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É relativamente nova a atração de muitos jovens pela literatura de Howard Phillips Lovecraft, e também muito curioso perceber que muitos (senão todos!) não sabem exatamente onde estão pisando, ou sequer podem imaginar quão profundo é o legado da obra do escritor, tanto em seu próprio gênero como na área da Metapolítica.

Como bem assinalou Kerry Bolton: “Para muitos de seus admiradores, as coisas mais assustadoras que H.P. Lovecraft escreveu não eram sobre Cthulhu, eram sobre política”.

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A gênese de nossa análise consiste em criar uma ponte que interliga ficção à realidade política, não como uma estrutura artificial que surge de sua obra, mas como uma exposição da própria obra do escritor, que retratava exatamente seu pensamento político. Em meio ao caos que se formava ainda no início do século XX, Lovecraft fundaria seu jornal “O Conservador” no ano de 1915 onde expôs maior parte de suas ideias políticas até o ano de 1923; quem possui alguma aproximação com suas obras, certamente já notou que o maior medo de qualquer personagem é o medo do desconhecido, talvez o maior medo do próprio escritor: a vida fora de Providence.

Providence — como explicitado em seus escritos — era uma espécie de âncora para o autor; como grande conservador anglo-saxão de família protestante, era natural que a Nova Inglaterra fosse o terreno ideal para criar a divisa entre o mundo tradicional-aristocrático e o novo mundo que estava se formando: o mundo da democracia, do sufrágio universal, do cientificismo, do liberalismo e do materialismo como ethos dominante. Nada mais natural no caráter de um homem como sua reação extremamente violenta à qualquer coisa que está buscando destruir aquilo que ele ama; daí toda sua crítica aos ideias iluministas que romperam com o corpo orgânico da sociedade civil e com a aristocracia. Não à toa que o mesmo afirmou — logo após a ascensão de Mussolini na Itália — que “a democracia é um falso ídolo – um mero slogan e uma ilusão de classes inferiores, visionários e civilizações moribundas”.

Na visão de Lovecraft, tanto o Capitalismo como o Marxismo levariam o homem ao abismo através de intermédios que acabariam colapsando graças ao espírito economicista de ambos. Para Lovecraft, a compreensão de todo o problema foi imediata: a alteração dos corpos intermediários pela nova divisão do trabalho, o materialismo e a tecnocracia estavam acabando com qualquer sentido profundo no que diz respeito à Cultura e Herança — a Inglaterra é o melhor exemplo a ser citado. O cerne da obra do escritor surge como uma desilusão do espírito materialista e sua capacidade destrutiva no que diz respeito às Artes. A Arte, como função nobre, deveria ser nivelada pelo Estado que fizesse bons aristocratas e moldasse o povo com os mais elevados ideais.

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Por certo, tal função jamais seria exercida pela ciência moderna e, como o próprio autor afirma de maneira consciente, o próprio cientificismo acabará levando o homem ao desespero:

“A coisa mais misericordiosa no mundo, eu acho, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todos seus conteúdos. Nós vivemos em uma plácida ilha de ignorância no meio de um oceano negro infinito, e não era para que pudéssemos navegar para longe. As ciências, cada uma esticando a corda em sua própria direção, têm nos causado pouco mal até agora; mas algum dia esse mosaico de conhecimento dissociado nos legará um terrível paronama da realidade e de nossa amedrontadora posição neste lugar, tão terrível, que ou bem nós ficaremos loucos diante da revelação ou fugiremos covardemente da luz mortal para a paz e a segurança de uma nova Idade das Trevas.” (O Chamado de Cthulhu)

Mais do que nunca, hoje a ciência moderna possui um status quase religioso; seja por seus cultuadores ou pelas mãos que a administram como ferramenta do Biopoder. Em épocas pandêmicas — não apenas nos dias atuais — é que se nota o abuso irresponsável pelo qual a ciência ousa tomar as rédeas de todo código moral e jurídico para declarar quaisquer absurdos e parecer que isso se torne algo totalmente legítimo. Seja por isso ou pelo próprio ethos da comunidade científica que busca transcender todas as superstições populares, o fim é o mesmo que levou Charles Dexter Ward — o conhecimento é destrutivo. Isso é um dos pontos implícitos na obra de Lovecraft para explicar algumas das suas ideias um tanto spenglerianas a respeito dos rumos da modernidade.

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A Arte em sua forma pura e elevada é prezada pelo autor como uma grande ferramenta intelectual e moral do Estado para com os povos, ora por representar as grandes virtudes da conquista e herança, ou mesmo como um meio de educação superior que possa guiar os povos ao seu triunfo. Com a perversão de tal elemento, o mundo acaba caindo no caos e na deformidade. As descrições pavorosas feitas pelos protagonistas/narradores são exatamente o que a Beleza decadente representa em seu resultado: caos, destruição, medo, rancor.

Para Lovecraft o mundo moderno não é apenas o mundo que abandonou os valores fundamentais, mas o mundo que matou a Beleza. Por isso as mais impactantes cenas do horror lovecraftiano jamais seriam reproduzidos com sucesso no cinema, na pintura ou mesmo na música; não há forma alguma, dentro do pensamento humano, de demonstrar as colunas de R’lyeh com sua forma que transcende a Geometria, tampouco as notas tocadas por Erich Zann que jamais seriam alcançadas por qualquer ser humano ou criatura. A Modernidade, para Lovecraft, são como as pinturas de Richard Pickman em seu conto: feias, pavorosas, e tão perversas que a capacidade de descrevê-las é impossível e sua imersão pode levar à loucura instantânea.

É mais do que relevante que a obra de Lovecraft chegue com muito mais impacto nos círculos dissidentes e que a real abordagem de seus escritos seja levada em consideração para que assim se forme uma barreira muito mais sólida a quaisquer releituras heterodoxas de sua obra que pretende desconsiderar as posições pessoais do autor. O universo de Lovecraft é niilista, vazio, desesperador e moribundo, mas ainda sim há um navio branco que pode levar à Celephaïs, Ulthar ou pelas grandes cidades oníricas do oceano; por fim, no meio de tanto caos e desespero, ainda há uma esperança um tanto dostoievskiana: de que a Beleza salvará o mundo!

By Felipe Rotta

Felipe Rotta, 1997, é catarinense, cristão ortodoxo, graduando em Ciência Política, estudante de Língua Alemã e entusiasta de Filosofia.

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