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É preciso ter consciência de que muitas ideias surgidas há alguns anos e fermentadas na internet, e os grupos formados em torno dessas ideias, são sintoma de nossa época, e expressão natural — às vezes até mesmo autêntica — da condição em que vivemos. Vou dar alguns exemplos.

Todo mundo sabe como é problemático o meio Mgtow, como ele parece agregar mentes perturbadas. Mas ele é uma resposta — embora confusa e retorcida pelas típicas desorientações modernas — a problemas reais: transformações no âmbito das relações entre os sexos; e a instauração, de uns dois séculos para cá, de uma moral pseudo-masculina que ensina que a função de “provedor” é praticamente a única que define o Masculino; o homem se vê preso pelo laço dessa obrigatoriedade na qual não vê mais sentido algum — e não deveria ver mesmo, pois de fato não há mais sentido algum! não há, além de um tosco “porque sim”. Tudo se agrava se considerarmos que o homem está sendo formado para depender cada vez mais da mulher, seja como mãe, seja como amante. Não se pode separar Modernidade de Ginecocracia. O súdito é súdito porque depende de seu senhor. Com a instauração do sexo como a mais forte moeda da economia simbólica que rege as relações sociais, a mulher, portadora dessa moeda, sempre será favorecida, e os homens terão que se humilhar para conseguir algumas esmolas. A escolha de muitos jovens hoje é: “aguentar minha namorada/esposa rebolando seminua no tiktok (ou seja, pondo em circulação seu ‘capital’ simbólico), ou ficar sem ela, ou seja, sem sexo”. É uma situação justa? A prática do “amor livre” e a cultura “cuckold” são adaptações dos sujeitos a este dilema: “Eu a libero, mas extrairei prazer disto”. Uma troca “econômica” — uma economia das trocas eróticas — em que a mulher é que sempre determina o preço, e na qual o homem sempre paga mais do que pensa estar pagando. O que os Mgtow estão buscando é, no fundo, espaço para fugir dessas humilhações, que em muitos jovens são dolorosas e podem levar, sim, à ruína. Não há que falsear esta realidade: a um homem, hoje, é mais fácil preservar a estabilidade mental e emocional estando desatrelado da mulher do que estando atrelado a ela. A modernidade patologiza o homem que simplesmente quer seguir seu próprio caminho. Enfim, quem tem visão clínica deve identificar o problema a que este movimento tenta responder — e tentar conduzir estes jovens a uma compreensão mais profunda da realidade -, em vez de optar pela atitude ignorante de simples ridicularização.

Outro exemplo. Os “libertários”. Estes surgem de um estranhamento dos sujeitos com relação ao Estado. Mas quem dirá que este estranhamento não tem suas razões? Este Estado Moderno não é o Estado autêntico! Ora, a Modernidade é um processo de “alienações” (no sentido de “alheamento”, “retirar algo da posse de”, “tornar algo estranho a”), das quais cito três: alienação do trabalho (trabalho retirado das mãos do trabalhador); alienação da terra (terra observada a partir de fora, a morada humana observada como “planeta”); e alienação do Estado (separação de povo e Estado, que se torna um mecanismo extrínseco ao organismo do povo). Querer que os homens atuais tenham uma relação orgânica com este Estado estranhado, que o aceitem como algo “natural”, é desconhecer a natureza de ambos, o homem atual e o Estado atual. Este estranhamento com relação ao Estado nem é exatamente moderno, muitos povos no passado o viveram, quando, por exemplo, viram-se debaixo de uma dinastia considerada “ilegítima”. O discurso anti-Estado (não todo, por favor, mas em um número considerável de vezes) é uma atualização moderna do tradicional questionamento da legitimidade das dinastias. (Pois a fundação do Estado se confunde, no Mundo Tradicional, à fundação das dinastias, um não é separado do outro.) Defender o Estado sem distinguir de que Estado se trata é um erro crasso. Isto se volta contra os próprios tradicionalistas revolucionários: a todo momento movimentos nacionalistas são proibidos e perseguidos pela máquina estatal. Ora, se eu combato o Estado de Israel, que trata como estrangeiros os nativos daquela terra, por que defenderia este Estado que trata como estrangeira sua própria população? Aqui novamente: deve-se identificar o problema a que este movimento/ideia surgiu como resposta, e não ficar de truculência e ridicularização.

Se você não enxerga isto, se você não enxerga que estes grupos giram em torno de problemas reais, são respostas, mesmo que confusas, a problemas reais… então você não tem nada a oferecer à resolução destes problemas reais.


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches


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By Carlos Alberto Sanches

Sociólogo de formação; Pesquisador de Antropologia, Metapolítica, Metafísica Tradicional e Tradição Perene

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