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De tempos em tempos, sentimos a necessidade de responder algumas acusações. Não porque achamos os acusadores dignos (falta-lhes a coragem para mostrar até o nome), mas porque vemos nisto uma oportunidade de discorrer sobre determinado assunto. Algumas pessoas sempre vêm nos insultar afirmando que, quando o assunto é a polêmica das mulheres na via budista (ou mais especificamente, nos sutras), citamos sutras que “não existem”. Sim, eles existem. Provada sua existência, passam então à acusação típica: “Mas vocês estão tirando do contexto”. Pois bem, qual o contexto destas passagens? Qual a “exegese” que explica passagens como esta abaixo?

Buda disse: “Ele compreende: ‘É impossível, não pode acontecer que uma mulher possa ser um Iluminado, Perfeitamente Iluminado — não existe essa possibilidade.’ E ele compreende: ‘É possível que um homem possa ser um Iluminado, Perfeitamente Iluminado — existe essa possibilidade.’ Ele compreende: ‘É impossível, não pode acontecer que uma mulher possa ser um Chakravartin (um “monarca-que-gira-a-roda”, um Monarca Universal) , que uma mulher possa ocupar a posição de Sakka (chefe dos devas), que uma mulher possa ocupar a posição de Mara (divindade associada à Morte), que uma mulher possa ocupar a posição de Brahma — não existe essa possibilidade.’ E ele compreende: ‘É possível que um homem possa ser um Chakravartin, que um homem possa ocupar a posição de Sakka, que um homem possa ocupar a posição de Mara, que um homem possa ocupar a posição de Brahma — existe essa possibilidade.” E também: é impossível que ela “conquiste o céu, a natureza, o universo”, que possa “dominar espíritos celestes” (Anguttara Nikaya, IX, 51; Cullavagga, X, l.)

No fundo, o que está (ou deveria estar) em discussão não é uma questão limitada ao budismo em si; não se pode decifrar estas passagens apenas “tendo estudado budismo”. É preciso interligar todos os pontos: primeiro do budismo e, depois, destes com aqueles “fora” dele. Por exemplo, é preciso articular estas passagens àquela na qual se afirma que o tempo de duração do Dhamma seria cortado pela metade quando Buda ordenasse uma mulher. É preciso considerar tudo isto junto. É o todo que dá sentido às partes. Não dá pra isolar passagens e forjar a Hermenêutica da Conveniência (ou a Hermenêutica da Covardia).

Pois bem, disse que é preciso não só interligar os pontos internos da doutrina, mas também interligá-los aos de “fora” dela, ou seja, àqueles pontos que são compartilhados por todas as sociedades de tipo pré-moderno: pois a estrutura humana — metafísica, existencial e psicossomática — é a mesma. Sendo a estrutura humana a mesma, outras tradições (e, mais especificamente falando, o modo como a metafísica dos sexos aparece nelas) ajudam a esclarecer os pontos de uma em particular. Diferenças são acidentais (pertencem ao mundo das contingências étnicas), jamais essenciais. Diferenças importam: quando o assunto são as diferenças. O que há de harmônico em tudo isto, através e subjacente, é o que interessa de fato aqui.

É preciso lembrar que forma alguma isto significa que as mulheres não podem aprender com o budismo e se aperfeiçoarem espiritualmente neste estudo e prática. Estamos falando da ordenação regular conforme os mais antigos sutras, e estamos falando do preço que a ordenação de mulheres tem para o todo (a degradação da via). Um preço que, importante ressaltar, Buda mesmo quis pagar, ciente de que as coisas devem correr conforme devem correr. Então não estamos “denegrindo” a mulher quando afirmamos as coisas como elas são.


Fonte: Medium

By Carlos Alberto Sanches

Sociólogo de formação; Pesquisador de Antropologia, Metapolítica, Metafísica Tradicional e Tradição Perene

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