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Não raramente, eu me pego a conversar com meus amigos a respeito da estação de inverno, seus bons momentos e os que ainda virão. No geral não se trata apenas de algumas pessoas desejando que o frio chegue o mais rápido possível, mas um fator que caracteriza uma particularidade de nossa região, ou melhor, de todo o Sul.

Há determinados casos em que a expressão mais íntima da existência é demonstrada através d’um fator relevante que penetra o âmago do Ser. Uma música, um poema, um filme. No ethos catarinense, o inverno.

Conheço a música do Lebensessenz há muitos anos, mas nunca teci comentários ao nível das pessoas se perguntarem: “Por que raios um projeto musical Neoclássico/Minimalista oriundo de Ponta Grossa-PR me chamaria a atenção?”. Digo que uma pergunta dessas pode servir para qualquer tipo de coisa que se desconhece, ainda mais se tratando de algo que talvez a pessoa sequer compreenda.

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Aos bons conhecedores, toda a produção refinada, a emoção em cada acorde, a estética à lá Idealismo Alemão e a poesia que se ouve em cada título poderia bastar para definir o que é a música do Lebensessenz. A ideia é ir mais longe que isso.

Meu primeiro contato foi com “Tage der Nostalgie”. Por ironia do destino — ou não — era um agradável inverno e estava começando a me aventurar nas páginas de “Ser e Tempo” de Martin Heidegger pela primeira vez. Isso poderia ser uma sensação de nostalgia e um gatilho a relembrar daqueles tempos, mas em específico, nostalgia não é uma mera lembrança. O que define nostalgia é um fator inconsciente no presente que será lembrado no futuro: a realização de alguma coisa trivial sem ao menos saber que será a última vez que estará praticando; no fim das contas, aquilo que chamamos nostálgico não é senão algo existente no presente e no futuro que é impossibilitado de se manifestar.

 

Edmund Husserl escreve com maestria a respeito dessa concepção consciente e inconsciente em relação às variações temporais. Na Fenomenologia, a questão temporal como fenômeno moldado é repentino, igual a ouvir uma canção: enquanto você pensa em refletir o presente, ele já se tornou passado em definição. O passado é fácil imaginar, pois ele tem sua linha contínua com o presente (o agora), no entanto, o futuro é um pouco mais delicado em questão: não há uma linha que acentue o passado e o presente no futuro sem a consciência do passado no presente e vice-versa. Aí se encaixa a questão da nostalgia: é uma ação inconsciente no presente e sua trivialidade é inconsciente. A ausência de qualquer anseio de que esta ação simbólica possa ecoar no futuro é uma marca; a consciência de tal ação do passado no presente é o que a delimita, e a falta de manifestação deste passado no presente ou futuro e a posterior frustração é o que a define por excelência.

Por isso que a nostalgia, pois mais bela e sutil que seja, sempre terá um teor melancólico; a música do Lebensessenz não é diferente, pois é a música nostálgica por excelência. A melancolia das doces notas trazem uma sensação lúgubre em que a imaginação do passado e a idealização de um futuro não-existente acabam se tornando motivo de reflexões a respeito da existência. Não por acaso “Die letzten Momente von Werther” se apresenta como trilha sonora ideal a se ouvir apreciando o clássico de Johann Wolfgang von Goethe; o piano é o próprio murmúrio do protagonista. É a verdadeira música existencialista!

 

Lebensessenz é a pura expressão do espírito de inverno. Para quem vive no Sul e está acostumado ao velho ciclo de enfrentar o calor e regozijar as geadas, não há nada mais frustrante que ver o inverno desaparecendo diante dos nossos olhos. Eu costumo dizer que as “canções frias de inverno” não são necessariamente para se ouvir no inverno, mas para ouvir no calor com o fim de rememorar as grandes manhãs em que o gelo brilha nos gramados. Afinal: há canções que possuem uma aura tão forte ao ponto de baixar a temperatura.


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By Felipe Rotta

Felipe Rotta, 1997, é catarinense, cristão ortodoxo, graduando em Ciência Política, estudante de Língua Alemã e entusiasta de Filosofia.

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