Segredos do programa soviético de guerra de doenças: Armas biológicas foram usadas contra os alemães em Stalingrado?

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Das muitas realizações e invenções notáveis da humanidade, poucas são tão más e horríveis quanto a guerra biológica: matança em massa deliberada e ordenada pelo governo de pessoas com doenças letais. Durante a Segunda Guerra Mundial, o exército japonês manteve um programa secreto de testes de guerra biológica, assim como os Estados Unidos nas décadas de 1950 e 1960. Em 1969, o Presidente Nixon renunciou ao uso de tais armas e os EUA desmantelaram sua extensa operação de guerra biológica, restringindo posteriormente a pesquisa a medidas defensivas, como a imunização.

Mas, como um novo livro notável apresenta detalhes sombrios, nenhum regime fez “progresso” maior na guerra biológica do que a União Soviética. De uma perspectiva privilegiada, um ex-cientista de alto nível do programa de guerra biológica soviético conta a história em “Biohazard: The Chilling Story of the Largest Covert Biological Weapons Program in the World” [Biohazard: A história arrepiante do maior programa de armas biológicas encobertas do mundo] (Random House, 1999). Ken Alibek (nascido em Kanatjan Alibekov) ingressou no programa soviético “Biopreparat” em 1975 e foi seu primeiro vice chefe de 1988 a 1992, quando desertou para os Estados Unidos.

Durante a terrível guerra civil russa de 1917-1921, na qual o incipiente regime soviético derrotou as forças “brancas” anticomunistas dispersas e divididas, cerca de dez milhões de pessoas perderam a vida. A maioria dessas mortes não ocorreu em combate, mas foi causada por fome e doença – especialmente tifo.

Na esquerda, uma imagem do Coronel Kanatzhan “Kanat” Alibekov em 1982. Na direita, uma mais atual (Créditos: Stephen J. Boitano/AP). Nascido no Cazaquistão, 1950, é médico microbiologista e especialista em guerra biológica (BW) Ele subiu rapidamente nas fileiras do exército soviético para se tornar o primeiro vice-diretor da Biopreparat, onde supervisionava um vasto programa de instalações de e pesquisas bélicas biológicas. Durante o seu auge como projetista soviético de armas biológicas, no final dos anos 1970 e 1980, Alibekov supervisionou projetos que incluíam armas com febre hemorrágica de Marburg e criaram a primeira bomba de tularemia da Rússia.

Consciente disso, o governo revolucionário soviético colocou, desde cedo, uma alta prioridade nas doenças como método de guerra. Em 1928, emitiu um decreto secreto ordenando o desenvolvimento do tifo como uma arma no campo de batalha. Nas décadas que se seguiram, a URSS construiu e manteve um amplo programa de guerra biológica. Por exemplo, como Alibek relata, os cientistas soviéticos desenvolveram uma sofisticada capacidade de guerra contra a praga, e um arsenal em Kirov (agora Vyatka) armazenava 20 toneladas de armamento de aerossol contra a peste (p. 166).

Uso em tempo de guerra contra alemães

Enquanto estudava no Instituto Médico Tomsk (1973-75), Alibek estudou registros médicos soviéticos em tempos de guerra que sugeriam fortemente que o Exército Vermelho usara a tularemia como arma contra as tropas alemãs nos arredores de Stalingrado em 1942 (páginas 29-31). A tularemia é uma doença altamente infecciosa que produz dores de cabeça debilitantes, náusea e febre alta. Se não for tratado, pode ser letal. Também é difícil extinguir, o que o torna atraente para quem tenta produzir armas biológicas.

Alibek descobriu que “as primeiras vítimas da tularemia foram as tropas alemãs Panzer, que adoeceram em grande número durante o final do verão de 1942 em que a campanha nazista no sul da Rússia parou temporariamente”. Além disso, ele conta que milhares de soldados e civis russos que vivem na região do Volga foram infectados com a doença uma semana após o surto alemão inicial. Nunca antes houve um surto tão generalizado da doença na Rússia.

Soldados alemães da 24ª Divisão Panzer em ação durante os combates pelos estados do sul de Stalingrado, 15 de setembro de 1942. Créditos: Berliner Illustrierte Zeitung, 1 de outubro de 1942/Propaganda-Kompanie Geller/Wikimedia Commons

Por que tantos homens adoeceram de tularemia apenas no lado alemão? Além disso, 70% dos alemães infectados sofreram uma forma pneumônica da doença, que (relatos de Alibek) “só poderia ter sido causada por uma disseminação proposital”.

Enquanto dez mil casos de tularemia foram registrados na União Soviética em 1941, no ano de 1942 – quando a batalha de Stalingrado estava no auge – o número de casos subiu para mais de cem mil. Então, em 1943, a incidência da doença voltou a dez mil. A batalha por Stalingrado durou de setembro de 1942 a 2 de fevereiro de 1943, quando Friedrich Von Paulus, comandante do Sexto Exército Alemão, se rendeu junto com 91.000 oficiais e soldados (dos quais apenas 6.000 sobreviveram ao cativeiro soviético).

Alibek ficou convencido de que “as tropas soviéticas devem ter pulverizado tularemia nos alemães. Uma mudança repentina na direção do vento, ou roedores contaminados que atravessavam as linhas, infectou nossos soldados e a doença se espalhou pela região”.

Para seu professor, um coronel soviético chamado Aksyonenko, ele explicou que as evidências encontradas “sugerem que essa epidemia foi causada intencionalmente”. Aksyonenko respondeu com um aviso severo: “Por favor. Quero que você me faça um favor e esqueça que você já disse o que acabou de dizer. Também vou esquecê-lo… Nunca mencione a ninguém o que você acabou de me dizer”.

Alguns anos depois, um tenente-coronel soviético idoso que havia trabalhado durante a guerra nas instalações secretas de armas bacteriológicas em Kirov disse a Alibek que uma arma de tularemia havia sido desenvolvida lá em 1941. Ele também o deixou “sem dúvida de que a arma havia sido usada.” Esse mesmo oficial sugeriu ainda que “um surto de febre entre as tropas alemãs de licença na Crimeia em 1943 foi o resultado de outro agente da guerra biológica [soviética]” (p. 36).


Do The Journal of Historical Review, março / abril de 1999 (vol. 18, nº 2), página 32.

Fonte na Web: Institute for Historical Review

Tradução de Leonardo Campos


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Mark Weber
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