O Paganismo de Alain de Benoist e a Filosofia de Martin Heidegger

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Em seu ensaio “Como ser um pagão”, Benoist nos convida a redescobrir as antigas fontes pagãs a partir das quais a grandeza futura pode fluir novamente. As chamadas religiões pagãs que durante vários milênios os povos da Europa praticaram constituíram um sistema de representações, de valores, de figuras específicas. Eles foram a estrutura e o apoio espiritual de numerosas culturas e grandes civilizações das quais somos, direta ou indiretamente, seus herdeiros.

A tradição pagã (ou, mais geralmente, a referência à antiguidade) não cessou, em várias escalas, para inspirar escritores e artistas. A maioria dos românticos alemães, começando com Schelling, Góres ou Novalis, se opunham a um mundo moderno considerado sem alma a memória de um mundo antigo onde, como disse Schiller, “tudo era o vestígio de um deus”.

O paganismo é o oposto de dar liberdade aos instintos e submergir nos bacanais decadentes de sua época decadente. O paganismo, por outro lado, coloca uma relação fundamentalmente religiosa entre o homem e o universo. O paganismo é uma fé que repousa sobre a ideia do sagrado, e sagrado significa respeito incondicional a tudo. O paganismo não é somente o retorno ao passado, mas à origem pura; trata-se de reunir a história com o hoje, unindo-nos ao eterno, fazendo-o refletir, retornando à escola do mythos e da vida.

Dentro dos valores pagãos podemos podemos citar: Ética baseada na honra; Atitude heroica a inconveniências da existência; Exaltação e sacralização do mundo; Força e saúde; rejeito aos paraísos e infernos; Inseparabilidade da estética e da moral.

O paganismo não podia separar o bem do belo e isso é bastante normal, já que os bons são, antes de mais nada, as formas mais bem acabadas deste mundo. Para os gregos, a arte era a forma mais alta sob a qual o povo representava os deuses.

O pagão acredita que um deus que pertença a este mundo não é um deus, já que Deus é o elemento único e distinto deste mundo.

No paganismo, a figura do herói assume uma posição importante, que é um intermediário entre os dois níveis, isto é, um semideus. Os deuses são homens e homens imortais são deuses mortais. Nossa vida é sua morte e nossa morte é sua vida.

Batalha de Thor contra o Jötnar, por Mårten Eskil (1872). Repare a suástica no cinturão do Deus. (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

A reivindicação do paganismo é, quiçá, um dos elementos mais originais e surpreendentes do pensamento da Nova Direita (A partir daqui, ‘ND’) em geral e de Alain de Benoist em particular. Neste artigo tentaremos estudar este aspecto do grande pensador francês e relacioná-lo com a filosofia de Martin Heidegger.

Em seu livro “Como se pode ser pagão?” e em uma entrevista publicada na revista Hesperides, de Benoist explica o pano-de-fundo filosófico de sua reivindicação do paganismo, diferenciando-a de outras reivindicações folclóricas ou sincretistas, do tipo “Nova Era”, e relacionando-a com sua crítica ao cristianismo (pelo menos ao cristianismo primitivo) como fundamento teológico do igualitarismo, do progressismo e da metafísica da subjetividade.

Há, em primeiro lugar, uma busca das raízes. Durante milênios os povos da Europa praticaram religiões habitualmente denominadas “pagãs”, expressão inicialmente pejorativa. Estas religiões foram sistemas de representação, de valores, de figuras, que serviram de impulso espiritual e de marco referencial a inúmeras culturas e civilizações das quais somos herdeiros, ainda que não exclusivamente. Os ensinamentos que podemos extrair do estudo desses sistemas de representação são válidas para todos os tempos, inclusive o nosso. Quando o mito nos diz que após casar-se com Têmis, deusa da ordem e da justiça, Zeus engendrou as Estações e os Destinos, nos é dito algo mais que um simples relato. A sorte reservada a Prometeu nos ensina algo sobre as consequências do desenfreio técnico, enquanto que o preceito délfico “nada em excesso” nos ajuda a compreender o caráter perverso da tendência moderna do “cada vez mais”.

As religiões pagãs foram combatidas pelo cristianismo, portador de um sistema diferente de representação, e que encarava o fato religioso de uma forma completamente distinta. Os cristãos denunciaram o paganismo, a princípio, como um culto rendido a “ídolos” ou demônios. Depois optaram por se apropriar de tudo aquilo que pudesse ser resgatado da tradição pagão que não atentasse contra os fundamentos de sua fé. Muitos lugares de culto mariano haviam sido santuários pagãos da “deusa-mãe”, e o culto aos santos rememorava o politeísmo. Festas pagãs como o solstício de inverno se converteram no Natal cristão, e o de verão na festa de São João. Em outro nível se produziu também uma “recuperação” dos grandes filósofos da Antiguidade, como Platão e Aristóteles para o pensamento cristão.

Com o cristianismo aparece a intolerância religiosa, coisa desconhecida no paganismo. As perseguições pagãs contra os cristãos se fundamentavam em elementos políticos e não religiosos (sua negação da autoridade do Imperador). Depois do edito de Constantino o paganismo é tolerado, mas já é proibido no ano 392 e apenado com a morte no ano 435. Se inicia a era das guerras religiosas e das heresias (conceito desconhecido no paganismo). A intolerância cristã, fundada sobre o imperativo da conversão e sobre a crença em um bem e um mal absolutos dá lugar a uma sociedade estruturalmente perseguidora, onde uma parte dela é acusada de encarnar o “mal”, sejam pagãos, hereges, judeus, “leprosos”, “sodomitas”, “bruxas”, etc.

Assim vemos que se no plano doutrinário não há coincidência possível entre a teologia cristã e a ontologia pagã, no plano histórico e sociológico, o cristianismo (especialmente o catolicismo e o cristianismo ortodoxo) se apresenta como uma espécie de fenômeno misto, com um politeísmo latente, manifesto através do culto mariano e dos santos. As manifestações “pagãs” do cristianismo estão mais próximas à interpretação tradicionalista do mesmo, enquanto que as correntes modernistas, tal como a Reforma Luterana e todas as igrejas protestantes que surgem da mesma são as que se esforçam para eliminar estes resíduos paganizantes e “voltar às origens”.

Em ocasiões se associa paganismo com ateísmo, o que é absurdo. De fato, a palavra “deus” é de origem pagã e tem sua origem na designação indo-europeia para céu diurno (dyew-). A Bíblia não fala em momento algum em Deus, mas em Javé, Adonai, em Elohim, Eterno, Pai, Messias, Cristo. A possibilidade de ateísmo aparece com o cristianismo, como seu inverso. No paganismo o ateísmo carece de sentido.

O específico do cristianismo (e de outras religiões inspiradas na Bíblia) não é tanto o monoteísmo (matizado pelo culto mariano e dos santos no catolicismo e no cristianismo ortodoxo) mas sua ontologia dualista do Ser criado e do Ser não-criado. Onde se contém toda a fé cristã não é tanto nas primeiras palavras do Credo “credo in unum Deum”, mas sim nas seguintes “patrem omnipotentem, factorem coeli et terra”. É a distinção fundamental entre as religiões abraâmicas, que são históricas (a ideia de história linear aparece com o cristianismo) das religiões pagãs, que são “cósmicas”. Este caráter dualista do cristianismo fica expressado à perfeição na fórmula do IV Concílio de Latrão “Entre o Criador e a criatura nenhuma semelhança pode ser afirmada sem que ela implique uma dessemelhança ainda maior”.

A consideração do mundo como uma criação contingente que, por definição, nada agrega à perfeição de seu criador, automaticamente produz uma desvalorização desse mundo. Dessacralizado e profanado (quer dizer, lançado ao âmbito profano), o mundo já não forma parte de um “cosmos” harmônico, no qual os homens e os deuses coexistem, mas é um simples objeto que pode ser entregue à racionalidade técnica. Abre-se assim o caminho da secularização, do “desencantamento” e do ateísmo.

É um erro pensar que os pagãos veneravam seus deuses como os cristãos adoram o seu. Imanente e transcendente ao mesmo tempo, o deus cristão só existe a partir de si mesmo, como autossuficiência absoluta, como realidade absolutamente condicionada, e assim é como se revela ao homem. No paganismo não há revelação, mas desvelamento ou epifania. O mundo é transparente ao divino. Por outro lado, enquanto que no cristianismo a relação do homem com Deus é essencialmente hierárquica (devo obedecer a Deus), no paganismo a relação do homem com os deuses é, antes de tudo, da ordem do dom e do contra-dom: os deuses me dão e eu dou as deuses. O sacrifício não é tanto um testemunho de obediência como uma forma de manter e contribuir para a ordem do cosmos.

Cosmo (do grego antigo ‘κόσμος’, que significa ‘ordem’) é o universo em seu conjunto, toda a estrutura universal em sua totalidade, desde o microcosmo ao macrocosmo. O cosmo é a totalidade de todas as coisas deste Universo ordenado, desde as estrelas, até as partículas subatômicas. (Imagem: Reprodução)

No paganismo os deuses não são a última instância, porque os próprios deuses são colocados no horizonte da questão do Ser, e é aqui onde podemos relacionar o paganismo com a metafísica de Heidegger. Neste sentido é esclarecedor citar as admiráveis palavras do proto-filósofo grego Heráclito: “Este mundo, o mesmo para todos, não foi feito nem pelos deuses, nem pelos homens. Sempre esteve aí e sempre estará. Fogo eterno que ora se acende, ora se apaga”. O mito situa o destino por cima dos deuses.

Em sua separação radical da metafísica e da ontologia, Heidegger restitui em toda sua plenitude a concepção pagã do Ser. O Ser devêm: não é o mundo, mas não pode ser sem ele. A grande crítica de Heidegger à metafísica ocidental é que tenha prosperado às custas do esquecimento do Ser e que haja estabelecido as condições para o agravamento constante de tal esquecimento. A metafísica ocidental considera o Ser como razão necessária, como mera causa primeira do ente. Esta via terminou por desembocar na subjetividade moderna, que não é outra coisa que a metafísica realizada. Para Heidegger, o alvo de todo labor de pensamento não consiste em especular sobre a razão do Ser do ente, mas meditar sobre o fato de que há algo e não nada. E é precisamente o paganismo primigênio o que se origina na perplexidade do homem lançado ao mundo, que pousa seu olhar surpreso ao seu redor e pergunta “Por que há algo e não nada?” que mais se aproxima a esta pergunta heideggeriana.

Para Heidegger é a Grécia antiga o momento “auroral” do pensamento. Mas não se refere, como outros, a Platão ou a Aristóteles, pois estima que a filosofia desses autores já repousa sobre sua própria inadequação à essência da verdade. Há que ir mais longe, aos filósofos pré-socráticos nos quais se confunde a cosmologia pagã com os inícios da filosofia, antes que a metafísica incipiente começasse a pensar o Ser como razão suficiente do ente. Para Heidegger o diálogo com os pensadores gregos das origens ainda está por começar.

Neste sentido, o discurso de Alain de Benoist, assim como o da Nova Direita em geral, tem muito em comum com o dos autores da Revolução Conservadora. A busca das raízes do individualismo e do niilismo contemporâneo leva às próprias origens da civilização ocidental. Não basta, como faz a velha direita tradicionalista, culpar o comunismo, a Revolução Francesa ou o Iluminismo. Para Benoist, no cristianismo se encontram as raízes do individualismo e do igualitarismo que destruíram as antigas civilizações holistas, daí sua reivindicação do paganismo. Heidegger vai mais longe, e vê na metafísica do Ser de Parmênides as origens mais remotas da “coisificação” do mundo contemporâneo. Toda a história da metafísica ocidental é a história do esquecimento do Ser.

Quando Heidegger fala da “origem” não remete a um acontecimento primitivo nem a um lugar determinado. Significa, acima de tudo, aquilo a partir do que a coisa é o que é, quer dizer, de onde provém sua essência. No paganismo não se pode ir senão para além de onde se provém, à dação primeira, onde o Ser se confunde com o dom inaugural que faz concordar o homem com a totalidade do mundo, sem restar nada do que lhe é próprio. Este retorno aos fundamentos não exclui nenhuma influência posterior; não busca destilar um elemento mais puro que os outros, se limita a reconhecer o papel determinante do fundacional. O “passado” domina a experiência espiritual simplesmente porque a memória constitui um terreno privilegiado para o enraizamento do sagrado. Toda consciência espiritual é consciência de um fundamento ligado à origem, sem ser para isso antagonista da história.

A história está aberta às influências mais diversas; a consciência da origem as põe em perspectiva estimulando a faculdade da memória. O recurso à memória se encontra hoje abertamente enfrentado à ideologia dominante, que só se inscreve no instantâneo (o perpétuo presente) e na operatividade. Por isso a memória pressupõe um contrapeso vital à onipotência dos processos de dominação da realidade, que funcionam somente nos registros da imediatidade e da eficácia.

Outro aspecto interessante da reivindicação do paganismo que fazem Alain de Benoist e a Nova Direita é o das relações religião-ética-moral. O cristianismo é, obviamente, uma religião moral, já que sua razão de ser é oferecer a possibilidade da “salvação”. A falta moral coincide com o pecado, quer dizer, a transgressão dos mandamentos de Deus. O reverso é que “se Deus não existe, tudo é permitido”. No paganismo as coisas funcionam de outra maneira: os deuses não estão aí para castigar as transgressões da moral, e eles próprios podem cometer atos “imorais”. Significa isso que os pagãos estavam livres de toda norma ética? Evidentemente não. Simplesmente, a religião não é fundamento da moral.

Quando Sêneca ou Marco Aurélio, desde a filosofia estoica, pregam a benevolência e a generosidade não a fundamentam em um mandato dos deuses. Aristóteles escreve a “Ética a Nicômaco” depois de ter negado a imortalidade da alma. A moral pagã não é uma moral de retribuição, não espera uma recompensa. O homem não espera ser “salvo”, mas ajudado a construir a si mesmo.

A humanidade não esperou a chegada do cristianismo para se propor preocupações morais. Uma sociedade que não distinguisse entre o bom e o ruim simplesmente não poderia existir. São risíveis as afirmações de que para um pagão não existia o bem e o mal, ou inclusive as que assemelham o paganismo ao hedonismo liberal que prega “faz o que queiras enquanto não prejudique aos outros”. Aristóteles (Política 4,9) definiu a moral como “virtude herdada”, segundo a qual a fonte fundamental da moral seria a plasticidade humana. O homem não está totalmente determinado por seus instintos, tal como mostrou a moderna etologia, nem tampouco seus instintos estão completamente programados em relação a seu objeto e a seu meio. Daí resulta que o homem está sempre em situação de se construir ou de se perder, de minguar ou de crescer, e que a realização de seus desejos pode significar igualmente sua destruição. Ao não estar integramente determinado por sua natureza, ao ser capaz do melhor e do pior a um tempo, o homem só pode se construir por meio de um código moral que dê sentido a estas palavras: o “melhor” e o “pior”. Neste sentido se pode afirmar que a moral, inclusive antes de ser inculcada e aprendida, se funda em uma disposição (hexeis), no sentido aristotélico do termo.

A diferença entre os pagãos e os cristãos não é, em absoluto, uma diferença “moral”, no sentido que uns se conduzam moralmente melhor que outros. Mais exatamente se refere aos fundamentos e motivos do ato moral e aos valores que uns e outros fazem prevalecer. No cristianismo a piedade é o fundamento interno para a relação moral com o próximo. Essa ideia é alheia ao paganismo; para ele existem outras formas de reconhecer a valia dos demais, formas que não se limitam a experimentar a piedade. O paganismo não eleva um juízo moral sobre o mundo; para ele só há um único Ser, nem há bem superior a este Ser. Frente à moral cristã, baseada na “culpa” e no “pecado”, o paganismo pratica uma moral da virtude e da honra.

A reivindicação do paganismo por parte de Alain de Benoist e outros autores da Nova Direita não só remove os cimentos do pensamento ocidental. Põe sobre a mesa um fato fundamental: as religiões são sistemas de valores e formas de vida e não, como pretende a estúpida ideologia moderna, algo que pertence à privacidade.

Publicado originalmente em 30/2014.

Texto adaptado para o português de Página Transversal

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Josep Alsina Calves

Josep Alsina Calvés, 1954, nascido em Ripoll, é ativista nacionalista espanhol. Ex-presidente daSomatemps e diretor da revista Nihil Obstat, que muito criticava a teoria oficial do Holocausto Judaico, também foi um dos fundadores da Sociedade Civil Catalã (SCC, Societat Civil Catalana).

Formou-se em Biologia na Universidade de Barcelona e fez mestrado em História das Ciências obtendo PhD em Filosofia na Universidade Autônoma de Barcelona, trabalhando como professor de ciências naturais no ensino secundário.

Filiado ao Partido Nacional Socialista Espanhol (PENS) aos 17 anos, passou pela New Force, MSR e SyL.

Defensor da da hispanidade da Catalunha acredita em uma Espanha formada por uma única entidade política, que se opõe às múltiplas nacionalidades e entidades políticas da Espanha desenvolvidas através dos séculos na Península Ibérica.

Também defende a teoria da doutrinação no nacionalismo catalão através do sistema de ensino catalão-espanhol.

Outros trabalhos intelectuais envolvem publicações relacionadas à História Natural, biotecnologia, filosofia e política. Entre seus livros estão:

"Historia de la Geología: Una introducción" e "Etología, ciencia actual".
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