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Lembrando os 40 anos da morte do nacionalista Bobby Sands

Foi há quarenta anos: Bobby Sands morreu em 5 de maio de 1981. Este artigo da IRIS [revista republicana] conta a história dele, fala de como ele se sentiu levado a se engajar na luta pela causa republicana irlandesa e a frentificar a greve de fome de 1981 contra a criminalização de prisioneiros políticos.

Foi há quarenta anos: Bobby Sands morreu em 5 de maio de 1981. Este artigo da IRIS [revista republicana] conta a história dele, fala de como ele se sentiu levado a se engajar na luta pela causa republicana irlandesa e a frentificar a greve de fome de 1981 contra a criminalização de prisioneiros políticos.

Bobby Sands nasceu em 1954 em Rathcoole, área predominantemente lealista do Norte de Belfast. Completou 27 anos quando estava, havia nove dias, em greve de fome, que durou 66 dias até sua morte. Suas irmãs Marcella, um ano mais nova, e Bernadette, nasceram em abril de 1955 e novembro de 1958, respectivamente. Viveram seus primeiros anos em Abbots Cross, numa região do Norte de Belfast chamada Newtownabbey. Seu irmão, John, tinha dezenove anos em 1981, e seus pais, John e Rosaleen, tinham ambos 57 anos nessa mesma época.

As realidades do gueto em que morava em meio ao conflito étnico bem cedo afetaram a vida de Bobby: sua família foi expulsa da própria casa em 1962 por intimidação dos lealistas. Bobby se lembra de que na infância ouvia a mãe falar dos problemas de então: “Naquele tempo eu não tinha muita noção do que eram as detenções, não entendia muito bem quem eram os ‘especiais’ [milicianos protestantes], mas com mais idade eu passei a ver tudo isso como símbolos do mal”.

 

O próprio Bobby escreveria sobre essa fase o seguinte: “Eu era apenas um rapaz da classe trabalhadora que vivia num gueto nacionalista, mas foi a repressão que criou em mim o espírito revolucionário da liberdade. Eu não descansaria enquanto não libertasse a minha pátria, enquanto a Irlanda não fosse soberana, uma república socialista independente”.

Quando Bobby tinha dezesseis anos, começou a trabalhar como aprendiz numa indústria automotiva e passou a militar em seus sindicatos. Num artigo publicado no An Phoblacht/Republican News em 4 de abril de 1981, Bobby recordava aqueles dias: “Quando comecei a trabalhar, fiquei meio assustado, mas com o tempo passei a me sentir muito bem, principalmente quando recebia meu salário, no fim de cada semana. Festas, danças, garotas, roupas e um dinheirinho para gastar, tudo isso me deixou animado, era um mundo novo que se abria para mim”.

A formação de Bobby, suas experiências e aspirações não eram muito diferentes daquelas da maioria dos jovens que morava no gueto católico. Mas veio 1968, e os acontecimentos desse ano mudariam a vida de Bobby. Nessa altura, quando já tinha trabalhado dois anos como aprendiz, ele sofreu ameaças que o obrigaram a deixar o emprego. Sua irmã Bernadette falou desse episódio:

Numa manhã Bobby saiu para trabalhar, mas ao chegar à empresa topou com trabalhadores que estavam lubrificando armas. Um desses seus colegas, então, mostrando para ele uma arma, disse-lhe: “Ei, cara, está vendo isto aqui? O caso é o seguinte: suma daqui ou você vai levar bala”. Na ocasião, Bobby também encontrou na sua marmita um bilhete mandando que ele fosse embora.

Em junho de 1972, a família foi constrangida a se mudar de sua casa em Doonbeg Drive, Rathcoole, indo morar na área então recentemente construída de Twinbrook, subúrbio da região nacionalista de West Belfast [Belfast Ocidental]. A mesma Bernadette conta que a família sofreu intimidações por cerca de dezoito meses, até que acabaram saindo da residência. Ela diz que tinham amigos protestantes, que Bobby saía com católicos e protestantes. Mas acrescenta: “A amizade teria fim com o acirramento do conflito, quando então os amigos protestantes de longa data de Bobby foram aqueles mesmos que expulsaram minha família da própria casa onde morávamos”.

 

Além de perder o emprego e ser expulso do lar, Bobby também sofria agressões da parte dos lealistas.

Quando contava dezoito anos, Bobby aderiu ao Movimento Republicano. Bernadette recorda-se:

Nessa fase ele tinha começado a tomar consciência das coisas que aconteciam em seu contexto. Ele dizia que tinha que reagir, e sua reação começou pelo ativismo republicano. Um casal de nossos primos havia sido preso. Bobby sentia que devia se engajar na resistência, fazer alguma coisa… e fez.

O próprio Bobby escreveu:

Minha vida, naquele tempo, eu passava em noites de vigília, sempre de prontidão, sondando os Brits [ingleses], tentando acalmar os nervos, e então saía para cumprir a minha missão. Mas o povo estava conosco. Nossa gente abria as portas de suas casas, como também as portas de seu coração, para nos proteger da repressão. Eu aprendi que sem o povo nós não poderíamos sobreviver e que eu devia tudo ao povo.

Em outubro de 1972, ele foi preso. Quatro armas foram encontradas numa casa onde ele estava e ele foi acusado de posse ilegal. Ele passou os próximos três anos nas celas da Maze Prison [prisão também chamada Long Kesh, situada a 16 km a oeste de Belfast], sob a condição de preso político. Durante esse período, Bobby leu muito e como autodidata aprendeu o gaélico, que depois ensinaria aos outros “blanket men” [“homens do cobertor”: os paramilitares presos que se recusavam a vestir o uniforme dos presos comuns, o qual substituíam por cobertores] nos Blocos H [ala da prisão onde ficavam os prisioneiros políticos].

Bobby Sands morreu em greve de fome em 5 de maio de 1981

Libertado em 1976, Bobby voltou para a sua família em Twinbrook. Ele se apresentou à sua unidade local da Resistência e logo estava de volta à luta. Palavras dele, sobre o que se lhe deparou ao sair da prisão:

Muitas coisas haviam mudado. Algumas partes dos guetos tinham desaparecido completamente, e outras estavam sendo removidas. A guerra seguia em frente, mas as táticas e estratégias tinham mudado. O governo britânico tentava “ulsterizar” a guerra [alinhar-se sem disfarces com os protestantes do Ulster (Irlanda do Norte)], o que incluía a dupla tentativa de criminalização do IRA e “normalização” do estado de guerra.

Bobby passou a trabalhar lidando com os problemas sociais na região de Twinbrook. Aqui ele se tornou um ativista comunitário. Bernadette falou sobre isso:

Quando ele saiu da cadeia naquela primeira vez, nossa localidade não tinha a Green Cross [Cruz Verde: organização de assistência aos familiares de militantes republicanos mortos ou presos], não tinha o Sinn Féin [Só Nós: partido republicano], nem nada disso. Ele também passou a contribuir com a Associação dos Inquilinos… Ele resolveu o problema da falta de ônibus, estendendo para a área de Twinbrook o serviço dos táxis pretos [veículos cujos motoristas arriscavam-se a transportar pessoas durante a guerra]. A certa altura as pessoas batiam à porta da casa de Bobby para demandar a construção de lombadas nas vias, como forma de limitar a velocidade dos carros e assim evitar o risco de atropelamento de crianças.

Passados seis meses, Bobby seria preso novamente. Havia ocorrido um ataque a bomba na Balmoral Furniture Company, em Dunmurry, seguido de fuzilaria que deixou dois homens feridos. Bobby estava num carro nas proximidades com outros três homens. A RUC [Royal Ulster Constabulary: corpo paramilitar da repressão unionista] deteve-os e encontrou um revólver no carro.

Após morte de Sands, governo britânico proibiu candidatos condenados a penas de mais de 1 ano de se candidatarem a cargos políticos — Foto: Getty Images

O grupo foi levado para Castlereagh e submetido a interrogatório brutal durante seis dias. Bobby negou-se a responder às perguntas, informando apenas seu nome, endereço e idade.

Num poema de 96 versos, escrito em 1980, intitulado The Crime of Castlereagh, Bobby fala da sua experiência em Castlereagh, de seus medos e pensamentos naquele tempo.

Ele foi mantido em prisão preventiva por seis meses, até o seu julgamento em setembro de 1977. Como no julgamento anterior, Bobby recusou o seu reconhecimento à corte.

O juiz admitiu que não havia nenhuma evidência ligando Bobby e os outros com ele ao atentado a bomba. Assim, o grupo foi sentenciado a quatorze anos de prisão por porte ilegal de arma.

 

Bobby passou os primeiros 22 dias de sua pena confinado numa solitária na prisão de Crumlin Road. Durante quinze desses dias ele ficou completamente nu. Foi levado para os Blocos H e aderiu ao Protesto dos Cobertores. Ele começou a escrever para o Republican News e, depois de fevereiro de 1979, para o An Phoblacht/Republican News, órgão resultante da fusão dessas duas publicações, sob o pseudônimo de “Marcella”, nome da irmã. Seus artigos e cartas, escritos com letras bem miudinhas em pedacinhos de papel higiênico, eram clandestinamente levados para fora da prisão, como todo manuscrito dos Blocos H.

Ele escreveu: “Os dias eram longos e solitários. A súbita e total privação da satisfação de necessidades humanas básicas como exercícios físicos, ar fresco, convivência com outras pessoas, minhas próprias roupas, além de jornais, rádio, cigarros, livros e outras coisas faziam minha vida bastante difícil.

“No cobertor” nos blocos H

Bobby tornou-se relacionista [“relações públicas”] dos homens dos cobertores e estava sempre em confronto com as autoridades da prisão, o que lhe valeu períodos de confinamento em solitárias. Nos Blocos H, espancamentos, dietas de fome, celas de castigo, tortura eram coisa corriqueira. Os dirigentes da prisão, com o pleno conhecimento e consentimento das autoridades britânicas, impunham aos prisioneiros regime severo e brutal, com isso tentando quebrar a resistência dos presos ante a sua criminalização.

Os Blocos H passaram a ser o campo de batalha onde o espírito republicano confrontava todas as atrocidades que os ingleses podiam perpetrar. O espírito republicano prevaleceu e em abril de 1978, como forma de protesto contra os sistemáticos maus-tratos, os presos deixaram de usar os sanitários, onde eram molestados, e passaram a fazer suas necessidades nas próprias celas, que assim se encheram de fezes e urina. Em fevereiro de 1980, esse protesto teve a adesão das mulheres presas na Prisão de Armagh, onde também estavam sujeitas ao mesmo indigno tratamento.
Em 27 de outubro de 1980, na sequência do fracasso das negociações entre o secretário de Estado para a Irlanda do Norte, Humphrey Atkins, e o primaz católico irlandês Tomás O’Fiaich, sete prisioneiros nos Blocos H entraram em greve de fome. Bobby apresentara-se como voluntário para participar do movimento, mas o comandante Brendan Hughes dispensou-o do jejum e, em lugar de Bobby, entrou em greve de fome.

Com Brendan Hughes em greve, Bobby passou a ser o comandante dos prisioneiros e foi politicamente reconhecido. Funcionário graduado do governo britânico visitou os grevistas. Um dia depois, Bobby pôde visitá-los no hospital da prisão, a 800 metros de distância. No seguimento, ele foi autorizado a se encontrar com Brendan Hughes, o que fez por várias vezes. Ele não participou da decisão de encerrar a greve, tomada apenas pelos sete grevistas [para salvar a vida do mais debilitado entre eles, Seán McKenna]. Na noite desse dia do final da greve, Bobby reuniu-se com eles e ainda visitou chefes republicanos presos nos pavilhões 4, 5 e 6 dos Blocos H.

[Logo, porém, os ex-grevistas sentir-se-iam traídos, pois as ambíguas promessas que também pesaram na decisão de encerrar a greve não foram cumpridas pelo governo britânico]. Em 19 de dezembro de 1980, [insistindo na pauta do movimento], Bobby declarou que os presos não iriam vestir as roupas da prisão nem iriam trabalhar como internos. Negociações foram encetadas com o diretor da prisão, Stanley Hilditch, buscando-se desescalar gradualmente o protesto.

 

Entretanto, os esforços dos presos nesse sentido não foram aceitos pelas autoridades: “Nós descobrimos que a nossa boa vontade, que a nossa flexibilidade, que isso tudo foi em vão”, escreveu Bobby. “Ficou bastante claro, durante uma das minhas reuniões de ‘cooperação’ com os dirigentes da prisão, que eles queriam conformidade total, o que significaria, essencialmente, que deveríamos aceitar a condição de criminosos comuns”.

Nos Blocos H, os ingleses viram a oportunidade de derrotar o IRA, criminalizando aqueles que se batiam pela liberdade irlandesa. Por outro lado, os homens dos cobertores, talvez ainda mais do que os militantes de fora da prisão, dispunham-se a explorar as repercussões graves de tudo o que ali poderia acontecer no seguir da luta. Então, seguiram lutando.

Bobby enunciou seu desejo de frentificar nova greve de fome. Ele via na situação prisional o microcosmos de tudo quanto se passara historicamente e se passava então nas relações desiguais da Inglaterra com a Irlanda, no tratamento opressivo que o Império impunha à Irlanda. Bobby achava que para conquistar o reconhecimento político alguém teria que morrer e que esse alguém poderia ser ele mesmo.

Ele insistiu em começar a greve duas semanas antes dos outros, de sorte que sua morte pudesse levar ao atendimento das cinco reivindicações, evitando assim que os companhos também morressem. Durante os primeiros dezessete dias da greve de fome, Bobby manteve um diário. Ele escrevia seus pensamentos e visões, fazendo-o em língua inglesa quase sempre, mas também enxertava trechos em gael. Não tinha medo da morte e via a greve de fome como alguma coisa muito maior do que as cinco demandas, pois o impacto das repercussões poderia afrouxar as tenazes do domínio inglês sobre a Irlanda. O diário foi escrito em papel higiênico com caneta esferográfica e tinha de ser escondido. Bobby ocultava a maior parte dos escritos dentro de seu próprio corpo. Naqueles dezessete dias iniciais da greve, Bobby emagreceu sete quilos. No dia 23 de março, uma segunda-feira, ele foi removido para o hospital da prisão.

 

No dia 30 de março, ele foi lançado candidato a deputado na eleição suplementar nos condados de Fermanagh e South Tyrone, causada pela morte inesperada de Frank Maguire, deputado independente que defendia a causa dos prisioneiros.

Na manhã seguinte, dia 31 da greve, ele recebeu a visita de Owen Carron, que o representava como seu agente eleitoral. Owen descreveu o que viu nessa visita a Bobby: “Em vez de encontrar aquele homem jovem que os cartazes mostravam de cabelos compridos e face louçã, quando Bobby ainda não estava tão mau, deparou-se-me um homem radicalmente demudado de si mesmo. Sua figura tênue era a de um homem escaveirado de cabelo curto”.
Bobby não tinha dúvida nenhuma de que venceria as eleições. Sua reação não indicava demasiado otimismo. Depois de anunciado o resultado, Owen visitou Bobby:

Ele já sabia do resultado pelo rádio. Estava em boa forma, apesar de macérrimo, mas dizia que ninguém na situação dele poderia se dar ao luxo de ser otimista. Em outras palavras, ele não tinha por certo que a vitória na eleição salvaria a sua vida. Ele achava que os brits ainda cobrariam mais um quilo de sua carne. Eu penso que Bobby havia sempre considerado a premissa de que era seu dever abraçar o martírio.

Na madrugada do dia 5 de maio, terça-feira, à 1h17min, depois de passar 65 dias em greve de fome, o deputado Bobby Sands morreu no hospital da prisão dos Blocos H em Long Kesh. Bobby foi pessoa de grandeza extraordinária, sua perda é realmente inestimável. Ele nunca se deu um momento de descanso. Ele viveu sua vida energicamente, devotou-se a seu povo, à causa republicana e a todos com que compartiu oito anos de sua vida adulta. O caminho da luta, que Bobby Sands palmilhava sem claudicar, levou-o às altíssimas paragens da extrema abnegação, onde sacrificou a sua vida, dando testemunho de seu compromisso indesmentível com a libertação da pátria subjugada.

Suas palavras: “É claro que os ingleses podem me matar, mas eu continuo sendo o que sou, ou seja, o preso político de uma guerra, e isso eles não podem mudar”.


Fonte: Irish Republican News. Data de publicação: 30 de abril de 2021. Versão brasilesa: Chauke Stephan Filho.

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