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E mais uma vez o cinema se mostra um dos mais fortes candidatos para ocupar um lugar de honra no que poderíamos chamar de cultura dissidente; e, de fato, como venho expondo isso há um bom tempo, nunca é tarde demais para mergulharmos em águas profundas das grandes obras que marcaram alguma época, desta vez a crônica do homem das montanhas Jeremiah Johnson, o verdadeiro pai espiritual de obras como “Na Natureza Selvagem” (2007) e “O Regresso” (2015).

Dirigido por Sydney Pollack e estrelado por Robert Redford, “Jeremiah Johnson” foi lançado em 1972 e mescla o bom e velho western com o gênero de aventura, mas o que mais podemos perceber no desenrolar da trama é a grande dramaturgia que nos é apresentada no que diz respeito ao estado existencial do nosso protagonista.

“Subir em montanhas é liberação, é um despertar, um renascimento em algo transcendente, de divino.” (Julius Evola)

Desiludido com todo o mundo civilizado, com a humanidade em geral e todos os seus problemas, o ex-veterano de guerra Jeremiah decide abandonar a civilização e todo seu materialismo para viver nas montanhas. É o primeiro passo compreender como há dois mundos em toda a narrativa: o mundo civilizado, com seu glamour, luxúria, violência e desavenças; e o mundo das montanhas onde predomina a solitude, desolação e o sacrifício. É neste ponto que podemos traçar um belo paralelo com a obra “The Saying of the Desert Fathers” e os escritos que condizem com a definição de “mundo”. O que o protagonista busca é matar o mundo que deixou, abandonar o mundo e subir cada vez mais. Como estamos falando das montanhas cheias de neve, quanto mais alto, mais o brilho da luz cega os seus olhos (um fenômeno chamado “snowblind“), portanto, a própria escalada com suas grandes dificuldades se dá como uma divina ascensão do personagem; o homem deixa de enxergar com os olhos de seu rosto e começa a ver pelos olhos do intelecto (ou “nous“).

“Quando vejo a imagem da Lua refletida na água,
A auto-liberação, desligada de todos os interesses, se apresenta diáfana à consciência.
E nenhum interesse tem já poder sobre mim.
Quando olho dentro de minha alma,
A Luz do interior do recipiente se apresenta clara à consciência:
E não temo a torpeza, nem a estupidez…”

(Julius Evola, Meditação no Cume de uma Montanha)

Durante muitas das dificuldades, como o frio, cansaço, o azar ao acender um fogo e a falta de habilidade do protagonista em caçar, ele encontra o corpo congelado de um homem chamado Hatchet Jack. Em seu peito, uma carta de despedida e um presente àquele que o encontrá-lo morto: seu velho rifle calibre 50. Ao ver Hatchet Jack, Jeremiah sente-se perante um espelho, ao que tudo indica, o que toma conta é o seu medo de estar na mesma forma cedo ou tarde; no entanto, isso é um indicativo de como os homens da montanha tratam uns aos outros como uma irmandade: o seu rifle não é apenas um presente de um velho homem que pereceu, mas uma continuidade do legado de seu antigo dono e uma seta para guiar seu novo dono nas dificuldades da vida selvagem.

Após muitos dias de caminhada, Jeremiah acaba se encontrando com Bear Claw, um ancião das montanhas, e este o ensinará ao novato como levar uma vida nas montanhas, incluindo as coisas mais básicas para seu conforto e subsistência. Não demora muito para que aconteça o encontro de ambos com Camisa Vermelha, chefe dos Crow. Um segundo encontro, visto que Jeremiah já o tinha visto pela primeira vez durante uma pesca fracassada em águas geladas. Por fim, Jeremiah deixa o velho Bear Claw e parte sozinho sem destino algum.

Robert Redford e Sydney Pollack, durante a produção de Jeremiah Johnson
Robert Redford e Sydney Pollack, durante a produção de Jeremiah Johnson

Após o inverno, Johnson se depara com a cabana de Bear Claw e se aproxima. Logo ele se depara com uma mulher que entrou em colapso e enlouqueceu após ter sua família massacrada pelos índios Blackfoot; ela dá a Jeremiah seu único filho sobrevivente e, em um ato claramente simbólico, declara seu suicídio nas montanhas. Jeremiah segue com o pequeno garoto que, devido ao trauma, permanece mudo; então lhe dá o nome de Caleb. O menino acaba se tornando símbolo de algo pertinente em muitas tramas: a visão da inocência do protagonista. O espírito infantil que impera em seu olhar é refletido no garoto que o acompanha durante todo o seu trajeto, até mesmo quando conhece Del Gue e topar com o chefe da tribo local. Aí ocorre o que nós vimos em muitos versos tanto da “Ilíada” como da “Odisseia”: os homens imponentes trocando presentes; no entanto, Jeremiah dá um presente tão grande ao chefe que o mesmo decide lhe conceder sua filha Swan.

Ambos se casam em um ritual envolvendo os ritos ancestrais com o Catolicismo Romano (uma influência francesa na região). Agora o protagonista possui o que nós poderíamos chamar de família; e o mesmo atende bem a isso. Busca um local propício para iniciar a construção de sua casa e se estabelece a fim de viver uma vida feliz. No entanto, isso tende a ser arruinado.

Um comandante da cavalaria vai até a casa de Jeremiah e pede que ele os guie até uma caravana de colonos que se perdeu nas montanhas. Mesmo sem querer, Jeremiah os guia pelas montanhas até encontrarem um cemitério dos Crow. O protagonista insiste que todos deem a volta a fim de não profanar o local sagrado dos Crow, mas todos acabam seguindo. Ao cumprir sua missão, Johnson volta e vê objetos de sua esposa no cemitério que acaba de profanar; ao chegar em casa, os vê assassinados pelos índios.

Este ato é uma divisão de águas na obra: o protagonista queima sua casa e segue sem rumo ao desconhecido contemplando sua tristeza, ira e desilusão com sua própria vida; visto que as coisas que mais amava já não existem mais. É agora que contemplamos a grande melancolia de Johnson e seu desespero sem qualquer alicerce ou impulso a fim de continuar com sua vida; como se parte dela tivesse ido embora, como um espírito arruinado.

“Dizia o Abba Gregório, ‘Toda a vida de um homem é apenas um dia para aqueles que estão lidando duramente com a saudade'” (Apophthegmata Patrum, The Saying of the Desert Fathers – Gregory the Theologian).

De fato, talvez a tradução do título do filme para “Mais Forte que a Vingança” faça sentido agora, já que o protagonista tratará de eliminar cada Crow que aparece em seu caminho, mesmo os mais fortes guerreiros que buscam surpreendê-lo para vingar o ato realizado no cemitério e a morte de seus irmãos. Próximo ao final, Jeremiah se depara com um túmulo feito pelos índios para ele; no entanto, ninguém sabe ao certo se ele está vivo ou morto, Johnson se tornou uma lenda, uma figura mítica do herói entre os povos da montanha ao modo que, a própria construção de sua lápide demonstra respeito e temor de seus inimigos.

Em suma, o pequeno andarilho desiludido com o mundo se tornara herói e símbolo de bravura nas montanhas. Por muitas vezes nos é mostrado uma águia voando aos céus, um paralelo ao personagem. Pode até ser interpretado como um presságio de morte ao personagem; após a morte vem a lenda, e com isso seu espírito vagueia livremente pelos céus. A grande liberdade dos homens na modernidade não é sua solitude como forma de contemplação divina, mas a sensação de solidão perante o próprio mundo; ninguém mais passa uma hora longe de uma televisão ou smartphone para ao menos se questionar o que houve com suas vidas e por qual motivo tudo se encontra nesse estado. Os heróis de hoje, moldados pelo capital financeiro, não passam de figurões políticos, imagens da cultura pop e artistas ligados ao status quo; são o símbolo da digna decadência que nos assola num mundo onde o dinheiro e o individualismo impera.

O grande drama do homem em sua constituição espiritual na modernidade é a solidão, ou melhor: a falta dela.

By Felipe Rotta

Felipe Rotta, 1997, é catarinense, cristão ortodoxo, graduando em Ciência Política, estudante de Língua Alemã e entusiasta de Filosofia.

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