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A reação pública condena aquele que enxerga a situação atual (das mortes pelo Covid-19) friamente, condena aquele que, em seu discurso, aparenta “não se comover” com o número de mortos. Se você defende o prosseguimento das atividades econômicas e esportivas e/ou não está arrancando a carne do rosto com as próprias unhas, olham-te como a um genocida. Acham estranho ou errado as pessoas “se acostumarem” com as mortes e desejarem seguir a vida — seu trabalho, seu comércio, seus projetos — a despeito delas. Mas adaptar-se às circunstâncias — seguindo em frente e assumindo riscos — é algo genuinamente humano. Se o homem sempre se afetasse emocionalmente e se desesperasse em momentos assim, sua existência seria impossível. Há países que não suspendem suas atividades nem em situações de guerra, ou países que vivem em guerra perpétua e ainda assim têm seu comércio, sua música, seu esporte, sua vida.

E o pior é que hoje tudo se apresenta como sendo “embasado cientificamente”: “Não sou eu falando, é a Ciência!” Para começar, no âmbito em que estamos falando, não existe algo como “a” Ciência: o que existem são cientistas! que se digladiam, competem, guerreiam; nunca há consenso; as universidades e centros científicos são campos de batalha. E nem sempre as teses que “vencem”, ou seja, que vêm à consagração pública, são as mais corretas e verdadeiras, e sim geralmente aquelas com mais força, com mais poder de fascinação coletiva ou com mais poder político. Um exemplo é o debate sobre a suspenção do futebol — que já vinha sendo jogado sem público. Os clubes fazem testes a todo momento. É um dos ambientes mais seguro para se trabalhar. Os números de infecções no futebol são irrelevantes, pífios, insignificantes. Mas nos debates se apresenta a decisão do Ministério Público como sendo embasada pela “Ciência”. Quando se mostra que a decisão não tem nada de “científica”, o apelo é emotivo: “Mas há tantas mortes…” Ora, então não é “Ciência”, é luto. Eis o perigo. A vida não pode se tornar um luto. Ela pode ser luto por certo tempo, mas é humano superar também isto, erguer-se e seguir em frente. Se for para ser “científico”, suspendamos as indústrias alimentícia e farmacêutica, que matam mais do que qualquer pandemia que já tenha assolado a humanidade.

E eu falo isto como alguém que quase perdeu familiares para a Covid-19, mas que também quase perdeu pessoas queridas por consequência do desgaste psicológico com o lockdown. Aqueles que se vão têm seus últimos momentos, que para os que ficam são suas últimas lembranças, e estas podem ser iluminadas como uma manhã no parque ou cinzas como um noticiário no sofá. A vida plasma-se na imagem de seus últimos dias: uma antessala cinzenta da morte.

Do que eu disse, pode-se discordar de algumas coisas, claro. Mas o fato é que isto que estamos vivendo é uma oportunidade para enxergar como nossa sociedade funciona, em especial a brasileira: nada é “científico”, tudo é político, e de uma política movida pela emoção. O brasileiro médio, que na manhã e no fim de tarde, ao acordar para ir trabalhar e ao chegar do trabalho, já era fustigado pelo sensacionalismo televisivo das mortes violentas, mantido nesse estado de medo durante todo o dia, nesse estresse constante, não poderia reagir bem a isto tudo. As condições mentais do brasileiro já não eram muito boas. Já liderávamos rankings de depressão, e nos de QI éramos os últimos (igualando pessoas com síndrome de Down). A alta nas taxas de morte do Covid-19, quase na contramão do mundo, não é só culpa do governo federal, é retrato de uma excepcional — e genuinamente nacional — incapacidade estrutural de lidar friamente com os problemas.


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches

By Carlos Alberto Sanches

Sociólogo de formação; Pesquisador de Antropologia, Metapolítica, Metafísica Tradicional e Tradição Perene

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