Vozes Ancestrais – A Importância da Tradição (Parte Dois)

Esse artigo é uma continuação da parte primeira. Nessa segunda sessão, o autor disserta sobre a concepção da tradição com fonte na Itália fascista e na Alemanha hitlerista, épocas auge do nacionalismo da então Nova Europa.

Foi com base em pensamentos dessa espécie que, ao tentar revigorar as pátrias alquebradas, os diversos líderes nacionalistas do século XX mergulharam no passado de seus respectivos países, com o intuito de buscar em seus antepassados a alma vivente que em nosso século há muito foi vendida ao ouro burguês.

A Tradição como fonte na Itália Fascista
O Fascismo, tendo o espírito romano como nevrálgico, conseguiu estabelecer o primeiro grande movimento espiritual do século passado [1]. Numa Itália cada vez mais influenciada pelo internacionalismo comunista, Mussolini soube utilizar a tradição como uma fonte de oposição a estas ideias.
O mais interessante é que, embora acusado por alguns de possuir elementos pagãos, os fascistas prestaram um grande favor a Igreja Católica, herdeira de Roma e progenitora de diversas nações. Quanto a isso, vale lembrar:

“Lá [Itália], o individualismo atingira a anarquia e o liberalismo governamental a inércia. Pouco faltava para o salto revolucionário apregoado e defendido pelos teoristas do marxismo. Imaginai o quadro…Roma, a capital do Cristianismo, tornada capital do materialismo comunista, o  Santo Padre escarnecido e morto, o colégio dos cardeais fuzilado de encontro aos muros do castelo de Sant’Angelo, a basílica de S. Pedro saqueada e incendiada (…) Pensai no colapso do mundo cristão (…). Era o fim de tudo, a consumação dos séculos de que falam as profecias, com a vitória do Anti-Cristo! Mas a figura de Mussolini apareceu com a palavrão e a ação salvadoras. Foi a Joana d’Arc desse período angustioso”– Gustavo Barroso [2]

Essa ação a que referia Barroso não acontecera por acaso. Fora influenciada pelo credo de patriotismo que possuía o Fascismo. Patriotismo, por sua vez, não deve ser associado com o estado de inércia, mantendo a situação como está, negando a necessidade de revoluções que mostram-se necessárias. A inércia apenas afemina o homem. [3]

 

Um patriota não deve querer conservar uma sociedade decadente. Também não deve desejar construir um mundo novo destruindo tudo que há de bom no antigo [4], porque ao contrário deve construir o novo resguardando o que há de útil no sistema de outrora.
Tampouco, a ideia de revolução deve ser associada impensavelmente nos internacionalismos flácidos [5]. Quando se pensa em revolução, passa pela cabeça de uns a necessidade de negar o que foi posto até então, como se a obra por completa fosse falha.
Há de ser necessário a compreensão do que precisa mudar, e nesse sentido há de ser o patriota anti-conservador; mas também faz-se necessário a compreensão do que deve manter-se como está ou, ainda mais, deve melhorar, e nesse aspecto será o patriota conservador. É preciso ter a maturidade para analisar e julgar os acontecimentos.
E pensando nisso, Mussolini utilizou a carga histórica de Roma, sob o símbolo do “fascio”, como uma fonte capaz de garantir ao povo italiano motivo de orgulho do seu passado e nação, assim como de união, mas também de força para combater seus inimigos, como foi dito anteriormente na reação contra os comunistas:

“A tradição romana é nele [fascismo] uma ideia-força. Na doutrina fascista, o Império não é só expressão territorial, militar ou mercantil, é espiritual e moral”– Mussolini [6].

Dizia, também, Mussolini:

“O homem do Fascismo é o indivíduo que é nação e pátria, lei moral que une conjuntamente indivíduos e gerações numa tradição e numa missão, que suprime o instinto da vida encerrada no breve instante do prazer para instaurar no dever uma vida superior, liberta dos limites do tempo e do espaço” [7].

A simbologia do movimento traduz isso: é a reunião de varas num feixe sob a proteção do machado. 

 

A Tradição na Alemanha Hitlerista
Na Alemanha, porém, a situação era diferente. Por ser a questão germânica mais complexa, cabia aos nacionais-socialistas buscar auxílio além da tradição, capaz de contemplar todos os infortúnios e solucioná-los. Sobre isso, dizia Gustavo Barroso:

“Na Alemanha liquefeita pelo liberalismo, o movimento de Hitler teve de buscar um apoio ainda mais profundo do que a simples tradição jurídica e política. E este foi a Raça. O “racismo” corresponde a uma realidade alemã do mesmo modo que o romanismo imperial corresponde a uma realidade italiana. Além disso, a Itália está com quase todas as populações verdadeiramente italianas sob a sua bandeira. A Alemanha não. Há alemães nos corredores de Danzig, na Polônia, na Áustria, fora dos limites do Reich [8]. Se o nacional-socialismo se limitasse a tradição duma Alemanha política e histórica, estaria errado. Para estar certo, para corresponder exatamente à realidade, ele é obrigado a basear-se numa Alemanha racial.” [9]

Não é que os alemães vejam com indiferença a tradição, pois segundo o mesmo autor, em mesma obra:

“Em tudo, tanto Mussolini quanto Hitler, aprofundaram as mais remotas origens de suas gentes, exaltando de todos os modos a ideia de dum passado superior, para sobre essa base construir o futuro”

A verdade é que é natural que os movimentos nacionalistas vejam nos demais um exemplo, ou até mesmo algo a copiar. No entanto, todo movimento nacionalista deve adequar-se a realidade social de seu país. Nesse sentido, ele há de ser universalista, mas não internacionalista. [10]

 

Os alemães estenderam sua concepção de nação, dando a alma nacional um espírito para além da tradição. Tal fato, entretanto, não refuta o aspecto vivificador atribuído àquela, somente evidencia a preocupação do Reich em complementar, aperfeiçoar, aquilo que é inadmissível não ser preservado, isto é, a união nacional. Relacionando com o que disse anteriormente, souberam eles ser conservadores quando necessário, aperfeiçoando algo que deve ser eterno.

 

 

Conseguiram elevar o conceito de identidade nacional e é isto, entre outros fatores, que separam ambos os movimentos- Fascismo e Nacional-Socialismo. Além do mero “ser” fascista, atribuíram ao seu conceito o entendimento de “parecer ser”, explicando como indivíduos de ascendência germânica, embora nascidos em países africanos ou latino-americanos [11], eram considerados pelo regime hitlerista como alemães de fato.
Logo, para eles, tão importante quanto sentir-se identificado com uma nação e/ou tradição é o fato de ser identificado por terceiros como pertencente à ela.
Ramon Bau já defende que:

“Desta forma, como racialistas, desejamos a identificação entre o conceito de nacionalidade com o pertencimento ao povo/etnia correspondente. Por isto, de modo algum nosso nacionalismo deve ser entendido no sentido “fascista”, de nacionalismo estatizado.” [12]

Esse ponto diverge, por exemplo, com o abordado pelo Estado Integralista, que defendia a identificação do Estado com a nação.
Notas e referencias bibliográficas:
[1] – BARROSO, Gustavo. O quarto império. Livraria José Olympio Editora. Ed. Problemas político contemporâneos, n 9. Rio de Janeiro, 1935.
[2] – BARROSO, Gustavo. O integralismo de norte a sul. Editora Civilização brasileira S.A. 1 edição. Rio de Janeiro, 1934.
[3] – Luis de León assim se expressava aos ociosos
[4] – BARROSO, Gustavo. O integralismo de norte a sul. Editora Civilização brasileira S.A. 1 edição. Rio de Janeiro, 1934.
[5] – MOSLEY, Oswald. Ten Points of Fascism: Fascism Explained by Oswald Mosley. Edição Historical Reprint Series. Inglaterra, 1933.
[6] – MUSSOLINI, Benito; GENTILE, Giovanni. La dottrina del Fascimo. Editora Vallecchi Editore Firenze, 2 edição. Florença, 1940.
[7] – Idem
[8] – Rudolf Walter Richard Hess, nascido no Egito, nomeado Delegado do “Führer” (líder, condutor, em alemão) por Adolf Hitler em 1933, tornando-se um político de prestígio. Prestou serviço neste cargo até 1941 quando, ao viajar para a Escócia com o intuito de negociar a paz com o Reino Unido, fora detido e, posteriormente, julgado por crimes de guerra, sendo condenado a prisão perpétua.
[9]  BARROSO, Gustavo. O quarto império. Livraria José Olympio Editora. Ed. Problemas político contemporâneos, n 9. Rio de Janeiro, 1935.
[10] – BARROSO, Gustavo. O integralismo e o mundo. Editora Civilização brasileira S.A. Rio de Janeiro, 1936.
[11] – Como por exemplo: o brasileiro filho de alemães nascido em Curitiba, Paraná, Egon Albrecht
[12] – FRADERA, Ramón Bau. Nuestras Ideias. 1 editora Editora Thule. Barcelona, 2009.
[13] – SALGADO, Plínio. A quarta humanidade. Livraria José Olympio editora. edição problemas políticos contemporâneos n 3. Rio de Janeiro, 1934.
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