Terrorismo com “face humana”: A história dos esquadrões da morte dos EUA

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O recrutamento de esquadrões da morte, faz parte de uma agenda de inteligência militar bem estabelecida nos Estados Unidos. Há uma longa e atroz história de financiamento e apoio, dissimulado, às brigadas de terror e aos assassinatos seletivos, que vêm do tempo da guerra do Vietnã.

Enquanto forças governamentais sírias, ainda hoje estão confrontando o autoproclamado “Exército Livre da Síria” –FSA, as raízes históricas da guerra encoberta do Ocidente contra a Síria – guerra essa que já resultou em inúmeras atrocidades – devem ser totalmente reveladas.

Desde o começo, em março de 2011, os Estados Unidos e seus aliados tem apoiado a formação de esquadrões da morte, assim como a invasão do território da Síria por brigadas terroristas em uma iniciativa cuidadosamente planificada.

O recrutamento e o treino de brigadas terroristas tanto no Iraque quanto na Síria, foram modelados na denominada “Opção Salvador”, um “modelo terrorista” para assassinatos em massa efetuados por esquadrões da morte patrocinados pelos EUA na América Central. Foi aplicado pela primeira vez em El Salvador, no apogeu da resistência contra a ditadura militar, que levou ao que se estima 75.000 mortes.

A formação de esquadrões da morte na Síria se baseia na história e experiência de brigadas terroristas patrocinadas pelos EUA no Iraque, sob o programa de “contrainsurgência” do Pentágono.

O estabelecimento dos Esquadrões da Morte no Iraque

Os esquadrões da morte patrocinados pelos Estados Unidos foram recrutados no Iraque em 2004-2005 numa iniciativa lançada sob a direção do embaixador americano John Negroponte, que foi mandado para Bagdá pelo Departamento de Estado Americano, em junho de 2004.

Negroponte era o homem certo para o trabalho, uma vez que tinha sido embaixador para Honduras de 1981 a 1985. Negroponte fez um papel central em apoiar e supervisionar os Contras de Nicarágua, que estavam baseados em Honduras. Ao mesmo tempo ele também supervisionava as atividades dos esquadrões da morte militares de Honduras.

John Dimitri Negroponte (Londres, 1939) é um diplomata norte-americano de origem grega que tornou-se diplomata depois de terminar os estudos na Universidade de Yale, na década de 1960, sendo membro da sociedade Skull & Bones. Ingressando na CIA foi enviado para o Vietnã no cargo do Programa Phoenix. Lá foi conselheiro político em 1964, 1971 a 1973, oficial do Conselho de Segurança Nacional (CSN) para a secção do Vietnã, participando nas negociações dos acordos de Paris em 1973 junto do membro do Clube Bilderberg, Henry A. Kissinger. De então, foi embaixador em Honduras, onde adotou 5 crianças entre 1970-1980 durante a guerra civil da Nicarágua. Entre 1970-80 era objeto de controvérsia, devido às suas atividades na América Latina, principalmente pelas atividades na Nicarágua, dirigindo as operações dos “Contras” a partir da embaixada em  Honduras, armando, equipando e treinando-os com a ajuda de Otto Reich, do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Atribui-se a ele um obscuro papel no Chile, junto de Kissinger na organização da Operação Condor. No final da década de 1980 tornou-se o embaixador dos Estados Unidos no México. Foto: Great Decisions TV.

“No governo do general Gustavo Alvarez Martinez, o governo militar de Honduras era um aliado íntimo da administração de Reagan e ‘fazia desaparecer’ dezenas de opositores políticos mediante métodos clássicos dos esquadrões da morte.”

Em janeiro de 2005, o Pentágono confirmou que estava considerando:

“‘Formar esquadrões de assassinos de combatentes xiitas e curdos para atacar líderes da resistência iraquiana em uma mudança estratégica vinda da experiência da luta contra as guerrilhas de esquerda da América Central, há 20 anos atrás’.

Sob a denominada ‘Opção El Salvador’ forças iraquianas e americanas deveriam ser mandadas matar ou sequestrar líderes da insurreição, mesmo na Síria, onde alguns dos insurgentes teriam tido então abrigo.

Esquadrões de ataque sendo controversos, deveriam provavelmente ter de ser mantidos secretos.

A experiência dos ‘esquadrões da morte’ na América Central continua a ser uma experiência brutal para muitos, e ainda continuam contribuindo para sujar a imagem dos Estados Unidos na região.

Tem se ainda que a administração de Reagan deu fundos e treinou times de forças nacionalistas para neutralizar os líderes rebeldes salvadorenhos, assim também como os que com eles simpatizavam.

John Negroponte, o embaixador americano em Bagdá, tinha um lugar privilegiado de observação dado o seu tempo como embaixador em Honduras de 1981-85.

Esquadrões da morte era uma parte brutal da política latino-americana de então…

No começo dos anos oitenta a administração de Reagan deu fundos e treino aos Contras de Nicarágua baseados em Honduras, com o objetivo de derrubar o regime sandinista de Nicarágua. Os Contras foram equipados com o dinheiro obtido pela venda americana, ilegal, de armas ao Irã. Esse foi um escândalo que poderia ter derrubado Reagan do poder.

O impulso da proposta do Pentágono no Iraque… era o de seguir esse modelo…

Não ficou claro se o objetivo principal da missão seria o de matar os rebeldes ou sequestrá-los para levá-los a interrogatórios, no Iraque. Qualquer missão na Síria seria provavelmente feita pelas Forças Especiais dos Estados Unidos.

Também não ficou claro quem iria ter a responsabilidade pelo programa, se o Pentágono ou a Agência Central de Inteligência, ou seja, a CIA. Essas operações feitas abaixo de panos – encobertas, tem tradicionalmente sido feitas pela CIA, a um braço de distância da administração em poder, dando aos oficiais americanos a possibilidade de negar conhecimento da situação”. (El Salvador-style “death squads” to be deployed by US against Iraq militants – Times Online, 10 de janeiro de 2005)

Enquanto o objetivo especificado da “Opção Salvadorenha para o Iraque” seria a de acabar com a resistência, na prática as brigadas terroristas patrocinadas pelos Estados Unidos se envolveram em matanças rotineiras de civis, tendo em visto o atiçar uma violência sectária.

Por seu turno, a CIA assim como a MI6 estavam superintendendo unidades da “Al-Qaeda no Iraque” envolvidas em assassinados de alvos demarcados e dirigidos contra a população de xiitas. É importante de se ressaltar que os esquadrões da morte foram integrados assim como aconselhados, encoberta e dissimuladamente, pelas Forças Especiais dos Estados Unidos.

Robert Stephen Ford – ..Depois apontado como embaixador dos Estados Unidos na Síria, fazia parte do time de Negroponte em Bagdá, durante o período de 2004-2005. Em janeiro 2004 ele foi mandado como representante americano para a cidade xiita de Najaf, que era um foco forte do exército “Mahdi, com o qual ele fez contatos preliminares”.

Em janeiro de 2005, Robert S. Ford foi apontado como Ministro Conselheiro para Assuntos Políticos – Minister Counsellor for Political Affairs- na Embaixada dos Estados Unidos, abaixo da direção do embaixador John Negopronte. Ele não somente fazia parte do círculo mais próximo e fechado de Negroponte. Ele era também o associado dele no estabelecimento da “Opção Salvadorenha” no Iraque. O terreno já tinha então sido preparado em Najaf, antes da transferência de Ford a Bagdá.

Robert Stephen Ford (Denver, 1958) é um diplomata americano aposentado que serviu como embaixador dos Estados Unidos na Argélia de 2006 a 2008 e embaixador dos Estados Unidos na Síria de 2010 a 2014. Bacharelado em estudos internacionais e mestrado em economia do Oriente Médio pela Universidade Johns Hopkins, fez estudos árabes avançados na Universidade Americana no Cairo.  Ford fala alemão, turco, francês e árabe. Carreirista do Serviço de Relações Exteriores dos Estados Unidos até 1985 no Oriente Médio, serviu como embaixador na Argélia antes da Síria, onde em Hama, foi aplaudido pelos opositores de Assad e recebido com ovos e tomates quando se encontrou com Hassan Abdul-Azim. Numa entrevista com a rede de televisão estatal russa Russia Today, o ex-oficial de inteligência da CIA Michael Scheuer alegou que antes da remoção de Ford da embaixada ele estava viajando pelo país para incentivar grupos a derrubar o governo.

John Negroponte e Robert Stephen Ford foram encarregados de recrutar os esquadrões da morte iraquianos. Enquanto Negroponte coordenava as operações a partir de seu gabinete na Embaixada dos Estados Unidos, Robert S. Ford que falava fluentemente tanto árabe como a língua turca, teve a incumbência de estabelecer contatos estratégicos com os grupos militantes Xiitas e Curdos, fora da Zona Verde (‘Green Zone’).

Dois outros oficiais da embaixada, nomeadamente Henry Ensher – auxiliar ou deputado de Ford, assim como um oficial mais jovem da seção política, Jeffrey Beals, tiveram um papel importante no time que então “falava com alguns segmentos iraquianos, incluindo extremistas”. (Veja The New Yorker, 26 de março de 2007). Uma outra pessoa-chave no time de Negroponte era James Franklin Jeffrey, embaixador dos Estados Unidos, na Albânia 2002-2004. Jeffrey veio a tornar-se embaixador dos Estados Unidos para o Iraque, entre 2010-2012.

[Da esquerda para direita] Henry S. Ensher (1959) oficial americano de serviços estrangeiros de carreira que atuou como embaixador extraordinário e plenipotenciário na Argélia (2011 – 2014). Como subsecretário adjunto da Ásia Central e Afeganistão no Departamento de Estado dos EUA, Ensher supervisionou a política dos EUA em relação às relações diplomáticas e com os cinco estados da Ásia Central e o Afeganistão. Foto: Jason Ogulnik/Las Vegas Review-Journal, 5 de abril de 2016; Depois de trabalhar como oficial de inteligência da CIA, Beals ingressou no Departamento de Estado dos EUA e serviu como diplomata no Iraque. Após seu mandato no exterior, Beals tornou-se professor no Hudson Valley. Foto: JeffBeals for Congress.; James Franklin Jeffrey (1946) é diplomata americano sênior especialista em questões políticas, de segurança e energia no Oriente Médio, Turquia , Alemanha e Bálcãs. Atualmente atua como Representante Especial dos Estados Unidos para o envolvimento da Síria e como “Enviado Especial da Coalizão Global para Derrotar o Estado Islâmico”.
Negroponte também trouxe para dentro do time um de seus antigos colaboradores, o Coronel James Steele, retirado dos seus dias de apogeu em Honduras.

Durante a “Opção El Salvador” no Iraque, Negroponte foi assistido por um colega dos anos oitenta, ou seja, dos seus dias na América Central. Esse colega de Negroponte no Iraque era então o aposentado Coronel James Steele.

Steele, que recebeu em Bagdá o título de Conselheiro das Forças de Segurança Iraquianas – Counselor for Iraqi Security Forces – supervisionou a seleção e o treino dos membros da Organização Badr e do Exército Mahdi, as duas maiores milícias xiitas no Iraque. Isso com a intenção de fazer de alvo a direção e a rede de apoio da resistência, primordialmente sunita do Iraque. Tenha sido planejado, ou não, esses esquadrões da morte logo ficaram fora de controle e se tornariam na causa de morte número 1 no Iraque.

Se foi a intenção original ou não, o número de corpos torturados e mutilados surgindo nas ruas de Bagdá todos os dias foram obras dos esquadrões da morte, que por sua vez eram impulsionados por John Negroponte. E, foi a violência sectária apoiada pelos Estados Unidos que levou em muito grande parte ao infernal desastre que é o Iraque de hoje. (Dahr Jamail, Managing Escalation: Negroponte and Bush´s New Iraq Team. Antiwar.com, 7 de janeiro de 2007)

De acordo com o Republicano Dennis Kucinich o coronel Steele era o responsável, pela implementação do plano em El Salvador, onde dezenas de milhares salvadorenhos “desapareceram” ou foram assassinados, inclusive então também o Arcebispo Oscar Romero, assim também como quatro freiras americanas.

Veterano americano das “guerras sujas” na América Central, o coronel James Steele treinou comandos de contra-insurgência que cometeram abusos extremos dos direitos humanos. Steele também é um veterano da guerra do Vietnã, Guerra Civil de El Salvador, Irã e ocupação do Iraque. Imagem: The Guardian

Logo do seu apontamento para Bagdá, o Coronel Steele foi encaminhado para a unidade de contrainsurreição, unidade essa conhecida como o Comando Policial Especial, abaixo do Ministério do Interior do Iraque. (Veja ACN, Havana, 14 de junho 2006).

Relatórios confirmam que “os militares americanos entregaram muitos prisioneiros para a Wolf Brigade  [Brigada dos Lobos]– o temido 2º batalhão dos comandos especiais do ministério do interior” , que então estavam abaixo do comando do Coronel Steele. Os prisioneiros foram entregados para “interrogatórios adicionais”. Peter Mass do The New York Times confirma que:

“Soldados e conselheiros dos EUA, estavam em posição observando, sem fazer nada, enquanto membros da Wolf Brigade batiam, assim como torturavam os prisioneiros. Os comandos do Ministério do Interior do Iraque teriam então também tomado a biblioteca pública de Samara para a transformar num centro de detenção.

Uma entrevista conduzida por Mass em 2005 nesse local transformado em prisão e em companhia do conselheiro militar americano da Wolf Brigade, o coronel James Steele, foi interrompida pelos gritos aterrorizados de um prisioneiro fora do local, disse ele. Steele como consta do protocolo foi empregado anteriormente como conselheiro para ajudar a esmagar a resistência em El Salvador.” (Idem)

Um outro elemento notório que teve um papel no programa da contrainsurreição no Iraque foi o ex-Comissionário da Polícia de Nova Iorque, Bernie Kerik que em 2007 foi indicado em corte federal por 16 acusações judiciais.

Kerik foi o enviado pela administração de Bush, no começo da ocupação do Iraque, para organizar e treinar a força policial do Iraque. Durante o seu curto tempo em 2003, Kerik –que preencheu o posto de ínterim Ministro do Interior – trabalhou para organizar unidades de terror dentro da Força Policial do Iraque: mandado para o Iraque para por as forças de segurança iraquiana em forma, Kerik usava a denominação “ministro ínterim do interior do Iraque”. Entretanto, conselheiros policiais britânicos o chamavam de o “exterminador de Bagdá”. (Salon, 9 de dezembro de 2004)

Bernie Kerik com guarda-costas durante uma visita à Academia de Polícia de Bagdá, julho de 2003. Foto: Scott Wallace

Abaixo da direção de Negroponte, da Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, uma onda de assassinatos encobertos de civis, assim também como assassinatos de pessoas entendidas como alvos, foi deslanchada. Engenheiros, médicos, cientistas e intelectuais foram alvos. O autor e analista geopolítico Max Fuller, documentou em detalhes as atrocidades cometidas abaixo do programa de contrainsurreição patrocinado pelos Estados Unidos.

O aparecer dos esquadrões da morte entraram primeiramente em foco em maio de 2005 quando foi reportado que… dezenas de corpos tinham sido depositados… em terrenos baldios ao redor de Bagdá. Todas as vítimas tinham as mãos presas em algemas, estavam com os olhos vendados e tinham sido baleadas na cabeça. Muitos deles mostravam sinais de terem sido brutalmente torturados…

A evidência foi suficiente para motivar a Associação de Acadêmicos Muçulmanos, AMS, uma conhecida e importante organização sunita a fazer declarações públicas na qual acusavam as forças de segurança ligadas ao Ministério do Interior, assim como a Badr Brigade, a ex-ala armada do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, SCIRI, de estar por detrás dessas mortes. Eles também acusaram o Ministério do Interior de estar conduzindo terrorismo de estado (Financial Times).

Os Comandos Policiais assim como a “Wolf Brigade” eram supervisionadas pelo “programa de contrainsurreição”, no Ministério do Interior do Iraque.

Os Comandos Policiais eram formados abaixo da experiência, tutelagem e supervisão de combatentes americanos, veteranos de contrainsurreição. Os comandos policiais iraquianos então, desde o começo conduziram operações conjuntas com as unidades de forças de elite, altamente secretas. (Reuters, National Review Online).

… James Steele foi uma figura chave no desenvolver dos Comandos Especiais da Polícia. Ele foi um operativo das forças especiais do Exército dos Estados Unidos, que tendo começado no Vietnã foi depois mandado para dirigir a missão militar dos Estados Unidos em El Salvador, no auge da guerra civil, no país…

Outro contribuinte no desenvolver dos Comandos Especiais da Polícia, no Iraque, foi o mesmo Steven Casteel que como o mais experiente conselheiro dos Estados Unidos no Ministério do Interior afastou sem maiores considerações as bem substanciadas acusações de apavorantes violações dos direitos humanos como “rumores e insinuações”.

Assim como Steele, Casteel também ganhou considerável experiência na América Latina, no caso dele através de participar na perseguição do barão da cocaína, Pablo Escobar, nas narco-guerras da Colômbia, nos anos noventa…

O cenário da história pessoal de Casteel é importante nesse caso, porque o tipo de papel de apoio na colheita de informação e na produção de listas de morte, nas quais as suas experiências na América Latina foram baseadas então, são características do envolvimento dos Estados Unidos em programas de contrainsurreição, constituindo um elemento básico no que se poderia perceber como acaso, ou orgias de carnificinas desconexas.

Comentários do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 2005… Esses tipos de genocídios planificados de forma centralizada são consistentes com os acontecimentos no Iraque… Isso é também consistente com o pouco que sabemos a respeito dos Comandos Especiais da Polícia, que foi projetada para prover o Ministério do Interior com uma força de capacidade de ataque especial. (Departamento de Defesa dos Estados Unidos).

Max Fuller comentou, no contexto, que em mantendo esse papel os quartéis de Comando da Polícia tinham se tornado no centro de um comando nacional de controle, comunicação, informática e inteligência – Cortesia dos Estados Unidos. (Max Fuller, op cit).

Essa inicial preparação de terreno, estabelecida abaixo da direção de Negroponte, em 2005, permitiu a implementação das atividades abaixo de seu sucessor, o embaixador Zalmay Khalilzad. Robert Stephen Ford garantiu a continuidade do projeto antes do seu apontamento como embaixador dos Estados Unidos na Argélia em 2006, assim também como depois do seu retorno a Bagdá, como Chefe Deputado da Missão, em 2008.

Operação “Contras Sírios”: Aprendendo com a Experiência Iraquiana

ALEPPO, SÍRIA – 09 DE ABRIL: Jovens membros do Exército Sírio Livre exibem suas armas antes de um contra-ataque fracassado contra forças do governo na cidade de Saraquib, em 9 de abril de 2012 na Síria. A continuação da violência no norte da Síria entre forças do governo e os ditos “rebeldes moderados” colocou em risco os planos para um cessar-fogo na Síria, mediado pela ONU. Foto: John Cantlie / Getty Images

A macabra versão iraquiana da “Opção El Salvador” abaixo da direção do embaixador John Negroponte serviu como modelo para a construção dos Contras do “Exército Livre da Síria”. Robert Stephen Ford esteve muito provavelmente envolvido na implementação do projeto dos Contras na Síria, depois do seu apontamento como Chefe Deputado da Missão em Bagdá, 2008.

Na Síria o objetivo era o de criar divisões faccionais entre as comunidades sunitas, xiitas, curdas e cristãs. Conquanto o contexto da Síria seja completamente diferente da do contexto do Iraque, existem também surpreendentes similaridades ao que diz respeito aos procedimentos pelos quais as atrocidades e matanças foram, e continuam sendo conduzidas.

Uma reportagem publicada pelo Der Spiegel em relação as atrocidades cometidas na cidade síria de Homs confirma um processo sectário de assassinatos em massa e mortes extrajudiciais, ou seja, assassinatos comparáveis aos conduzidos pelos esquadrões da morte no Iraque, esquadrões patrocinados pelos Estados Unidos.

As pessoas em Homs eram de forma rotineira categorizadas como “prisioneiros” (Shia, Alawita) e “traidores”. Os traidores eram os civis sunitas, dentro da área urbana ocupada pelos rebeldes, que expressavam discordância ou oposição ao reino de terror do Exército Livre da Síria, FSA:

“Desde o último verão [2011], nós executamos pouco menos que 150 homens, o que representa cerca de 20% dos nossos prisioneiros’, disse Abu Rami…. Mas os executores de Homs estiveram mais ocupados com traidores dentro de suas próprias falanges do que com prisioneiros de guerra. ‘Se pegamos um sunita espionando, ou se um cidadão trai a revolução, fazemos o processo curto’, disse o combatente. De acordo com Abu Rami, a brigada funerária de Hussein teria posto entre 200 a 250 traidores a morte, desde o começo da sublevação.” (Der Spiegel, 30 de março de 2012)

Preparações ativas para a operação síria teriam certamente sido iniciadas quando da chamada de Ford da Argélia, nos meados de 2008 para um novo apontamento na embaixada dos Estados Unidos no Iraque.

O processo exigia um programa inicial de recrutamento e treino de mercenários. Esquadrões da morte, incluindo unidades salafistas do Líbano e da Jordânia entraram pela fronteira sul da Síria -com a Jordânia, nos meados de março de 2011. Muito da preparação do terreno estava já pronta antes da chegada de Robert Stephen Ford a Damasco, em janeiro de 2011.

O apontamento de Ford como embaixador da Síria foi anunciado no começo de 2010. As relações diplomáticas estiveram cortadas desde 2005 após o assassinato de Rafik Hariri, do qual os Estados Unidos acusaram a Síria. Ford chegou em Damasco apenas dois meses antes do começo da insurreição.

O Exército Livre Da Síria – FSA

Washington e seus aliados replicaram na Síria as características essenciais da “Opção El Salvador –do Iraque”, levando a criação do Exército Livre da Síria -FSA- e as suas várias facções incluindo a brigada “Al Nusra”, afiliada a Al Qaeda.

Apesar da criação do Exército Livre da Síria –FSA ter sido anunciada em junho de 2011, o recrutamento e treino dos mercenários, vindos de fora do país, foram iniciados muito anteriormente.

Em muitos aspectos, o Exército Livre da Síria é uma cortina de fumaça, usada para enublar e desvanecer os contornos da realidade. O denominado Exército Livre da Síria é apresentado pela mídia ocidental como uma entidade de boa fé, estabelecida como resultado de defecções em massa das forças governamentais. O número das defecções no entanto, não foram nem significantes, nem suficientes para estabelecer uma estrutura militar coerente, com os devidos comandos e controles de função.

O Exército Livre da Síria não é uma entidade militar profissional, é mais uma rede não estruturada, constituída por diversas brigadas terroristas, as quais por seu turno, são constituídas por muitas células paramilitares, agindo em diversas partes do país.

Cada uma dessas organizações opera independentemente. O Exército Livre da Síria – FSA, não exerce funções de controle ou comando efetivos e isso inclui também não efetividade nas suas ligações e contatos com as entidades paramilitares. Essas entidades paramilitares estão em sua grande parte controladas pelas forças especiais, assim como profissionais da inteligência, patrocinados pelos EUA-OTAN. Tanto as forças especiais como os profissionais da inteligência são encaixados, ou incrustados, nas alas das várias formações terroristas.

Essas forças especiais “no solo” – muitas das quais contratadas de companhias particulares de segurança, estão de forma rotineira, em contato com EUA-OTAN, assim também como com unidades de comando da inteligência militar dos outros envolvidos. As Forças Especiais estão, muito provavelmente, também envolvidas nos ataques devastadores, muito cuidadosamente planejados, dirigidos contra as instalações governamentais, conjuntos militares, e muitos outros objetos centrais e sensíveis.

Os esquadrões da morte são mercenários recrutados e treinados pelos EUA-OTAN, e seus aliados do Golfo Pérsico, GCC. Eles são supervisionados pelas forças especiais aliadas, assim como por companhias particulares de segurança – em contrato com a OTAN e o Pentágono. Relatórios confirmam o emprisionamento pelas forças governamentais da Síria, de cerca de 200-300 contratados de firmas particulares de segurança, contratados esses que estavam integrados nas alas dos rebeldes.

A Frente Jabhat Al Nusra

Oficialmente fundada por Abu Mohammad al-Julani em Deir ez-Zor, Síria, o Jabhat Fateh al-Sham, chamado de Frente Al-Nusra e às vezes referida como Jabhat al-Nusrah, foi um grande agrupamento jihadista, de orientação sunita, que operava na Síria, onde pretendia instituir um Estado Islâmico. Foi uma das principais forças opositoras ao governo de Bashar al-Assad. Foto: Síria Direct.

A Frente Al Nusra – que se entende como afiliada a Al Qaeda – é descrita como o grupo rebelde mais efetivo na luta da oposição. Al Nusra é o grupo responsável por muitos dos maiores ataques de bombas. O grupo Al Nusra é apresentado como um inimigo dos Estados Unidos, e está na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado.

Entretanto, as ações da Al Nusra apresentam as características, ou impressões digitais, dos treinos e das tácticas paramilitares dos Estados Unidos. As atrocidades cometidas contra civis pelo grupo Al Nusra são similares a aquelas feitas pelos esquadrões da morte patrocinados pelos EUA no Iraque.

Nas palavras do líder da Al Nusra, Abu Adnan, em Aleppo: “Jabhat al-Nusra conta com veteranos sírios da guerra do Iraque entre seus números, homens que trazem perícia especialmente na construção de dispositivos explosivos (IEDs) para o fronte na Síria.”

Como no Iraque, violência entre facções e limpeza étnica foram ativamente promovidas. Na Síria as comunidades alawitas, xiitas e cristãs foram alvo dos esquadrões da morte patrocinados pelos EUA-OTAN. A comunidade cristã foi um dos alvos centrais no programa de assassinatos.

Relatórios confirmam o influxo de salafistas e esquadrões da morte afiliados a Al Qaeda abaixo dos auspícios da Irmandade Muçulmana para dentro da Síria, desde o começo da insurreição, em março 2011.

Ainda mais, reminiscente do alistamento dos mujahidin para lutar a jihad –guerra santa – da CIA no auge da guerra entre a União Soviética e o Afeganistão, guerra essa que a OTAN e o Alto Comando Militar da Turquia tinham iniciado…

“… uma campanha para alistar milhares de voluntários muçulmanos nos países do Oriente Médio e no Mundo Muçulmano para lutar lado a lado com os rebeldes sírios. O exército turco iria acomodar esses voluntários, treiná-los e assegurar a passagem dos mesmos para dentro da Síria. (DEBKAfile, NATO to give rebels anti-tank-weapons, 14 de agosto de  2011).

De acordo com o que foi relatado, companhias particulares de segurança operando dos países do Golfo estão envolvidas em recrutamento e treino de mercenários.

Apesar de não especialmente marcadas para o recrutamento dos mercenários dirigidos contra a Síria, relatórios apontam para uma criação de campos de treinamento no Catar e nos Emirados Árabes Unidos. Na cidade militar de Zaved, “um exército secreto está sendo construído”, operado pela Xe Services, antes denominado Blackwater. O acordo nos nos Emirados Árabes Unidos para estabelecer um campo militar para treino de mercenários foi assinado em julho de 2010, nove meses antes dos furiosos ataques contra a Líbia e a Síria.

Em desenvolvimentos recentes, companhias de segurança em contrato com a OTAN e o Pentágono estiveram envolvidas em treinar os esquadrões da morte no uso de armas químicas.

“Os Estados Unidos e alguns aliados europeus estão usando contratados da defesa para treinar os rebeldes sírios em como assegurar provisões de armas químicas na Síria, um sênior oficial dos Estados Unidos, e diversos diplomatas informaram a CNN, domingo” (CNN Report, 9 de dezembro de 2012).

Os nomes das companhias envolvidas não foram revelados.

Atrás de portas fechadas no departamento de Estado dos EUA

Robert Stephen Ford fazia parte de um pequeno time no Departamento do Estado Americano que supervisionava o recrutamento e treino de brigadas terroristas, conjuntamente com Derek Chollet e Frederic C. Hof, um ex-associado de negócios de Richard Armitage, que serviu como “coordenador especial” de Washington, em assuntos da “Síria”. Derek Chollet foi recentemente apontado para a posição de Secretário Auxiliar da Defesa para Assuntos de Segurança Internacional.

Esse time trabalhou abaixo da direção do ex-Auxiliar Secretário de Estado para Assuntos do Próximo Oriente, Jeffrey Feltman.

Jeffrey David Feltman (1959) supervisionou os esforços diplomáticos da ONU para prevenir e mitigar conflitos mundialmente. Ele fala hebraico, inglês, francês e húngaro. Em setembro de 2017, Feltman anunciou seu apoio ao Estado palestino, afirmando que “o desenvolvimento econômico, por mais crítico que seja, não substitui a soberania e o estado”. Foto: ONU/Evan Schneider

O time de Feltman estava em próximo contacto com os processos de recrutamento e treino dos mercenários da Turquia, Catar, Arábia Saudita e Líbia (cortesia do regime pós-Gaddafi, que despachou 600 tropas do Grupo de Combate Islâmico da Líbia – LIFG – para a Síria, via Turquia, nos meses a seguir o colapso do governo de Gaddafi, em setembro 2011.

O Auxiliar Secretário do Estado, Feltman, esteve em contato com o Ministro do Exterior Saudita, o Príncipe Saud al Faisal, e o Ministro do Exterior do Catar, Sheik Hamad bin Jassim. Ele também esteve encarregado do gabinete para “coordenação especial de segurança” relacionado a Síria e baseado em Doha. Esse gabinete incluía representantes das agências de inteligência do ocidente, assim como do GCC e representantes da Líbia. O Príncipe Bandar bin Sultan, a prominente e controverso membro da Inteligência Saudita fazia parte desse grupo. (Veja Press TV, 12 de maio de 2012).

Em junho 2012, Jeffrey Feltman foi apontado Subsecretário-Geral de Assuntos Políticos da ONU, uma posição estratégica que, na prática consiste em por a agenda da ONU (em favor de Washington) em assuntos pertencendo a “resolução de conflitos” em vários focus de problema ao redor do globo. Isso inclui Somália, Líbano, Líbia, Síria Iêmen e Mali. Numa amarga ironia, os países para a “resolução de conflitos” da ONU são então aqueles mesmos sendo alvos das operações encobertas dos Estados Unidos.

Fonte: Global Research

Publicado originalmente em 4 jan. 2013.

Michel Chossudovsky
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