Luso: Sobre a Morte e o Morrer – Uma Visão Socrática do Fim da Vida

Por meio da Apologia de Sócrates, trazida até nós através de Platão (séc. V – IV a.C.), temos a possibilidade de ficarmos admirados com a perspectiva que aquele possuía a respeito da morte.
É de notável generalidade o temor que essa transição – e tratarei assim, uma vez que o termo “morte”, visto o significado atribuído à expressão, apresenta imprecisão – causa nos indivíduos. Não é de hoje, porém, que tal fato se dá, levando-nos a refletir sobre como os demais povos interpretavam-na.
Os mitos, por sua vez, eram a instrumentalização dos anseios dos povos, que necessitavam tratar da questão, talvez como uma satisfação em poder conceber a si um final certo, por vezes melhor do que a incerteza do porvir.
É nesse contexto, porém, que Sócrates apresenta magistralmente suas teorias a respeito da transição da vida.
Como disse anteriormente, considero o conceito morte impreciso. Lembro-me que certa vez, lendo um livro de Eliphas Levi (1810 – 1875), deparei-me com um trecho onde o autor afirmava que a morte, na verdade, não significava o fim da vida, mas uma transição de um plano de existência para outro (posso estar confundindo o autor, pois faz bastante tempo que li esse trecho, e não possuo mais o livro, mas creio que tenha sido de fato Eliphas Levi). Atenham-nos, porém, ao ensinamento…
Logo, se a morte, como concebida entre nós, é interpretada como o fim da vida, e esta, por sua vez, na realidade não se apresenta conclusa com o desfecho final da matéria, há de convir que a concepção de que temos da morte ou é equivocada, pois há um prosseguimento da vida, ou correta, inexistindo assim uma sequência, isto é, um prolongamento da vida em outro plano de existência. Esta última opção não me convém.
Contudo, é oportuno lembrar que, independentemente das assertivas corretas, Sócrates buscou algo de positivo em ambas, inadmitindo, assim, um desfecho covarde por ocasião de sua morte, uma vez que sua sentença já havia sido decretada. 

Quadro de Jacques-Louis David, “La Mort de Socrate” (A Morte de Sócrates). Óleo sobre tela, 1787. 

 

A priori, tratando-se de conceber a morte como o encerramento da vida, alega ele que a mera inexistência não alterará em nada o fluxo do mundo. Este permanecerá, após nossa morte, da mesma forma que era antes de virmos a ele. Igualmente, havendo fim, não haverá dor, e seremos iguais a quando estávamos antes de vir ao mundo, ou seja, nada. Sendo nada, não há que se falar em coisa boa ou ruim. O nada carece de tudo.
Em semelhantes considerações, enfrentando a morte com sabedoria e coragem, aduz:

“Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte seria um maravilhoso presente. Creio que, se alguém escolhesse a noite na qual tivesse dormido sem ter nenhum sonho, e comparasse essa noite às outras noites e dias de sua vida e tivesse de dizer quantos dias na sua vida havia vivido melhor, e mais decentemente que naquela noite, creio que não somente qualquer indivíduo, mas até um grande rei acharia fácil escolher a esse respeito, lamentando todos os dias e noites. Assim, se a morte é isso, eu por mim a considero um presente, porquanto, desse modo, todo o tempo se resume em uma única noite.”

De modo diverso, sendo a “morte” uma mera passagem de existências, não há que se falar em sofrimento. Devemos ter em mente que, para o local onde nos destinaremos, estarão pessoas de nobres títulos. Quantos não desejariam ter um minuto de prosa com Aquiles? Ou aprender algo com Palamedes? Ou melhor, poder conhecer todos os heróis que nos antecederam, construindo o mundo onde vivemos?

“Se, ao contrário, a morte é como uma passagem deste para outro lugar, e se é verdade o que se diz que lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir, ó juízes, maior do que este? Porque, se chegarmos ao Hades, libertando-nos destes que se vangloriam de serem juízes, havemos de encontrar os verdadeiros juízes, os quais nos diriam que fazem justiça acolá: Minos e Radamante, Éaco e Triptolemo, e tantos outros deuses e semideuses que foram justos na vida; seria então essa viagem uma viagem de se fazer pouco caso? Que preço não seríeis capazes de pagar, para conversar com Orfeu, Museo, Hesíodo e Homero? Quero morrer muitas vezes, se isso é verdade, pois para mim, especialmente, a conversação acolá seria maravilhosa, quando eu encontrasse Palamedes e Ájax Telamônio e qualquer um dos antigos mortos por injusto julgamento.(…) A que preço, ó juízes, não se consentiria em examinar aquele que guiou o grande exército a Troia, Ulisses, Sísifo, ou infindos outros? Isso constituiria inefável felicidade.”

Trazendo à nossa realidade, brasileira, devemos refletir acerca dos inúmeros heróis que em nossas lápides repousam seus nomes, e do quão honrados deveríamos ficar em termos a possibilidade de nos encontrarmos com os mesmos. A verdade é que somos frutos de tudo aquilo que nos antecede e, estando no mesmo local que nossos antecessores, o que fazer senão aprender com eles?
Obviamente que tal posicionamento entra em colapso quando deparado com a visão retributiva com que a fé cristã encara a “pena” (utilizo esta expressão aqui, apenas para nomear o que acontece, segundo a ótica cristã, depois da vida, dando a cada um o que seus atos o fizeram por merecer, punindo o agente, destinando-o a lugar diverso, quando assim mostrar-se necessário. Vale lembrar, ainda, que o Papa Pio XII, atribuiu a nomenclatura- retributiva- para justificar o julgamento pós-vida, o que importa em dizer que, ao mal causado durante a vida, retribui-se com um mal equivalente, ou não.)
Sócrates, ainda, alega que de nada adianta viver, se para desonrar for o seu legado. Imprescindível é, ao tratarmos da transição, reconhecê-la com respeito. Todavia, igualmente importante, é reconhecermos que mais importante do que nos preocuparmos com nossa sobrevivência, é atentarmos em como esta se dará. A preocupação com nossa honra deve sobrepor o nosso desejo de viver, embora na prática, infelizmente, isso seja de difícil aplicação. 

Em tempos de conflito, a morte é a única companheira eterna e fiel do guerreiro

 

Tratar a desonra um mal menor, comparando-a com a transição, é menosprezar a vida de milhares de heróis que nos antecederam e que, podendo ficar reclusos em seus lares, preferiram entregar suas vidas a uma causa justa – no livro, Sócrates cita como exemplo os soldados gregos que tombaram em Troia.
Por fim, anunciando tudo isso com sobriedade, Sócrates nos dá um exemplo ímpar de que a morte é uma questão de interpretação, mas que a importância que a damos não deve, jamais, ser superior, se comparado com o nosso desejo de manter nossa honra intacta.

“Pois que, ó cidadãos, o temer a morte não é outra coisa que parece ter sabedoria, não tendo. É, de fato, parecer saber o que não se sabe. Ninguém sabe, na verdade, se por acaso a morte não é o maior de todos os bens para o homem, e entretanto todos a temem, como se soubessem, com certeza, que é o maior dos males. E o que é senão ignorância, de todas a mais reprovável, acreditar saber aquilo que não se sabe? Eu, por mim, ó cidadãos, talvez nisso seja diferente da maior parte dos homens, eu diria isto: não sabendo bastante das coisas do Hades, delas não fugirei. Mas fazer injustiça, desobedecer a quem é melhor e sabe mais do que nós, seja deus, seja homem, isso que é mal e vergonha. Não temerei nem fugirei das coisas que não sei se, por acaso, não são boas, em confronto com as más, que sei que são más.(…). Cidadãos atenienses, eu vos respeito e amo, mas obedecerei aos deuses em vez de obedecer a vós, e enquanto eu respirar e estiver na posse de minhas faculdades, não deixarei de filosofar e de vos exortar ou instruir cada um , quem quer que seja que vier à minha presença.”

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