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“Mais compaixão com as vaquinhas, seu animal…”

Nada como a apelação vegana sentimentalista, com sua sequência fotográfica a mostrar a frágil vaquinha com seu bezerrinho transformados em gordos bifes no açougue ou a tostar no espeto da churrasqueira… A “compaixão” que aí se tenta produzir se faz passar pelo grande índice de humanidade: se você não sente compaixão pela vaquinha, você é menos “humano”. As coisas são diferentes na mentalidade pré-moderna. No caminho — ritualístico e realístico- — do ente existencial (ou Dasein) rumo à plenitude de sua Humanidade, sua Maturidade, sua Autenticidade (Eigentlichkeit), ou, em nosso jargão, à sua individuação psíquica-espiritual, o homem deve não reforçar esta “compaixão”, mas superá-la, extirpá-la, substituí-la por outra determinada postura com relação aos animais. — O que quero dizer com isto é que existe a possibilidade de demonstrar a relação entre a Infantilidade (permanência dos meninos no círculo das mulheres, da animalidade e da “proto-humanidade”, inviabilização do rompimento) e o apelo à “Compaixão” com os animais conforme observado nas campanhas sensacionalistas vegetarianas.

Todos os sistemas “vegetarianos” tradicionais — que no veggie-universo pululam distorcidos — funcionavam operando não através de sentimentoscomo a “compaixão”, mas de lúcidas correspondências simbólico-rituais. Não se trata, como na mentalidade veggie, de proteger a vaquinha por ser um animal “tão fofinho”, e sim de protegê-la pelo que ela simboliza ou significa na cosmovisão encarnada pelos membros da coletividade e pela sua função insubstituível na economia ritualística desta. O homem é um símbolo encarnado cercado por símbolos encarnados. Através da “vaca”, está-se a proteger o conjunto de significados de que aquele animal é portador: um complexo simbólico-ritual que percorre das narrativas cosmogônicas à utilidade ritualística do leite, da manteiga e do ghee, por exemplo. (Isto sem falar na carga kármica contida no ato do abate e consumo do animal, embora deva ser dito que, neste contexto, não se pode confundir abate com sacrifício, e acredito que a diferença é óbvia para o leitor.) Eis a importância da “proteção dos animais” para o homem tradicional: o que se protege é a ecologia simbólica do homem. Cada animal extinto é como um bloco a menos na residência humana sobre a terra. Isto — a saber, a consciência de que o homem age na ecologia física regendo-se pela ecologia simbólica — ajuda a entender por que mesmo hoje se chora a morte de um cachorro, animal que se relaciona simbólica e essencialmente com o homem de um modo diferenciado, e não a de uma vaca, cujo significado compartilhado em nossas sociedades é apenas o de “carne” ou “leite” no sentido mais profano possível. O fator sentimental sempre existe acompanhando o simbólico — e como ignorar o exemplo eternizado de Argos, cão fiel de Odisseu? — mas apenas em nossos dias ele predomina a ponto de muitas vezes aparecer como o único fator, a única justificativa para respeitar os animais. Em condições normais (em sociedades pré-modernas), o sentimental importa, mas é secundário diante dos fatores simbólicos (= espirituais). É por esta razão que as regras de matrimônio sempre foram cumpridas, enquanto só na modernidade foi possível o casamento “por amor” (como se todos soubéssemos o que é isto, “amor”, diga-se de passagem).

cisão entre homem e animal — a “máquina antropológica” da metafísica “ocidental”, como diz Agamben, embora em verdade seja universal, mudando apenas o desenho da planta e os detalhes do funcionamento conforme os fatores contingenciais, étnicos e históricos — , tal cisão “funda” o homem, marca os limites da humanidade do homem, seu dentro e seu fora, e ela está sempre presente, implícita ou explícita, nos processos de passagem à fase adulta ou de introdução (“iniciática”) no Círculo dos Homens. Como já se conhece de nossos textos anteriores, estes ritos (verdadeiras tecnologias de transmutação ontológica) se foram, ficando as individuações (psíquica e espiritual) masculinizantes, antes ao encargo da comunidade, dependentes agora do trabalho quase “experimental” dos individuantes. A comunidade, que funcionava como um “útero” para o segundo nascimento dos homens, agora “fecha” aos meninos seus caminhos de saída para a iniciação masculina. Assumindo novas configurações ginecocráticas, a sociedade (e, é bom sempre lembrar, o Estado Moderno) se converte no inimigo obstrutor dos caminhos da individuação masculina. É natural que um homem encarcerado em seu âmbito pré-masculino esteja a se confundir essencialmente com os entes que lá coabitam: mulheres, crianças e animais.

O apelo ao sentimento se tornou hegemônico em nossas sociedades porque os homens estão mais susceptíveis a estímulos deste tipo do que estiveram antes, o que significa dizer: estão cada vez mais infantilizadosrazão pela qual se ligam mais fortemente ao animal no pasto do que aos heróis de sua estirpe. Que a hegemonia deste recurso, o apelo à “compaixão”, tenha chegado aos meios em que antes predominava o frio raciocínio, não é, como querem alguns, sinal de que o racionalismo cedeu a exigências humanistas, isto é, de que foi “humanizado”. Apenas foi acrescentada aos excessos racionalistas a “compensação” dos excessos sentimentalistas.

A relação entre a Infantilidade (com tudo o que isto implica e que colocamos junto neste pacote) e o mencionado recurso, o apelo à Compaixão, pode ser explorada por quem esteja interessado. A perspectiva tradicionalista tem motivos muito mais sérios e elevados para preocupar-se com a ecologia do que… a “Compaixão”.


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches


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