O que nos Falta Compreender sobre os Aditivos da Indústria Alimentar e a Indústria cosmética

O mundo moderno trouxe consigo diversas facilidades, mas o que há muito tempo não contávamos era que tais facilidades nos trariam um terrível custo: a nossa saúde.

Estamos envoltos de substâncias que apresentam potencial tóxico e contribuem para o adoecimento da população: desde conservantes cosméticos, aditivos alimentares, plásticos tóxicos, água contaminada, e etc. Em nosso dia-a-dia uma vasta gama de produtos cosméticos, produtos alimentares, itens de higiene pessoal e de saúde que utilizamos possuem estes aditivos químicos que são tóxicos e cancerígenos.

Neste artigo vamos abordar apenas alguns exemplos dos perigos ocultos que nos cerceiam e que a indústria não está preparada para nos contar:

Produtos do dia-a-dia

Como consequência da ampliação de público pela utilização de cosméticos e produtos de higiene a indústria buscou elementos e mecanismos mais rentáveis que compõe os produtos relacionados à higiene que são, principalmente, os derivados de petróleo: tensoativos, óleos, corantes e alguns conservantes com potencial carcinogênico (substâncias capazes de provocar ou estimular o aparecimento de carcinomas ou câncer em tecidos).

Uma das substâncias mais debatidas são os parabenos e metilparabenos (nipagin, nipazol), cujas substâncias são amplamente utilizadas em diversos produtos de saúde e de cosméticos graças ao seu poder como conservante. Já se sabe que os parabenos possuem uma ação estrogênica, sendo absorvidos até pela pele.

Diversos estudos demonstraram que estas substâncias, mesmo em baixas dosagens, podem alterar o sistema endócrino e acarretar em disfunções sexuais em mulheres, como a síndrome de ovários policísticos, o aumento de incidência de câncer de mama, câncer vaginal e de colo de útero. Isto porque estas substâncias ligam-se aos receptores fisiológicos do estrogênio e influenciam a expressão gênica, resultando no crescimento de uma linhagem celular anormal dos tecidos hospedados (câncer). Uma exposição prolongada a estes produtos poderia aumentar a resposta estrogênica (Ye et al, 2006; Janjua et al, 2007). O grande problema é que estas substâncias estão presentes em uma ampla gama de produtos: sabonetes, sabonetes íntimos, xaropes, xampus, condicionadores, cremes para o corpo, cremes para o rosto, etc, e penetram com facilidade nos tecidos, especialmente os antitranspirantes, que não são removidos ao passar do dia e muitas vezes são reaplicados.

Outros compostos que também possuem efeitos estrogênicos são: os Organoclorados (presentes em pesticidas, herbicidas e fungicidas), Ftalatos (presentes em plásticos), Alquil-fenóis (presentes em detergentes), Metalo-estrogênicos (íons presentes em cigarros, alimentos e cosméticos), Ciclosiloxanos (condicionadores e sprays), Triclosan (presentes em antitranspirantes) (DARBRE, 2004, 2006; VERAS, 2006), o conservante BHT (alergênico, tóxico para os sistema imunológico e ligado ao câncer).

Em protetores solares e cremes cosméticos, devemos evitar alguns compostos específicos. Estudos que avaliaram a atividade endócrina e a toxicidade por filtros UV constatou que 88,88% dos filtros avaliados apresentaram atividade androgênica, estes protetores continham o filtro solar 4-metilbenzilideno-cânfora, em estudos este composto alterou os níveis de testosterona e estradiol de homens (OJOE, 2004). Alguns protetores solares de baixa qualidade apresentam efeito estrogênico e até alterações de comportamento. Esses efeitos podem causar em homens feminização, confusão sexual, maior incidência de câncer testicular, etc; e em mulheres pode causar cisto uterino, endometriose, predisposição de câncer uterino, dor de cabeça, alterações no ciclo menstrual, e etc (OJOE, 2004).
Portanto, devemos ter cuidado com filtros solares que contenham as substâncias 4-metilbenzilideno-cânfora, o Octinoxato (octinoxate), Oxibenzona (benzophenone-3) e o homosalato (homosalate), que estão ligados a distúrbios hormonais e são amplamente utilizados em filtros solares (RIBEIRO, 2015).

 

Outros compostos para se evitar em filtros solares são: bronopol, diazolidinil ureia, DMDM hidantoína, imidazolidinil ureia e quaternium-15 que são conservantes que liberam formaldeído com o tempo, apresentando efeito cancerígeno e irritante (RIBEIRO, 2015).

Os efeitos cancerígenos das dietanolamidas e as n-nitrosaminas, substâncias abundantemente presentes em cosméticos, protetores solares, produtos de higiene, alimentos, bebidas e medicamentos tem sido amplamente estudados desde 1954, quando pesquisadores descobriram a sua influência na formação de câncer hepático e desordens hepáticas em ratos e em peixes. Tais substâncias já foram encontradas até em cervejas na Alemanha durante a década de 60, entretanto, o assunto ainda permanece apenas debatido enquanto já existem artigos e dados suficientes que comprovam a ação carcinogênica, mutagênica e teratogênica das nitrosaminas, podendo estas ocorrer e acumular em diferentes órgãos e são bem absorvidas através da pele (RATH, 2009).

O potencial de nitrosação dessas substâncias em produtos cosméticos e de higiene foram confirmados em 1977, sendo estas substâncias: trietanolamina e dietanolamina (emulsificantes), substâncias gem-nitroalogenados como o 2-bromo-2-nitro-1,3 propanodiol e o 5-bromo-5-nitro-1,3 dioxano como conservantes, que podem produzir efeitos carcinogênicos, entre outras substâncias nitrosantes, que são: nitritos, óxidos de nitrogênio e alquil nitritos, com algumas nitrosaminas liberando o nitrito com o tempo, tendo as reações aceleradas pela temperatura (RATH, 2009).
Estes são apenas alguns exemplos de algumas substâncias que, caso venhamos a desejar uma boa saúde hormonal e uma menor incidência de câncer, devem ser evitados. Não devemos deixar de usar produtos de higienização e nem os filtros solares, tão necessários na prevenção do câncer de pele. Mas devemos aprender a selecionar melhor os produtos que estão nas prateleiras e que dificilmente a maioria da população lê o rótulo do produto que está consumindo, e pior, não tem conhecimento dos males que estes produtos podem causar, portanto, é bom para a indústria, mas não para a nossa saúde.

As nossas águas são realmente potáveis?

As substâncias que vimos anteriormente também contribuem para a crise ambiental, onde estas substâncias após sua utilização têm como destino final os efluentes domésticos e o meio ambiente, muitas vezes por descarte inadequado de fármacos e a própria urina, onde são expelidos hormônios e substâncias metabolizadas pelo organismo (ZAPPAROLI, 2011). Artigos revelam que as águas dos rios já se encontram com níveis altos de disruptores endócrinos como os parabenos e triclosan (SANTOS, 2016).

Substâncias como antibióticos, hormônios, cafeína, dipirona e até antidepressivos foram detectados como resíduos em águas superficiais, águas subterrâneas, água para consumo humano, rios e estações de tratamento de esgoto no Brasil (BORRELY, 2012; CARVALHO, 2009). Estas substâncias não são removidas pela rede de tratamento de esgoto (PINTO, 2014) e podem tornar-se tóxicas, especialmente substâncias como antineoplásicos, antibióticos, estrogênios e imunossupressores utilizados em quimioterapia que são conhecidos como agentes mutagênicos (ZAPPAROLI, 2011).

E porque a pureza da água deve importar? Pois a água está contaminada com estradiol, que é um dos hormônios que tem o poder de modificar o funcionamento do sistema reprodutor dos homens e dos animais, e que mesmo em baixas concentrações pode aumentar a chance do surgimento de doenças como câncer de mama, útero e de próstata (ZAPPAROLI, 2011), assim como a presença de outros fármacos e agentes químicos. Portanto, há uma necessidade de submeter a água para consumo a um processo de filtragem e buscar uma alternativa para complementar o tratamento da rede de tratamento, como filtros mais eficientes, como o filtro de barro (FERNANDES, 2015).

Afinal, a água é o agente “purificante” do nosso organismo, é o que nos hidrata e até faz o nosso intestino funcionar adequadamente. O nosso consumo de água deve ser abundante para uma saúde adequada. E sim, deve ser a água. Você consegue limpar um vidro com café ou refrigerante? A lógica é a mesma, para nosso organismo se manter puro e livre de toxinas, precisamos ingerir água pura.

O plástico é realmente seguro?

Outro composto interessante que também possui ação estrogênica é o polímero Bisfenol-A. O Bisfenol-A é um composto utilizado na fabricação de policarbonato, uma resina usada na fabricação da maioria dos plásticos e está presente em resinas, plásticos e papéis térmicos. Também pode ser encontrado no revestimento interno de latas que acondicionam alimentos e são utilizados para evitar a ferrugem e a contaminação externa de produtos enlatados. A ação carcinogênica e mutagênica relacionada ao Bisfenol-A foi amplamente estudado e diversos artigos comprovam a sua ação mutagênica (SCOPEL, 2021), trazendo uma preocupação da contaminação desta substância no ar, nos alimentos e como um contaminante na água de rios do Brasil também (PETEFFI, 2019). Outro perigo relacionado ao Bisfenol-A ocorre durante a vida uterina de fetos, alterando o seu sistema endócrino.

A embalagem dos produtos alimentícios também contribui para a sua qualidade, e com o mercado das embalagens engajado ao crescimento da economia vemos a demanda de plásticos mais acessíveis para a indústria que, infelizmente, possuem substâncias que não são seguras para consumo. Devemos ter a consciência de que quando um alimento entra em contato direto com um material plástico de embalagem haverá uma interação entre eles e consequentemente haverá uma contaminação dos alimentos por meio da migração de substâncias químicas com potencial tóxico presentes na embalagem, dentre estas substâncias encontramos os monômeros, oligômeros, polímeros de baixa massa molecular, agentes de polimerização, emulsificantes, aditivos, solventes provenientes da composição de tintas de impressão (FABRIS, 2006).

Portanto, o ideal é escolher utensílios de vidro, porcelana ou de aço inoxidável e evitar os utensílios de plástico, especialmente quando este entra em contato com a nossa alimentação e as vias respiratórias. Jamais devemos esquentar alimentos e bebidas no micro-ondas em utensílios de plástico e precisamos também evitar levar ao congelador alimentos e bebidas acondicionados no plástico. E, se possível, evitar o consumo de alimentos enlatados que contém bisfenol-A como resina epóxi no revestimento interno das latas.

Mas o único problema do plástico para a saúde é o Bisfenol-A? Não, existem outros fatores relacionando o plástico à incidência de câncer, tais como: o cloreto de vinila, utilizado na síntese do Poli (CHAGAS, 2013) estando relacionado ao câncer de fígado (LITTLE, 1999) e ao câncer pulmonar (TERRA, KITAMURA, 2006); estireno/poliestireno (canetas, garfos, produtos infantis, copos plásticos) que possuem em sua composição o butadieno, que são classificados como possíveis efeitos cancerígenos leucêmicos e câncer cerebral (DEQBIST, 2016).

Considerações finais

Enquanto muitos países tomaram providências e diminuíram e/ou aboliram alguns destes aditivos, o uso destas substâncias no Brasil ainda é indiscriminado e o público não tem conhecimento dessas características nefastas dos produtos que consomem, portanto, cabe ao consumidor abrir os olhos e começar a ter mais cautela antes de comprar um produto, que geralmente vem com um rótulo de difícil leitura. Afinal, hoje sabemos que cerca de 80 a 90% dos casos de câncer estão diretamente ligados a fatores ambientais, portanto, todo cuidado é pouco quando falamos de cuidado para uma vida salutar.

Substituir esses compostos estrogênicos e cancerígenos por outros com outras características é um cuidado especial tomado para evitar a exposição excessiva e desnecessária a compostos que mimetizam a ação do estrogênio e possuem ação mutagênica e cancerígena. Produtos caseiros e de origem vegetal vem ganhando espaço no mercado, mas mesmo assim devemos estar atentos às suas composições.


Referências e bibliografia

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