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Para Que Serve a Coletividade? — Dasein, Individualismo e Coletivismo

Pior que viver com problemas, é viver com falsas soluções. O problema (a “crise”) ainda provoca alguma mobilização criativa; a falsa solução aparece e a encerra prematuramente, antes que a resolução atinja sua maturidade ou acabamento. E é por isto que eu acho que muitas das ideias teóricas e pragmáticas defendidas hoje (quase religiosamente) como alternativas à condição atual são “natimortas”: encerraram prematuramente o processo criativo e passaram a repetir slogans vindos de outros contextos, para nossa realidade ineficazes. Por força destes slogas, uma das confusões que mais se veem, e das mais graves, é aquela que impede de enxergar como, se por um lado, a tendência individualista aniquila a coesão social, a esclerose coletivista aniquila a individuação espiritual.

Como os leitores sabem, eu sempre penso esta (a individuação espiritual) a partir do esquema de Simondon e da estrutura dos ritos de passagem, e, mesmo que ela possa ser pensada de outras “N” maneiras, jamais pode, contudo, ser subestimada ou negada. É algo que acompanha a humanidade desde sempre. A luta das aristocracias sempre foi para preservar seu espaço próprio, onde podia levar a termo suas individuações psíquica e espiritual (sem constrangimentos externos): seu espaço, quero frisar, de “liberdade”. Este é o sentido aristocrático do primeiro “liberalismo” (avant la lettre), que só quando absorvido pelos burgueses (depuis la lettre) se tornou o Liberalismo que vemos. Sem isto — sem entrar nesta questão do que chamamos em nosso jargão de o espaço de liberdade relativa para a individuação espiritual (cujo sufocamento é justamente o que se chama “Coletivismo”|) — , não há como falar em solução ao Mundo Moderno, não há como falar em solução para nada. Até porque é a existência deste espaço que permite que a luta tenha êxito individual (interno, espiritual) independente do êxito político, ou melhor, que permite que as almas não se percam e que o esforço não seja em vão.

O Mundo Tradicional, se não colocava a sociedade em função do indivíduo, também não colocava o indivíduo em função da sociedade exatamente: afinal, Dasein é sempre “o ente que sou eu mesmo e cada um de nós individualmente”; Dasein experimenta a Angústia sozinho; Dasein sempre morre sozinho; e é apenas sozinho que Dasein experimenta o Absoluto. Mesmo em coletividade, é sozinho que ele experimenta tudo. (Eu não sou você, você não sou eu. Você não poderá morrer em meu lugar. Nem acompanhado se morre: morre-se sempre sozinho, um de cada vez consigo mesmo.) O Mundo Tradicional desconhece a dicotomia entre individualismo e coletivismo, portanto: mas sempre entendeu que se uma comunidade não consegue satisfazer as necessidades espirituais de seus indivíduos, ela (tal comunidade) não serve para nada. Ela é obsoleta. E apenas em uma sociedade de formigas um tal problema não poderia aparecer.

  • Para quem quiser saber mais sobre como essa relação indivíduo-sociedade aparece no Mundo Tradicional, coloco abaixo esta passagem de Schuon, e aos que não gostam do autor, sugiro que tenham a maturidade de lê-la com independência e honestidade (1).

Enfim… Slogans “anti-individualismo” sem a contraparte “anti-coletivista” geram um efeito negativo no processo criativo de alternativas ao mundo atual, justamente por negligenciarem o que para o homem tradicional, o homem de todas as eras, é o que há de mais importante! Pior ainda é ver o termo “Dasein” empregado nesses meios… Houve uma grande carpintaria filosófica para “coletivizar” este termo, mas ele continua significando a existência ou ente existencial: mesmo coletivamente, mesmo quando juntos, mesmo quando em uníssono, morremos um de cada vez, e, como disse em um dos vídeos, o encontro com o Absoluto é sempre uma conferência privada.

(1) “…fala-se habitualmente do dever de se fazer útil à sociedade, mas se se omite de levantar a questão de saber se essa sociedade é útil, isto é, se ela realiza a razão de ser do homem e, portanto, de uma comunidade humana; evidentemente, se o indivíduo deve ser útil à coletividade, esta, por sua vez, deve ser útil ao indivíduo. A qualidade humana implica que a coletividade não poderia ser o objetivo e a razão de ser do indivíduo, mas que, ao contrário, é o indivíduo que, em sua posição solitária diante do Absoluto e, portanto, pela prática de sua função mais elevada, é o objetivo e a razão de ser da coletividade. O homem, seja concebido no plural ou no singular, se apresenta como um “fragmento de absolutez”, e ele é feito para o Absoluto; ele não tem outra escolha. Pode-se definir o social em função da verdade, mas não se pode definir a verdade em função do social.” (Schuon, Le Jeu des Masques)


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches


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