Amazônia, os incendiários gritam: “Há fogo!”

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Aliados de ontem, inimigos de hoje: são os países que investiram no Brasil e que obrigaram a sua indústria a explorar as suas riquezas sem tomar precauções que, doravante, denunciam a devastação desse modelo econômico.

Perante a propagação dos incêndios na Amazônia, a Cimeira do G7 mudou a sua agenda para “enfrentar a emergência”. Os Sete – França, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, Japão, Canadá e Estados Unidos – assumiram, juntamente com a União Europeia, o papel de Corpo de Bombeiros planetário.

O Presidente Macron, como bombeiro chefe, lançou o alarme “a nossa casa está a arder”. O Presidente Trump prometeu o máximo empenho dos EUA no trabalho de extinção.

À frente do lobby “ruralista”, isto é, das empresas de agronegócio, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias desempenhou um grande papel na eleição do Presidente Jair Bolsonaro, que lhe conferiu o cargo de Ministra da Agricultura. I FOTO: Michel Jesus/Câmara dos Deputados / Reunião ordinária. Deputada Tereza Cristina (DEM – MS), 13 de junho de 2018, Câmara dos Deputados do Brasil.

Os holofotes da comunicação mediática concentram-se nos incêndios no Brasil, deixando todo o resto na sombra. Primeiro de tudo, o facto de que está a ser destruída não só a floresta amazônica (dois terços da área são do Brasil), reduzida quase 10 mil km² por ano em 2010-2015, mas também a floresta tropical da África equatorial e a floresta meridional e oriental da Ásia. As florestas tropicais perderam, em média, a cada ano, uma área equivalente à área total do Piemonte, Lombardia e Veneto.

Embora as condições sejam diferentes de área para área, a causa fundamental é a mesma: a exploração intensiva e destrutiva dos recursos naturais para obter o máximo lucro.

Na Amazônia, abatem-se árvores para obter madeira valiosa destinada à exportação. A floresta residual é queimada para usar essas áreas para culturas e agricultura intensiva também destinadas à exportação. Esses terrenos muito frágeis, uma vez degradados, são abandonados e, portanto, são desarborizadas novas áreas. O mesmo método destrutivo é adotado, provocando graves danos ambientais, para explorar os depósitos amazônicos de ouro, diamantes, bauxite, zinco, manganês, ferro, petróleo e carvão. Também contribui para a destruição da floresta amazônica, a construção de enormes bacias hidroelétricas, destinadas a fornecer energia para as atividades industriais,

A exploração intensiva e destrutiva da Amazônia é praticada por empresas brasileiras, fundamentalmente controladas – por meio de participações, mecanismos financeiros e redes comerciais – pelos principais grupos multinacionais e financeiros do G7 e de outros países.

- Por exemplo, a JBS, proprietária de 35 fábricas de processamento de carne no Brasil, onde 80 mil bovinos são abatidos por dia, possui filiais importantes nos EUA, Canadá e Austrália e é amplamente controlada através de parcelas de dívida dos credores: JP Morgan (EUA), Barclays (GB) e os grupos financeiros da Volkswagen e da Daimler (Alemanha).

- A Marfrig, em segundo lugar depois da JBS, pertence 93% a investidores americanos, franceses, italianos e outros investidores europeus e norte-americanos.

- A Noruega, que hoje ameaça retaliação econômica contra o Brasil pela destruição da Amazônia, provoca na mesma Amazônia, graves danos ambientais e sanitários através do seu grupo multinacional Hydro (metade do qual é propriedade do Estado norueguês), que explora as jazidas de bauxite para a produção de alumínio, tanto que foi colocado sob investigação no Brasil.

Os governos do G7 e outros, que hoje criticam formalmente o Presidente brasileiro Bolsonaro, para limpar a consciência perante a reação do público, são os mesmos que favoreceram a sua ascensão ao poder, para que as suas multinacionais e os seus grupos financeiros tivessem as mãos ainda mais livres, na exploração da Amazônia.

A ser atacadas estão, sobretudo, as comunidades indígenas, em cujos territórios se concentram as atividades de desflorestação ilegal. Sob os olhos de Tereza Cristina, Ministra da Agricultura de Bolsonaro, cuja família de latifundiários, tem uma longa história de ocupação fraudulenta e violenta, das terras das comunidades indígenas.

Fonte: Rede Voltaire

Tradução de Maria Luísa de Vasconcellos

Adaptação: André Marques

Originalmente publicado em 03/09/2019

Manlio Dinucci

Manlio Dinucci é geógrafo e geopolítico. Seus textos são disponíveis na Rede Voltarie e no site Il Manifesto.

Suas últimas publicações literárias foram: "Laboratorio di geografia", Zanichelli 2014; "Diario di Viaggio", Zanichelli 2017; "L’arte della guerra / Annali della strategia Usa/Nato 1990-2016", Zambon 2016; "Guerra Nucleare. Il giorno prima. Da Hiroshima a oggi: chi e come ci porta alla catastrofe", Zambon 2017 e "Diario di guerra. Escalation verso la catastrofe (2016 - 2018)", Asterios Editores 2018.
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