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Por Emil Cioran (1940)

Antes de Corneliu Codreanu, a Romênia era um Saara habitado. Aqueles que se encontravam entre a terra e o céu não tinham nada para fazer, a não ser esperar. Alguém tinha que surgir.

Nós todos atravessamos o deserto romeno, incapazes de qualquer coisa. Até o desprezo parecia um esforço para nós.

Nós só podíamos contemplar nosso país sob uma luz negativa. Em nossos momentos de mais louca esperança, nós a dávamos a justificativa temporária de uma boa piada. E a Romênia não era nada além de uma boa piada.

Nós girávamos no ar livre, vazios de passado e presente, desfrutando da doce libertinagem e da ausência de destino.

Este pobre país era uma vasta pausa entre um começo sem grandeza e uma vaga possibilidade. Em nós, o futuro gemia. Em uma pessoa, ele fervia. E ele, ele rompeu o doce silêncio de nossa existência e nos forçou a ser. As virtudes de um povo estavam encarnadas nele. A Romênia das possibilidades caminhava na direção da Romênia do poder.

Eu só me encontrei algumas vezes com Corneliu Codreanu. Eu imediatamente compreendi que eu falava com um homem, em uma terra de marionetes. A sua presença era perturbadora e eu jamais me apartei dele sem sentir o sopro irremediável, o sopro crucial que acompanha a existência marcada pelo inevitável. Por que razão eu não admitiria que um estranho medo se apossava de mim, um tipo de entusiasmo prenhe de presságios?

O mundo dos livros me parecia inútil; as categorias, inoperantes; o prestígio da inteligência, tedioso; os subterfúgios da sutileza, vãos.

O Capitão não padecia do vício fundamental do suposto intelectual romeno. O Capitão não era “inteligente”, o Capitão era profundo.

O desastre espiritual da Romênia deriva do pensamento sem conteúdo, da inteligência. A falta de consistência do espírito transforma problemas em elementos de jogos abstratos e rouba do espírito seu caráter de destino. A inteligência degrada até o sofrimento em um falatório.

Mas as palavras do Capitão, pesadas e raras, emergiam do Destino. Elas se situavam em qualquer lugar longínquo. Daí a impressão de um universo do coração, de um universo dos olhos e dos pensamentos.

Quando em 1934 eu lhe disse quão interessante seria narrar a sua vida, ele me disse: “Eu não passei minha vida em bibliotecas. Não gosto de ler. Eu simplesmente estou aqui, e penso”.

Estes pensamentos fundaram nossa razão de ser. Neles, respiram a natureza e o céu.

E quando eles começaram a se concretizar, as fundações históricas do país foram abaladas.

Corneliu Codreanu não propunha o problema da Romênia imediata, da Romênia moderna ou contemporânea. Isso era pequeno demais. Isso não teria correspondido nem com a dimensão de sua visão, nem com nossas expectativas. Ele propunha o problema em termos finais, na totalidade do devir nacional. Ele não queria corrigir a miséria aproximada de nossa condição, mas introduzir o absoluto na respiração quotidiana da Romênia. Não uma revolução de um momento histórico, mas uma da história. A Legião teria então não só que criar a Romênia, mas redimir seu passado, fertilizado por uma ausência imemorial, salvar, por meio de uma loucura singular e inspirada, o enorme tempo perdido.

A paixão legionária é a expressão de uma reação, diante de um passado azarado. Essa nação brilhou no mundo somente por sua permanência no infortúnio. Nunca foi de outra forma. Nossa substância é um negativo infinito. Daí a impossibilidade de superar a oscilação entre uma amargura dissolvente e uma fúria otimista.

Em um momento de desânimo, eu disse ao Capitão: “Capitão, eu não creio que a Romênia tenha um sentido no mundo. Nenhum sinal em seu passado justifica qualquer esperança do tipo”.

“Você tem razão”, ele me respondeu. “E ainda assim, há certos sinais”.

“O Movimento Legionário”, eu acrescentei.

E então ele me mostrou como ele percebia a ressurreição das virtudes dácias. E eu compreendi que entre os dácios e os legionários estava a pausa em nosso ser, porque estávamos vivendo o segundo nascimento da Romênia.

O Capitão deu um sentido à Romênia. Antes dele, o romeno era apenas romeno, ou seja, um material humano feito de sonolência e humildade. O legionário é um romeno de substância, um romeno perigoso, uma inexorabilidade para si mesmo e para os outros, uma tempestade humana infinitamente ameaçadora. A Guarda de Ferro, uma floresta fanática… O legionário deve ser um homem cujo orgulho sofre de insônia.

Estávamos acostumados ao patriota ocasional, gelatinoso e vazio. Em seu lugar, aparece uma ilha que considerava o país e seus problemas com uma fúria obstinada. É uma diferença de densidade espiritual.

Aquele que deu ao país uma outra direção e uma outra estrutura, unia em si uma paixão elementar e uma distância espiritual. Suas soluções eram válidas no imediato e no eterno. A história não conhece, neste mundo, um visionário com uma mente mais prática e com tamanha habilidade, sustentada pela alma de um santo. Igualmente, ela não conhece outro movimento onde o problema da redenção caminha de mãos dadas com o campesinato.

Construir e salvar, política e mística, são aqui irredutíveis enquanto fins. Ele se interessava na mesma medida pela organização de uma cantina e pela questão do pecado, pelo comércio e pela fé. Isso não deve ser esquecido: O Capitão era um camponês estabelecido no Absoluto.

Todo mundo acreditava entendê-lo. Porém, ele escapava a todos. Ele havia ultrapassado os limites da Romênia. Ele propôs ao próprio Movimento um caminho de vida que ultrapassava a persistência romena. Ele era grande demais. Pode-se estar às vezes inclinado a crer que sua queda derivou do conflito entre sua grandeza e nossa pequenez. Não é, porém, menos verdadeiro que o tempo de perseguição fez emergir personalidades que mesmo a mais confiante utopia não teria suspeitado.

Em uma nação de escravos ele introduziu honra, em um gado covarde, orgulho. Sua influência não moldou apenas seus discípulos, mas em certo sentido, também seus inimigos. Pois estes, a escória, se tornaram monstros. Ele os forçou a isso, lhes impôs um caráter no mal. Eles não teriam se tornado caricaturas infernais se a grandeza do Capitão não tivesse exigido um equivalente negativo. Estaríamos sendo injustos para com os açougueiros se os considerássemos fracassados. Todos realizaram a si próprios. Um passo a mais e eles teriam despertado a inveja do Diabo.

Ao redor do Capitão, ninguém permanecia morno. Um novo calafrio atravessava o país. Uma terra humana assombrada pelo essencial. O sofrimento se torna o critério de valor, e a morte, o critério de vocação. Em poucos anos, a Romênia conheceu uma palpitação trágica, cuja intensidade nos consola pela covardia de mil anos de não-história. A fé de um homem pariu um mundo que ultrapassa as tragédias de Shakespeare. E isso nos Bálcãs!

Em um plano absoluto, se eu tivesse que escolher entre a Romênia e o Capitão, eu não hesitaria por um segundo. Após sua morte, cada um de nós se sentiu ainda mais solitário, mas para além de nossa solidão aumentava a solidão da Romênia.

Nenhuma pena banhada na tinta do infortúnio poderia descrever o azar de nosso destino. Porém, devemos ser covardes e nos consolarmos. Com a exceção de Jesus nenhuma morte foi mais presente entre os vivos. Poderia alguém tê-la esquecido? “A partir de agora, a Romênia será conduzida por um homem morto”, foi o que me disse um amigo nas margens do rio Sena.

Este morto espalhou a fragrância da eternidade sobre nossa imundície humana, e devolveu um céu à Romênia.


Tradução de Guilherme Fernandes

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