Alina Utrata: “Um Grego e Um Persa – A Influência de Platão Sobre Aiatolá Khomeini”

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Em 1970, um grupo de estudantes do seminário publicou uma série de palestras sobre a teoria islâmica de governo intitulada Velayat e faqih ou “A Guarda do Jurista Islâmico”. O autor destas palestras foi o aiatolá Ruhollah Khomeini – o clérigo que, somente dez anos depois, iria estabelecer a República Islâmica do Irã. Em Velayat e faqih, Khomeini argumentou que enquanto esperava pelo retorno do Madhi – o 12º sucessor do profeta – um líder religioso que deveria ser nomeado o custodiante do Estado, “como a nomeação de um guardião para um menor.” O Estado perfeito, pregou Khomeini, deveria ser mandado por um jurista islâmico.

O sonho de Khomeini foi realizado no Irã após protestos populares derrubarem o regime secular do Xá em 1979, permitindo Khomeini consolidar poder e estabelecer a República Islâmica. Mas o que é surpreendente sobre Khomeini é que, para um revolucionário que veio ao poder montando nos caminhos da retórica antiocidental, sua descrição do estado perfeito é quase idêntica da República de Platão.

Foi observado por alguns estudiosos que existe uma semelhança de ideias entre Khomeini e Platão. Na Teologia do Descontente, Hamid Dabashi mencionou que a concepção de governança de Khomeini foi essencialmente regida pelo “rei filósofo” platônico. Beatrice Zelder destacou que “a resposta para o contexto filosófico do Estado Islâmico [de Khomeini]… é Platão adaptado ao islam.”

Estas observações estão exatamente certas. Platão e Khomeini ambos advogam por um estado regido por guardiões baseados na crença que humanos irão sucumbir ao materialismo e corrupção sem a adequada orientação. Khomeini, contudo, justifica e altera alguns aspectos da República de Platão com as tradições islâmicas em uma tentativa de reconciliar os dois.

Aiatolá Khomeini 1902 – 1989 (Créditos: UTC)

Khomeini tinha certamente lido Platão. A Time Magazine tinha publicado um artigo sobre Khomeini em 1979 alegando que, em sua juventude, Khomeini era “fascinado com Aristóteles e Platão, cuja República forneceu o modelo para o conceito de república islâmica de Khomeini.” De acordo com Vanessa Martin, os ex-alunos de Khomeini Javad Bahonar e Madhi Há’iri Yazdi tinha revelado a influência de Platão sobre os pensamentos de Khomeini em um entrevista com a repórter da Time. Khomeini referenciou um dos livros de Platão, “Timeu”, em seu próprio livro Kashf al-asrar ou “O Desvelar dos Segredos”. Embora Khomeini nunca confirmou a exata natureza de como ele foi influenciado por Platão, é claro que ele tinha lido o filósofo grego em alguma profundidade.

As contundentemente similares repúblicas perfeitas que Khomeini e Platão descreveram são baseadas em muitas suposições compartilhadas sobre a natureza humana e o papel do Estado. Os dois homens afirmaram que sem a guia de um adequado governo, o povo torna-se corrupto. Platão dedicou um inteiro livro na República para lamentar a sociedade sem governo adequado, chamando ela de um medonho estado onde o “homem tirânico… torna-se embriagado, lascivo, apaixonado.” Similarmente, Khomeini argumentou que sem a apropriada autoridade “todos iriam engajar em oprimir e prejudicar os outros para o prol de seus próprios prazeres e interesses.”

Para combater a inerente corrupção humana, os dois acreditaram que o ocupante central de um Estado perfeito deve ser a justiça. Platão afirmou em seus ensinamentos que “o assunto de nossa investigação é [a justiça]”; na mesma linha, Khomeini frequentemente lembrou aos seus líderes que o profeta Maomé “tinha em mente que iria empreender o estabelecimento da justiça.” Platão e Khomeini concordaram: “cidades nunca irão ter descanso de seus males [da corrupção]” até o estado for baseado na justiça e governado por um guardião.

Platão (em grego antigo: Πλάτων, Atenas, 428/427 – Atenas, 348/347 a.C.)filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental.

Este perfeito guardião, de acordo com Platão, deve ser um filósofo. Um filósofo, ele disse, é um “verdadeiro amante do aprendizado” e, portanto, iria “traçar o delineamento de uma constituição” limitada por nada senão a verdade. O governante iria determinar leis e justiça, motivado pelo que iria ser melhor para a cidade.

Enquanto o guardião de Khomeini assemelha-se a Platão na maioria de suas características, Khomeini alterou levemente as ideias de Platão para comportar o Islã; Khomeini substituiu “filósofo” por “jurista islâmico.” Ele argumentou que “o Mais Nobre Mensageiro é o exemplo de proeminente do justo governante” e é natural que seus sucessores sejam os governantes. Em vez de derivar legitimidade da verdade, o guardião iria estar sujeito a lei corânica. Khomeini disse que “o governo islâmico é […] constitucional […] no sentido que os governantes são sujeitos à […] condições estabelecidas no Nobre Alcorão e na Sunnah do Mais Nobre Mensageiro.”

Ambos Platão e Khomeini estipularam que os guardiões devem possuir conhecimento e a habilidade para dispensar justiça. Platão afirmou que o guardião necessitaria possuir “o amor de aprender… e espírito, rapidez e força.” Khomeini também nomeou umas poucas qualidades necessárias de um guardião, citando “conhecimento da lei e justiça” como os mais críticos. Khomeini, contudo, revestiu esta qualificação com a retórica do islã. Ele argumentou que “esses são precisamente os assuntos que o faqih tem estudado,” então, portanto, era natural que um jurista islâmico iria ser o melhor guardião para o Estado.

Platão e Khomeini cada um ditou condições estritas para como os guardiões devem conduzir eles próprios. Platão afirmou: “nossos guardiões [não devem] não devem ser dado ao riso” e “a embriaguez, a suavidade e indolência são completamente impróprias para o caráter de nossos guardiões.” Khomeini reiterou muito do mesmo, dizendo que “os fuqaha são os curadores dos profetas, tanto quanto eles não se preocupem eles próprios com os desejos ilícitos, prazeres, e riquezas do mundo.” Guardiões, eles disseram, não devem ser “criaturas materialistas tentando acumular riquezas mundanas.”

É o papel destes guardiões não corruptos, Platão e Khomeini acreditavam, interferir na vida de seus súditos a fim de protege-los da corrupção. Platão gastou uma extensa quantidade de tempo discutindo vários aspectos do Estado perfeito, incluindo o “tipo de comunidade de mulheres e crianças” e como “administrar o período entre nascimento e educação.” Para Platão, a maioria deste controle é para o propósito de manter a pureza da classe guardiã. Platão postulou que pessoas são feitas de diferentes metais “de ouro e prata e bronze e ferro,” e que a classe dos guardiões é feita de ouro. Portanto, ele estipulou cerimônias de procriação, esposas e crianças comunais e vários outros controles sociais.

Khomeini, por outro lado, justificou a habilidade de seus guardiões de interferir na vida de seus cidadãos com o islã. Ele disse que o Alcorão é abrangente em suas decisões sobre o comportamento adequado na vida, dos “deveres… enquanto a criança está sendo amamentada… e como a criança deve ser criada, e como marido e esposa devem se relacionar um com outro e com seus filhos.” Desde que o Alcorão tinha regras sobre todos aspectos da vida, o guardião estava, portanto, justificado, a interferir em todos aspectos da vida. Khomeini defendeu os mesmos direitos sobre a interferência como fez Platão, mas apenas o fez com as tradições islâmicas.

Aiatolá Khomeini

Proteger os cidadãos das influências corruptoras estava sempre na prioridade das mentes de Platão e Khomeini. Eles ambos acreditavam que eles poderiam enganar o público para o bem de proteger o público. Para este fim, Platão acreditou que os guardiões do Estado deveriam “ter o privilégio de mentir… para o bem do público.” Guardiões conheciam melhor que os homens comuns, e, portanto, são mais aptos a discernir o que eles devem e não devem saber. De fato, Platão afirmou que “a primeira coisa [a fazer em nosso Estado] irá ser estabelecer a censura para os escritores de ficção.” Platão estava preocupado sobre o efeito que a prevalência de ideias erradas iriam ter na juventude e na concepção de mundo delas. Portanto, eles devem “colocar um fim em tais histórias, para que não entre o laxismo da moral entre os jovens.”

Khomeini certamente tomou o conselho de Platão sobre a censura dos livros. Existe um extensivo mecanismo para censura de publicação no Irã. Khomeini estava claramente preocupado, como Platão estava, sobre a corrupção da sociedade se as massas lessem certos livros. Ele novamente usou o Islã como justificativa para o ponto de Platão sobre a necessidade de censura: a Constituição da República Islâmica do Irã reconhece liberdade de expressão “exceto quando ela está em detrimento dos princípios fundamentais do Islã ou os direitos do público.” Enquanto Platão diz que livros aos quais engendram moral negligente deveriam ser banidos, Khomeini disse que livros contra os princípios do Islã deveriam ser banidos.

Contudo, os dois homens não acreditavam que essas leis fossem mal-intencionadas. Ambos Khomeini e Platão acreditavam que era importante os guardiões amarem a cidade. “Um homem,” disse Platão, “provavelmente se importará com aquilo que ele ama.” Portanto, Platão postulou, um guardião irá ser um melhor guardião se ele ama sua cidade. Khomeini, também, afirmou as duas mais importantes qualidades num crente é que eles são “capazes de executar justiça” e “devem mostrar o máximo amor e solicitude sempre que eles forem chamados.” Ambos reconheceram a necessidade de seguir a linha entre executar justiça e compaixão.

Retratado de Platão e Academos na Scuola di Atene (1509–1511), óleo sobre tela de Rafael Sanzio.

De novo e de novo em toda Velayat e Faqih, Khomeini adotou as ideias fundamentais de Platão e ajustou-as de acordo com seus próprios propósitos. Embora Khomeini possa ter usado o Islã e tradições islâmicas para justificar um Estado Islâmico, o Estado de Khomeini se parece apenas como a República de Platão.

De fato, a única maneira considerável que Khomeini desviou de Platão foi sua crença no universalismo de um Estado Islâmico. Khomeini acreditou que “o movimento universal de todos os muçulmanos alertas poderia estabelecer um governo islâmico no lugar de regimes tirânicos.” Esse tipo de Estado é universal: não confinado a apenas um país. Platão, por outro lado, acreditou que “um é suficiente” Se existe “um homem que tem uma cidade obediente a sua vontade,” Platão pensou que sozinho será o estado perfeito. Este é a única maneira mais importante que Platão e Khomeini divergem: o alcance do Estado perfeito.

É claro a partir de uma comparação dos dois textos que Platão influenciou a concepção de Khomeini de uma perfeito Estado. Ambos acreditavam que seres humanos são facilmente corruptíveis e que é necessário estabelecer o governo pelos guardiões para manter os humanos no caminho certo. Eles ambos enfatizaram a justiça e o bem da comunidade inteira como base do governo. Os guardiões deles são instruídos e sábios, abnegados e compassivos, e imunes à corrupção dos prazeres materiais. Estes guardiões têm o direito de interferir em todos aspectos da vida dos súditos deles, a fim de protegê-los das influências corruptoras.

Com a distinta exceção do universalismo, quase todos aspectos do estado perfeito retratado por Khomeini e Platão existem em paralelo. Parece que Khomeini tomou as ideias de Platão e justificou ou alterou elas com tradições islâmicas – um jurista islâmico, ao invés de um filósofo; escolas religiosas, ao invés de educação científica.

O que nós devemos extrair desse vislumbre é que o Irã não foi tomado por “mulás loucos” nos anos 80. Enquanto a República Islâmica do Irã alega rejeitar o Ocidente, seu fundador e sua fundação foram influenciadas por um dos mais renomados pensadores políticos ocidentais – Platão. Embora seja impossível saber exatamente como o filósofo pode ter impactado Khomeini, os gregos têm certamente tido uma mão em formar o Estado que os persas estão vivendo hoje.

Tradução por Mykel Alexander

Fonte traduzida para o português: World Traditional Front

Fonte original em inglês (PDF): Academia.edu

Sobre a autora:

Alina Petra Utrata é Bacharel em História e Direito, com especialização em Direitos Humanos na Stanford University. Trabalhou na Asian International Justice Initiative em Phnom Penh, no Balkan Institute for Conflict Resolution, Responsibility and Reconciliation em Sarajevo, no State Department’s International Narcotics and Law Enforcement Bureau em Washington D.C., e no WSD Handa Center for Human Rights and International Justice em Stanford.

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