Mykel Alexander: Para quem há história?

Nos ajude a espalhar a palavra:

Indaga Oswald Spengler (1880-1936), o intuitivo filósofo da história alemão:

“Para quem há história? Pergunta paradoxal, ao que parece! Sem dúvida há história para todos, porquanto cada homem, com a totalidade de sua existência vigilante, é membro da história. Mas há grande diferença entre viver sob a impressão contínua de que a própria vida é um elemento de um ciclo vital muito mais amplo, que se estende sobre séculos ou milênios, e sentir a vida como algo completo, redondo, bem delimitado. É seguro que para esta última classe de consciência não há história universal, não existe o universo como história.” [1]

Esta indagação de Spengler foi feita em Der Untergang des Abendlandes (1918-1922), traduzida no Brasil apenas em forma resumida como A Decadência do Ocidente, (várias edições pela Editora Zahar), obra que aborda as questões da capacidade humana de entender a História, de quais seriam as dinâmicas da história, de se o homem seria capaz de determinar o momento de plenitude e decadência de uma civilização.

Após a Primeira Guerra Mundial, quando Spengler publicou esta obra em dois volumes (o primeiro em 1918, e o segundo em 1922), a opinião geral era que o desastre ocorrido teria despertado a humanidade para a consciência, e que, recobrada do susto, a humanidade iria voltar para um caminho de prosperidade, mas Der Untergang des Abendlandes estimava que ao contrário da prosperidade iria vir uma decadência e dissolução da sociedade ocidental. Não irei adentrar nos eventos que posteriormente foram surgindo e que trouxeram componentes de corrupção e degradação da sociedade ocidental, tais como a difusão do marxismo, psicanálise, movimentos de minorias baseados em subversão, economia baseada em juros, negação do conhecimento das tradições humanas (especialmente à greco-romana dentro do contexto ocidental) fundidos num caldeirão de materialismo que promove os baixos instintos sobre a consciência mais elevada do homem, e rotulados cada qual ou na chamada direita (liberais) ou na chamada esquerda (marxistas, freudianos, e membros da Escola de Frankfurt), mas apenas salientarei que os extremos das tais direita e esquerda se consolidaram em interesses geopolíticos entre OTAN e URSS cuja ameaça de guerra nuclear mantinha desperta a consideração de uma destruição não só do Ocidente, mas do mundo.

Oswald Arnold Gottfried Spengler (1880 – 1936) foi um historiador e filósofo alemão. Sua obra “O Declínio do Ocidente” foi uma referência nos debates historiográficos, filosóficos e políticos entre os intelectuais conservadores europeus ao longo do século XX.

Com o fim da URSS, com a unificação das Alemanhas, e com desmembramento dos países marxistas tais como Tchecoslováquia e Iugoslávia, tais países daí restabelecidos, destacadamente a Rússia, voltaram a recuperar suas identidades originais, anteriores ao advento do marxismo na forma de sovietismo. Disso resultou que a polaridade entre OTAN (liderada pelos EUA sob a influência de Israel) e URSS não mais existia obviamente, a partir dos anos da década de 1990. Desde então a ideia de “decadência do Ocidente” passou a ficar esquecida.

Contudo, com o fortalecimento da Rússia não mais soviética, e da China mais voltada a sua natureza original do que das ideologias marxistas e maoistas, a OTAN (liderada pelos EUA sob a influência de Israel) passa a sentir seu poder no Ocidente e no mundo ameaçado por tais potências sob as quais seus dirigentes não possuem controle.

Qual o conteúdo das discussões políticas?

É então que chegamos a atualidade, do Ocidente, e, necessariamente, do Brasil também. É inegável que o mundo vive a epidemia das chamadas “fake news”, especialmente o Ocidente, ao mesmo tempo em que no Brasil a polaridade política entre as denominadas direita e esquerda se intensifica já flertando com o extremismo. Jornalistas e analistas em geral costumam repetir sempre que, apesar de toda a polarização, o lado positivo de tal conjuntura é que nunca como antes o povo brasileiro esteve politizado e que isso é sinal de uma democracia saudável.

Todavia o tempo é capaz de exercer um duplo efeito na humanidade, a saber, ou aperfeiçoamento através da experiência dos anos vividos, que é um efeito benéfico, ou o esquecimento do saber no decorrer de décadas, séculos e milênios, que é um efeito deletério.

A palavra “política” é originária da tradição grega, e a palavra “democracia” também. Sabem as pessoas as origens e o desenvolvimento dessas duas palavras? Sabem as pessoas os muitos conceitos gregos vinculados a estas duas palavras? Sabem as pessoas a relação entre tais conceitos e a vivência política na conjuntura da época originária de tais palavras? Sabem as pessoas o significado a democracia em seu contexto original?

Certamente a quase absoluta maioria não sabe, e o andamento da educação no Brasil não favorece tal saber. Vejamos a seguintes digressões que entendo como fundamentais para parte da ignorância das pessoas no Brasil sobre o significado das palavras, e necessariamente dos respectivos conceitos, política e democracia.

Democracia é uma palavra grega, e política também, embora a prática da política tenha se consolidado no ocidente através dos fundamentos do direito romano, este em grande parte da tradição latina romana pagã e depois com a tradição latina cristã, então, a política ocidental desde o Império Romano pagão, passando pelo Império Romano Cristão, depois pela Idade Média e Idade Moderna, desenvolveu-se valendo-se em grande parte do idioma latim. Na verdade, o idioma grego tinha uso corrente vasto até o fim do período helenístico, ao redor do século II a.C. quando a difusão do idioma latim passou gradualmente a ganhar importância conforme a República de Roma foi se consolidando como potência no Mediterrâneo, e com o advento do Império Romano se expandindo no continente europeu o idioma latim foi se estabelecendo, e se fixando como idioma oficial da política europeia através da Igreja Católica durante a Idade Média após a dissolução do Império Romano. O idioma grego só voltou a ter grande importância no Ocidente a partir do Renascimento na Itália do século XV. A palavra grega democracia nem na Grécia Antiga tinha tanto prestígio, e foi mais alardeada no início do século XX apenas, e quase sempre descontextualizada de suas origens e significados vinculados.

Como minha crítica é a de as pessoas não conhecerem as origens dos significados das palavras democracia e política com suas respectivas implicações, é claro que para superarem isso necessitariam conhecer o idioma grego e também o idioma latim, dada as interconexões históricas de tais idiomas no contexto europeu e ocidental.

Mas em que medida, no caso do Brasil, os idiomas grego e latim foram ensinados às massas?

Na primeira metade do século XIX os idiomas latim e grego eram dominantes nas escolas secundárias, e na segunda metade do mesmo século chegaram a estar presentes em 7 (latim) e 3 (grego) anos de estudo. A partir de 1915 o latim ocupava só 3 anos de estudo e o grego foi retirado totalmente. A partir de 1929 o latim constava em 4 anos de estudo,[2]. Na Reforma Francisco de Campos, em 1931 e na Reforma Capanema, em 1942, o idioma latim ainda constava como obrigatório na escola secundária, mas o idioma grego era opcional.

Alguém até poderia alegar que o grego, a partir do século XX, era ensinado em frequência mínima no território brasileiro e, portanto, o estudo das origens gregas feito no idioma grego nunca fora realmente difundido no Brasil, e que a única perda real teria sido então somente o latim, o idioma da tradição ocidental do Direito, procedente de Roma. Para o ocidental o ideal é que se estudasse grego e latim, como veículo de toda tradição greco-romana, mas se no Brasil tínhamos bem estabelecido apenas o latim, isso não poderia ser desculpa para não termos acesso às questões que fundamentavam o que era no contexto grego a democracia originalmente, pois a tradição latina, especialmente a romana, ao menos indiretamente serviria para transmitir a tradição grega ao público brasileiro, especialmente devido aos escritos do grande romano Cícero (106-43 a.C.), certamente o principal nome que transportou a tradição filosófica, literária e de teoria política grega para Roma.

No entanto, a partir de 1961 o latim, como anteriormente o idioma grego, também passou a ser opcional e rapidamente seu aporte à formação do brasileiro foi diminuindo[3] até o momento atual em que até nas universidades ele agoniza. Assim, ao invés de ser adicionado o estudo literário grego na educação brasileira, completando assim uma formação literária greco-romana, dando base para conhecer através do grego a tradição grega, e, consequentemente, as origens da democracia de modo profundo, o latim foi praticamente banido do ensino brasileiro, impedindo até compreensão indireta das origens da tradição política grega, via intermediação da tradição latina-romana.

Em suma, foi feita uma retirada da tradição literária greco-romana da educação de base, impedindo o íntimo contato do indivíduo brasileiro com as origens legítimas da democracia e do direito ocidental. O resultado disso tudo é que o que as pessoas discutem quando usam as palavras política e democracia são conteúdos quase sem conexão alguma com os conceitos legítimos e originários, baseando-se em camadas e camadas de distorções literárias, falsificações literárias e nas chamadas fake News oriundas dos mais diversos interesses.

Ainda se deve acrescentar, um registo fundamental, que o Ocidente surgido após o colapso do Império Romano teve como fundamento, além de valores greco-romanos, a tradição germânica, mais ou menos diretamente, conforme o contexto de cada nação.

Algumas discussões qualificadas na Idade Contemporânea

No Ocidente a tradição política, greco-romana-germânica, de mentalidade filosófica e profunda, havia sido substituída pelos postulados iluministas que irromperam na Revolução Francesa, de mentalidade sentimentalista e superficial [4]. Um efeito, talvez o principal, de tal sentimentalismo e superficialidade foi o de, diante das reivindicações de harmonizar a inegável desigualdade entre homens e raças através da justiça, simplesmente negar a realidade de tais desigualdades e passarem a afirmar que todos homens e raças são iguais[5]. Como será abordado abaixo, dentro da temática de compreensão histórica, a realidade da desigualdade entre os homens é evidente, e isso se baseando em premissas abundantes bem como em consequências lógicas.

Se o iluminismo inseriu superficialidade e sentimentalismo no Ocidente, por outro lado, a mentalidade filosófica e profunda ainda permanecia existindo no Ocidente durante o século XIX, principalmente nos estudos clássicos, especialmente na produção acadêmica alemã, austríaca, suíça, inglesa e francesa, que na época se comunicava com a política numa via de mão dupla, uma vez que não era raro políticos terem formação acadêmica e estarem íntimos dos grandes temas da humanidade. Assim a experiência prática política e o conhecimento filosófico se juntavam em muitos indivíduos que eram concomitantemente políticos e acadêmicos. Em outras palavras, os políticos do século XIX tinham tanto uma noção das exigências da realidade diária da vida política, como possuíam em certa medida conhecimentos dos fundamentos legítimos e originais do que era a política e a democracia originários da Antiguidade greco-romana.

No que se refere as discussões entre os indivíduos não especializados, tal mentalidade filosófica e profunda havia perdurado no Ocidente de modo não tão restrito aos círculos acadêmicos e políticos, alcançando as parte das massas notavelmente na Alemanha, devido aos estudos multidisciplinares nesta nação, onde a intersecção das ciências exatas, biológicas e humanas possuíam ambiente favorável já desde a educação básica, justamente pela mentalidade filosófica alemã, dado que a filosofia, em seu sentido original, grego, o qual era o eixo e ponto de partida do saber, tinha semelhante posição na Alemanha, considerada então como o país mais culto do mundo. A discussão política qualificada na Alemanha era, portanto, precedida necessariamente por outra característica grega que também os alemães possuíam, a saber, a mentalidade filosófica.

Indivíduos e massas na discussão política, e um pouco de História

Evitei me referir às pessoas não especializadas em política, mas que discutiam com satisfatória propriedade a política, usando a palavra “massas”, e preferi usar a palavra “indivíduos”. Irei abordar as “massas” ainda mais a frente, mas por “massas”, agora, basta entender como “massas” as pessoas que discutiam política sem, contudo, buscarem um conhecimento minimamente satisfatório.

Nas massas, e em grande parte da intelectualidade ocidental, o que incluía Inglaterra, França e EUA, as ideias iluministas iam se espalhando através do século XIX e início do século XX, exortando louvores ao direito de voto do povo, cujo sistema político que acolhia tal contexto era a democracia, uma palavra grega, conforme já mencionada, e que originalmente era parte da uma visão de mundo grega, na qual ocupava, contudo, uma posição pouco prestigiada, e isso  pela falta de confiança que o grego tinha em relação ao homem sem a devida formação para ser cidadão na cidade-Estado grega, isto é, na pólis (palavra que tem relação justamente com a palavra política).

Há ainda um ponto fundamental que é necessário ser registrado: se a desconfiança do grego, não qualquer grego, mas o denominado de helênico, isto é, o grego de origem nórdica, para com as pessoas de suas cidades cujas origens não remontavam aos primórdios de suas tradições era grande, ela era ainda maior com os gregos não-helênicos, ou de origem não nórdica. Não cabe aqui aprofundar sobre as origens dos povos gregos e de suas realizações, mas basta saber que tais origens possuíam importância fundamental no contexto e desenvolvimento da cultura e civilização grega.

O grego, isto é, o helênico, sabia que a qualidade do indivíduo era prioridade sobre a quantidade de indivíduos. Para tanto basta observar que o conceito de excelência, em idioma grego a contido na palavra arete, era central na tradição helênica[6]. Daí a censura dos grandes nomes gregos, isto é, helênicos, – Pitágoras, Sócrates, Platão e Aristóteles, para citar os de primeira grandeza – ao governo do povo, das massas.

Eis uma consideração fundamental: por massas devemos entender em sentido numérico a maioria das pessoas, e em sentido qualitativo devemos entender o que veremos nas reflexões do espanhol José Ortega & Gasset (1883-1955), um dos grandes nomes da filosofia do século XX, cujas colocações resultaram numa obra denominada A Rebelião das Massas (1927).

homem massa

Mas o que seria então esse homem massa que alude Ortega & Gasset? Eis outra consideração fundamental, desta vez na definição do próprio filósofo espanhol:

“Massa é todo aquele que não atribui a si mesmo um valor – bom ou mau – por razões especiais, mas que se sente ‘como todo mundo’ e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem por ser idêntico aos demais.” [7]

Além do claro significado da definição acima, existem significados profundos para o perfil psicológico das massas, que não cabem aqui adentrar, mas para quem o queira, possivelmente a mais adequada obra literária sobre isso seja a celebrada Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616).

Voltando ao século XX, a obra em questão de Ortega & Gasset é posterior à de Spengler, e curiosamente fornecendo de certa maneia respostas à indagação “Para quem há história?”.

Podemos distinguir dois tipos de perfil psicológico de pessoas quando Spengler coloca que algumas pessoas vivem

 a) “[…] sob a impressão contínua de que a própria vida é um elemento de um ciclo vital muito mais amplo, que se entende sobre séculos ou milênios […]”

Enquanto outras pessoas vivem

b) “[…] a vida como algo completo, redondo, bem delimitado.”

E ele conclui que:

“[…] É seguro que para esta última classe de consciência não há história universal, não existe o universo como história.”

Examinando, então, o perfil psicológico do primeiro tipo de pessoa, a a), se pode afirmar que esta é a que sabe que seu momento histórico é o resultado da soma de várias forças em tensão, as quais se desenvolvem e acumulam durante um período temporal que nem sempre pode ser determinado, mas inapelavelmente ultrapassa a geração dessa pessoa, bem como a imediata geração precedente, isto é, a dos pais desta pessoa. Ter consciência disso significa muito mais do que as pessoas hoje, a maioria, suspeita. Tal indivíduo que possui essa consciência pode até não ser necessariamente um grande protagonista da história, mas com o mínimo de compromisso com a linhagem ou tradição da qual pertença ele já é um protagonista em certa medida. Há aqui, na postura de tal indivíduo, um compromisso com a transmissão dum legado que conecta com o presente um modo de ser e costumes típicos de uma determinada tradição pretérita, e visando legá-la aos tempos futuros.

Por outro lado, a pessoa b), que vive “[…] a vida como algo completo, redondo, bem delimitado.”,  possui um perfil psicológico diferente, uma vez que no sentido em questão, o histórico, lhe é indiferente o vínculo com um legado que conecta com o presente um modo de ser e costumes típicos de uma determinada tradição pretérita, consequentemente não lhe importando legá-la aos tempos futuros. Tal perfil psicológico em termos de sociedade não possui memória, ignorando a história, e isso tem implicações muito mais profundas do que a esmagadora, quase absoluta, maioria suspeita.

Observa Gasset:

“[Wolfgang] Kohler e outros demonstraram como o chimpanzé e o orangotango não se diferenciam do homem por aquilo que, a rigor, chamamos de inteligência, mas porque têm muito menos memória do que nós. Os animais se defrontam a cada manhã com o fato de terem esquecido quase tudo o que viveram no dia anterior, e seu intelecto tem que trabalhar sobre um material mínimo de experiências. Da mesma forma, o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos atrás, porque cada tigre tem que começar de novo a ser tigre, como se antes nunca tivesse existido outro. O homem, ao contrário, devido a seu poder de lembrar, acumula seu próprio passado, toma posse dele e o aproveita. O homem nunca é um primeiro homem: desde o início já existe a partir de um certo nível de passado acumulado. Este é o tesouro único do homem, seu privilégio e sua marca. E, de todo esse tesouro, a maior riqueza não consiste no que parece certo e digno de ser conservado: o mais importante é a memória dos erros, que nos permite não cometê-los. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro de seus erros, a longa experiência decantada gota a gota durante milênios.”[8]

Completa Gasset:

“Romper a continuidade com o passado, querer começar de novo, é aspirar a descer e plagiar o orangotango.” [9]

homem massa tende a ignorar a História

Não concordo com Ortega & Gasset quando ele afirma que “[…] de todo esse tesouro, a maior riqueza não consiste no que parece certo e digno de ser conservado: o mais importante é a memória dos erros, que nos permite não cometê-los.” Entendo, por motivos que não cabem aqui aprofundar, que tanto a memória do “certo e digno” como a memória “dos erros” possuem suma importância. Com a consciência do “certo e digno” se tem o rumo da criação e da vida, e com a consciência “dos erros” se conhece os desvios que levam à dissolução e à morte. O essencial que aponto para a observação de Ortega & Gasset é que a pessoa que não tem memória histórica possui muito menos chances de ter discernimento tanto do “certo e digno” como “dos erros”, do que a pessoa que tem memória histórica.

O tipo de perfil psicológico sem memória histórica se enquadra no que Ortega & Gasset tornou célebre como o homem massa, cuja falta de memória era consequência, no contexto da época contemporânea, do que ele aponta abaixo:

“Nas escolas que foram motivo de orgulho para o século passado, não foi possível fazer mais do que ensinar às massas as técnicas da vida moderna, mas não se conseguiu educa-las. Foram dados a elas instrumentos para viverem intensamente, mas não a sensibilidade para os grandes deveres históricos; nelas se inocularam, atropeladamente, o orgulho e o poder dos meios modernos, mas não o espírito. Por isso não se interessam pelo espírito, e as novas gerações dispõem-se a tomar a direção do mundo como se o mundo fosse um paraíso sem pegadas antigas, sem problemas tradicionais e complexos.” [10]

Mas tais reservas em relação ao homem massa não podem ser consideradas apenas como um recorte das crises da Idade Contemporânea, haja visto, por exemplo, a já mencionada censura dos helênicos gregos à demagogia e à adulação das massas. O perfil do homem massa faz parte da Natureza, está incluído na espécie humana, e na realidade trata-se de um problema atemporal, presente em qualquer época, sendo gravado como algo generalizável. Isso Ortega & Gasset percebeu bem quando afirmou:

“E é indubitável que a divisão mais radical que deve ser feita na humanidade é dividi-la em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si mesmas e se acumulam de dificuldades e deveres, e as que não exigem de si nada de especial, para as quais viver é ser a cada instante o que já são, sem esforço para o aperfeiçoamento de si próprias, bóias que vão à deriva.” [11]

Novamente para além do claro significado da definição acima, existem significados profundos para o perfil psicológico das massas, que não cabem aqui adentrar, mas basta afirmar que toda sociedade, política e cultura tradicionais partem em sua fundamentação da consideração acima, e para quem queira se aprofundar na questão, indubitavelmente a referência primordial no Ocidente é Platão (428-348 a.C.), especialmente sua obra A República.

José Ortega y Gasset (1883 – 1955) foi ensaísta, jornalista e ativista político, fundador da Escola de Madrid. Ortega é considerado o maior filósofo espanhol do Século XX. Foi o principal expoente do perspectivismo e da teoria da razão vital e histórica, situada no movimento novecentista.

Retornando à Idade Contemporânea, as observações de Ortega & Gasset feitas quase um século atrás são muito mais válidas hoje, uma vez que as considerações que seguem abaixo – sobre o homem massa, ou sobre as pessoas que vivem “[…] a vida como algo completo, redondo, bem delimitado.”, conforme as palavras de Spengler, sem se inquietar sobre o desenvolvimento humano – são muito mais alarmantes atualmente do que há 100 anos.

“Que aspecto tem a vida desse homem multitudinário que com progressiva abundância o século XIX vai engendrando? Inicialmente, um aspecto de ilimitada facilidade material. O homem médio nunca pôde resolver com tanta folga seu problema econômico. Enquanto as grandes fortunas minguavam proporcionalmente e a existência dos operários das fábricas se tornava mais dura, o homem médio de qualquer classe social encontrava seu horizonte econômico cada vez mais amplo. A cada dia agregava um novo luxo ao conjunto de seu padrão de vida. Cada dia sua posição era mais segura e independente do arbitro alheio. O que antes teria sido considerado um benefício da sorte que inspirava humilde gratidão ao destino converteu-se num direito que não se agradece, mas se exige.” [12]   “[…] de fato, o homem vulgar, ao se encontrar com este mundo técnica e socialmente tão perfeito, pensa que foi criado pela Natureza, e nunca se lembra dos esforços geniais de indivíduos excepcionais que a sua criação pressupõe. Menos ainda admitirá a ideia de que todas essas facilidades continuam se apoiando em certas virtudes raras dos homens, cuja menor falta ocasionaria o imediato desaparecimento dessa magnífica construção.Isso nos leva a pontar no diagrama psicológico do homem-massa atual dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos vitais, portanto, de sua pessoa, e a radical ingratidão para com tudo que tornou possível a facilidade de sua existência. Essas duas características compõem a conhecida psicologia da criança mimada. E, de fato, que a utilizasse como quadrícula para ver através dela a alma das massas atuais não erraria. Herdeiro de um passado longo e genial – genial de inspirações e de esforços –, o novo vulgo foi mimado pelo mundo à sua volta. Mimar é não limitar os desejos, dar a um ser a impressão de que tudo lhe é permitido, que não é obrigado a nada. A criatura submetida a esse regime não tem noção de seus próprios limites. Por se evitar qualquer pressão à sua volta, qualquer choque com outros seres, chega a acreditar efetivamente que só ele existe, e se acostuma a não considerar os demais, principalmente a não considerar ninguém como superior a ele. Essa sensação de superioridade alheira só lhe poderia ser proporcionada por quem, mais que ele, o obrigasse a renunciar a algum desejo, a se restringir, a se conter. Assim teria aprendido essa lição essencial: ‘Ali eu paro e começa outro que pode mais que eu. No mundo, pelo visto, há dois: Eu e outro superior a mim.’ Ao homem médio de outras épocas essa sabedoria elementar era ensinada cotidianamente por seu mundo, porque era um mundo toscamente organizado, onde as catástrofes eram freqüentes e não havia nada seguro, abundante nem estável. Mas as novas massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e, além de tudo, segura, e tudo isso rápido, à sua disposição, sem depender de seu esforço prévio, como o sol se encontra no alto sem que tenha sido preciso que o levantássemos nos ombros. Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira, porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que ‘está aí’, do que dizemos ‘é natural’, porque não falha. Essas massas mimadas são bem pouco inteligentes para acreditar que essa organização material e social, posta à sua disposição como o ar, é da mesma origem que este, já que, pelo visto, também não falha, e é quase tão perfeita como a natural.Minha tese é, portanto, a seguinte: a própria perfeição com que o século XIX organizou certas esferas da vida é a origem do fato de que as massas beneficiárias não a considerem como organização, mas como natureza. Assim se explica e se define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não se preocupam com nada além de seu bem-estar e ao mesmo tempo não são solidárias com as causas desse bem-estar. Como não vêem nas vantagens da civilização uma invenção e uma construção prodigiosas, que só podem ser mantidas com grandes esforços e cuidados, acham que seu papel se resume em exigi-las peremptoriamente como se fossem direitos naturais. Nas agitações provocadas pela escassez as massas populares costumam procurar pão, e o meio que empregam costuma ser o de destruir as padarias. Isto pode servir como símbolo do comportamento que, em proporções mais vastas e sutis, têm as massas atuais para com a civilização que as alimenta.” [13]

Para quem há História?

Repitamos a indagação de Spengler:

Para quem há história?

Não é certamente para quem acha que ao “ao se encontrar com este mundo técnica e socialmente tão perfeito, pensa que foi criado pela Natureza, e nunca se lembra dos esforços geniais de indivíduos excepcionais que a sua criação pressupõe” e que também “não se preocupam com nada além de seu bem-estar e ao mesmo tempo não são solidárias com as causas desse bem-estar”, conforme observou Ortega & Gasset.

Não cabe aqui procurar o porquê dessa tendência, pois é uma questão ampla e profunda, todavia, muito clara para as civilizações tradicionais, mas ignorada pelas massas devido à própria psicologia inerente das massas, conforme exposto acima. O porquê das massas atuarem assim, para ser compreendido necessita um aprofundamento na psicologia e na antropologia clássica, com base em Platão (428-348 a.C.)  e Aristóteles (384-322 a.C.), na antropologia da Idade Contemporânea em Max Scheler (1874-1928), e na psicologia de massas de Gustave Le Bon (1841-1931), José Ingenieros (1877-1925) e, claro, do próprio José Ortega & Gasset (1883-1955).

Mas, algo faltou! Se a história não é para o tipo de pessoa de mente curta, delimitada por ela própria, segundo Spengler, o que vale dizer a maioria, as massas, segundo Ortega & Gasset, ela vale para o outro tipo de pessoa, a que Spengler delineou como a que está “[…] sob a impressão contínua de que a própria vida é um elemento de um ciclo vital muito mais amplo, que se entende sobre séculos ou milênios […]”, cujo perfil psicológico tende a se enquadrar na que Ortega & Gasset entende serem “as que exigem muito de si mesmas e se acumulam de dificuldades e deveres.”

A indagação de Spengler, que abriu essa exposição, procede, como mencionado, de sua obra Der Untergang des Abendlandes (A Decadência do Ocidente), escrita na véspera do momento decisivo do Ocidente, que entre tantos méritos que possui, está o de refutar a concepção de evolução humana progressista e linear, a qual ganhou forma consolidada nos postulados Iluministas e globalistas desde a Revolução Francesa no século XVIII. Spengler traz novamente a atenção para a importância das forças que criam e sustentam as civilizações bem como a corrupção de tais forças, o que leva ao declínio e dissolução das civilizações, não na dinâmica linear, mas sim cíclica. Em tal obra estão premissas e considerações, explícitas e implícitas, incluindo as de teor antropológico, psicológico, filosófico e histórico que realçam a dinâmica profunda do nascimento, desenvolvimento, plenitude, decadência e morte das civilizações. Não é algo totalmente inédito, apenas foi configurado por Spengler numa didática conforme a necessidade da época. Platão, por exemplo, traçou minuciosa e profundamente na sua obra A República tal dinâmica, mostrando a inter-relação entre a psicologia do indivíduo e a psicologia das massas configurando a mentalidade política do Estado refletindo a soma da mentalidade de seus habitantes.

A mentalidade Iluminista e globalista tem aversão a realidade histórica cíclica, pois isso implica admitir que as suas teorias evolutivas são falhas e que existe decadência, e se existe decadência, existem os melhores e os piores também. Para a mentalidade Iluminista e globalista a ameaça não são apenas as teorias evolutivas que apontam homens superiores e inferiores, mas também as concepções que mostram a decadência e insustentabilidade de um modo de ser, no caso o modo de ser iluminista e globalista, mas principalmente por mostrar que as civilizações tradicionais, como a egípcia e a greco-romana, por exemplo, possuíam mais acertos em suas concepções como um todo do que a civilização que a globalização pretende formar.

De qualquer maneira, as forças globalistas possuem como uma de suas principais estratégias fomentar a desinformação e a mentira, por isso atacam e deformam a história constantemente, mas mais ainda, omitem a história e tentam apagar a memória da humanidade, por isso vale reiterar o que Ortega & Gasset observou:

“O homem nunca é um primeiro homem: desde o início já existe a partir de um certo nível de passado acumulado. Este é o tesouro único do homem, seu privilégio e sua marca.”

O homem não-massificado, o que tem visão histórica, tanto o de Spengler como o de Ortega & Gasset, difere do homem massificado, das massas, por não se auto-enganar.

“Todo aquele que se colocar diante da existência numa atitude séria e plenamente responsável sentirá um certo tipo de insegurança que o leva a permanecer atento.” [14]

Na colocação acima de Ortega & Gasset estão premissas fundamentais aliadas da busca pela verdade, tanto filosófica como histórica. Seriedaderesponsabilidade e atenção diante da existência, e quem tem visão histórica sabe que a própria existência não é algo espontâneo surgido do mero acaso, mas sim da sucessão de esforços de geração após geração, uma consciência que o homem massa faz questão de não possuir, por isso a história não pertence ao homem massa. A este lhe é reservado ser orangotango.

Se tal conclusão é incômoda, e uma inquietação para compreender as causas de tal realidade surge, ao ocidental é recomendado buscar as explicações na tradição clássica, primariamente em Platão, que deu toda coesão e profundidade ao patrimônio tradicional de então, e particularmente o expôs em sua obra A República, onde a relação entre psicologia individual e psicologia social é delineada detida e didaticamente.

Fonte: World Traditional Front

Publicado originalmente em 17 novembro de 2019 e revisado em 22 de maio de 2020 pelo autor

Notas

[1] Nota do autor: Oswald Spengler, La Decadencia de Ocidente, Editorial Mundo Nuevo, Santiago, 1938, 2ª edição. Traduzido do alemão por Manuel Garcia Morente. Tomo I/IV, introdução, epígrafe 4, páginas 26-27.

[2] Nota do autor: Joselita Júnia Viegas Vidotti – Rívia Dornelas, O ensino de línguas estrangeiras no Brasil – período de 1808 – 1930, HELB – História do Ensino de Línguas no Brasil, ano 1 – nº1 – 2007.

http://www.helb.org.br/index.php/revista-helb/ano-1-no-1-12007/94-o-ensino-de-linguas-estrangeiras-no-brasil-periodo-de-1808-1930

[3] Nota do autor: Leni Ribeiro Leite – Marihá Barbosa e Castro, O ensino da língua latina no Brasil: percursos e perspectivas, Universidade Federal do Espírito Santo, Clássica – revista brasileira de estudos clássicos, volume 27, nº 2 (2014).

https://revista.classica.org.br/classica/article/view/226

[4] Nota do autor: O grande historiador norte-americano Revilo P. Oliver num artigo simples e direto aborda essa tendência.

Revilo P. Oliver, Sobre conservadorismo e liberalismo, World Traditional Front, 10 de maio de 2020. Traduzido por Mykel Alexander.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2020/05/sobre-conservadorismo-e-liberalismo-por.html

Este artigo é da antologia America’s Decline: The Education of a Conservative (1982), páginas 1-4, 79-83. Ele apareceu no The Journal of Historical Review, setembro-outubro de 1994 (Vol. 14, nº 5), páginas 21-23.

http://ihr.org/other/ConservatismLiberalismOliver

[5] Nota do autor: Revilo P. Oliver, Sobre conservadorismo e liberalismo, World Traditional Front, 10 de maio de 2020. Traduzido por Mykel Alexander.

https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2020/05/sobre-conservadorismo-e-liberalismo-por.html

Este artigo é da antologia America’s Decline: The Education of a Conservative (1982), páginas 1-4, 79-83. Ele apareceu no The Journal of Historical Review, setembro-outubro de 1994 (Vol. 14, nº 5), páginas 21-23.

http://ihr.org/other/ConservatismLiberalismOliver

[6] Nota do autor: Werner Jaeger, Paidéia – A Formação do Homem Grego, Ed. Martins Fontes, 5ª Edição, São Paulo, 2010. Originalmente escrito em alemão, em três partes 1933-1944-1947, tradução de Artur M. Parreira. Ver particularmente os capítulos: introdução; lugar dos Gregos na história da educação; Nobreza e arete; Cultura e educação na nobreza homérica; Homero como educador.

[7] Nota do autor: José Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007, 3ª edição. Traduzido do original em espanhol por Marylene Pinto Michael. Página 45.

[8] Nota do autor: José Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007, 3ª edição. Traduzido do original em espanhol por Marylene Pinto Michael. Páginas 33-34.

[9] Nota do autor: José Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007, 3ª edição. Traduzido do original em espanhol por Marylene Pinto Michael. Página 34.

[10] Nota do autor: José Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007, 3ª edição. Traduzido do original em espanhol por Marylene Pinto Michael. Página 81.

[11] Nota do autor: José Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007, 3ª edição. Traduzido do original em espanhol por Marylene Pinto Michael. Página 45.

[12] Nota do autor: José Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007, 3ª edição. Traduzido do original em espanhol por Marylene Pinto Michael. Página 86.

[13] Nota do autor: José Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007, 3ª edição. Traduzido do original em espanhol por Marylene Pinto Michael. Páginas 89-91.

[14] Nota do autor: José Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007, 3ª edição. Traduzido do original em espanhol por Marylene Pinto Michael. Página 74.

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