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Com o objetivo de aplacar querelas de tradução e reapresentar, tanto ao leitor leigo quanto ao experto, um clássico da espiritualidade nórdica que, como integrante do movimento de reconquista legítima da religião natural cada vez mais forte na Eurásia desde o século passado – uma causa a ser abraçada não apenas pelo eurodescendente no estrangeiro, mas por todos os povos despertos à urgência de se pertencerem antes de se determinarem –, não encontra rival em termos de antiguidade e originalidade típica, compartilho sob novo formato revisado esta tradução bilíngue do nórdico antigo – conquanto incluindo comparações com edições inglesas já consagradas – desenvolvida por Dr. Elton O. S. Medeiros do Hávamál, publicada originalmente enquanto artigo científico pelo periódico eletrônico Mirabilia Journal em 2013. Encontra-se disponível no acervo digital da revista enquanto documento público, bem como em diversos outros sites, na sua versão integral.

O extenso estudo introdutório e comentários foram por ora retirados nesta minha edição com o fito de facilitar e dinamizar a leitura do imperito e não sobrecarregar o entendimento da poética com notas de rodapé excessivas e não raro alheias ao conteúdo de qualidade ético-espiritual alvejado. Com efeito, sugere-se absolutamente a leitura integral do artigo científico, que se destaca por sua excelência historiográfica.

Segundo apresentação sintetizada por Tiago Medeiros a partir das edições inglesas de H. A. Bellows e O. Bray da Edda Poética, este poema segue a Völuspá, as Profecias da Vidente, no Codex Regius, o manuscrito islandês do século XIII que contém a Edda em verso. Em sua forma original, este texto se nubla em mais enigmas que qualquer outro dos poemas. Evitando entrar em detalhes sobre diversas teorias, o que aconteceu entre os nórdicos parece ter sido o seguinte. Há coleções de provérbios e conselhos de sabedoria que foram atribuídos a Odin, tal qual os provérbios bíblicos foram a Salomão. Esta coleção, presumivelmente flexível em sua dimensão, ficou conhecida como “Palavras do Altíssimo”, e constitui a base do presente poema. Assim, um catálogo de runas, ou encantos, foi adicionado, como outros assuntos tidos por pertinentes. Nas palavras da versão de Medeiros:

Poucas coleções de sentenças na história literária apresentam uma sabedoria tão sólida no mundo, brevemente expressos do que o Hávamál. […] Se ele apresenta a sabedoria mundana de uma raça violenta, ele também mostra os nobres ideais de lealdade, verdade e coragem inabalável. [1]

A presente edição atravessou revisão e correção ortográfica. Notas explicativas foram acrescidas ou resumidas nos casos de necessidade.

J. O. Bilda

Brusque, 07 de abril de 2021.

 

O HÁVAMÁL, AS PALAVRAS DO ALTÍSSIMO

I. Os ensinamentos de Odin

 1.
Em todas as portas,
antes de entrar,
deve-se observar,
deve-se procurar,
pois é difícil saber
onde os inimigos
se sentam na habitação de antemão.

2.
Saudações aos anfitriões!
um convidado está vindo:
onde ele deve procurar para se sentar?
Muito em breve
com a espada ele deve
testar sua coragem.

3.
O fogo é necessário
para aquele que vem
com os joelhos gelados;
de comida e roupas
o homem precisa,
aquele que viajou pela montanha.

4.
Água é necessária
para quem vem em busca de descanso,
(assim como) secar-se e de boas-vindas;
de boa disposição,
se ele puder obter,
palavras e silêncio em retribuição. [2]

5.
Inteligência é necessária
para aquele que viaja longe,
pois tudo é fácil em casa;
torna-se motivo de riso
aquele que não sabe de nada
e senta-se entre os sábios.

6.
De sua inteligência
o homem não deve se vangloriar,
mas ser cauteloso sobre os
pensamentos; quando o sábio e
silencioso vem até uma habitação,
raramente o mal recai sobre o cuidadoso,
pois melhor amigo
nenhum homem conseguirá
do que a grande sabedoria.

7.
O convidado esperado
que vem em busca da refeição
mantém um cauteloso silêncio,
ouve com os ouvidos,
com os olhos observa;
assim todo homem sábio se porta frente ao perigo.

8.
Dele é a sorte,
aquele que obtém para si mesmo
glória e palavras agradáveis;
isto é incerto de encontrar:
o que deve ter
no peito de outro homem.

9.
Ele é afortunado,
aquele que por si mesmo possui
glória e sabedoria enquanto
vive; pois maus conselhos
frequentemente são recebidos
do peito de outro homem.

10.
Melhor fardo
homem nenhum carrega no
caminho do que muito bom senso;
melhor do que riqueza
isto lhe parece em um lugar que lhe é estranho,
tal é o modo de ser do empobrecido. [3]

Odin the Wise, “Odin, o Sábio”, por Anne-Sophie Cournoyer (2018), óleo em painel de gesso. Do nórdico antigo Óðinn, chamado de Wotan pelos povos germanos, e conhecido pela alcunha de “Pai-de-todos”, é o principal Deus da espiritualidade nórdica e líder do clã dos deuses celestiais, os Aesir ou Ases. Seu nome significa literalmente “fúria” ou “frenesi”, a qualidade de inspiração feroz que guia igualmente a guerreiros e poetas. Seu papel no mito, assim como o de vários deuses nórdicos, era complexo; era o senhor da sabedoria, da guerra e da morte, embora também fosse em menor escala o deus da magia, da poesia, da profecia, da vitória e da caça. Odin era sobretudo cultuado pelas classes sociais superiores. Fonte: portal-dos-mitos.blogspot.com.

11.
Melhor fardo
nenhum homem carrega no
caminho do que muito bom senso;
pior provisão
para ele levar pelo caminho
é a bebedeira da cerveja.

12.
Não é assim tão boa,
como dizem ser boa,
a cerveja para os filhos dos homens;
pois menos o homem sabe
– quanto mais ele bebe
– de seus pensamentos.

13.
Um pássaro chamado Esquecimento:
ele paira sobre celebrações de cerveja,
ele roupa os pensamentos dos homens.
pelas penas desse pássaro
eu fui preso
no lar de Gunnlod. [4]

14.
Eu fiquei bêbado,
fiquei muito bêbado
junto com o sábio Fjalar;
por isso que a melhor das bebedeiras
é aquela da qual posteriormente
todo homem recupera seus pensamentos.

15.
Silencioso e pensativo
deve ser o filho de um líder
e ameaçador em batalha;
feliz e generoso
deve ser todo homem
até o momento de sua morte.

16.
O homem tolo
acredita que viverá para sempre
se ele evitar a batalha;
mas a velhice não lhe dará
nenhuma paz,
ainda que as lanças o poupem.

17.
O tolo boceja
quando vai até os parentes,
ele resmunga ou então fica em silêncio.
tudo acontece de uma vez
se ele consegue bebida:
libertos estão os pensamentos do homem. [5]

18.
Apenas ele sabe,
aquele que vagou por diversos lugares
e tem viajado para longe,
qual é o pensamento
que impulsiona todo homem;
é inteligente aquele que sabe disso.

19.
Que o homem não segure [6] a caneca,
beba o hidromel com moderação,
fale de forma sensata ou fique em silêncio;
por sua falta de gentileza
nenhum homem irá criticá-lo
se você for buscar pela cama cedo.

20.
O homem guloso,
a não ser que tenha sensatez,
come para sua própria tristeza;
frequentemente desperta risos
quando vem entre homens sábios:
a barriga do homem tolo.

21.
O rebanho sabe quando deve ir para casa,
e assim parte do pasto;
mas o homem tolo
nunca sabe
o tamanho de seu estômago.

22.
O homem desprezível
e de temperamento ruim
ri de todas as coisas;
ele desconhece
aquilo que ele deveria saber:
que ele não está isento de falhas.

23.
O homem tolo
fica acordado a noite toda
e pensando sobre todo tipo de coisa;
então está cansado
quando a manhã vem,
tudo ainda são problemas como eram antes.

24.
O homem tolo
acredita que todos são
amigos, os que riem com ele;
ele não percebe,
mesmo que eles lhe dirijam zombarias,
quando ele se senta entre homens sábios.

25.
O homem tolo
acredita que todos são
amigos, os que riem com ele;
então ele percebe,
quando vai à assembleia,
que ele possui poucos defensores.

26.
O homem tolo
pensa que sabe de tudo
se ele se encontrar encurralado;
mas ele não sabe
o que ele deve dizer em resposta
se os homens o puserem à prova. [7]

27.
O homem tolo,
quando vem entre os homens,
é melhor que ele fique em silêncio.
Ninguém sabe
que ele nada sabe,
a não ser que ele fale demais;
o homem não sabe,
ele que nada sabe,
já que ele fala demais.

28.
Ele parece sábio,
aquele que sabe perguntar
e do mesmo modo responder;
nada podem esconder,
os filhos dos homens,
do que se passa entre os homens.

29.
Fala demais
aquele que nunca se cala
palavras infundadas.
a língua tagarela,
a menos que tenha quem a controle,
frequentemente canta o mal para si.

30.
Um homem não
deve zombar de outro
quando ele vem visitar parentes;
muitos homens parecem sábios,
se ele não é questionado
e se mantém em silêncio, seco da viagem.

31.
Parece sábio
aquele que foge,
o convidado do convidado
zombador; não sabe com certeza,
ele que zomba na refeição,
se ele fala alto em meio a inimigos.

32.
Muitos homens
são muito amistosos entre si,
mas ainda lutam na refeição;
embate entre os homens
sempre haverá:
convidado hostil contra convidado.

33.
O homem deve frequentemente
fazer uma refeição cedo,
a não ser que venha visitar parentes;
senta-se e procura,
olha como se estivesse faminto
e consegue falar sobre pouco.

34.
É um grande caminho tortuoso
até um mau amigo,
apesar dele se encontrar no caminho;
mas até um bom amigo
conduz rotas diretas,
mesmo que ele esteja bem longe.

35.
Deve ir,
o convidado não deve ficar
sempre no mesmo lugar;
os queridos se tornam detestáveis
se permanecem por muito tempo
no salão de outro.

36.
O lar é o melhor, ainda que seja pequeno; cada homem é
livre em casa; mesmo que
possua duas cabras
e um salão coberto de salgueiros, isto
ainda é melhor do que mendigar.

37.
O lar é o melhor, ainda que
seja pequeno; cada homem
é livre em casa;
é um coração que sangra aquele
que deve mendigar comida para si
em todas as refeições.

38.
De sua arma
um homem em campo aberto não
deve se afastar um passo;
porque não se pode ter certeza
quando, fora das estradas,
uma lança é necessária para o guerreiro.

39.
Eu não encontrei um homem tão
gentil ou tão benevolente com comida
que rejeitasse um presente,
ou de seu dinheiro
tão desprendido
que uma recompensa fosse indesejada se a conseguisse.

40.
Com seu dinheiro,
quando ele o ganha,
um homem não deve passar por necessidade;
frequentemente poupa para os inimigos
o que pretendia para os amigos; muito
ocorre pior do que o esperado.

41.
Com armas e roupas
os amigos devem agradar uns aos outros,
as quais sejam mais adequadas para eles mesmos.
aqueles que dão e os que recebem
são amigos por muito tempo
se continuar ocorrendo tudo bem.

42.
Para seu amigo
um homem deve ser um amigo
e retribuir um presente com um presente.
Um riso com um riso
os homens devem se valer
e falsidade por uma mentira.

43.
Para seu amigo
um homem deve ser amigo
dele e de seu amigo;
mas de seu inimigo
nenhum homem deve
ser amigo do amigo.

44.
Saiba, se você possui um amigo
no qual você realmente confia,
e que você deseja ter algo de bom dele:
com ele você deve seus pensamentos
compartilhar e trocar presentes,
ir visitá-lo com frequência.

45.
Se você tem outro
no qual você não confia,
mas você quer algo de bom dele,
você deve falar de forma gentil com ele,
mas pense de forma enganosa
e conceda falsidade em troca de mentira.

46.
Há mais sobre aquele em quem
você não confia
e de cujo temperamento você suspeita:
você deve rir com ele
e falar o contrário do teu pensamento.
Deve retribuir tais presentes.

47.
há muito tempo eu era jovem,
eu viajei sozinho,
então acabei me perdendo no caminho:
me considerei rico
quando eu encontrei outro,
o homem é o deleite do homem.

48.
Generosos, valentes,
os homens vivem melhor,
raramente cultivam a tristeza;
mas o homem covarde
teme todo tipo de coisas,
o avarento sempre preocupa-se com presentes.

49.

Minhas vestimentas
eu dei em um campo para
dois homens de madeira.
Acreditaram que eram guerreiros
quando eles tinham roupas:
envergonhado é o homem nu.

50.
O abeto definha,
aquele que se encontra no campo:
nem casca nem folhagem o protege.
Assim é o homem,
aquele que não é amado por ninguém:
como ele poderia viver por tanto tempo?

51.
Mais quente que o fogo
entre maus amigos queima
a afeição por cinco dias;
mas então se extingue
quando o sexto vem
e toda a amizade piora.

52.
Algo grandioso
não se deve dar a um homem
que frequentemente se obtém com pouca glória:
com metade de um pão
e com um copo inclinado
eu consigo um camarada para mim.

53.
Pouca areia,
pouco mar,
poucas são as mentes dos homens,
porque todos os homens
não são sábios de forma igual:
todos os homens estão divididos.

54.
Moderadamente sábio
todo homem deve ser,
mas nunca muito sábio;
para aquelas pessoas
é mais prazeroso de se viver
quando se sabe o suficiente.

55.
Moderadamente sábio
todo homem deve ser,
mas nunca muito sábio;
porque o coração do homem sábio
está raramente contente,
se aquele que o possui é completamente sábio.

56.
Moderadamente sábio
todo homem deve ser,
mas nunca muito sábio;
de seu destino
ninguém deve saber de antemão,
sua mente fica livre de preocupação.

57.
A lenha queima a partir da lenha,
até que ela esteja queimada;
a chama se acende a partir da chama;
o homem a partir do homem
Se torna sábio ao falar,
mas muito tolo a partir da estupidez.

58.
Deve levantar cedo,
aquele que deseja ter de outro
as posses ou a vida;
raramente um lobo preguiçoso
consegue comida
ou um homem dorminhoco a vitória.

59.
Deve levantar cedo,
aquele que possui poucos trabalhadores
e vai saber de seu trabalho;
muito atrasado
está aquele que dorme durante a manhã:
metade da riqueza está na iniciativa.

60.
De tábuas secas
e de telhas para o telhado,
disto o homem sabe a medida;
e disto: de lenha
o suficiente que dure
ao tempo e à estação

61.
Banhado e alimentado
o homem cavalga para a assembleia,
apesar de seus trajes não serem muito bons;
de seus sapatos e calças
nenhum homem deve se envergonhar,
nem mesmo de seu cavalo,
mesmo que ele não tenha um bom.

62.
Se estica e agarra
quando vem até o oceano,
a águia ao antigo mar;
assim é o homem
que vem em meio à multidão
e possui poucos aliados.

63.
Perguntar e responder
todo sábio deve,
se assim deseja ser chamado de sábio.
Apenas um sabe,
outro não deve.
O povo sabe se existem três. [8]

64.
Seu poder
os sagazes devem
manter, cada um deles, com prudência;
então ele descobre,
quando vem entre os bravos,
que nenhum é o mais astuto de todos.

65.
Por aquelas palavras
que o homem disse para outro
frequentemente ele obtém pagamento. [9]

66.
Muito cedo
eu venho a muitos lugares,
mas muito tarde a alguns;
a cerveja havia sido bebida,
às vezes não estava pronta:
o indesejável raramente acerta o momento.

67.
Aqui e lá
me convidariam nos lares
se eu não precisasse de comida nas refeições;
ou dois presuntos estariam pendurados
no lar de um amigo leal
onde eu tivesse comido um.

68.
O fogo é melhor
entre os filhos dos homens
e a visão do sol;
sua saúde,
se o homem puder mantê-la,
e uma vida sem mácula.

69.
Um homem não está totalmente infeliz,
ainda que sua saúde seja péssima;
alguns são agraciados com filhos,
alguns com parentes,
alguns com muito dinheiro,
alguns com boas obras.

70.
É melhor estar vivo
do que estar morto;
o homem vivo sempre consegue uma vaca.
Eu vi o fogo queimar
perante o homem rico,
quando estava morto do lado de fora da porta. [10]

71.
O aleijado cavalga o cavalo,
o maneta conduz o rebanho,
o surdo luta e é útil;
é melhor ser cego
do que ser cremado:
um cadáver não pode ser útil a ninguém.

72.
É melhor um filho,
ainda que nasça tardiamente,
depois que um homem se vai;
pedras funerárias raramente
se mantêm pelo caminho
a menos que o parente as erga para outro.

73.
Dois fazem guerra contra um:
a língua é a destruidora da cabeça;
em cada manto eu
espero por um punho.

74.
Feliz durante a noite fica
aquele que confia em suas provisões;
curtas são as áreas de um barco;
mutável é a noite de outono.
Muitas são as mudanças do tempo
em cinco dias,
mas ainda mais em um mês.

75.
Ele não sabe,
aquele que não sabe nada:
muitos se tornam tolos através do dinheiro;
um homem é rico,
outro pobre:
não deve se culpar por seu infortúnio.

76.
O gado morre,
parentes morrem,
do mesmo modo eu mesmo morrerei;
mas o renome
nunca morre
daquele que obtém boa fama.

77.
O gado morre,
parentes morrem,
do mesmo modo eu mesmo morrerei;
Eu sei de uma coisa
que nunca morre:
a reputação de cada morto.

78.
Os currais cheios
dos filhos de Fitjung eu vi,
agora eles portam cajados de mendigo:
assim é a riqueza,
como o piscar de um olho;
ela é a mais falsa dos amigos.

79.
O homem tolo,
se consegue obter
dinheiro ou o amor de uma mulher,
o orgulho cresce nele,
mas nunca o bom senso;
ele se deixa levar pela arrogância.

80.
Assim está comprovado
que você, ao consultar as runas
– de origem divina,
aquelas que os deuses fizeram
e que foram pintadas por Fimbulthul [11]
que é melhor fazê-lo se estiver em silêncio.

81.
O dia deve ser louvado ao anoitecer,
a esposa quando ela é cremada,
a espada quando é testada,
a donzela quando ela é entregue (em casamento)
o gelo quando veio sobre (ele),
a cerveja quando é bebida.

82.
A madeira deve ser cortada ao vento;
deve-se remar pelo mar com tempo bom,
e falar com damas no escuro
– muitos são os olhos do dia.
Um barco deve ser usado para navegar,
um escudo para proteger,
uma espada para golpear
e uma dama para beijar.

83.
Junto ao fogo a cerveja deve ser bebida,
deve-se deslizar sobre o gelo,
comprar um cavalo magro
e uma espada suja [12],
engorde o cavalo em casa
e a um cão na fazenda.

84.
Nas palavras de uma donzela
ninguém deve confiar;
nem no que uma mulher diz,
pois num torno de oleiro
seus corações foram moldados
de natureza volúvel dentro de seus peitos.

85.
Um arco que range,
uma chama que queima,
um lobo que uiva,
um corvo que grasna,
uma porco que grunhe,
uma árvore sem raízes,
as ondas que se erguem,
a chaleira que ferve,

86.
uma lança que voa,
uma onda que cai,
o gelo de uma noite,
uma serpente enrolada,
a conversa da esposa na cama
ou a espada quebrada,
o competir dos ursos
ou o filho de um rei,

87.
um bezerro doente,
um escravo com vontade própria,
o bom augúrio de uma profetisa,
aquele que acabou de ser morto,

88.
um campo recém semeado,
nenhum homem confia
tão prematuramente em seu filho;
o tempo governa o campo
e o raciocínio do filho;
cada um desses é perigoso.

89.
No assassino de seu irmão,
ainda que o encontre pela estrada;
numa casa parcialmente queimada,
em um cavalo veloz
– um cavalo é inútil
se ele quebra uma pata –
um homem não é tão crédulo
a confiar em tudo isso.

O Codex Regius islandês que contém as Eddas, disponível para consulta na Universidade de Cambridge. Fotografia por Clive Oppenheimer, 2018.

90.
Tal é o amor de uma mulher
que é de temperamento traiçoeiro:
é como guiar um cavalo sem ferradura
pelo gelo escorregadio,
– intrépido de dois anos
e mal domado –
ou numa ventania furiosa
um barco descontrolado
ou como o aleijado pegar
a rena no degelo.

91.
Agora eu falarei abertamente,
pois eu conheço ambos:
volúvel são os corações dos homens pelas mulheres;
quando nós falamos de forma mais gentil
então nós pensamos de forma mais falsa.
Isto engana a mente até da mais sábia.

92.
De forma agradável deve falar
e oferecer presentes
aquele que deseja ganhar o amor de uma mulher;
reverencie a aparência
da bela dama:
ganha aquele que a cortejar.

93.
Nenhum homem
deve criticar o amor
de outro, nunca.
Frequentemente captura o sábio
quando não captura o tolo:
uma belíssima aparência.

94.
De forma alguma
um homem deve criticar o outro,
pelo que acontece com muitos homens;
do sábio um tolo
faz dos filhos dos homens:
este é o poder do coração.

95.
Apenas a mente sabe
o que está junto ao coração;
o homem está só consigo mesmo.
Não há pior enfermidade
para qualquer homem sábio
do que não estar satisfeito com nada.

II. Odin e a filha de Billingr

 96.
Isto eu então experimentei
quando eu sentei entre os juncos
e esperei por meu amor;
corpo e alma
para mim era a sábia dama,
embora eu ainda não a tivesse.

97.
A filha de Billing,
eu a encontrei na cama,
branca como o sol, adormecida;
os prazeres de um nobre
não eram nada para mim,
a não ser que eu pudesse viver com aquele corpo.

98.
“Assim durante a noite,
Odin, deve vir,
se você quiser ganhar a dama para si;
tudo está perdido,
a não ser que apenas nós saibamos
de tal vergonha”.

99.
Eu então voltei
e pensei no amor,
guiado pelo desejo;
eu então pensei
que eu poderia ter
todo seu coração e seu prazer.

100.
Quando eu me aproximei
estavam os hábeis
guerreiros todos despertos;
com luzes incandescentes
e pedaços de madeira erguidos,
assim estava marcado meu malfadado caminho.

101.
E próximo da manhã,
quando eu novamente retornei,
os habitantes do salão estavam adormecidos.
Então eu encontrei apenas o cão
da boa mulher
preso à sua cama.

102.
Em muito uma boa donzela é,
se olhar com atenção,
imprevisível em relação aos homens;
eu então aprendi isso
quando a sábia
mulher para a devassidão eu tentei seduzir;
todo desprezo
sobre mim a engenhosa dama buscou trazer,
e eu nada consegui dessa mulher.

103.
O homem em casa, alegre
e amistoso com os convidados
deve ser, sagaz consigo,
de boa memória e fluente,
se ele quiser estar bem instruído;
frequentemente ele deve falar de coisas boas.
Será chamado de um grande tolo
aquele que não sabe falar de nada:
este é o caráter do estúpido.

 III. Odin e Gunnlod

104.
Eu busquei o velho gigante,
e agora eu voltei novamente.
Pouco consegui permanecendo lá calado.
Muitas palavras
eu usei em meu proveito
no salão de Suttung.

105.
Gunnlod me deu
de beber de um precioso hidromel
em seu trono dourado;
uma má recompensa
Eu lhe dei mais tarde
em troca de todo o seu coração,
em troca de seu espírito amargurado.

106.
A ponta da verruma [13]
deixei que abrisse espaço
e perfurasse através da pedra;
sobre e sob
mim se encontrava o caminho dos gigantes:
assim arrisquei minha cabeça.

107.
Da boa aparência adquirida
eu fiz bom uso;
pouco falta para o sábio,
pois assim Odrerir [14]
agora veio para
o local sagrado do senhor dos homens.

108.
É-me pouco provável
que eu pudesse ter saído de novo
da corte do gigante
se eu não tivesse utilizado de Gunnlod,
a boa mulher,
sobre a qual deitei meu braço.

109.
No dia seguinte
os gigantes de gelo foram
buscar pelo conselho de Hár
no salão de Hár:
eles perguntaram sobre Bolverk, [15]
se ele havia retornado para junto dos deuses
ou se Suttung o havia sacrificado.

110.
Sobre o anel sagrado Odin,
creio eu, fez um juramento
– quem poderia acreditar em sua palavra?
Enganou Suttung,
então tomou sua bebida
e fez Gunnlod sofrer.

IV. Loddfáfnismál

111.
É hora de cantar,
do trono do sábio
Na fonte de Urd! [16]
Eu vi e fiquei em silêncio.
Eu vi e refleti.
Eu ouvi os dizeres dos homens.
Eu ouvi e aprendi sobre as runas.
Não se calaram
no salão de Hár,
dentro do salão de Hár,
assim como ouvi dizer.

112.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
não se levante à noite,
a menos que você esteja de guarda
ou esteja procurando por um lugar lá fora para si.

113.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
com uma mulher versada em magia
você não deve dormir em seu abraço,
pois assim ela o aprisiona nos braços dela:

114.
Assim ela garantirá
que você não dê importância
tanto ao discurso na assembleia quanto ao do rei;
você não desejará comida
nem o prazer dos homens;
você irá entristecido dormir.

115.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
a mulher de outro
você nunca seduza
como sua amante.

116.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
pela montanha ou fiorde,
se for fazer uma viagem longa
esteja certo de que tenha comida o bastante.

117.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
a um homem mau
nunca permita
saber de teu infortúnio,
pois de um homem mau
você nunca obtém
uma boa recompensa por tua boa vontade.

118.
Profundamente atingido
eu vi um homem,
pela palavra de uma mulher má;
sua língua trapaceira
foi a morte para ele,
e apesar da acusação ser falsa.

119.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
O bem virá a você se você aceitá-lo:
saiba disso – se você tem um amigo
em quem você realmente confia,
vá visita-lo frequentemente,
pois cresce arbustos
e grama alta
no caminho que ninguém percorre.

120.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
um bom homem
encontre para si com palavras agradáveis
e aprenda encantamentos de cura enquanto viver.

121.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
com seu amigo
nunca seja você
o primeiro a romper.
A mágoa devora o coração
se você não puder contar
a alguém todos os seus pensamentos.

122.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
trocar palavras
você nunca deve
com um tolo estúpido:

123.
Pois de um homem mau
nunca se pode
obter uma boa recompensa,
mas um homem bom
pode fazê-lo
querido exaltando-o.

124.
Confiança é então trocada
quando alguém pode dizer
para outro todos os seus pensamentos.
Tudo é melhor
do que ser enganado:
não é amigo de outro
aquele que diz apenas o que o outro quer.

125.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
mesmo três palavras
você não deve trocar com um homem inferior:
frequentemente o melhor é derrotado
quando o pior ataca.

126.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
não seja sapateiro
nem armeiro,
a não ser para você mesmo;
se o sapato é mal feito
ou a lança falhar,
então infortúnios recaem sobre você.

127.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
toda vez que você souber sobre o mal
fale sobre tais infortúnios
e não dê paz a seus inimigos.

128.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
contente com o mal
nunca fique,
mas que você se satisfaça com o bem.

129.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
olhar para cima
você não deve em batalha
– como tomados de terror
ficam os filhos dos homens–
para que não lancem feitiços sobre você.

130.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
se você quiser a boa mulher
atrair com uma conversa agradável
e se deleitar com ela,
deve fazer uma bela promessa
e se mantenha firme a ela;
ninguém se cansa do que é bom se o consegue.

131.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
eu ordeno que você seja cauteloso,
mas não tão cauteloso;
seja mais cauteloso com a cerveja
E com a mulher dos outros
e com uma terceira coisa,
que ladrões não o trapaceiem.

132.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
com zombaria ou riso
nunca receba
nem um convidado nem um viajante.

133.
Às vezes não se sabe ao certo
aqueles que se sentam primeiro no interior (da casa),
de quem são os parentes daqueles que chegam:
nenhum homem é tão bom
que falhas não o acompanhem,
nem tão mau que não sirva para nada.

134.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
de um sábio grisalho
nunca ria.
Frequentemente o que o homem velho diz é bom,
frequentemente de uma pele enrugada
vêm palavras de sabedoria,
aquela que se dependura (boca) entre o couro
e balança entre a pele curtida
e se move entre as entranhas.

135.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
não insulte um convidado
nem o expulse de seus portões;
trate o desafortunado bem.

136.
Poderosa é aquela trava
que deve se mover
para abrir para todos;
lhe dê um anel
ou ele lembrará de orar
para paralisar cada um de seus membros. [17]

137.
Eu lhe recomendo Loddfafnir,
para seguir o conselho;
você irá se beneficiar se você segui-lo,
o bem virá a você se você aceitá-lo:
quando você bebe cerveja,
busque para si a força da terra,
pois a terra luta contra a cerveja,
e fogo contra doença,
carvalho contra disenteria,
a espiga contra feitiçaria,
sabugueiro contra conflito doméstico,
Para atos de ira deve invocar a lua,
pasto contra picadas,
e runas contra maldições;
a terra deve resistir contra o mar.

V. Rúnatal

138.
Eu sei que eu pendi
numa árvore balançada pelo vento
por nove noites inteiras,
ferido por uma lança,
e dedicado a Odin,
eu mesmo a mim mesmo;
naquela árvore
que não sei
de onde suas raízes vêm.

139.
Eles não me consagraram com pão
nem com qualquer chifre; [18]
eu contemplei lá embaixo,
eu peguei as runas,
gritando as peguei
e de lá eu caí.

140.
Nove poderosas canções
eu aprendi do famoso filho
de Bolthor, o pai de Bestla,
E eu também bebi
do precioso hidromel,
servido de Odrerir.

141.
Então eu comecei a entender
e fiquei sábio
e cresci e prosperei muito bem,
minhas palavras a partir de palavras
e palavras encontrei,
minhas proezas a partir de proezas
e proezas encontrei.

142.
Runas você pode encontrar
e letras auxiliadoras,
letras muito poderosas,
letras muito fortes,
as quais o sábio poderoso [19] pintou
e os deuses fizeram
e que Hroptr [20] dos deuses gravou.

143.
Odin entre os deuses,
e Dainn diante dos elfos
e Dvalinn diante dos anões,
Asvid diante dos gigantes:
eu mesmo gravei algumas.

144.
Você sabe como deve entalhar?
Você sabe como deve interpretar?
Você sabe como deve pintar?
Você sabe como deve testar?
Você sabe como deve perguntar?
Você sabe como deve sacrificar?
Você sabe como deve enviar?
Você sabe como deve cessar?

145.
Melhor não pedir
do que sacrificar em demasia,
a dádiva sempre busca pelo pagamento;
melhor não enviar
do que desperdiçar em demasia.
Assim Thundr [21] gravou
antes da história dos povos;
de lá ele se ergueu
e voltou de onde veio.

VI. Ljóðatal

146.
Eu conheço tais canções
que esposa de rei não conhece
e nem os filho dos homens:
a primeira se chama “Ajuda”,
e ela o ajudará
contra disputas e mágoas
e todo tipo de infortúnio.

147.
Eu conheço uma segunda
da qual os filhos dos homens precisam,
aqueles que desejam viver como curandeiros.

148.
Eu conheço uma terceira:
se uma grande necessidade recair sobre mim
de deter meu inimigo,
eu emboto as lâminas
de meu inimigo,
suas armas nem seus bastões irão ferir.

149.
Eu conheço uma quarta:
se o inimigo me impor
grilhões em meus membros,
então eu canto
e eu posso ir;
as correntes se soltam de meus pés
e os grilhões de minhas mãos.

150.
Eu conheço uma quinta:
se eu vir atirada com malignidade
uma lança passar em meio à hoste,
ela não voa tão forte
que eu não possa pará-la,
se eu vir sinal dela.

151.
Eu conheço uma sexta:
se um guerreiro me ferir
com a raiz de uma árvore forte
e esse homem
proferir o mal a mim,
este devora o homem ao invés de mim.

152.
Eu conheço uma sétima:
se eu vejo em chamas um altivo
salão ao redor de meus companheiros de banco,
ele não queima tão intenso
que eu não possa apagá-lo
quando eu posso cantar o encantamento.

153.
Eu conheço uma oitava:
que para todos é
útil em aprender;
onde quer que cresça o ódio
entre os filhos dos heróis
eu posso logo apaziguá-lo.

154.
Eu conheço uma nona:
se me encontrar em dificuldade
para salvar meu barco à deriva,
eu acalmo o vento
nas ondas
e aquieto todo o mar.

155.
Eu conheço uma décima:
se eu vir bruxas [22]
Divertindo-se no céu,
eu então posso fazer
com que elas se percam
de suas formas originais
e de seus próprios pensamentos.

156.
Eu conheço uma décima primeira:
se eu vir para a batalha
liderar amigos de longa data
eu canto sob o escudo
e eles vão vitoriosos;
seguros para a batalha,
salvos da batalha,
eles vêm salvos de qualquer lugar.

157.
Eu conheço uma décima segunda:
se eu vejo em cima de uma árvore
um cadáver enforcado balançando
então eu gravo
e pinto uma runa
de modo que o homem se mova
e fale comigo.

158.
Eu conheço uma décima terceira:
se eu em um jovem guerreiro tiver
aspergido água
ele não poderá cair;
ainda que ele venha à batalha,
o homem não cairá frente as espadas.

159.
Eu conheço uma décima quarta:
se diante de uma tropa de homens eu tiver
de reconhecer os deuses,
os aesires e os elfos,
eu posso distinguir todos;
o tolo pouco sabe disso.

160.
Eu conheço uma décima quinta:
a qual Thjodreyrir [23] cantou,
o anão, diante das portas de Delling [24];
ele cantou poder para os deuses,
Coragem para os elfos,
entendimento para Hroptatyr [25].

161.
Eu conheço uma décima sexta:
se de uma donzela astuta eu quiser
ter todo o seu carinho e prazer
eu transformo os sentimentos
da mulher de braços brancos,
e eu mudo todos os seus pensamentos.

162.
Eu conheço uma décima sétima:
nunca irá me evitar
a jovem donzela;
esses encantamentos
você se lembrará, Loddfafnir;
que por longo tempo lhe faltaram,
uma vez que são bons para você se você os tiver,
úteis se você os obtiver,
úteis se você os receber

163.
Eu conheço uma décima oitava:
a qual eu nunca ensino
para donzelas ou esposas de homens
– tudo é melhor
quando apenas uma pessoa entende;
ela pertence ao término dos encantamentos –
a ninguém a não ser apenas
àquela que está em meus braços
ou que é minha irmã.

164.
Agora os dizeres de Har estão
ditos no salão de Har,
muito úteis aos filhos dos homens,
inúteis aos filhos dos gigantes.
Saudações àquele que falou!
Saudações àquele que entende!
Aproveite aquele que compreendeu!
Saudações àqueles que ouviram!


Referência bibliográfica:

MEDEIROS, E. O. S. Hávamál: tradução comentada do nórdico antigo para o português. Mirabilia, Eletrônico, v. 17, n. 2, p. 545-601, jul-dez 2013. Disponível em: <https://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/pdfs/2013_02_23.pdf>. Acesso em: 02 fev. 2021.


Notas

[1] IRMANDADE HRAESVELGR. O Hávamál. Trad. T. Medeiros. Disponível em: <http://www.irmandadedehraesvelgr.com.br/>. Acesso em: 15 fev. 2021. p. 2. Nota do Editor.

[2] A interpretação dessa estrofe é a de que um convidado necessita de conversa, palavras (orðs), de seu anfitrião, e então silêncio em retorno (endrþǫgu) para que ele – o convidado – também possa falar. Nota do Tradutor.

[3] Pois num lugar estranho de tempo incerto, o bom-senso é melhor que a riqueza. O empobrecido, neste caso, é o que se crê rico, mas não dispõe de bom-senso. N. do E.

[4] Na mitologia ela é a filha do gigante Suttung, que adquire o “hidromel da poesia” dos anões Fjallar e Gjallar. Mais tarde, Odin consegue roubar o hidromel seduzindo Gunnlod. Esta história será abordada nas estrofes 104 a 110. Maiores detalhes sobre a história de Gunnlod, o hidromel da poesia e como Odin o obtém podem ser encontrados no Skáldskaparmal na Edda em Prosa de Snorri Sturluson. N. do T.

[5] Com a bebida, mesmo o mais ranzinza ou introspectivo se torna um falastrão. N. do T.

[6] Segurar no sentido de não compartilhar com os demais, reter para si. N. do E.

[7] Essa estrofe, juntamente com a estrofe 79, pode encontrar um paralelo muito semelhante na Saga do Rei Hrolf Kraki (Hrólfs Saga) quando o pai de Svipdag aconselha o filho quando este decide partir para a corte do rei Adils da Suécia: “Não inveje outros e evite a arrogância, pois tais comportamentos diminuem a fama da pessoa. Defenda-se caso seja atacado. Torne-se humilde, mas ao mesmo tempo você deve se mostrar valente se for posto à prova”. N. do T.

[8] O significado do final da estrofe seria de que se três pessoas ficam sabendo de algo, isso já não será mais segredo para ninguém e logo todos saberão. N. do T.

[9] Provavelmente metade da estrofe se perdeu. N. do E.

[10] Adotamos aqui a interpretação de Finnur Jónsson de que o fogo se trata de uma pira funerária e assim traduzimos a passagem como sendo o próprio homem rico o morto a ser cremado. N. do T.

[11] Odin. N. do T.

[12] Podemos interpretar que esta passagem queira dizer a respeito de uma espada usada apropriadamente, de qualidade, que provou seu valor, que não ficou tempo demais sem uso e tenha se embotado. N. do T.

[13] Odin consegue entrar no lar de Suttung se transformando numa serpente e utilizando uma verruma chamada Rati para abrir uma passagem através da pedra. N. do T.

[14] Este é um dos três jarros ou recipientes onde estava guardado o hidromel da poesia. N. do T.

[15] “Hár” e “Bolverk” são outros nomes referentes à Odin. N. do T.

[16] Urd é uma das três Norns responsáveis pelo destino dos homens e dos deuses. Em nórdico antigo a palavra que compõe seu nome (urðr) significaria literalmente “destino”. N. do T.

[17] Uma explicação para essa estrofe é a de que ela esteja falando sobre pedintes e mendigos e que se deve doar algo (dinheiro, uma esmola) para evitar que lhe roguem uma praga ou maldição. N. do T.

[18] Chifre de beber, guampa. N. do T.

[19] Fimbulþulr (Fimbulthur, literalmente “sábio poderoso”), i. e. Odin. N. do T.

[20] Odin. N. do T.

[21] Odin. N. do T.

[22] Esta estrofe retrata como Odin tem poder para confundir as túnriðir, impedindo-as de retornarem às suas formas verdadeiras. Túnriður: pode ser entendido como “bruxas”, na falta de um termo mais apropriado, assim como outras criaturas do folclore norte-europeu como as kveldriða, mirkriða, trollriða, que também podem ser interpretadas como “bruxas”. […] O que as aproxima do conceito de “bruxa” são suas habilidades, como a transformação em animais (o que pode também ocorrer por meio do abandono do corpo), voo noturno, etc. A mudança de corpo e a habilidade de se transformar em animais é um tema recorrente na literatura nórdica. N. do T.

[23] Þjóðreyrir (Thjodreyrir) não é mencionado em nenhuma outra fonte. N. do T.

[24] Delling aparece em outras fontes, se referindo ao nome de um anão. N. do T.

[25] Odin. N. do T.

By Jonas Otávio Bilda

Psicólogo com formação em Daseinanalyse, Filósofo com formação em Fenomenologia. Escritor livre-pensador, tradutor, revisor e consultor literário. Autodidata em História geral, Religiões comparadas, Teorias da Educação, Literatura e Política. É autor de pesquisas acadêmicas sobre Psicologia Clínica em “O Alvorecer das Artes do Ser” (Luminária, 2016), ensaios filosóficos sobre Educação em “Cartas de um Solícito Acompanhante” (Multifoco, 2018) e pesquisa político-cultural em "A Civilização Eterna" (Clube, 2020); tradutor e organizador do “Livro de Veles” (Multifoco, 2020), e do "Kalevipoeg, o épico da Estônia" (Clube, 2021). Autor anônimo de mais de dez traduções de livros. Amante da Alta Cultura, é autor de artigos na mídia independente O Sentinela.

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