi de quase cinco vezes mais em comparação ao ano anterior. No mesmo período, o superávit de contas correntes era em média US$ 170 bilhões e o Japão possuía cerca de um terço dos ativos bancários mundiais. Na lista das vinte maiores empresas internacionais de 2015, apenas a Toyota figura entre elas na oitava posição.

Em meados da década de 1980, o volume dos investimentos nipônicos no exterior alcançou US$ 34.5 bilhões, e quadruplicou durante os anos 1990. Desde 1950, as aplicações externas de capitais japoneses aumentaram quase cinco vezes. Cerca de 70% desses capitais dirigiram-se para a América do Norte e a Europa, com a metade nos Estados Unidos. Em discrepância absurda, os investimentos estrangeiros no Japão não chegaram a US$ 3 bilhões até o início da década de 1990, ou seja, um dólar de capital estrangeiro cobria US$ 25 de capitais nipônicos investidos no exterior. Não contentes, os japoneses estipularam atingir cerca de US$ 300 bilhões de inversões no estrangeiro por volta da virada do milênio, expandindo a participação de empresas nipônicas de 3,2% (década de 1980) para cerca de 22% e superando, assim, os Estados Unidos. As subsidiárias japonesas puderam, desse modo, empregar cerca de quase 4 milhões de operários , quantia superior aos 2,7 milhões que foram estipulados em outros países em comparação com os 700 mil da época.

Ainda nos anos 1980, os Estados Unidos voltaram a aumentar sua participação na produção industrial global, chegando a quase 40%. O Japão encerrava então o seu ciclo inicial de expansão sustentada pelos ganhos de produtividade, com apoio das novas técnicas de produção. Suas taxas de crescimento caíram a níveis aproximados das demais nações industrializadas. Haviam sido acumuladas, contudo, as vantagens de balanças comerciais e da explosão de seus investimentos no exterior. Antes de 1994, a porcentagem comercial do Japão no mercado mundial era de 10%, em confronto com a dos Estados Unidos (11%) e a da EU (38%).

A correlação entre as importações de produtos industrializados e o PIB no Japão era de 2,4% (década de 1980), ao passo que atingia nos Estados Unidos 7,3% e, nas demais nações desenvolvidas, perto de 10%. As portas japonesas continuam fechadas aos investimentos estrangeiros diretos, não passando estes de 3% do montante global de ativos industriais do Japão, em comparação com 17% investidos nos Estados Unidos e 20% nos demais países industrializados. Seria o momento, na opinião dos ianques e dos europeus, de se ter uma “conversa” como o parceiro obstinado.

A recessão ianque produzia seus efeitos na economia japonesa logo no início dos anos 1990, com redução dos níveis das atividades industriais e queda da demanda interna. As bolsas marcaram declínio e a palavra recessão era sussurrada pelas fontes oficiais. Um novo surto de corrupção afetou parlamentares e o comprometimento do líder do Jimintō (Partido Liberal Democrata – PLD) iria derrubar um domínio partidário ininterrupto de quase quatro décadas, nas eleições gerais de julho de 1993. Morihiro Hosokawa, fundador do partido centro-reformista Nihon Shintō (Novo Partido do Japão – NPJ) venceu as eleições para o cargo de Primeiro-Ministro com sua plataforma contra o “tripé de ferro” – empresários, burocratas e liberais-democratas –, que havia se eternizado no poder e foi responsável pela crise do annus horribilis de 1993. Assim como ocorre na atualidade, povo japonês protestava contra os padrões duros da vida cotidiana, contra as longas semanas de trabalho, o alto custo da morada e da alimentação (ainda que o per capita nipônico de US$ 36 mil fosse o maior do mundo na época) e contra a superlotação dos transportes urbanos, que necessitavam de “arrumadores” nas horas de pico.

As relações do Japão com a EU caracterizaram-se por verdadeira invasão de investimentos nipônicos. Em outubro de 1989, a futura Primeira-Ministra francesa Édith Cresson denunciou os takeovers japoneses. Naquela ocasião, a imprensa francesa estampava que 700 empresas japonesas já haviam se estabelecido na Europa, adquirindo 400 fábricas e empregando cerca de 750 mil pessoas. Em 1990, o total dos investimentos japoneses na Europa chegava a quase US$ 14 bilhões, a maioria na Grã-Bretanha (US$ 6 bilhões), na França e na Alemanha com um total de quase US$ 2 bilhões em cada país. Em geral, os capitais nipônicos dão preferência, nas suas aquisições ou associações, às indústrias farmacêuticas (Itália), siderúrgicas (Grécia), mecânica pesada (Países Baixos) e aos mercados imobiliários (Reino Unido). No campo eletrônico, além dos referidos países, os japoneses estão presentes na Alemanha, na França, na Espanha, na Irlanda, na Noruega e na Dinamarca.

Em relação ao emprego de mão de obra, as joint ventures japonesas produzem efeitos conflitantes. Podem, de fato, intensificar os níveis de produção com a utilização de operários especializados, novas técnicas e métodos gerenciais. Por outro lado, não obstante, os modernos processos industriais nipônicos trazem maior utilização de robotização e mecanização, causando repúdio aos tradicionais sindicatos europeus.

A importação crescente de carros japoneses levou os países da UE e da EFTA (European Free Trade Association, ou “Associação Europeia de Comércio Livre”) imposição de cotas e percentuais, como fazem, aliás, os Estados Unidos e o Canadá. Apesar das medidas restritivas, o Japão conquistou uma porcentagem significativa dos mercados automobilísticos europeus na Bélgica (cerca de quase 20%), na Suécia, na Suíça (23% em cada) e na Dinamarca (34%) no início da década de 1990. Com a entrada em vigor do Tratado de Maastricht, às importações extrazonais de carros e de caminhões ficaram sujeitas à regra única do mercado comunitário. Receando a liberação total de importação, a indústria automotiva na França previu então que os fabricantes na UE teriam prejuízos com a queda na produção de até 500 mil veículos e a demissão de mais de 100 mil operários e pessoal de apoio.

A abertura da economia japonesa é inevitável, parecendo resumir-se a questão ao seu processo no tempo e às conveniências da reformulação econômica das estruturas sociais e políticas no país. No período entre 1991 e 1993, Washington conduziu sua política de contratos e encontros de alto nível para a elaboração de esquema de abertura dos mercados japoneses aos produtos ianques. Essa ofensiva culminou no summit de fins de 1992, ocasião em que a intransigência e a gastronomia japonesa se revelaram indigestas ao então Presidente George Bush (Sr.). A importância da “guerra automobilística” foi ressaltada pela presença de dezenas de representantes da indústria automotiva dos Estados Unidos. A imposição de critérios mais estritos no quadro do NAFTA mostrou a vontade ianque de limitar a participação japonesa nos três mercados da América do Norte, elevando as cotas nacionais de fabricação local.

Bill Clinton continuou a desenvolver política de novos encontros de cúpula, mas o Japão persistiu em manter seus superávits na balança comercial global, que atingiu cerca de US$ 170 bilhões, dos quais mais de um terço proveniente dos Estados Unidos e um quinto da UE. Em maio de 1995, Washington anunciou a imposição de alíquota de 100% sobre carros japoneses que, então, representavam US$ 6 bilhões de vendas anuais no mercado ianque. Um ano antes, o setor automobilístico japonês havia concorrido com quase 62% do superávit comercial do Japão (US$ 66 bilhões) nas transações com os Estados Unidos.

Em princípios de 1995, o déficit comercial dos Estados Unidos nas transações com o Japão, acima referido, caiu para US$ 59 bilhões, como resultado de restrições e desvalorização do dólar ianque frente ao iene. Ainda assim, o Japão permanece sendo a mais “fechada” das economias industrializadas.

A área Leste Asiática tem importância crucial nas relações comerciais e financeiras do Japão, conduzidas com especial cuidado político, momento das recordações de brutalidade das ocupações japonesas. Esses países são, aliás, bons parceiros de intercâmbio, quando se sabe que a lucratividade média das vendas nipônicas chega a 5%, ao passo que, na Europa, orça por volta 3,2% e, nos Estados Unidos, em menos de 1%.

Enquanto os investimentos globais diretos japoneses caíram 39% entre o período de 1991 a 1993, na China duplicaram, e cresceram na indonésia e no Vietnã. Neste último país, aliás, as grandes companhias e os bancos nipônicos abriram, recentemente, seus escritórios. Fabricantes de máquinas e de eletrodomésticos pretendem investir ainda mais no Vietnã para produzir bens destinados à exportação. Na indústria de cimento, a Mitsubishi e a Nihon Cement montaram joint venture, perto de Hanói, no valor de US$ 300 milhões. Foi a iniciativa de conceder assistência financeira japonesa ao Vietnã que levou os Estados Unidos a suspenderem o embargo ao antigo inimigo em fevereiro de 1994.

No início da década de 1990, a participação do intercâmbio nipônico nos mercados asiáticos já alcançava 41% do total, enquanto a ianque estava próxima dos 30%. A perda do comércio preocupa Washington, que vê ainda com maus olhos a possibilidade de criação do “bloco do iene” na Ásia-Pacífico. Não há dúvidas sobre o aumento da competição comercial ianque, europeia e chinesa, à medida que Tóquio ceder às pressões econômicas para a consolidação e a expansão de sua “política asiática” naquela região. A chamada “doutrina Miyazawa” não sobreviveu à derrubada do ex-primeiro-ministro homônimo. São proféticas, todavia, suas palavras de que “à medida que venha a crescer a importância da Ásia-Pacífico como região pluralística e aberta no cenário internacional, o povo japonês deverá assumir suas grandes responsabilidades naquela área”.

 

CHINA: CONTRASTES POLÍTICOS E ECONÔMICOS

A partir de 1978, a China ingressou na era das transformações gradativas que se sucederam ao caos político e social provocado pela Revolução Cultural maoísta (1966-1976) e pelos excessos da Guarda Vermelha. O clima de anarquia marcou profundamente a sociedade chinesa, conquistando o endosso popular para as reformas de Deng Xiaoping, que revitalizaram a economia nas cidades e no campo. Dez anos e meio a ascensão do diminuto líder ao poder, não houve, contudo, correlação positiva entre o liberalismo e a economia de mercado que, geralmente, andam de mãos dadas.

O episódio brutal da Praça da Paz Celestial em 1989 marcou inequivocamente a opção de Deng em favor da ditadura política do Partido, desafiando a opinião pública mundial e acentuando na China os contrastes entre o atraso político e o êxito da reformulação econômica. No período de 1979 a 1994, a República Popular da China manteve taxa média de crescimento econômico em torno de 10% a 12% anuais.

A criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEE), em 1984, e, posteriormente, de catorze cidades costeiras de economia liberalizada tiveram como propósito a atração de capitais estrangeiros pela concessão de vantagens fiscais e de facilidades na remessa de lucros, e pela livre gestão de suas administrações. O êxito da iniciativa, quase dez anos depois, ficou comprovado pelo fato de metade do PIB chinês ser proveniente da rede de zonas francas. A abertura para o exterior por volta de 1992 estendeu-se a todas as capitais das trinta províncias chinesas. As indústrias são autorizadas a investir novamente parte dos lucros, com poder decisório na gestão de compras e na condução da política salarial. Podem também dispor, a preços de mercado, dos excedentes de produção estabelecidos pelo Governo central. Os investimentos estrangeiros diretos e as joint ventures procedem, em grande parte, de Hong Kong e de Taiwan, bem como da comunidade chinesa residente nos países pertencentes aos Tigres Asiáticos.

A província de Guangdong, com seus quase 110 milhões de habitantes, figura como a mais importante das ZEE, possuindo quatro das cinco zonas existentes no país e mantendo relações especiais com Hong Kong e Macau, que foram incorporadas, em 1997, à China. Ainda há grande interesse no setor automobilístico, já que o número existente de veículos particulares em circulação não cresceu de maneira significativa. A zona especial de Shanghai manufaturou uniformes para o Exército norte-americano. Beijing entrou na era da computação e aumenta cada vez mais a sua competição com os japoneses. Nas zonas francas, são ignoradas condições normais de trabalho, com jornadas de dez horas e sete dias na semana.

Ao fim da década de 1980, o comércio exterior global chinês era de U$S 110 bilhões, alcançando, em 1994, US$ 236 bilhões, cabendo às exportações US$ 121 bilhões e, portanto, sendo registrado saldo de cerca de US$ 6 bilhões. Em 1990, os Estados Unidos concederam à China tratamento de “Nação Mais Favorecida”. Esse fator concorreu para o aumento do volume de intercâmbio, atingindo o déficit comercial ianque cerca de US$ 21 bilhões em 1994. Choques, porém, surgiriam em virtude das condenações internacionais à repressão aos direitos humanos, após o episódio da Praça Celestial, que colocou perto de 100 mil dissidentes nos famigerados campos de reeducação. A repressão censurou a mídia, proibiu e dissolveu manifestações estudantis, mantendo regime de trabalho escravo em diversas regiões pobres.

Em fins de 1995, surgiu nova crise nas relações sino-ianques ante os protestos de Washington contra a pirataria chinesa, na área de Guangdong, onde haviam sido fabricados no ano anterior cerca de 1,5 milhão de livros e 2,2 milhões de discos laser, gerando prejuízo para os fabricantes ianques de cerca de US$ 1 bilhão. Sem titubear, o Governo dos Estados Unidos aplicou tarifas de 100% sobre cerca de US$ 2.8 bilhões de mercadorias chinesas. Fazendo jus à sabedoria (e à impotência) chinesa, Beijing decretou o fechamento de cerca de 400 lojas piratas nas ZEE. Em fevereiro de 1995, os dois países assinaram um acordo regulando a matéria e os Estados Unidos suspenderam as sanções.

Em um de seus aspectos positivos de aceitação da globalização econômica, a China abriu a exploração e a extração de petróleo a mais de 60 joint ventures com empresas estrangeiras, às quais foram asseguradas livre entrada de investimentos e repatriação de lucros e dividendos. Em 1994, a produção chinesa de petróleo alcançou 150 milhões de toneladas, cabendo aos chineses o quinto lugar entre os produtores mundiais. Naquele ano, as reservas internacionais da China chegaram a um total de quase US$ 60 bilhões. Digno de registro torna-se o intercâmbio sino-japonês, que atingiu US$ 58 bilhões em 1995, com saldo favorável à China.

Em 1994, o PIB chinês foi calculado em cerca de US$ 560 bilhões, ou seja, cerca de US$ 460 per capita ou US$ 1.4 mil, segundo novos métodos de avaliação (discutíveis) com base no poder aquisitivo interno.

Os benefícios da expansão econômica não foram equitativamente repartidos entre as cidades e o campo, bem como entre as diferentes províncias do país. Fontes ocidentais estimam que quase 255 milhões de chineses vivem na faixa da extrema pobreza, compreendendo cerca de 18,6% da população total e 24,2% da economia ativa, em contraste com quase um milhão de “bilionários adeptos ao comunismo”. As cinco regiões de economia especial e as catorze cidades-zonas francas são verdadeiros oásis de prosperidade que contrastam a renda per capita de Shanghai (US$ 1 mil) com a dos camponeses de Shaanxi (US$ 35). O acesso às ZEE ainda não é livre aos chineses de outras regiões, que precisam burlar a vigilância policial para adentrarem como “clandestinos” nas áreas privilegiadas. Sendo pouco mais de 300 empresas superavitárias dentre as quase 4,5 mil empresas rurais, há êxodo rural pela procura de melhores salários e da assistência social dos centros urbanos.

Na capital Beijing, proliferam favelas, como resultado dessa migração camponesa e da impossibilidade de construção suficiente de unidades residenciais populares. A despeito da repressão, há invasões de áreas públicas, não sabendo as autoridades o que fazer com as mais de 500 famílias que ocuparam as ruínas do Jardim Imperial e até mesmo os prédios da Cidade Proibida.

 

O BRASIL E OS TIGRES ASIÁTICOS

Nos anos recentes, os chamados “Tigres Asiáticos” têm sido citados como modelos de desenvolvimento, da conquista crescente de mercados e do acúmulo de reservas multimilionárias. São, evidentemente, projeções parciais da realidade econômica. Cingapura e Hong Kong são cidades-empórios, essa última incorporada à República Popular da China. A Coreia do Sul atravessa, há décadas, crises políticas, diversas tentativas de corrupção em alto nível, revoltas estudantis e contendas parlamentares até mesmo físicas. Continua a procura de uma reunificação problemática (no momento) com os norte-coreanos. Taiwan, sob a ameaça permanente de anexação armada pela China Continental, enfrenta ainda problemas internos de facções políticas dissidentes.

Do ponto de vista de comércio exterior, assinale-se que os três Tigres viáveis (Hong Kong é classificada com estatuto especial), ultrapassam de longe o Brasil nas suas performances comerciais. Enquanto permanecemos por volta de 3%, até mesmo com recuo em nossa participação percentual global, esses três países alcançam níveis significativos entre os 10%. Dispõem de reservas que variam entre US$ 1.4-2 trilhões em relação aos nossos US$ 375 bilhões.

De modo geral, as exportações brasileiras têm diminuído para a Coreia do Sul, embora sua participação em nosso cômputo global seja de aproximadamente 2,4%. Dos últimos quase US$ 3.4 bilhões que exportamos para aquele país, vale assinalar (na pauta) US$ 746 milhões de minérios e concentrados, mais semimanufaturados de ferro e aço, não ligados e alumínio bruto (US$ 254 milhões).

As vendas brasileiras a Taiwan têm-se mantido estáveis, e até declinaram em 2014, sendo sua participação no total exportado global de cerca de 0,3%. Cabe o maior contingente aos semimanufaturados de ferro e aço, não ligados e cereais. Taiwan mostra grande interesse em incrementar o volume de compras no Brasil cada vez mais. Várias missões visitaram-nos, mas Taiwan ainda permanece abaixo dos 25 primeiros compradores de produtos brasileiros.

Mantivemos, nos últimos anos, saldos positivos no comércio com Cingapura (aproximadamente US$ 4.36 bilhões), mas o intercâmbio tem-se estabilizado entre quase US$ 2 bilhões de ambos os lados. Ressalta-se, aliás, que o Brasil também registrou saldos positivos na balança de comércio com Taiwan e Hong Kong (quase US$ 9.8 bilhões e US$ 11.63 bilhões respectivamente), mas os resultados com a Coreia do Sul são desfavoráveis (US$ 11.4 bilhões estimados) apesar de sofrerem uma redução gradativa a cada período. Se compararmos o nosso déficit comercial com estes países (US$ 14.1 bilhões) com o saldo negativo global de 2015 (US$ 58.9 bilhões), verificaremos que corresponde a quase um quarto (cerca de 23,94%).

O referido saldo negativo com os Tigres Asiáticos teve, logo após a celeuma decorrente das importações de automóveis, lugar de destaque nas reclamações das indústrias têxteis brasileiras, ao lado das acusações de dumping feitas aos calçados chineses. Nossos círculos empresariais já objetam moderadamente seu entusiasmo pelos milagres asiáticos, antes reconhecidos como paradigmas de progresso e do êxito da abertura comercial.

Não se deve esquecer, contudo, que as exportações brasileiras para a Coreia em 2015, por exemplo, ultrapassaram nossas vendas ao Canadá, ao México, à Venezuela, à Suécia e a Portugal. Isso para citar apenas alguns países.

 

 

RELAÇÕES NIPO-BRASILEIRAS

Em 2015, o Brasil exportou US$ 5.44 bilhões para o Japão, importando pouco menos do mesmo montante (US$ 4.76 bilhões). Do exame no período de 2013 a 2015, verifica-se que, enquanto nossas exportações diminuíram consideravelmente, as importações brasileiras procedentes do Japão aumentam a cada ano. A participação japonesa nas nossas exportações globais é de quase 8%, chegando a totalizar cerca de 38% do total no cômputo das vendas brasileiras à Ásia (excluindo o Oriente Médio). Com a expansão do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), o Japão perdeu o terceiro lugar para Argentina, sendo posteriormente ultrapassado pelos Países Baixos na lista de nossos maiores importadores.

 

 

Na nossa pauta de exportações, há predominância de alumínio bruto; minério de ferro e seus concentrados; café em grãos não torrados, seguido por carne bovina; hortifrutigranjeiros, madeira de lei, cereais, açúcar e algodão. De sua parte, o Brasil concorre apenas com cerca de 3,1% do total das importações globais nipônicas. Nossas vendas de frutas cítricas têm aumentado ainda mais: suprimos pouco mais da metade do consumo japonês em suco de laranja. Somos também o segundo maior exportador de cacau para o Japão e ocupamos o segundo lugar nas importações japonesas de soja. Por figurarmos entre os principais exportadores de café, auferimos pouco mais de um terço do mercado nipônico de importação do produto. No que concerne às importações brasileiras, predominam os produtos manufaturados japoneses, que seguem aumentando mesmo com a baixa de valores a cada período. As máquinas e os equipamentos representam cerca de 75% das importações brasileiras procedentes do Japão.

Em 2015, o Japão possuía um caixa de US$ 81 bilhões para investimentos, sendo que havia interesse de aplicar quase 40% desse montante no Brasil, dos quais um sétimo era de capitais reinvestidos. Esses números contrastam com US$ 16,4 bilhões dos Estados Unidos (reinvestimentos de US$ 3 bilhões) e com US$ 5.6 bilhões da Alemanha (reinvestimentos de US$ 1.9 bilhão).

Em um total de cerca de US$ 75 bilhões de investimentos estrangeiros no Brasil, os japoneses registraram cerca de 10% e vêm mantendo o terceiro lugar desde 1950. Há, todavia, diferença de comportamento se considerarmos o cômputo global dos investimentos japoneses. Na lista mundial, a porcentagem brasileira caiu 7,6% no período de 1950-2000 e, em 2015, se contarmos investimentos diretos e empréstimos a pouco mais de 6%. Nosso País está em vigésimo sétimo lugar na escala mundial de investimentos nipônicos, atrás de nações em menor escala de desenvolvimento como o Panamá, a Indonésia, as Filipinas e o México. No momento atual, os japoneses parecem seriamente interessados na reconstrução dos países do Sudeste Asiático, Ásia Central e em menor escala na Europa Oriental.

Entre o período de 2014 a 2015, os investimentos diretos do Japão no Brasil, de conformidade com o Banco Central, cresceram cerca de US$ 2.25 bilhões. Os investidores japoneses, a partir de 1990, passaram a aguardar definições do Governo nipônico em relação à questão da dívida externa brasileira e à nossa credibilidade internacional, abalada pelos sucessivos planos de recuperação da economia. Em meados da década de 80, o então Primeiro-Ministro Yasuhiro Nakasone anunciou um plano homônimo de políticas econômicas e despertou grandes esperanças brasileiras: cerca de vinte projetos almejavam recursos japoneses no montante equivalente a US$ 6 bilhões, sendo que projetos de US$ 1.5 bilhão foram aprovados até abril de 1991. A crise política dada e o processo de impeachment do então Presidente Fernando Collor somado a outros escândalos de corrupção fizeram as relações financeiras marcarem novo compasso de espera.

Em fins dos anos 90, economistas do BNDES procuraram fazer análises prospectivas da extensão da política japonesa de investimentos no Brasil, à luz do relatório feito pela Japan Overseas Enterprise Association (JOEA), após o primeiro envio de missão ao Brasil em 1989. As avaliações feitas pela JOEA e comentadas pelo BNDES não foram consideradas estimulantes para a retomada de investimentos que as autoridades nipônicas vinculavam ao combate à inflação; à redução do custo de vida; à abertura e à modernização da economia brasileira. Vistos ex post, os postulados críticos não se mostravam apenas válidos, nos últimos três anos de queda dos investimentos japoneses, mas mereciam consideração, principalmente quando ainda tínhamos de comprovar, à comunidade financeira internacional, nossa disposição de nos modernizar de fato e abrir a economia.

As restrições e os percalços nipônicos não eram apenas típicos do Japão, embora seus negociadores parecessem, às vezes, mais francos e contundentes nos seus pronunciamentos. Os círculos de investidores japoneses apontavam o déficit público brasileiro como a fonte de maior impacto inflacionário, cujo controle afetava a recessão e o desemprego crônico, obrigando o Governo a aumentar os gastos administrativos, os benefícios de previdência social e principalmente a dívida pública, enquanto as receitas caíam com a sonegação e a queda da produção e do comércio. As perspectivas de dissidência de regras governamentais capazes de despender ao invés de manter aberta a economia brasileira – a privatização das grandes estatais, as reservas de mercados, as barreiras tarifárias e medidas contra o acesso da renovação tecnológica – nunca foram decisões das mais corretas diante das dúvidas japonesas.

Em fevereiro de 1996, os resultados positivos do Plano Real para a estabilização econômica e a retomada dos investimentos diretos estrangeiros fizeram com que a Federação das Indústrias do Japão (Keidanren) enviasse ao Brasil cerca de uma centena de empresários em missão exploratória, antecedendo a viagem do então Presidente Fernando Henrique Cardoso ao Japão. Era a continuidade de processo iniciado, no decorrer de 1995, por missões técnicas que teriam dado aval ao reinício das relações financeiras interrompidas. O pacote preparado para a visita presidencial reuniu, como mutuantes, o antigo Ministério da Indústria e Comércio Internacional do Japão (MITI), a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), o Banco Japonês de Exportação e Importação (JEXIM) e o Fundo de Cooperação Econômica para o Exterior (OECF).

De retorno, o presidente brasileiro trouxe promessas, sujeitas à aprovação da Dieta, de concessão de créditos em um montante de cerca de US$ 3.5 bilhões, para serem aplicados em projetos conjuntos com aporte brasileiro. Com exceção de um empréstimo, os demais não eram tied up à importação de equipamentos e de bens japoneses. Na verdade, metade do crédito supradito era referente à reabertura de seguros para financiar exportações nipônicas ao Brasil, com garantia pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão (METI, antigo MITI) no caso de inadimplência brasileira. O antigo Eximbank do Japão (JEXIM) comprometeu-se a participar de projetos, com US$ 1 bilhão, três deles nas áreas de transporte ferroviário e rodoviário, e de crédito concedido ao BNDES para a modernização de equipamentos do setor industrial privado.

A OECF manifestou a intenção de financiar quatro projetos ambientais em Curitiba, Salvador, Cuiabá e em diversos pontos do Ceará e de Santa Catarina, totalizando de US$ 579 milhões mais a contrapartida dos governos estaduais. A ausência de compromissos definitivos recorda o longo período de estagnação nas relações financeiras entre os dois países. Os encontros de alto nível não invalidam o fato de que a retomada dos investimentos nipônicos serão sempre equacionados a considerações sobre o prazo do crescimento do mercado interno brasileiro e a nossa viabilidade de solucionar problemas econômicos e sociais de caráter estrutural.

A estratégia japonesa de investimentos no exterior levou abundância de recursos naturais e os custos da mão de obra nos estágios iniciais de formação de suas joint ventures com capitais nos países em desenvolvimento. Atualmente, essa norma teria evoluído para novo conceito de globalização dos mercados nacionais de produção, não somente para o atendimento da expansão do comércio mundial mas, igualmente, para o suprimento de crescentes demandas internas. Essa nova estratégia pressupõe a distribuição da riqueza social em bases progressivamente maiores. Nesse aspecto, os economistas da JOEA haviam apontado a concentração da renda brasileira, o aumento da população inativa e os efeitos dos novos métodos de produção que, mais e mais, exigem processos de emprego intensivo de capital à medida que o Brasil aumenta sua participação no intercâmbio comercial mundial.

Recentes comentários japoneses chegaram a mencionar que haveria necessidade de implantar pequenas e médias indústrias nipônicas de apoio em setores montadores de automóveis, máquinas e equipamentos e na indústria eletrônica. Essa circunstância seria fundamentada em experiências de compra nos mercados brasileiros “que lhes caracterizam grau de desatualização tecnológica, irregularidade de preços e de qualidade, e prazos de entrega extensivamente inferiores ao mínimo indispensável à competitividade internacional”.

 

AS RELAÇÕES SINO-BRASILEIRAS

São decorridos quase 45 anos desde o estabelecimento de relações diplomáticas entre o Brasil e a China, o que, para tal, exigiu fechamento “a toque de caixa” da embaixada de Taiwan em Brasília. Foi durante a década de 70 que se multiplicaram os contatos de alto nível e as missões comerciais a capital Beijing. Por volta de 1985, o intercâmbio comercial sino-brasileiro chegou a número recorde de US$ 1.2 bilhão que, contudo, não se manteve. O montante das trocas entre o Brasil e a China caiu para US$ 724 milhões em 1989, com acentuada diminuição das exportações chinesas para o Brasil. As exportações brasileiras, por sua vez, caíram no início da década de 90, situando-se bem abaixo dos US$ 648 milhões registrados ao fim dos anos 80. Em 1990, houve alguma recuperação do nível das vendas brasileiras, que somaram US$ 460 milhões.

Nos últimos anos, o intercâmbio sino-brasileiro oscilou cerca de US$ 4.6 bilhões por período, mas as importações e exportações não foram nada favoráveis para nós – um déficit de quase US$ 6.3 bilhões em períodos equânimes –. O Brasil exportou para China, em 2015, soja e seus derivados (US$ 15.7 bilhões); minérios de ferro e metais em geral (US$ 8 bilhões); petróleo bruto (US$ 4.17 bilhões); hortifrutigranjeiros (US$ 2.31 bilhões); celulose (US$ 2.05 bilhões) e partes e peças para automóveis, máquinas e itens eletrônicos (US$ 694 milhões).

 

 

A visita do Premier chinês, Li Keqiang, ao Brasil em maio de 2015 abriu novas perspectivas à expansão do intercâmbio. Segundo o Itamaraty, discutiu-se o “entrelaçamento econômico que configurou algo como uma parceria estratégica em setores de infraestrutura, energia e matérias-primas, serviços de consultoria e engenharia”. São setores em que a China pretende investir cerca de US$ 500 bilhões até o fim da atual década. O Brasil, com sua comprovada experiência na construção de barragens hidrelétricas, procura candidatar-se a outras construções de grandiosas usinas, tal como a de “Três Gargantas”, considerada a maior obra de engenharia do fim do século XX. Seu orçamento final foi avaliado em quase US$ 28 bilhões e seu tamanho corresponde a duas usinas de Itaipu em termos de geração de energia. É também a maior hidrelétrica do mundo em energia gerada com a segunda maior barragem e represa.

A cooperação entre os dois países ganhou, na realidade, expressão com a assinatura do primeiro acordo espacial em junho de 1988. Seu motivo era dado à construção conjunta de dois satélites de sensoriamento remoto destinados ao levantamento de recursos terrestres, denominado Programa CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite, ou “Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres”). Tal iniciativa foi, sem dúvida, um projeto pioneiro na área de tecnologia aeronáutica avançada. Após atraso, em consequência de problemas orçamentários brasileiros, o projeto finalmente deslanchou: o primeiro dos satélites foi programado para lançamento em outubro de 1996 (posteriormente adiado) e o segundo para ser integrado no Brasil e lançado na China em meados de 1997. Em novembro de 1994, um acordo-quadro firmado em Beijing, expandiu a área de cooperação e intercâmbio em ciências e tecnologias espaciais, comunicações, materiais especiais, microgravidade, etc.

 

 

Durante a visita do então Presidente Fernando Henrique Cardoso à China em 1995, foi assinado acordo para ampliação da cooperação espacial; inclusive, prevendo aumento de dois para quatro no número de satélites de sensoriamento remoto para fins de investigação de recursos terrestres do programa sino-brasileiro. Esse programa tinha propósitos não apenas para tornar ambos os países autossuficientes na geração de informações sobre clima e recursos naturais como de assegurar-lhes posição de fornecedores desses dados ao mercado mundial.

Nos ajude a espalhar a palavra:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.