Como os Houthis viraram o tabuleiro de xadrez

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Somos os houthis e estamos chegando à cidade. Com o espetacular ataque a Abqaiq, os houthis do Iêmen viraram a mesa do tabuleiro de xadrez geopolítico no sudoeste asiático, a ponto de introduzir uma nova dimensão: a visível possibilidade de investir num movimento para afastar do poder a Casa da Saud.

Revide é revide, sempre duro de aguentar. Houthis – xiitas zaiditas do norte do Iêmen – e wahhabistas vivem há séculos com as garras uns no pescoço dos outros.

“Tribes and politics: History of the Yemen Conflicts” [Tribos e política: história dos conflitos no Iêmen] é um livro absolutamente essencial para entender a complexidade quase insondável das tribos houthis; de brinde, apresenta os tumultos em terras árabes do sul como bem mais que mera guerra por procuração entre iranianos e sauditas.

Ainda assim, é sempre importante considerar que os xiitas árabes na província oriental – que trabalham em instalações sauditas de extração e tratamento do petróleo – acabaram por se converter em aliados naturais dos Houthis que lutam contra Riad.

A capacidade de ataque dos Houthis – de enxames de drones a ataques com mísseis balísticos – tem melhorado extraordinariamente nos últimos anos. Não é acaso que os Emirados Árabes Unidos (EAU) tenham percebido o modo como sopravam os ventos geopolíticos e geoeconômicos: Abu Dhabi retirou-se da guerra viciosa do príncipe herdeiro Mohammad bin Salman contra o Iêmen e agora está engajada no que descreve como uma estratégia de “primeiro a paz”.

Mesmo antes da Abqaiq, os houthis já arquitetaram alguns ataques contra as instalações petrolíferas sauditas, bem como contra os aeroportos de Dubai e Abu Dhabi. No início de julho, o Centro de Comando de Operações do Iêmen montou uma exposição em Sana’a, na qual exibiu seus variados drones e mísseis balísticos e alados.

Imagem: Ministério da Defesa saudita exibe drones e peças de mísseis usados no ataque à refinaria.

A situação chegou agora a um ponto em que muito se fala no Golfo Persa de um cenário espetacular: os houthis investindo em uma corrida louca pelo deserto árabe para capturar Meca e Medina, em conjunção com um levante xiita massivo no cinturão petrolífero oriental. Já deixou de ser inverossímil ou impensável. Coisas mais estranhas aconteceram no Oriente Médio. Afinal, os sauditas não conseguem vencer nem briga de bar – por isso dependem de mercenários.

Orientalismo ataca novamente

A repetição incansável, pela inteligência dos EUA, do refrão de que os houthis seriam incapazes de ataque tão sofisticado trai as piores inclinações [antiorientalistas] do orientalismo e da ideia de que os brancos carregariam “o fardo do colonialismo”.

As únicas partes de mísseis mostradas pelos sauditas até agora vêm de um míssil cruzador iemenita Quds 1. Segundo o general-brigadeiro Yahya Saree, porta-voz das Forças Armadas iemenitas em Sana’a, “o sistema Quds provou a sua alta capacidade para atingir os alvos e para escapar dos sistemas de interceptadores inimigos”.

Esta imagem de divulgação distribuída pelo governo dos EUA mostra os danos causados pelos drones que atacaram no fim-de-semana a infraestrutura de petróleo/gás em Abqaiq. I (Foto por HO / US Government / AFP)

As Forças Armadas Houthis reivindicaram devidamente a responsabilidade pela Abqaiq:

“Essa uma das maiores operações realizadas por nossas forças, em profundidade, na Arábia Saudita, e veio depois de uma acurada operação de inteligência e monitoramento, com a cooperação de homens honrados e livres dentro do Reino.”

Prestem atenção ao conceito chave: “cooperação” recebida de dentro da Arábia Saudita – que poderia incluir todo o espectro, de iemenitas àqueles xiitas da província oriental.

Ainda mais relevante é o fato de que o massivo hardware dos EUA instalado na Arábia Saudita, de dentro para fora e de fora para dentro – satélites, Airborne Warning And Control System, [AWACSSistema Embarcado de Alerta e Controle], mísseis Patriotdrones, navios de guerra, caças a jato – nada viu ou, com certeza, absolutamente nada viu a tempo. O fato de um kuwaitiano caçador de pássaros ter avistado três drones “vagabundos” que voavam em direção à Arábia Saudita está sendo invocado como “prova”. Só serve para chamar a atenção para a imagem embaraçosa de um enxame de drones – de onde quer que viessem – sobrevoando território saudita, sem ser incomodado, durante horas.

Funcionários da ONU admitem abertamente que agora tudo o que importa está dentro dos 1.500 km de alcance do novo drone UAV-X dos houthis: campos de petróleo na Arábia Saudita, uma usina nuclear ainda em construção nos Emirados Árabes Unidos e o mega-aeroporto de Dubai.

Minhas conversas com fontes em Teerã nos últimos dois anos confirmaram que os novos drones e mísseis dos Houthis são essencialmente cópias de projetos iranianos montados no próprio Iêmen com a ajuda crucial dos engenheiros do Hezbollah.

A inteligência dos EUA insiste que 17 drones e mísseis cruzadores foram lançados em combinação, do sul do Irã. Em teoria, o radar Patriot teria captado a invasão e derrubado os drones/mísseis. Até agora, nenhum registro desta trajetória foi revelado. Os peritos militares geralmente concordam que o radar instalado no míssil Patriot é bom, mas a sua taxa de sucesso é “contestada” – para dizer o mínimo. O importante, mais uma vez, é que os houthis têm mísseis ofensivos avançados. E a precisão que se viu em Abqaiq foi surpreendente.

Essa imagem de satélite, de divulgação, mostra os danos à infraestrutura de petróleo/gás resultantes dos ataques de fim de semana com drones em Abqaiq, na Arábia Saudita. Cortesia da Planet Labs Inc.

Por agora, parece que o príncipe herdeiro, codinome MBS, não é o vencedor da guerra apoiada por EUA/Grã-Bretanha, da Casa de um saudita contra a população civil iemenita, que teve início em março de 2015 e gerou uma crise humanitária que a ONU declarou “de proporções bíblicas”.

Ouçam o general

As torres de estabilização de petróleo bruto – várias delas – na Abqaiq foram especificamente alvejadas, juntamente com os tanques de armazenamento de gás natural. Fontes no Golfo, especialistas em energia, têm-me dito que reparações e/ou a reconstrução podem durar meses. Até Riad admitiu.

Culpar cegamente o Irã, sem provas, não faz sentido. Teerã pode contar com enxames de excepcionais pensadores estrategistas. E não precisam nem querem explodir o Sudoeste Asiático, coisa que, por falar disso, poderiam fazer: generais da Guarda Revolucionária já disseram muitas vezes que estão prontos para a guerra.

O professor Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã, que tem relações muito estreitas com o Ministério de Relações Exteriores, foi taxativo: “Não veio do Irã. Se tivesse vindo, seria muito embaraçoso para os estadunidenses, porque mostraria que os EUA são incapazes de detectar um grande número de drones e mísseis iranianos. Não faz qualquer sentido.”

Marandi salienta ainda que:

“[..] As defesas aéreas sauditas não estão equipadas para defender o país de ataque que venha do Iêmen, só de ataque que venha do Irã. Os iemenitas tem atacado com frequência os sauditas, estão aprendendo sempre mais e mais, desenvolvendo tecnologia de drones e mísseis há quatro anos e meio. O alvo dessa vez foi muito fácil.”

Alvo desprotegido e fácil de destruir: os sistemas PAC-2 e PAC-3 dos EUA estão todos orientados para Leste, na direção do Irã. Nem Washington nem Riad sabem ao certo de onde veio o enxame de drones/mísseis.

Os leitores devem prestar muita atenção a essa entrevista reveladora, com o General Amir Ali Hajizadeh, comandante da Força Aeroespacial do Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica. A entrevista, em farsi, foi conduzida pelo intelectual iraniano Nader Talebzadeh, sancionada pelos EUA, e inclui perguntas enviadas pelos meus amigos analistas americanos Phil Giraldi, Michael Maloof e por mim.

Ao explicando a autossuficiência iraniana em capacidades de defesa, Hajizadeh fala como agente muito racional. Resumo do assunto:

“Nossa opinião é que nem os políticos estadunidenses nem os nossos funcionários querem guerra. Outro assunto é se um incidente como o do drone [o RQ-4N derrubado pelo Irã em junho] acontecer, ou um mal-entendido, e a situação evoluir para guerra maior. Implica dizer que estamos sempre prontos para alguma grande guerra.”

Em resposta a uma das minhas perguntas, sobre a mensagem que os Guardas Revolucionários querem transmitir, especialmente aos EUA, Hajizadeh responde com clareza firme:

“Além das bases dos EUA em várias regiões como Afeganistão, Iraque, Kuwait, Emirados e Qatar, consideramos alvo todas as embarcações navais até uma distância de 2.000 quilômetros, que monitoramos constantemente. Acham que se estiverem a 400 km, estariam fora do nosso alcance de tiro. Onde quer que estejam, só é preciso uma faísca e acertamos suas naves, suas bases aéreas, suas tropas.”

Peguem logo seus S-400s, se não…

No front de energia, Teerã tem jogado jogo muito preciso, sob pressão – vendeu muito petróleo, desligando os transponders dos seus navios-tanque quando saem do Irã, e transferindo o petróleo em alto mar, de navio-tanque para navio-tanque, à noite; a carga é novamente rotulada, como se fosse proveniente de outros produtores a determinado preço. Há semanas acompanho esse movimento, com corretores de confiança, no Golfo Persa – e todos eles confirmam. É um processo que o Irã pode continuar a usar para sempre.

Claro que a administração Trump sabe disso. Mas fato é que os norte-americanos estão olhando na direção oposta. Dito da forma mais concisa possível: caíram na armadilha, ao cometerem a loucura absoluta de abandonar o “Tratado Nuclear” [JCPOA]; agora estão à procura de uma saída honrosa, por pouco honrosa que seja. A Chanceler alemã Angela Merkel já advertiu o governo norte-americano, sem meias palavras: EUA têm de voltar ao acordo que renegaram, antes que seja tarde demais.

E agora, a parte de arrepiar.

O ataque em Abqaiq mostra que toda a produção de mais de 18 milhões de barris de petróleo por dia no Médio Oriente – incluindo Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita – pode ser facilmente derrubada. Não há qualquer defesa adequada contra esses drones e mísseis.

Bem, sempre há a Rússia

Eis o que aconteceu na conferência de imprensa depois da Cúpula de Ancara, esta semana, sobre a Síria, reunindo os presidentes Putin, Rouhani e Erdogan.

Pergunta: A Rússia fornecerá à Arábia Saudita ajuda ou apoio na recuperação da infraestrutura atingida?

Presidente Putin: Quanto a ajudar a Arábia Saudita, também está escrito no Alcorão que qualquer tipo de violência é ilegítima, exceto quando se trata de proteger o próprio povo. Para protegê-los, os cidadãos e o país, podemos, sim, prestar a assistência necessária à Arábia Saudita. Basta que os líderes sauditas decidam com sensatez, como fez o Irã, ao comprar o sistema de mísseis S-300 e como fez o presidente Recep Tayyip Erdogan, ao comprar sistema ainda mais novo, o S-400 Triumph, da Rússia. Garantem proteção confiável para qualquer instalação da infraestrutura saudita.

Presidente Hassan Rouhani: Mas precisam de comprar o S-300 ou o S-400?

Presidente Vladimir Putin: Podem escolher [risos].

De fato, em “The Transformation of War” [A Transformação da Guerra], Martin van Creveld previu que todo o complexo industrial-militar-de segurança desmoronaria quando todos percebessem que a maior parte das armas existentes são inúteis contra oponentes assimétricos de 4ª geração. Não há dúvida de que todo o Sul Global assiste ao desdobrar dos acontecimentos – e captou a mensagem.

Guerra híbrida recarregada

Entramos agora numa dimensão completamente nova de guerra híbrida assimétrica.

Na eventualidade – horrenda – de Washington decidir atacar o Irã, atiçada pelos suspeitos neoconservadores de sempre, o Pentágono não pode nem sonhar com atingir e incapacitar todos os drones iranianos e/ou iemenitas. EUA devem esperar, isso sim, guerra total. E nenhum navio navegará pelo Estreito de Ormuz. Todos sabemos as consequências disso.

O que nos leva à Grande Surpresa. A verdadeira razão pela qual pode não haver tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz é que pode não haver petróleo a ser bombeado no Golfo. Os campos de petróleo, todos já então bombardeados, estariam queimando.

Portanto, voltamos ao resultado final realista, enfatizado não só por Moscou e Pequim, mas também por Paris e Berlim: o presidente dos EUA, Donald Trump, apostou muito alto, e perdeu. Agora tem de encontrar uma saída que lhe salve a cara. Se o Partido da Guerra deixar.

Fonte Original: Asia Times

Fonte traduzida: Oriente Mídia

Publicado originalmente em 18/09/2019.

Nota:

[1] “Ashura” marca o 10º dia do Muharram, 1º mês do calendário (lunar) islâmico. Para os muçulmanos xiitas, relembra-se nesse dia o martírio de Husayn ibn Ali, neto de Maomé, na Batalha de Karbala [10/10/680 pelo calendário cristão]. Para os muçulmanos sunitas, a data marca o evento da fuga do Egito, de Moisés e seguidores, quando foram salvos por Deus, que separou as águas do Mar Vermelho.

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Pepe Escobar

Jornalista investigativo independente em Asia Times
Jornalista investigativo independente brasileiro (1954 -), especialista em análises geopolíticas. No Brasil, trabalhou para os jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Gazeta Mercantil, além de ter publicado artigos na revista Carta Capital. Desde 1985 tem atuado como correspondente estrangeiro em Londres, Paris, Milão, Los Angeles, Washington D.C., Bangkok e Hong Kong.

Mesmo antes dos ataques de 11 de setembro de 2001, dedicou-se a cobrir o arco que se estende do Oriente Médio à Ásia Oriental e Central, com ênfase nos aspectos geopolíticos e nas disputas das grandes potências por fontes de energia e recursos naturais.

Tem colaborado com a RT (Russia Today), The Real News (TRNN) e Al Jazeera. Assim como para os sites Sputnik, TomDispatch, Strategic Culture Foundation, Counterpunch, Information Clearing House e o Asya Times entre outros da América à Ásia Oriental.

Seus livros foram todos publicados pela Nimble Books:

"Globalistan: How the Globalized World is Dissolving Into Liquid War" (2007)

"Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge" (2007)

"Obama Does Globalistan" (2009)

"Empire of Chaos" (2014)

"2030" (2015)
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