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Em memória de Chino Fernández

 

Quando cancelamos ou ignoramos a dimensão sobrenatural da realidade (aquela que não podemos explicar pelo simples cálculo da razão), não a conseguimos entender, porque assim a realidade não se faz natural, mas antinatural, isto sim.

Este é um princípio fundamental na vida do espírito que tem sido deixado de lado tanto no conhecer como no ser. Ou seja: tanto no âmbito do conhecimento quanto no domínio da falsa espiritualidade moderna em suas múltiplas variantes. Um exemplo vale por mil palavras: quando a reforma luterana negou a ideia católica do matrimônio enquanto sacramento indissolúvel, concebendo o matrimônio como assunto humano de caráter contratual, com permissão do divórcio, isso resultou no matrimônio civil de Napoleão, que se estende hoje ao matrimônio antinatural de homem com homem e mulher com mulher.

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Quando afirmamos, com total certeza, que na vida espiritual quem não avança acaba retrocedendo, nós o fazemos com base neste princípio superior: se negamos o sobrenatural, terminamos afirmando o antinatural.

A ideia de progresso é tão antiga quanto o mundo — mas, na modernidade, desde Kant a esta parte, é-nos dito que o mundo e o homem seguem em progressão irresistível ao longo do curso da história. Esta ideia encerra contradições em si. Com efeito, em pleno século XX, época marcada pelo esplendor da ciência e da tecnologia, o seu progresso exponencial engendrou a bomba atômica, com a consequência de milhares e milhares de inocentes mortos. Sabemos que o mal que toca o inocente não se explica. É perversão da causa por trás dele, seja alguém, seja alguma coisa.

O capitalismo liberal entendeu o progresso como processo de acumulação, e assim chegamos, no século XXI, a uma sociedade de consumo cada vez mais desigual e injusta.

O socialismo marxista, por sua vez, concebeu o desenvolvimento enquanto construção da “sociedade comunista de produtores associados”. A construção durou setenta anos — mas, uma vez concluída, a obra desabou. Essa foi uma “construção” que custou a destruição de 100 milhões de vidas.

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Para os antigos filósofos, o progresso significava a passagem do pior para o melhor.

Do ponto de vista do espírito, ou seja, do conhecer profundo, o progresso qualifica-se por sua intensidade, sua profundidade. Não se o pode mensurar linear ou horizontalmente. A profundidade do progresso mede-se pelo grau de interiorização existencial do sujeito.

E este é o sentido profundo do progresso: a interiorização cada vez mais intensa das verdades que conhecemos — ou melhor, verdades que barruntamos. O processo de interiorização decorre de forma graduada, com seus diversos níveis dispostos em ordem similar à própria hierarquia celestial.

A teologia, âmbito no qual discorremos, disciplina-se por dogmas que nos dizem o que fazer e pensar. A filosofia, por sua vez, é saber profano que não pode depender de fórmulas. Ela deve, ao contrário, confrontar os perigos trazidos pelo pensamento. Sobretudo ao filósofo se reconhece o direito e o dever de pensar por si mesmo e fazer avançar a sua ciência.

Mas é certo que também a filosofia tem fórmulas ou princípios apriorísticos, como o princípio da não contradição (uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto) ou o princípio da identidade (tudo o que é, é idêntico a si mesmo). Estas fórmulas, assim como aquelas da teologia, hão de ser interiorizadas, passando a ser próprias de cada um. Elas devem penetrar a consciência profunda do eu pessoal.

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Entretanto, isso só não basta. Uma vez tenha alguém assumido essas verdades e valores mais altos da hierarquia, não há que, no nativo dizer da nossa gente, dormir en los laureles [dormir sobre os louros]. Há, isto sim, que os atualizar. Esta atualização pressupõe trabalho constante, porque na progressão da interiorização não deixa de existir o risco de regressão, caso o avanço não se faça de forma persistente.

O caráter regressível do processo internalizante de verdades espirituais e a possibilidade de retrocesso nele implicado podem custar a perda de conquistas que um dia terão parecido definitivas. Isso nos obriga a estar em constante estado de alerta, sempre preparados, sempre despertos, não só para defender nossas conquistas existenciais, mas também para que as possamos descortinar mais clara, profunda e intensamente.

Uma vez chegado a esse nível superior do processo de interiorização, o sujeito deixa patente, no ser e fazer, que a virtude não se esgota no domínio sobre as paixões, senão que se revela também nas preferências. Mais do que apenas livre, o sujeito pode ser “mais livre”, não aspira apenas a querer algo, mas a querê-lo melhor — eis a lição que nos ensina o filósofo espanhol Leonardo Polo.

Chegamos assim à fórmula de nosso título: na vida espiritual, quem não avança, retrocede.


Tradução de Chauke Stephan Filho

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