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Questão que me foi lançada: “Um país que deixa tantos criminosos impunes acaba criando uma cultura de idolatria em cima desses caras? Já escutei muito relato que antigamente isso acontecia, talvez seja o fenômeno gerado pelo tal ‘Direitos Humanos’ sendo cláusula pétrea“.

Isso é real. Mas há muitas coisas a considerar. Para começar, a idolatria de criminosos não é exclusiva ao Brasil ou de países que “deixam criminosos impunes”. Até em países com pena de morte ela existe. Nos EUA ela existe, a seu modo. Ao menos é o que se observa daqui, pela produção cultural que nos chega. Os serial killers [assassinos em série] lá se tornam personagens folclóricos, são assimilados pela cultura popular tanto quanto aqui (ou até mais). O que os Direitos Humanos fizeram (não enquanto direitos em si mas enquanto campanha cultural) foi estimular uma postura “compreensiva”: “humanizar” o criminoso; e tendemos sempre a simpatizar com o que se nos mostra mais “humano”. Para ilustrar: o filme A Queda foi proibido em certos países justamente por mostrar um Hitler “humano” em vez de um demônio. Ou seja, é sabido que humanizar resulta em simpatizar.

Mas há outro extremo, o oposto: despir completamente o criminoso de humanidade, seja quem for, um ladrão de galinha ou um estuprador, igualá-los na categoria “bandido”, tipo este que foi forjado no forno discursivo de programas de rádio/tv como os de Alborghetti e Datena, de grande audiência em seus ápices. Estes programas — não visando nenhum objetivo elevado, mas sim cativar o público — apelam a uma identificação do público com a vítima (são um espetáculo de sangue e lágrimas), fazendo do “bandido” (categoria à qual qualquer um de nós pode ser identificada, bastando que nossa foto apareça no jornal) o alvo de todas as iras populares. Esses programas de rádio/tv e seus fenômenos consequentes foram uma tendência no mundo inteiro nos anos 1990, no Brasil especialmente: tendência que não cessou, porque afinal seu combustível é sangue e lágrimas, e aqui isso nunca falta, é nosso orvalho. Tudo resultou numa cultura popular punitiva (às vezes até excessivamente) sanguinária, que tem sua apoteose nos linchamentos populares (nos quais não raro o sujeito imolado é inocente). Talvez também seja lícito acrescentar ao caldeirão a cultura do encarceramento, importada dos EUA, que detém 20% da população carcerária mundial, e onde quase 1% da população está atrás das grades. Pautou a política tucana do estado de São Paulo nos últimos 20 anos, que espalhou presídios pelo interior (o que parece que teve como efeito a ampliação do alcance geográfico das organizações criminosas). Não quero dizer com isso que essas culturas não tenham sua base na realidade, que não tenham razão de ser. Mas é fato que foram e têm sido marcantes na psique do povo. David Garland e Teresa Caldeira têm trabalhos sobre esse fenômeno.

Um extremo, a meu ver, alimenta o outro. Aqui e em muitas áreas: um extremo alimenta o outro.


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches

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