Uma Declaração de Guerra

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Nota preliminar: declaração de guerra fictícia, de fragmento de um exercício literário particular do autor que benignamente autorizou sua publicação.

 

“Súditos, povo, amigos.

“O mal que os homens fazem sobrevive, porém o bem quase sempre é enterrado com seus ossos. […]

“Sei que muitos não aprovaram minha decisão. Eu mesmo não tive certeza sobre qual caminho tomar. Mas um Rei, como diz o título, deve não apenar reger, mas ser régio. Deve saber decidir com firmeza. Não fraquejar. Fiz o que fiz pelo melhor. Nosso dia finalmente chegou e não precisamos de nenhum salvador, como dizia a velha profecia. Minhas mãos foram o instrumento divino, se assim quiserem, para nossa libertação.

“E agora, preciso dizer-lhes: estão livres. Livres como merecem. Mas a liberdade cobra seu preço. E este preço é o desconhecer profundo de nossa atual condição. Os pais dos pais de seus pais já eram escravos desta escuridão. Eu estive na superfície e lutei na frente de batalha contra os humanos, como todos sabem. Mas isto significa pouco agora. Estrelas e impérios caíram neste meio tempo e estou tão inquieto quanto vocês. No entanto, obtive algumas informações do último infeliz humano que me procurou e elas são interessantes.

“Humanos, diferentemente de nós, entediados por não terem mais “demônios”, como nos chamavam, contra os quais guerrearem e sem os quais culparem por seus erros e mesquinhez, decidiram há muito matarem-se uns aos outros pelas razões mais inusitadas. O ouro que a nós possui tanto valor quanto um punhado de flores, por exemplo, a eles fez-se num jarro de sangue e ossos. São em tantos que vivem em caixas de concreto uns sobre os outros, empilhados e acotovelados. Chamam a isso de edifícios, embora sufocantes caixas cimentadas não edifiquem nada nem ninguém. Sob muitos aspectos são semelhantes a nós: roupas, aparelhos domésticos, móveis, alimentos. São menos adaptáveis ao clima adverso que nós. Não são dotados de magia, disto sabem bem. Por tal, têm tecnologia superior. Mas a segunda consequência disso é que estão mais fracos do que nunca. Obesos, preguiçosos e inúteis de um lado, adoecidos, ignorantes e exaustos de outro. Há lugares de extrema pobreza e outros de extrema fartura, mas em ambos uma miséria espiritual digna de nossa compaixão. Não se interessam, não se amam, não se conhecem uns aos outros há séculos, então vivem todos na mais assustadora indiferença e egoísmo. Em resumo, estão mais fracos, insulados e próximos da aniquilação do que jamais estiveram. São muitos em quantidade, mas poucos em relevância. E são ainda muito menos aqueles que poderão fazer-nos algum mal com o uso de sua pretensa razão. É justamente por não fazerem mais uso deste poder que decaem a passo lento.

“Então, meus filhos, o momento é propício!

Eu lhes prometi um dia lavar a Terra desta raça sanguinária e mentirosa e aqui estou para reafirmar esta promessa! Serei o primeiro a atravessar os muros com armas em punho, seguido de meu braço direito, nosso Alto Comandante e cada membro de minha respeitada Guarda. Abriremos caminho, se necessário, sobre os cadáveres destes descendentes de carrascos!”

[…]

“Lembrem-se de vossos pais, avós, de todas as gerações que aqui sofreram, choraram e entoaram hinos de esperança! O dia da luz chegou e ele convoca por heróis, lutadores, corajosos, homens e mulheres com fogo no coração! E quando estivermos novamente em paz, com as estrelas reluzindo os sorrisos de nossas crianças e cada indivíduo tiver encontrado seu lugar e livre para conquistar seu propósito, lembrem-se de que sacrifícios foram feitos para o alcance desta tão sonhada felicidade. Desejo que encontremos através de meu tridente, finalmente, um lugar sob o Sol.

“Avante! Soldados! Meu povo! Avante!

 

Imagem do título: “O Juramento dos Horácios”. Obra de 1784 do pintor francês Jacques-Louis David. Apesar de ter sido pintado cinco anos antes do começo da Revolução Francesa, ilustra os ideais artísticos do neoclassicismo.

Mostra os três irmãos da gene dos Horácios fazendo a saudação romana, no qual juram que lutarão pela República Romana, embora sua decisão traga sofrimento a suas famílias. A pintura simboliza o princípio segundo o qual o dever público, o sacrifício pessoal, o patriotismo e a defesa das convicções tomadas em consciência são valores superiores à própria segurança, ou seja, aos seus interesses. – Enciclopédia Delta Universal, vol.12, p. 6396.

Ver também:

Jonas Otávio Bilda: Filosofia Poética e Psicologia para quem Pensa Diferente

 

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Jonas Otávio Bilda

Livre-pensador. Psicólogo, licenciando em filosofia e autodidata em história, religião, literatura e política. É autor de pesquisa acadêmica sobre psicologia clínica em “O Alvorecer das Artes do Ser” (2016) e de ensaios filosóficos sobre educação em “Cartas de um Solícito Acompanhante” (2018), ambos lançados pela Editora Multifoco.
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