Vozes Ancestrais – A Importância da Tradição (Parte Um)

Pitágoras, em seus versos de ouro, proferia os seguintes dizeres:
“1. Primeiro, adora os Deuses Imortais, como eles estabeleceram e ordenaram na Lei.”
“2. Reverencia o Juramento, e a seguir os Heróis, plenos de bondade e luz.” [1]
Qual a necessidade de observar os homens e seus feitos, alguns até perdidos na vastidão do passado? Qual a influência que esses homens podem exercer? Por que Pitágoras sugere que reverenciemos os heróis, logo após adorarmos os deuses? É disso que trataremos aqui.
Em todas as épocas, e em todos os povos, sempre houveram homens que se destacaram entre os demais enquanto vivos e que por conta disto eternizaram-se no pensamento popular, ou, ainda que não percebam, no cotidiano da vida nacional. Os ícones de que falo transcenderam a mera existência terrena.
Sabendo que os homens movem-se por interesses próprios [2], aqueles servem como fonte de inspiração, uma vez que fundiram-se com a tradição. Mas afinal, o que seria a tradição? É “o olhar que se deita para trás, a fim de buscar inspiração no que os nossos maiores fizeram de grandes e imitá-los ou superá-los” [3]. Não se trata de mero historicismo como propagam algumas das doutrinas internacionalistas dos séculos passados, tampouco de um saudosismo ilógico. Trata-se de reconhecer no passado algo que há muito interessa o presente, seja nos exemplos de ações e não-ações, ou de condutas morais.
Soldado ao pé da estátua do rei Leônidas de Esparta, erguida em Termópilas, onde com 300 dos seus e 700 tebanos, entrincheirou centenas de milhares do exército persa, salvando a Europa da queda total

 

A importância que a tradição possui não é mera invenção de patriotas, políticos ou mesmo dos nacionalistas do século XX, que muito a utilizaram como fonte revigoradora. No raiar do conflito entre gregos e troianos, quando Menelau, rei de Esparta, fora pedir ajuda a seu irmão Agamenon, rei de Micenas, para reunir um exército que fosse capaz de invadir a “Troia dos telhados de ouro”, este dera um conselho valiosíssimo ao espartano traído. Agamenon sugerira que , antes de procurar o auxílio dos reis jovens e ricos da Grécia, fossem buscar o apoio de Nestor. Este, por sua vez, fora “abençoado” pelo deus Apolo com uma longa vida (ao tempo da guerra, segundo a lenda, o mesmo já possuía 200 anos). Devido a sua experiência e conhecimento em batalha, adquirida através de eventos e guerreiros de outrora, a sua participação na guerra era imprescindível à ambos os reis, pois, tendo Nestor ao seu lado, os demais reis das cidades-estados da Grécia haveriam de ver grandes possibilidades de vitória. Não estavam errados, pois os conselhos do ancião foram de suma importância para a queda de Troia:

“Agamenon então sugeriu que, antes de qualquer outra providência, Menelau partisse sem demora para Pilos, a fim de convencer o velho Nestor a aderir à expedição contra Troia. O poderoso Apolo, o senhor dos ratos e da peste, o deu de todos os oráculos, havia concedido ao nobre Nestor o privilegio de viver o tempo de três gerações humanas completas; por esse motivo sua opinião e seu conselho eram ouvidos por todos, fossem chefes ou reis importantes, que reconheciam a sabedoria e a prudência sem par do mais velho de todos os guerreiros (…) Agamenon considerava indispensável que ele se juntasse às forças unidas da Grécia.” [4]

Entretanto, por vezes há certa confusão quanto ao “culto” da herança nacional. Isto se dá, muitas vezes, pela ideia errônea de que as pessoas possuem a respeito de nação. A tradição é a semente que gera a nação, e portanto é necessário que haja uma breve explicação quanto a esta última.

Ramon Bau já assinalava o principal equívoco do senso comum com relação ao conceito de nação:

“Geralmente, associam nação à um mero legalismo, marcado por fronteiras históricas totalmente discutíveis, produto de manejos dinásticos, guerras, alianças ou tratados tomados sem pensar, na comunidade popular, acreditando-se apenas na ambição territorial.” – Ramon Bau (Nossas Ideias, p.45 ) [5]

Na obra “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” de Lima Barreto, o famoso patriota , ao final do livro, encontra-se num dilema moral e filosófico fruto de sua decepção com o governo de Floriano Peixoto. Ao ver-se preso, e tendo frustrado suas ambições em prol do país, Policarpo acaba por questionar o próprio conceito de Pátria, assim como sua importância, recorrendo ao mero legalismo de que já citava Ramon Bau; é o que vemos, por exemplo, nesse trecho:

“Reviu a história; viu as mutilações, os acréscimos em todos os países históricos e perguntou de si para si: como um homem que vivesse quatro séculos, sendo francês, inglês, italiano, alemão, podia sentir a Pátria? 

Uma hora, para o francês, o Franco-Condado era terra dos seus avós, outra não era; num dado momento, a Alsácia não era, depois era e afinal não vinha a ser.
Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura, sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso sofremos qualquer mágoa? 

Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista.” (Policarpo Quaresma em, O Triste Fim de Policarpo Quaresma, p.236. Lima Barreto) [6]

Pobre Policarpo! Devido as suas frustrações correu para grave equívoco. Equívoco natural, por assim dizer, afinal é comum , infelizmente, que caiamos nesse erro de considerar a nação apenas um espaço determinado por fronteiras imaginárias. Quanto a isso, Pedro Varela já advertia:

“Não se deixe influenciar pelas fronteiras artificiais. A nação é delimitada pela história, cultura, tradição e raça. Elas são muito mais do que linhas pintadas sobre um mapa ou meros acidentes geográficos (…) A nação é um conceito étnico mais antigo do que um conceito legal” – Pedro Varela (Ética Revolucionária, p.29) [7]

Em mesmas considerações estabelece Plínio Salgado:

“A personalidade de uma Pátria não se baseia apenas na conformação cartográfica ou na fisionomia do seu espaço físico, pois se tal se desse, teríamos um corpo sem alma; ela compreende também as origens da Nação e o seu desenvolvimento intelectual, moral, espiritual, através do tempo. 

Espaço e tempo- eis os materiais em que trabalha o espírito de um povo na construção de uma Pátria.”– Plínio Salgado (Nosso Brasil, p.30) [8]

Segundo Edmund Burke:

“Uma nação é uma essência moral e espiritual ; é uma cultura firme… não um arranjo geográfico, ou uma denominação do nomenclador”.

 Além desta plêiade de homens lúcidos, há vários outros que se manifestaram em idênticas considerações.
Apesar disso, sempre vemos nos meios sociais grupos que decaem no mesmo erro de Policarpo.

Se o personagem de Lima Barreto tivesse refletido além do que o seu desespero permitia, talvez tivesse chegado a mesma conclusão daqueles autores, de onde poderia tirar novas ideias para o seu nacionalismo, e buscar novas soluções para os problemas de que o Brasil enfrentava e enfrenta- como veremos mais adiante.

 

A verdade é que a tradição representa o caráter da nação, mantendo-a  viva através de toda sua cultura, através de todos os seus costumes, por mais simples que possam parecer. Justamente por isso é tão alvejada. Quando um povo esquece sua tradição, tende a esquecer o seu papel no mundo e acaba por perder-se num vazio de atos, demonstrando sua insignificância como civilização.
Certa vez estudando o tema em voga, deparei-me com a melhor descrição sobre tradição que já vi em minha, ainda curta, vida:

“Um grande patriota francês escrevia pouco antes da outra guerra [I Guerra Mundial] estas palavras dignas de meditação no momento presente: ‘Pensamos sempre que uma nação só pode ser vencida pela força das armas e é um erro. Ao lado das feridas que fazem correr o sangue das veias, há outras mais perigosas, as que fazem correr o sangue da alma. Onde está a alma dum povo? – Nas suas tradições’. Desde que empunho uma pena, usando-a no jornal e no livro, não me tenho cansado de reviver, defender e glorificar as tradições de nossa pátria. Na maioria, os volumes que tenho publicado ensinam a amar e cultuar essas tradições, das quais o Museu Histórico, fundado por mim, é um verdadeiro sacrário. 

Quando se diz que, nas guerras, as forças morais sobrelevam as forças materiais, indica-se implicitamente a tradição das pátrias, razão espiritual de sua existência e de sua perpetuidade. Penso no caso exatamente como o patriota e escritor francês que citei: uma nação é como uma floresta. Do mesmo modo como as árvores que a compõem vão procurar com suas raízes o húmus acumulado no solo por sucessivas gerações de folhas caídas em cada outono, um povo vive do húmus moral formado pelas virtudes, heroísmos, aspirações, dores e esperanças das gerações de homens que, umas depois das outras, juncaram o caminho dos séculos. 

‘Dessas virtudes, heroísmos, aspirações, dores e esperanças se constitui um ideal que é o ideal nacional’, escreve Copin-Albancelli. ‘Cada povo tem o seu e é nele que reside a sua tradição. Ali se contém a seiva elaborada pelas grandes gerações desaparecidas, o alimento que elas prepararam para as gerações vindouras, de modo que estas existirão porque aquelas existiram. Portanto é revolvendo a sua memória, as tradições seculares, a saudade das gerações mortas que a geração viva dum povo encontra a fonte que deve alimentar sua vida. Sem dúvida, essa geração viva precisa respirar o sopro das ideias que passam por sua atmosfera, do mesmo modo que as frondes das árvores precisam respirar os princípios contidos no ar que as acaricia ou agita. Mas não pode prescindir de suas tradições, que lhes são tão indispensáveis que, se se interromper num povo a comunicação entre as gerações que morreram e as que estão vivas, isto é, se se apagar a lembrança de suas tradições ou se lhe ensinarem a desprezá-las ou odiá-las, sua alma morrerá como morre a árvore cujas raízes transmissoras de seiva forem cortadas’. 

Nossa querida pátria atravessa uma época de ameaças e perigos. (…) Às ameaças e aos perigos devemos fazer frente escudados na nossa tradição. Leiamo-la nas páginas de nossa história, aprendam-la na lição que nos legaram os nossos antepassados.” – GUSTAVO BARROSO [“Caxias” (Coleção Nossos grandes mortos, nº 5), 2ª edição, Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1953, pp. 27-28]” [9]

Tais palavras não poderiam ser de outro, senão de um dos maiores tradicionalistas que o Brasil já teve.
Cotidianamente somos atacados pela mídia por ideias que vão de encontro com os nossos costumes; ideias que coadunam com o globalismo tão presente na contemporaneidade. Isso não há de ser em vão.
Dizia Sun Tzu:

“Se você conhece tanto o inimigo quanto a si mesmo, não precisa temer o resultado de 100 batalhas. Se conhece somente a si mesmo e não seu inimigo, para cada vitória conseguida também sofrerá derrota. Se você não conhece nem a si mesmo nem o inimigo, perderá todas as batalhas” (A Arte da Guerra, p.41) [10]

É importante para quem deseja dominar que o dominado esqueça de quem é, e não reconheça em nada o seu passado. Outro grande estrategista, Maquiavel, apontava conselhos de similar categoria:

“Arrogue-se o príncipe em chefe e defensor dos mais fracos e procure enfraquecer os poderosos da própria província, além de se precaver contra a entrada de algum estrangeiro tão poderoso quanto ele. Pois sucederá sempre que os moradores da província, tocados por ambição ou temor, chamem poderosos estrangeiros” [11]

Fazendo uma analogia com o que fora dito por Maquiavel, não poderiam os povos, diante de boa parte dos seus problemas, convocar a memória de algum antepassado de grande renome e bravura? Já vimos que, não só poderiam, como seria aconselhável. Maquiavel não poderia imaginar o que vivenciamos no século XXI, mas se assim soubesse, saberia, pelas palavras do francês citado por Barroso, que as feridas na alma dum povo são mais profundas do que as feridas carnais. Há outras maneiras de vencer um povo além do uso das armas. Para ser mais exato, esta forma de dominação hoje é secundária. O próprio Gustavo Barroso já advertia sobre isso:

“Tivemos, antigamente, o imperialismo militar, das nações fortes, que reduziam países livres a condições de escravidão. Em seguida, tivemos o imperialismo das nações econômicas, que conquistavam mercados para seus produtos”– Gustavo Barroso (Brasil: Colônia de Banqueiros, p.24) [12]

Além do imperialismo militar e econômico, há hoje tão em voga, com o advento da expansão midiática, o imperialismo cultural, reflexo do globalismo burguês que vem manifestando-se sobretudo na Europa, mas também há reflexos seus em todo os continentes , através de produções hollywoodianas, marcas comerciais, músicas etc.

 

Se é de suma importância o papel da tradição , perdê-la há de ser a pior das mortes. Vimos que a tradição é , também, a alma dum povo. Pois bem, o próprio Cristo já nos ensinava que a morte espiritual sobrepõe a morte física. A morte física é um momento. A espiritual é perpetua. A morte física é apenas a passagem de uma vida para outra. A morte espiritual existe ainda que o homem esteja presente nesta.
Vale mencionar o enorme desrespeito que seria isso com todos aqueles que sacrificaram e/ou dedicaram suas vidas para construir um patrimônio cultural digno. É dever dos filhos honrar o legado de seus pais, e aquele que o oposto faz não merece ter recebido daqueles a chance de vir ao mundo. Logo, honrar os ancestrais através do culto às tradições é mostrar que eles vivem no presente, independente de quais fossem suas condições financeiras, filosóficas ou o que seja, pois apesar das divergências estavam todos unidos sobre algo muito maior do que eles mesmos: as ações que criaram um futuro para seus descendentes.
Destruí-la é ainda contra a vontade do Criador:

“A diversidade dos povos do planeta forma parte da grande riqueza da Criação e aqueles que querem destruí-la, eliminando toda cultura autóctone, atentam contra a obra do Todo Poderoso. “– Pedro Varela

Contudo, por mais paradoxal que possa parecer, é através da tradição que combatemos as ideias que atentam à esta, de modo que quanto mais oculta ela se encontra, mais poder de agir ela possuirá nas almas dos que a encontrarem. Isso não é algo para espanto, pois como vimos a tradição é uma espécie de escudo aos homens.
NOTAS E REFERENCIAS
[1]- PITÁGORAS, Os Versos de Ouro. 1 ed. Editora Edipro, 2017
 
[2]- ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 1 ed. Editora Martin Claret, 2015
 
[3]- BARROSO, Gustavo. Espírito do Século XX. 1 ed. Editora Civilização Brasileira, 1936.
 
[4] – MORENO, Cláudio. Troia – o Romance de uma Guerra. Editora LMpocket, 2004.
 
[5] – BARRETO, Lima. Triste Fim de Policarpo Quaresma. 1 ed. Editora Typ. Revista dos Tribunaes, Rio de Janeiro, 1915.
 
[6] – FRADERA, Ramón Bau. Nuestras Ideias. 1. ed. Editora Thule. Barcelona, 2009.
 
[7] – VARELA, Pedro. Ética revolucionaria. 2 ed. Editora Thule, 2009.
 
[8] – SALGADO, Plínio. Nosso Brasil. Editora Voz do Oeste, 1981.
 
[9] – BARROSO, Gustavo. Caxias. Livraria Agir Editora. Coleção Nossos Grandes Mortos. 5 ed. 1945.
 
[10] – SUN, Tzu. A Arte da Guerra. Jardim dos Livros LTDA. São Paulo, 2012.
 
[11] – MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. 8 ed. Jardim dos Livros. São Paulo, 2017.
 

 

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