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O Abandono do Místico e a Miséria da Filosofia Ocidental

O místico é aquele que estabelece com Deus uma relação “privada”. Ele não ouviu falar da verdade: testemunhou-a. Por isto o enxergaram, não raro, como uma ameaça à ordem (e à doutrina que a fundamenta). Ele perturba, na cabeça dos comuns, a crença de que “a verdade já se revelou, não precisamos de mais profetas, a Mensagem já se encerrou, já temos nosso sistema”. Para muçulmanos, obviamente, Muhammad é o arquétipo (ou melhor, protótipo, pois já existia junto a Deus antes da criação de Adão) do místico; como tal, todo místico sonha em repetir o que ele fez, em repetir principalmente sua ascensão aos sete céus; todo místico anseia por sua “própria” Viagem Noturna, ou por sua “própria” Noite do Decreto, quando Deus mesmo fala diretamente a seu coração (lócus do Intelecto). Mas Muhammad foi “o último profeta”, dizem-no, inquisitorialmente, “não pode haver outro com uma experiência tal como a dele, com uma relação com Deus tal como a dele”. Isto ajuda a ilustrar o porquê de muitos muçulmanos (não por acaso com tendência wahabita, ou seja, ultra-exotérica) não conseguirem assimilar o sufismo, por exemplo, e enxergarem o sufi como um “desviado”. Mas como é no Ocidente?

Vamos ilustrar do seguinte modo. O fogo em si é o mesmo: aqui ou na Nicarágua; em 2021 ou na alvorada da humanidade. Mas há muitas formas de fazer fogo. Muitas técnicas diferentes, geradas conforme as circunstâncias ambientais e culturais. Também o fogo místico é assim. Há técnicas para fazê-lo. (Não se pode confundi-las com as práticas “normais”, ou seja, a oração canônica e a liturgia comum, por exemplo.) Os muçulmanos, por exemplo, já que falei deles acima, aprendem estas técnicas nas turuq, e as praticam sozinhos ou em congregação. Os cristãos do Oriente têm seus métodos de meditação mística, os quais ainda preciso estudar. O Ocidente viveu a transmissão e cultivo destas técnicas no interior de círculos localizados que acabaram por ser considerados “hereges” (tal como o foram, do outro lado, muitos sufis pelos outros muçulmanos). Refugiaram-se nos subsolos da Igreja, ou seja: tornaram-se, agora mais ainda, “esotéricos”. Houve um abandono e esquecimento destas técnicas no Ocidente. Ocorre que os pensadores de todas as tradições (seus “filósofos”) sempre pagaram tributo aos místicos, quando não eram místicos eles mesmos! Vale lembrar que o pitagorismo mesmo foi uma dessas escolas, e os filósofos pré-socráticos falam numa língua que é muito próxima da poesia mística. Rompida a aliança com o místico, a Razão se liberta do Intelecto. (Schuon, aliás, diz exatamente isto, o problema da modernidade é a separação de Razão, individual, do Intelecto, trans-pessoal, supra-individual, órgão da contemplação) O problema do filósofo moderno, disse alguém ou eu mesmo (não me lembro), é que “o filósofo não sabe mais meditar”. Não é por acaso que a Filosofia, a partir de então, cada vez mais se “humaniza”, seu critério de verdade chegando a ser a percepção do homem vulgar. Também aí estão prontas as bases para a auto-experimentação da “mística” moderna, que terminaria na geração dos “jovens místicos”, que pensam que qualquer experiência supra-sensível já é o ápice da espiritualidade — a menina wicca, neta das bruxas que não conseguiram queimar, saltitando pela reserva ambiental, acreditando-se possuída pelas deusas, quando na verdade apenas tem gases ou está louca de ácido (ou as duas coisas).

O homem exotérico vive na crença de que a verdade já se revelou; o homem esotérico vive no testemunho de que a verdade sempre se revela.

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Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches

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