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Ou o Estado Orgânico — ou Estado Nenhum
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Ainda em algumas partes há povos e rebanhos; mas entre nós, irmãos, entre nós há Estados. Estados? Que é isso? Vamos! Abri os ouvidos, porque vos vou falar da morte dos povos.” (Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)

Para falar da perspectiva tradicionalista acerca do “Estado”, deve-se distinguir, primeiro, antes de qualquer equívoco, o Estado Moderno do Estado Tradicional. A perspectiva tradicionalista concorda com a crítica do Estado conforme enunciada por Nietzsche, mas entende que ela se refere a um tipo de Estado, o Moderno: nela, este é chamado de “o novo ídolo” e “o mais frio dos monstros”, que “mente em todas as línguas do bem e do mal, e em tudo quanto diz mente, tudo quanto tem roubou-o”.

Na escola tradicionalista, o Estado autêntico, verificado em todas as sociedades pré-modernas em formato civilizacional, é entendido como a própria presença, entre os homens, da força estruturante do Cosmo. A sociedade humana é um microcosmo ligado ao macrocosmo pelo eixo central (o omphalos), lócus da autoridade soberana, e através do qual todos os esforços individuais da coletividade confluem, reúnem-se numa só corrente e um só sentido: ascendente. Em alguns de nossos vídeos, recorremos às estruturas piramidais verificáveis em todas as civilizações deste tipo a fim de ilustrar com imagens o que aqui tentamos com palavras. No vídeo linkado, este Estado é comparado a uma escadaria descida de Cima para (re)conduzir os homens — e com eles a totalidade dos entes — ao seu destino último, que é também sua origem última. Este Estado é Sagrado, não só porque de origem divina, mas porque imbuído de uma missão divina — missão que, aliás, é o que humaniza o homem e a coletividade humana, que mantém o humano de pé, isto é, correspondendo à tensão vertical, correspondendo ao Ser. Estado é Hierarquia em sentido pleno do termo: hieros, “sagrado”+ arkhein “reger”. Em seu próprio nome jaz seu segredo: ele encarna o princípio da Estabilidade, o princípio do Ser, em contraste com o da Instabilidade e do Devir; de certa forma, ele é externo às agitações samsáricas do Mundo — podendo, na verdade, até “discipliná-las” e “coordená-las”. O simbolismo do Estado inclui a figura do Chakravartin, o centro imóvel em torno do qual tudo gira, o “monarca que gira a roda”. (A definição de Weber, segundo o qual o Estado se caracteriza pelo monopólio do uso legítimo da violência, é correta, porém refere-se a somente um dos aspectos do Estado: aquele, digamos, técnico-legal, que é praticamente o único que interessava ao sociólogo alemão, já situado no contexto moderno que descreveremos abaixo.)

Desnecessário dizer: o Estado Moderno não é nada disto. Este surge a partir dos processos de dessacralização e desencantamento do Mundo, ou do que chamamos também como a “Morte de Deus”. Falamos exaustivamente deste processo em nosso projeto, e voltaremos a falar muito dele, obviamente. Neste processo, também chamado Modernização, o fundamento de tudo — da própria existência — sofre uma queda vertiginosa: das dimensões supra-humanas às dimensões infra-humanas (instintivas, afetivas, econômicas…). Tendo o humano sido “amputado” de tudo o que o ultrapassa ascendentemente, de todo o supra-humano, seu “Estado” deixa de se fundamentar como realidade supra-humana para se fundamentar como realidade cada vez mais humana e infra-humana. De corresponder ao Divino (a Deus ou aos deuses), ele passa a corresponder ao Humano e ao que há de animal no homem. Sua nova missão, que o fundamenta e que o justifica, passa a ser garantir ao homem condições materiais de existência; uma existência mais cômoda, feliz; construir na terra o paraíso de leite e mel. Antes, a missão da humanidade era completar o projeto divino; depois, tornou-se construir o Estado-Nação; depois, tornou-se pôr fim à luta de classes; hoje, tornou-se “libertar” o homem de tudo o que disciplina suas potências, por exemplo, sexuais. A missão do “Estado” acompanha esta queda. O Estado Moderno não conduz os homens de baixo para cima, mas de cima para baixo, para o encontro com as bestas, com a torrente que tudo arrasta, para a dissolução no amorfo. O atual Estado Moderno (ou podemos chamá-lo de “Pós-Moderno”, com a ressalva de que o “Pós” não nomeia uma ruptura mas uma continuidade ou intensificação do “Moderno”) é uma etapa avançada deste processo em que o Estado sai de sua essência.

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Não é correto supor que Liberalismo signifique ausência do Estado. O Estado, nos países liberais, continua existindo, mas como máquina de promoção das ideologias liberais, de construção da (nova) sociedade (pós)moderna, de repressão às dissidências e de socorro aos oligopólios capitalistas. Esta máquina, contudo, como já dissemos, está longe de ser o Estado autêntico. Como tudo o que sai de sua essência se converte em um simulacro — e a Modernidade pode ser também pensada como a retirada das coisas de sua essência —, este “Estado”, para usar nossa terminologia, é um simulacro de Estado. E ele será sempre necessário ao atual sistema.

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Um dos grandes erros (verificáveis inclusive entre dissidentes tradicionalistas), é pensar o “Estado” (este Estado Moderno) como algo que se deve conquistar para, então, investi-lo de uma nova missão civilizatória — entendida esta como uma restauração dos costumes e/ou formação de cultura. Isto é oriundo (dentre outras coisas que iremos apontar à frente) de uma má compreensão sobre os processos de criação/transformação cultural. Cultura diz respeito a uma realidade que não pode surgir artificialmente; não é dentro de “políticas nacionais”, nos ditamos da disciplina estatal, que a Cultura autêntica pode florescer. As flores da Cultura não desabrocham nos “canteiros dos jardins regulares”. As flores do Estado Moderno são sempre artificiais. A própria existência de um “Ministério da Cultura” já assinala a morte da Cultura — ela tornou-se, de complexo simbólico edificador do Estado, em algo situado fora dele, estranho a ele, um objeto passivo sobre o qual ele pode lançar suas garras, controlar, gerir — , ou aponta que algo está se fazendo passar por Cultura. O “Ministério da Cultura” dos sonhos de alguns tradicionalistas — que ensina literatura universal e música erudita nas escolas públicas — é criação dos “filisteus da cultura” (como os chamava Nietzsche), que aplicam sua mentalidade de burocratas ao que em essência só pode surgir em campos selvagens ou fora da política oficial, no espaço de exceção aberto pela tensão entre a mente individual/humana e o intelecto transpessoal/divino, refratário a toda tentativa de “ministerização”. Aqui vale lembrar de Nietzsche, novamente, que foi sensível à diferença entre Cultura e Civilização, Bildung e Kultur, e à relação de ambos com o Estado. Causava-lhe náusea o nacionalismo alemão da época, com seu wagnerismo ensurdecedor, por revelar-se artificial (no jargão popular, “forçado”); o que enojava Nietzsche eram essas agitações emotivas provocadas artificialmente, isto é, por estímulos externos, um emocionalismo exacerbado, um ufanismo de peitos estufados feito balões: cheios, mas de ar, e estouráveis à menor das agulhas. Vale lembrar que este mesmo Wagner surgiu à margem deste Estado; foi um revolucionário; chegou a ser perseguido e exilado. Tudo o que é novo e poderoso surge à margem do Estado (Moderno). Depois vem o Estado (Moderno) e o toma para si — tornando-o estéril ou pelo menos o domesticando pelos entraves da “política nacional”. É por isto que, para Nietzsche, o autenticamente popular (a Cultura) é antagônico ao Estado. “Onde há ainda povo não se compreende o Estado, que é detestado como uma transgressão aos costumes e às leis.” Estes costumes e estas leis (esta Cultura) são criados, na perspectiva nietzscheana, por homens superiores e, por assim dizer, “selvagens”, no sentido em que sua criatividade não pode ser limitada pelo Estado.

O Estado Totalitário não representa o Estado autêntico, Orgânico. Não podemos cair nas armadilhas em que caíram até hoje alguns tradicionalistas: cantar loas a todo Estado, indistintamente; glorificar o Estado Totalitário — como o verificado em experiências do século XX, por exemplo — como se, sobretudo na perspectiva mais rigorosamente tradicional, não fosse ele também um representante da Modernidade e das tendências dessacralizadoras e humanizadoras. Muitas vezes, sem saber, sem perceber, coloca-se a Tradição como instrumento do agir revolucionário e/ou como instrumento do nacionalismo — rebaixando-a, assim, à estatura do homem, pondo-a a serviço dos apetites humanos. A Terceira Via histórica foi a Revolução tentando criar uma Religião, quando o mais correto seria a Religião criar a Revolução (algo contudo impossível em um Ocidente dessacralizado).

O Estado tradicional é orgânico, não totalitário. É diferenciado e articulado e admite zonas de autonomia parcial. Coordena e faz participar na unidade superior forças a que reconhece liberdade. Precisamente porque é forte, não tem necessidade de recorrer à centralização mecânica: esta só é reclamada se tem de controlar uma massa informe e atômica de indivíduos e de vontades, o que, entretanto, faz com que a desordem não possa ser verdadeiramente eliminada mas contida provisoriamente. (Evola, “O Fascismo vista da Direita”) — ver passagem integral nesta postagem d’A Clava.

A tendência a fazer do Estado (todo e qualquer “Estado”) agente de transformação cultural — desejar conquistá-lo, preservando a máquina e mudando apenas sua direção — , é, como dissemos, oriunda de uma péssima compreensão sobre a dinâmica da Cultura — e, acrescentamos, das revoluções espirituais. Mas ela também expressa, além disto, o modo de pensar de um tipo humano: o burocrata, uma das crias mais eloquentes, influentes e barulhentas da Modernidade. Dever-se-ia dar mais atenção ao fato de que muitas das revoluções modernas (inclusive aquelas ainda “em elaboração” e pretensamente “alternativas” à Modernidade) são idealizadas e levadas a cabo, hegemonicamente, por homens que tiram seu sustento trabalhando para o governo; homens dependentes do Estado; que parecem não conseguir pensar fora dele. Toda revolução (moderna) se cristalizou em um Estado revolucionário controlado por burocratas, uma verdadeira bureaucratie, uma ditadura do funcionário. Isto porque, como escreve van den Bruck, o revolucionário de hoje é o conservador de amanhã. Os homens de que uma revolução tradicionalista precisa (revolução no sentido literal, ou seja, “recondução das coisas ao seu estado originário”), as células da Regeneração do Mundo, não surgirão deste meio, viciado e estatólatra. Estes surgirão, para fazer uma ponte com o texto publicado há poucos dias, semelhantes aos “bandos” no sentido quase etimológico do termo, isto é, aquele que diz respeito à condição daqueles que estão do lado de fora, fora da lei, fora do sistema, por força de uma ordem de banimento. Aqui, não podemos resistir à tentação de relembrar que a condição humana na Modernidade é a condição de Abandono, Errância e Apatricidade (Heimatlosigkeit). O homem foi expulso de sua residência simbólica integral, ele é essencialmente um tschandala, expulso da estrutura tradicional para vagar pelo Deserto que cresce. Nesta condição ele é caçado, capturado e escravizado pelas engrenagens de um mundo de simulacros. Estado Moderno é como se chama a isto que o caça (“Os que armam laços ao maior número e chamam a isso um Estado são destruidores”, isto é, não criadores de um novo bem e um novo mal).

O Estado Moderno deve perecer. Ele usurpa o lugar do verdadeiro e autêntico Estado, o Estado Orgânico, único merecedor do sangue do tradicionalista. Ele não deve ser “tomado”, mas demolido. Deve abrir espaço para a ação criativa dos homens autênticos. Nenhum modelo, entre “os grandes Estados” em vigência, serve-nos como exemplo, menos ainda às células de resistência situadas nas sociedades liberais. Um Estado como o chinês, antípoda do liberal americano, simplesmente sufoca todo espaço para cultivo da personalidade, espaço indispensável para as individuações psíquica e espiritual que constituem o Circulo dos Homens, dos homens necessários.

Ao intitularmos o presente texto com o lema “Ou o Estado Orgânico — ou Estado Nenhum”, não queremos supor, contudo, que o “Estado” existente não possa ser também aproveitado para utilidades e finalidades pontuais. Entre estas, estaria o caso da Saúde Pública e outros dispositivos institucionais que ajudam a prevenir que a sociedade caia em um caos total. Porém, aí também deflagramos do que se trata o Estado Moderno: uma força conservativa da ordem. Haverá Revolução sem “caos total”?

Além onde acaba o Estado começa o homem que não é supérfluo; começa o canto dos que são necessários, a melodia única e insubstituível. (Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches


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