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Os dados não deixam margem a dúvidas. Com a queda de 4,1% no Produto Interno Bruto (PIB) registrada em 2020, o Brasil encerrou a década 2011-2020 com o pior desempenho econômico desde o início do século XX. A média anual foi de pífios 0,3%, bem inferior à da célebre “década perdida” de 1980, com 1,6% ao ano, basicamente decorrente da crise da dívida externa, num período em que o País ainda era um grande importador de petróleo e alimentos, ao contrário da atualidade.

Apesar de a pandemia de Covid-19 ter sido largamente responsável pela queda recordista do PIB em 2020, salta aos olhos que mesmo sem ela a economia não estaria fora do pântano de estagnação em que se encontra desde 2015, ao contrário das bravatas do ministro da Economia Paulo Guedes e suas quimeras sobre os investimentos privados que choveriam sobre o país, bastando para isto desregulamentar ainda mais a economia e privatizar o restante do patrimônio do Estado.

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Desafortunadamente, para o “superministro” e para os brasileiros em geral, não há a menor possibilidade de que tal receita simplista e enganosa produza os resultados prometidos por ele e seus corifeus no mercado financeiro e na mídia especializada, pela razão elementar de que não há registro histórico do seu funcionamento em nenhuma das cerca de 40 economias avançadas do planeta. Por isso, resulta ridículo pretender apresentar o fracasso assegurado como único caminho de saída para a crise. Parafraseando Albert Einstein, o estado mental que criou e alimenta a depressão não tem condições de superá-la. Insistir na receita neoliberal é uma prova literal de que o fracasso subiu às cabeças de Guedes e do parasitário sistema pró-rentista representado por ele.

Apesar do desastre, o “Posto Ipiranga” costuma agredir a inteligência alheia, insistindo na falácia de que a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro constituiria um respaldo ao seu programa econômico ultraliberal, recordando-se que o então candidato presidencial se esquivou de qualquer debate sobre o tema, antes mesmo do ataque físico que o afastou de boa parte da campanha. Neste particular, pode-se dizer que Guedes esconde a sua inclinação pró-rentista por trás da confessada ignorância econômica do presidente.

A História ensina: nenhum país do mundo atingiu níveis elevados de desenvolvimento socioeconômico dando rédeas soltas aos “mercados”, particularmente, os financeiros, hegemônicos no Brasil desde a década de 1990. Ao contrário, com nuances locais, todos seguiram um roteiro inaugurado pelos EUA recém-independentes, no final do século XVIII, sob a batuta do secretário do Tesouro Alexander Hamilton, com a geração de uma eficiente sinergia entre o governo nacional e as forças produtivas do país. Em linhas gerais: a criação de uma estrutura financeira para o fomento às atividades produtivas, combinando recursos públicos e privados; grandes investimentos públicos em infraestrutura e pesquisa científica (hoje, acrescentando a inovação); e incentivos às indústrias nacionais, com um protecionismo moderado, dosado e seletivo e favorecimento nas compras do governo. Roteiro posteriormente conhecido como Sistema Americano ou Sistema Nacional de Economia Política, incorporado ao cânone econômico por Friedrich List, Henry C. Carey, Erasmus Peshine-Smith e outros economistas práticos, concentrados no desenvolvimento econômico real e críticos das ilusões vendidas pelos arautos do “livre comércio” colonial, os “globalizadores” da época. Foi com o Sistema Americano, e não com o “livre comércio” ou a “globalização” financeira, que os EUA se tornaram a maior economia do mundo, e é com uma variante própria que a China caminha a passos largos para assumir o posto, inspirada em exemplos próximos como o Japão e a Coreia do Sul, que se converteram em economias modernas em menos de meio século, seguindo os fundamentos do Sistema Americano.

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Com a hegemonia da “financeirização” da economia mundial, a partir da década de 1970, o Sistema Americano e quaisquer orientações contrárias ao cânone liberal foram  virtualmente banidos dos currículos universitários. Mas não é casual que, diante da emergência global gerada pela pandemia, o nome de Hamilton venha sendo citado como exemplo de estadismo e visão estratégica na gestão da economia, como ocorre na Europa. Além disto, nos EUA, há um renascimento do interesse popular pela sua figura histórica, com o musical Hamilton de Lin-Manuel Miranda e uma nova edição da sua biografia escrita por Ron Chernow, na qual se baseou a peça (Alexander Hamilton, recém-publicada no Brasil pela editora Intrínseca).

Um “case” emblemático do Sistema Americano foi a superação da Grande Depressão da década de 1930, com o New Deal do presidente Franklin Roosevelt e a mobilização industrial-militar da II Guerra Mundial. Da mesma forma, a sua antítese é a “Reaganomics” da década de 1980, versão local da razia neoliberal-privatizante da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, cujo principal resultado foi uma grave crise social e uma devastação da indústria e dos serviços públicos, da qual o Reino Unido ainda não se recuperou.

Como afirmou recentemente o economista Antônio Correa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP): “Não há evidências, tampouco precedentes históricos de países que tenham se desenvolvido apenas apostando no mercado. Não há respaldo para isso nas boas teorias econômicas, nem evidências empíricas (Carta Capital07/03/2021).”

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A propósito, é relevante que até mesmo o tradicional “Estadão” tenha dedicado dois editoriais consecutivos, em 7 e 8 de março (“É hora de reindustrializar” e “Falta destravar o país”), para ressaltar a necessidade de um planejamento adequado para a reconstrução econômica, encabeçado pela reindustrialização e pelo aumento dos investimentos produtivos, em especial, em infraestrutura e educação. Talvez, só mesmo o atavismo ideológico dos editorialistas do decano midiático do liberalismo nacional os tenha impedido de admitir a necessidade de primazia do Estado em tais investimentos. E este é outro ensinamento histórico: não há precedente de alguma economia moderna que tenha superado uma estagnação prolongada sem fortes investimentos públicos em atividades multiplicadoras de valores.

No caso brasileiro, o período de maior desenvolvimento do País ocorreu no meio século posterior a 1930, quando, mesmo com nuances distintas, havia uma ideia de um projeto nacional impulsionado por uma considerável sinergia entre Estado e iniciativa privada, tanto nacional como estrangeira, sem o parasitismo da hegemonia pró-rentista prevalecente em toda a chamada “Nova República”.

Em síntese, não será com as charlatanices ideológicas e falácias de Paulo Guedes que o Brasil poderá superar o presente impasse que coloca em risco o seu futuro imediato como uma Nação capaz de definir soberanamente o seu rumo e inserção na cambiante ordem de poder mundial em curso.


Fonte: Solidariedade Ibero-Americana

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